sábado, 22 de setembro de 2018

Aretha Franklin - I Say A Little Prayer

Aretha Franklin - (You Make Me Feel Like) A Natural Woman [1967]

Hoje recordei-me da morte de Aretha Franklin. 
Não poderia deixar de partilhar algumas das suas canções mais célebres.

"Há escolas..."

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"Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo.

Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado".

Ruben Alves 


Postal enviado pelo Clube das Histórias.
Vale a pena consultar os seus blogues em língua portuguesa, francesa, espanhola e alemã

http://contadoresdestorias.wordpress.com/

"Um Pouco Mais de Nós"

Sofia Areal

Podes dar uma centelha de lua,
um colar de pétalas breves
ou um farrapo de nuvem;
podes dar mais uma asa
a quem tem sede de voar
ou apenas o tesouro sem preço
do teu tempo em qualquer lugar;
podes dar o que és e o que sentes
sem que te perguntem
nome, sexo ou endereço;
podes dar em suma, com emoção,
tudo aquilo que, em silêncio,
te segreda o coração;
podes dar a rima sem rima
de uma música só tua
a quem sofre a miséria dos dias
na noite sem tecto de uma rua;
podes juntar o diamante da dádiva
ao húmus de uma crença forte e antiga,
sob a forma de poema ou de cantiga;
podes ser o livro, o sonho, o ponteiro
do relógio da vida sem atraso,
e sendo tudo isso serás ainda mais,
anónimo, pleno e livre,
nau sempre aparelhada para deixar o cais,
porque o que conta, vendo bem,
é dar sempre um pouco mais,
sem factura, sem fama, sem horário,
que a máxima recompensa de quem dá
é o júbilo de um gesto voluntário.

E, afinal, tudo isso quanto vale ?
Vale o nada que é tudo
sempre que damos de nós
o que, sendo acto amor, ganha voz
e se torna eterno por ser único e total.

José Jorge Letria

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Aline Frazão - Tanto


Ouvi hoje pela primeira vez Aline Frazão e gostei. 
Tem 30 anos e reside atualmente em Angola, onde nasceu, depois de ter estado em vários países, como Portugal, onde tirou o curso de Ciências da Comunicação. O seu mais recente trabalho é Dentro da Chuva.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Sim, é flor de um cato


Foi a primeira vez que vi esta flor. 
O cato produziu-a, pendurando-a e segurando-a no vaso.
Não, não foi em Londres que a vi.
É bom regressar e encontrar novas flores.

Corvos ao fim da tarde em Hampstead Heath


sábado, 15 de setembro de 2018

Sugar

Vou falar de novo de West Hampstead, em Camden, no noroeste de Londres. 
Ao sábado, há uma feira de produtos locais. Ele é mel,  fruta da época, hortaliças, legumes, etc.
Nesse dia, veem-se muitas pessoas que se abastecem com produtos, muitos deles biológicos, para a semana.
É bonito de se ver, como em muitos sítios, aliás, as pessoas a dispensarem os sacos de plástico porque trazem o seu próprio saco onde cabem as compras.
Bem perto desse mercado semanal, há, na rua, um vendedor de livros usados. Até há pouco tempo, estava sempre acompanhado de um cão que só tinha três patas mas que, junto do seu dono, parecia feliz.
Como o cão era um ser vivo, faleceu e há pouco tempo. O dono, o vendedor de livros usados,  com saudades do seu velho companheiro, colocou uma lápide redonda na parede onde instala  sempre a sua pequena banca. Nela gravou uