segunda-feira, 30 de abril de 2012

As maias

Quando eu era pequena, íamos aos matos das proximidades apanhar maias para pôr nas fechaduras das portas na noite de 29 de abril para 30 de maio. Julgo que a tradição ainda se mantém, porque as maias que se veem estão sobretudo em lugares altos onde não é fácil chegar. As que estavam ao alcance da mão foram sendo colhidas.
Também muitos lavradores ou pessoas que tinham hortas colocavam maias entre as batatas, as favas, as ervilhas... Pretendia-se que tanto as casas como os campos fossem preservados do mal. Dizia-se que as maias defendiam os campos do arejo, que causava a destruição. Nas casas, o diabo não entraria se na fechadura houvesse raminhos de maia.
Ficam festivos os matos pintados assim de amarelo. É uma forma de olharmos um pouco mais para a natureza e de acreditarmos, com bondade e inocência, em forças que nos transcendem.
Procurei, na net, a origem desta tradição, que eu julgava pagã. O que me apareceu tem até raízes cristãs.
Para além de como tudo começou, vou tentar arranjar maias para pôr nas fechaduras das portas. Como muitas mais haverá, a noite ficará mais alegre e colorida. Não vá o diabo entristecê-la.



domingo, 29 de abril de 2012

sábado, 28 de abril de 2012

Cores ao sol


Descanso

Stefani Melton Fisher

Jean François Colson

Millet
Gauguin

Daniel Ridgway

sexta-feira, 27 de abril de 2012

É bom estar aqui!

6ª f. Fim de tarde. Na cesta, junto à janela da cozinha, há batatas apanhadas hoje. E também cebolas. E ervilhas também frescas no frigorífico. E o computador em cima da mesa. 
Gosto de ter o computador em cima da mesa da cozinha. Se calhar porque gosto de estar na cozinha. A máquina do café à mão, as maçãs e as laranjas ao meu alcance, a televisão à minha frente, quase sempre sem som, a janela donde vejo as cores do céu, a Castanha à porta porque me pressente...
Abro o blogue e fico contente porque há pessoas que passam por aqui e ficam um bocadinho. Não conhecerei muitos rostos e o meu, nalguns casos, também será desconhecido. E, no entanto, comunicamos através de palavras escritas e de imagens.
Apesar de todas as crises, deixem-me dizer que é bom ser 6ª f. à noite (noite? ainda está sol!) e que é bom estar aqui.

Na televisão, passam imagens de uma situação de pânico numa rua de Londres, de um choque de comboios em Itália, de lucros fabulosos na EDP, do desconhecimento público quanto às formas de pagamento da dívida da Madeira, da morte de um deputado culto e afável que queria que o mundo ficasse melhor e morreu cedo, de divergência entre partidos políticos...

Ao meu lado, tenho um livro de Anton Tchékhov. E o telefone. E uma cesta pequena com novelos. O tacho ferve no fogão. 

Malgré tout, é bom poder estar aqui!

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O problema


Gustave Caillebotte

Era uma vez um lavrador. Embora trabalhasse noite e dia, nunca conseguia deixar de ser pobre. De cada vez que começava a sentir que estava a tirar o melhor partido de uma situação, tudo acabava sempre por falhar. Se num ano havia seca, no outro havia cheia. Se num ano os rebanhos adoeciam, no ano seguinte os lobos dizimavam-nos. Se num ano o preço do cereal descia, no ano seguinte o rei subia os impostos.
Certo dia, o lavrador estava sentado num tronco, cabisbaixo e desesperado. De repente, apareceu uma estranha e grotesca criatura a dançar, a cantar e a rir à volta do lavrador. Os pelos que lhe cobriam o corpo estavam emaranhados, os olhos selvagens faiscavam e tinha os dentes pretos. O cheiro que exalava quase fez o lavrador chorar.
— Quem és tu?
— Eu, bom homem, sou o teu problema. Só passei por aqui para ter a certeza de que eras o mais infeliz possível!
— Monstro! Então é por tua causa que nunca coisa alguma me corre bem?
— Pois é! Eu sou o teu azar, a tua desgraça. Sem mim, serias um homem com sorte.
Rápido como o vento, o pobre homem agarrou o seu problema pelo pescoço e amarrou-o com cordas fortes. Em seguida, abriu uma cova bem funda e atirou a sua desgraça lá para dentro. Tapou-a com pedras e regressou a casa.
No dia seguinte, a sorte começou a mudar. As ovelhas deram à luz gémeos, as vacas começaram a dar duas vezes mais leite, as culturas cresciam mais depressa e mais alto do que nunca, e as árvores estavam carregadas de frutos. Todos os comerciantes queriam comprar os seus produtos e toda a gente vinha adquirir os seus legumes, frutos e animais. Em poucas semanas, o homem, que fora tão pobre, estava rico.
O lavrador tinha um vizinho que habitualmente era bem-sucedido. Este homem rico sempre olhara com desdém para o lavrador e ridicularizara o seu trabalho. Agora via que o lavrador estava quase tão rico como ele e, ainda por cima, em tão pouco tempo. Um dia, não conseguiu aguentar mais a curiosidade e foi visitá-lo.
— Parabéns, vizinho, pela sua recente boa sorte. Devo dizer que estou admirado com a rapidez com que conseguiu fazer prosperar esta quinta. Qual é o segredo?
— É simples. Encontrei a raiz do meu infortúnio. O meu problema veio vangloriar-‑se da minha má-sorte e eu apanhei-o. Enfiei-o num buraco fundo, que cobri com pedras, um buraco que fica na minha pastagem. Essa é, sem dúvida, a razão pela qual finalmente tive sorte, depois destes anos todos de trabalho e fracasso.
O lavrador rico não gostou que o vizinho tivesse finalmente triunfado na vida. Naquela mesma noite, rastejou até ao buraco onde o problema do vizinho estava enterrado. Durante toda a noite levantou as pesadas pedras e cavou a terra até encontrar o problema. Desamarrou-o e pô-lo em liberdade.
— Muitíssimo obrigado — gritou o problema. — O senhor é um verdadeiro amigo.
— Agora — disse o homem rico — podes voltar a atormentar o teu antigo dono outra vez.
— Não, não, não! — gritou o problema. — Aquele homem tratou-me muito mal e atirou-me para dentro deste buraco. Mas o senhor foi tão amável em libertar-me! Vai ser um amo muito melhor. Vou ficar consigo para sempre.
Assim foi e devia ser.
Dan Keding
Stories of Hope and Spirit
Little Rock, August House Publishers, 2004
(Tradução e adaptação)

es@contadoresdehistorias.com

Nota pessoal: Gostei desta história, embora a preferisse sem a última frase.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Festejando o dia em que "A Poesia saiu à rua"

Maria Helena Vieira da Silva

25 DE ABRIL

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo


                         Sophia de Mello Breyner Andresen
 
 

Pátria

Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Do longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

- Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo.
Sophia de Mello Breyner Andresen



segunda-feira, 23 de abril de 2012

"Amigos improváveis"


Um tetraplégico devido a um acidente de parapente. Homem muito rico. Apreciador de arte. À procura de quem o ajude 24 horas por dia. Para além das funcionárias que zelam pelo equilíbrio doméstico.
Muitos candidatos ao lugar. Todos com boas ações no curriculum tão completo como cinzento.
Um jovem, com uma força física incrível, com uma força anímica formidável, com uma alegria extraordinária é aceite. De todos os candidatos é o que  toma atitudes politicamente mais incorretas, mas o único que ajuda a sorrir e trata normalmente uma pessoa incapacitada. Que é um bom acompanhante em desejadas altas velocidades. Que proporciona um encontro amoroso redentor. Que mantém um diálogo com quem perdeu a autonomia mas não a vontade de agarrar a vida. Que é capaz de alicerçar uma boa amizade...

Gostei  imenso do filme. Provoca boas gargalhadas e um desejo enorme de melhorar como ser humano. 

O filme começa e, de repente, já passaram duas horas. Bem passadas com estes “amigos improváveis”.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A VERDADE HISTÓRICA

 
                                           Imagem da net

A minha filha partiu uma tigela
na cozinha.
E eu que me apetecia escrever
sobre o evento,
tive que pôr de lado inspiração e lápis,
pegar numa vassoura e varrer
a cozinha.

A cozinha varrida de tigela

ficou diferente da cozinha
de tigela intacta:
local propício a escavação e estudo,
curto mapa arqueológico
num futuro remoto.

Uma tigela de louça branca

com flores,
restos de cereais tratados
em embalagem estanque
espalhados pelo chão.

Não eram grãos de trigo de Pompeia,

mas eram respeitosos cereais
de qualquer forma.
E a tigela, mesmo não sendo da dinastia Ming,
mas das Caldas,
daqui a cinco ou dez mil anos
devia ter estatuto admirativo.

Mas a hecatombe

deu-se.
E escorregada de pequeninas mãos,
ficou esquecida de famas e proveitos,
varrida de vassouras e memórias.

Por mísero e cruel balde de lixo

azul
em plástico moderno
(indestrutível)



ANA LUÍSA AMARAL, "Minha Senhora de Quê", Quetzal Editores, Lisboa, 1999

Os frutos de Josefa de Óbidos (séc. XVII)




Uma amiga lembrou: Antero de Quental faria 170 anos!

 Sam Weber
No Circo
(A João de Deus)

Muito longe d'aqui, nem eu sei quando,
Nem onde era esse mundo, em que eu vivia...
Mas tão longe... que até dizer podia
Que enquanto lá andei, andei sonhando...

Porque era tudo ali aéreo e brando,
E lúcida a existência amanhecia...
E eu... leve como a luz... até que um dia
Um vento me tomou, e vim rolando...

Caí e achei-me, de repente, involto
Em luta bestial, na arena fera,
Onde um bruto furor bramia solto.
 


Senti um monstro em mim nascer n'essa hora,
E achei-me de improviso feito fera...
— É assim que rujo entre leões agora!

Antero de Quental, in "Sonetos"


Gostei do soneto e do quadro
 que a IA escolheu para o ilustrar!
Obrigada!

terça-feira, 17 de abril de 2012

10 mil

Tenho o blogue olamariana desde o início de julho de 2012. Hoje, as estatísticas mostraram-me um total de 10.000 visualizações. Muito bom, digo para mim. E gostava que também não fosse mau para quem abre esta  janela e encontra pequenos textos despretensiosos, histórias de que gostei, quadros que me agradam, flores que me estão próximas, imagens de lugares por onde passo... 

Um abraço e obrigada

A mão de semear

Van Gogh
Millet
Egger-Lienz
  Van Gogh
Diego Rivera


segunda-feira, 16 de abril de 2012

A história do vestido vermelho


Não era muito saudosista, mas às vezes falava de coisas que tinha vivido, nas histórias que contava.
Os netos pediam: avó, conta uma história. E ela contava. E nunca contava da mesma maneira. A neta mais pequenina, muito observadora, dizia logo: avó, enganaste-te, a história não é assim. Tinha, então, de se lembrar das palavras já ditas e de que não se podia desviar.
Um dia, a neta de dez anos disse: avó, conta a história do capuchinho vermelho mas à tua maneira. Ela, talvez por já ser mais crescida, gostava de pormenores diferentes ou de histórias verdadeiras. E a avó disse então: em vez do capuchinho vermelho, vou contar-te a história do vestido vermelho. É verdadeira.
- Mas começa por Era uma vez como eu gosto?
- Sim, pode começar. Era uma vez uma menina que gostava muito de roupa colorida. Desde pequena que assim era. Era uma festa quando a mãe lhe comprava uma peça de roupa nova e vistosa.
Cresceu, tornou-se mulher e manteve o gosto por vestidos, saias, blusas… com muita cor.
Foi sempre boa aluna, tirou um curso e começou a dar aulas numa escola. Ficou tão contente por poder começar a trabalhar que, no primeiro dia, levou o vestido de que gostava mais: um vestido vermelho. Quando chegou à escola, foi chamada ao diretor que lhe disse, muito sério, que era proibido entrar numa sala de aulas de vestido vermelho.
- Ó avó, essa história é inventada. Inventas cada coisa!
- Mas olha que é verdadeira!
- Só se for para ti, avó. Queres enganar-me? Esqueces-te que já tenho 10 anos? Para inventar prefiro a playstation!

A avó imaginou-se ainda com corpo de menina e a cabeça cheia de sonhos a vestir o vestido vermelho. Que conservava há mais de 38 anos. Apesar de já não lhe servir, contava uma das histórias mais verdadeiras da sua vida.

domingo, 15 de abril de 2012

Um bom (pre)texto para avivar a memória

Texto original - Marta Freitas
Interpretação - Mário Santos
Direção de produção - Margarida Carronda
Assistente de produção - Inês Nogueira

Teatro Carlos Alberto, no Porto, hoje, dia 15 de abril (este trabalho teve estreia em Guimarâes, Capital Europeia da Cultura).

A peça, uma belíssima obra de arte, sintetiza, numa hora, a permanência, durante quinze anos, de Carlos Costa na prisão, por motivos políticos, durante o Estado Novo.
 Foi escrita a partir de relatos, de cartas, de diálogos sobre os anos 50 e 60 do século XX.

No final da representação, Carlos Costa, atualmente com 84 anos, participou de um debate sobre a peça.
No diálogo lúcido e afetuoso com o público não referiu apenas o seu caso de ex-preso político, mas remeteu para a situação de tantos outros, que tal como ele, foram torturados e retidos na prisão durante tantos anos. Uns cumpriam à risca o propósito: "não falarei nem que me matem", outros, menos resistentes, acabavam por falar.

Foi referida a necessidade de mostrar às gerações mais jovens que a liberdade foi conquistada graças ao sofrimento e coragem de muita gente que lutou para que a longa ditadura teminasse.
Muitos jovens nem se dão conta dessa conquista porque, felizmente, já nasceram em democracia.

Caberá a todos avivar a memória não apenas para regressar ao passado, mas sobretudo para prevenir o futuro.

*******************

O poema seguinte, interpretado por Amália Rodrigues, foi uma das escolhas musicais para a peça.
Vale a pena lê-lo em silêncio e ouvi-lo na voz de Amália.

Abandono
 
Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar
Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar
E apenas ouves o vento
E apenas ouves o mar
Levaram-te a meio da noite
A treva tudo cobria
Foi de noite numa noite
De todas a mais sombria
Foi de noite, foi de noite
E nunca mais se fez dia.

Ai! Dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar
Oiço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar
E ao menos ouves o vento
E ao menos ouves o mar.


David Mourão Ferreira

Regresso (do Porto) iluminado


sábado, 14 de abril de 2012

Poesia


M. H. Vieira da Silva
Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.
          Carlos Drummond de Andrade


Para 6ªf., dia 13, até nem foi nada mau!

Hokusai

- Não estive atafulhada de trabalho "para ontem";
- Os meus alunos do 10º ano leram um soneto de Camões, concentrados e em completo silêncio;
- Choveu, o que é muito necessário;
- Uma aluna disse-me que gostava das flores que ponho no meu blogue (não, não era graxa!);
- Olhei, em sossego, as árvores antigas através das janelas modernas da escola;
-Falei com um amigo que já não via há uns tempos;
-Vim almoçar a casa e organizei mais umas coisas, sentindo que me vou despojando do supérfluo;
... e fiz outras tantas coisas, simples e sem grande importância, mas, sem as quais, o dia pareceria 6ªf, dia 13!


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Aqui Há Gato!

Emile Vernon
Júlio Pomar

 Di Cavalcanti
Paul Klee
Paulo Fontes

Picasso
Botero

 Bashô

 Renoir







quinta-feira, 12 de abril de 2012

Programa interessante para o dia a seguir a 6ª f., dia 13



 Vi na Agenda de O PORTO COOL gostei da ideia e transcrevi:
SÁB 14 ABR @ Baixa do Porto
Bairro dos Livros

A partir das 14:30
+info: http://bairrodoslivros.wordpress.com
Mais de 30 livrarias da baixa da cidade unem-se num espaço emocional criando uma rede de livreiros e alfarrabistas que visa a partilha de conhecimento, de celebração do livro e do leitor e de programação cultural para todos os públicos. Chama-se Bairro dos Livros esta Iniciativa a repetir todos os segundos sábados de cada mês.
Programa do próximo sábado, 14 de Abril:
Abertura
14h30 :: Palacete dos Viscondes de Balsemão
Intervenções: Antero Braga + Valle de Figueiredo + Germano Silva + Luís Cabral + Maria Deolinda Cardoso
Performance: Violoncelo – Ricardo Tauber + Barítono – José de Eça
Oficina Infantil: “Se eu fosse um livro” – Por “Aventuras Urbanas”
16h00 :: Porto d’Honra + Mostra bibliográfica – Por livreiros aderentes
Flashes Poéticos
16h30 :: Livraria Vieira – Jorge Velhote – Rua das Oliveiras, 14 – 16
17h00 :: Livraria Lumiére – Poesia de Choque- Travessa de Cedofeita, 64 A
17h30 :: Padaria Ribeiro – Guitarra de Filipe Brito – Pr.Guilherme G.Fernandes, 21
18h00 :: INCM – Portugal Poético – Pr. Gomes Teixeira n.º 1 a 7 – Leões
18h30 :: Paraíso do Livro -Col. Lourdes dos Anjos – Rua José Falcão, 214
19h00 :: Livraria Lello – Col. Suzana Guimaraens – Rua das Carmelitas, 144

Rotina

Durante cinco anos, sempre que ia à varanda ou à janela, pelas oito e meia da manhã ou pelas cinco da tarde, via uma vizinha a passar, seguindo sempre o mesmo percurso. Eu pensava que não conseguiria. Teria, pelo menos, de, de vez em quando, seguir outro caminho. Em vez de virar sempre para o mesmo lado da rua, inverteria o sentido para ser diferente.
Porém, gosto muito da rotina: dos afazeres diários, de ir ao mesmo cabeleireiro, de encontrar os mesmos vizinhos, de fazer as compras no mesmo supermercado, colocar os lixos nos mesmos contentores ...
Para não falar do prazer em chegar a casa da minha mãe e sentir o cheiro dos goivos e das outras flores que vejo há tantos anos! Para não falar também da escola onde entro quase todos os dias e há muitos anos e que, para já, ainda não me cansou, apesar de haver dias mais e dias menos (felizmente bem menos).
Mas, mesmo assim, vario os percursos. Faço-o sem pensar. Ou por rotina?

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Baile Da Paróquia

 Botero
Fui ao baile da paróquia
Por alturas do São Pedro
Levei a minha lambreta
E o meu velho blusão negro

Pus calças americanas

Coçadas e muito justas
Calcei botas alentejanas
E cosi um dragão nas costas

Punham só Gianni Morandi

Nelson Ned e Marissol
Fui ter com o disc-jockey
Encomendei rock and roll

Fui buscar a paroquiana

Mais bela da diocese
Era tão pura e singela
Que até dava catequese

Fui ao baile da paróquia

Lá para os lados de Valbom

Ensinei-lhe a dançar shake

Pus a pista em alvoroço
Quando fomos dançar slow
A bela não me deu troco

Puxei-lhe o braço com força

Fiz uma cena de macho
Estavam lá os irmãos dela
Levei um arraial de facho

Vim de lá feito num oito

Com a poupa esfrangalhada
E não me valeu de nada
Dizer que era baterista
Já ninguém mais tem respeito
Pelos excessos dum artista

Fui ao baile da paróquia

Lá para os lados de Valbom. 
Carlos Tê/Rui Veloso

"Programas escabrosos"

Há dias, uma diseuse de poesia mostrava-se muito satisfeita por ser convidada  para, em lares de idosos, dizer poemas. E dizia alto e bom som: é uma maneira de afastar os velhos dos programas escabrosos que passam na televisão.

De facto, muitos desses programas de longas manhãs e tardes, têm largas audiências por não haver muitas  alternativas para quem os vê. Alguns dos apresentadores falam aos berros, muitos convidados só contam desgraças, o diálogo estabelecido com os espectadores é básico e oco...

Botero
Às vezes, também as pessoas que estão no estúdio têm de fazer movimentos que nem ao diabo lembra. É costume haver no público muitas mulheres já com bastante idade. Claro que é melhor estarem lá do que em casa, de roupão, a morrer de solidão e tristeza, mas, no regresso a casa, pouco sobrará para contar. Se houver a quem contar.

Não sei que poemas a tal diseuse tem partilhado, mas não o deve ter feito aos berros nem deve ter escolhido palavras de desgraça. E pode ser que ajude a encontrar alternativas mais felizes.

"Eu amo-te"

Ah-nuld, o macaco
Durante os últimos dez anos tenho orientado passeios ecológicos e de vida selvagem na Costa Rica. Embora tenha tido inúmeros encontros hilariantes com macacos, preguiças, jaguares e outros animais exóticos da floresta tropical, há uma viagem que se destaca entre todas quando o nosso grupo teve o privilégio de testemunhar um acontecimento verdadeiramente extraordinário.
Nessa viagem em particular, o nosso grupo de entusiastas da vida selvagem incluía Jim e o seu filho adolescente Andy. Pai e filho não eram o que podemos chamar de clientes típicos. Jim era um antigo militar de modos austeros, nos seus cinquenta e muitos anos, que não falava muito, mas que parecia entrar frequentemente em confronto com o filho. Eu tinha pena de Andy, cujo entusiasmo pela aventura chocava com a carapaça dura e modos controladores de Jim. Uma vez, Jim chegou mesmo a ser rude com ele, puxando-o asperamente pelo braço quando Andy se deixou ficar para trás tentando apanhar uma rã venenosa de cor vermelha e azul. Ninguém proferiu palavra, mas quase todos os do grupo passaram a evitar Jim depois desse episódio.
Tentei passar um tempo extra com Andy. Ele confessou-me que estava morto por ver um jaguar. Então esgueirávamo-nos, tarde na noite, já depois de todos terem ido para a cama, para ir procurar rãs e outros animais noturnos. Era o nosso pequeno segredo.
Mais ou menos a meio da viagem, numa área remota do Parque Nacional do Corcovado, o nosso grupo encontrou um bandode vinte macacos capuchinho de cara branca e parámos para observar. Os capuchinhos de cara branca são frequentemente usados em filmes, porque são extremamente espertos e têm um comportamento muito semelhante ao dos humanos. Mas embora estes macacos sejam, por norma, bastante amistosos e sociáveis, este bando incluía um macho alfa, que era invulgarmente agressivo. Era muito territorial e até ao final da tarde já tínhamos presenciado várias escaramuças violentas. Quando algum dos outros macacos se aproximava demasiado, ele corria em direção aos outros arreganhando os dentes, chegando mesmo a embater contra eles. Pusemos-lhe a alcunha de Ah-nuld, em homenagem a Arnold Schwarzenegger.
Mantendo uma distância respeitosa, seguimos o bando de macacos à medida que eles iam pilhando através da floresta, parando ocasionalmente para se regalar com figos maduros que pendiam de algumas árvores. Na retaguarda do bando encontrava-se um macaquinho bastante jovem, que não teria mais de 1 metro de altura, cuja mãe andava já a ensinar-lhe como trepar aos ramos e seguir os outros. De quando em quando, a mãe conseguia levá-lo do tronco de uma árvore mais larga até um ramo mais afastado. Isto era o mais difícil de fazer para o macaquinho. Parava, choramingava, recuava e avançava, analisando qualquer outra opção antes de finalmente dar o salto para além do tronco. O nosso grupo batia palmas entusiasticamente sempre que ele conseguia.
Depois de algum tempo, o macaquinho começou a ficar cansado e a deixar-se ficar para trás. Quanto mais afastado ficava, mais alto ele choramingava e gemia, para conseguir a atenção da mãe. Esta parava e esperava por ele, mas nunca voltou para trás. Finalmente, o macaquinho bebé chegou a uma árvore grande, que era demasiado larga para ele conseguir ultrapassar. O seu choro tornou-se cada vez mais alto até que, por fim, a mãe recuou uns passos e permitiu que ele usasse as suas costas como uma espécie de ponte. Uma vez a salvo o filhote, ela continuou na retaguarda do bando, com o pequeno macaco cansado, ainda a choramingar, agarrado fortemente às suas costas.
Mas o choro continuou, cada vez mais alto e irritante, até que despertou a atenção do macho alfa que liderava o bando o terrífico Ah-nuld. Arreganhando os dentes e silvando furiosamente, o grande macho dirigiu-se para a mãe e a cria, deitando fogo pelos olhos. Aquela assumiu uma postura defensiva e emitiu um forte rosnado. Todos nós suspendemos a respiração, sem saber o que Ah-nuld iria fazer, mas esperando o pior.
Quando Ah-nuld se abeirou de mãe e do filhote, a sua face suavizou-se. Olhou diretamente para o macaquinho bebé, como se o visse pela primeira vez. De seguida, Ah-nuld acercou-se da cria aterrorizada, tomou delicadamente a minúscula cara do bebé entre as mãos e depositou-lhe um beijo na testa. O bebé parou de chorar imediatamente. Ah-nuld ficou ali, embalando suavemente a cabeça do macaquinho, e afagando-lhe amorosamente o pelo com os dentes.
Imagem retirada da net
O nosso grupo deixou escapar um suspiro coletivo de alívio. Estávamos tão rendidos à ternura do momento que quase não nos apercebemos de Jim, o nosso Ah-nuld, a soluçar discretamente. Ninguém disse uma palavra, talvez por delicadeza, embora eu suspeite que, lá no fundo, todos nós ficámos felizes ao vê-lo amolecer um pouco. Sussurrando com entusiasmo, fizemos o percurso de regresso à cabana. Depois do jantar, sentei-me com Jim e alguns outros na varanda, a balançar nas redes e a escutar os sons da floresta tropical, tão lindos e variados como se de uma sinfonia se tratasse.
A paz foi quebrada quando Andy se dirigiu para o alpendre e Jim se esticou para agarrá-lo, segurando bruscamente o braço do rapaz. Andy ficou tenso. O coração caiu-me aos pés, pois estava à espera de outra luta entre os dois. Todos os olhares se fixaram ansiosamente no pai e no filho. Então Jim puxou Andy até ele, deu-lhe um abraço e disse “Estou tão feliz por estarmos a fazer esta viagem juntos! Sempre quis que tivesses uma experiência deste tipo. Andy, eu sei que muitas vezes nem te dás conta, mas eu amo-te.” Chocado, Andy olhou para o pai, como se fosse a primeira vez que o tinha ouvido dizer “Eu amo-te”. Mais tarde, viemos a saber que efetivamente assim era.
Josh Cohen
Jack Canfield; Mark Victor Hansen; Steve Zikman
Chicken soup for the nature lover’s soul
Florida, HCI, 2004
(Tradução e adaptação)



terça-feira, 10 de abril de 2012

Aprendi agora esta palavra: nomofobia


Pelos vistos, nomofobia é o receio de privação do uso do telemóvel.

Nomofóbica não sou, mas gosto de saber que tenho comigo o telemóvel, em caso de precisar dele. Porém,  ponho o som tão baixo que muitas vezes nem o oiço.

É que faz-me impressão o toque estridente do telemóvel em locais de lazer, em qualquer reunião, no comboio, em cerimónias religiosas, no restaurante, em sala de espera, em casamento, em funeral...
Muitas vezes, as pessoas pegam no telemóvel e saem, atrapalhadamente, a correr do local, enquanto ele vai lançando sons cada vez mais agudos. Outras vezes, não saem do sítio, olham atentamente o visor para identificar quem chama e só um tempinho depois é que atendem, sem reparar sequer no frete que estão a causar às pessoas.

Recordo-me que uma vez pensava com prazer na viagem de comboio Lisboa-Porto. Poderia ler, olhar a paisagem, descansar, pôr algumas ideias em ordem... O que me esperava, porém, eram alguns companheiros de carruagem a pôr chamadas telefónicas em dia. Ele eram negócios, ele eram conversas de família... diálogos infindáveis que só os surdos não ouviriam e só os santos não achariam castigo.

Imagem retirada da net
Uma outra vez, encontrava-me num hotel no Douro. Sentei-me ao sol, tendo o céu azul e o verde das vinhas sonhadamente perto. Até apetecia respirar fundo e agradecer a maravilha. Daí a nada, foram chegando mais pessoas. Uma delas fazia anos e começou a contactar, via telemóvel, a família e amigos. Como se não bastasse, outras tantas chamadas recebia. Quando o telefone tocava, eu só dizia: não é possível!

Assim sendo, estaremos rodeados de nomofóbicos? Ou será uma maneira de afastar o toque de outras fobias?


Ela disse: é ouro!


A chuva começou a cair. E ela, que planta as couves, as alfaces... que semeia a salsa, as ervilhas, as favas... vendo a chuva a cair, disse: é ouro que vem do céu.

E até as ervas aromáticas ganharam mais sabor! Não sei se pela atenção se pelo aconchego, renovado, da raiz.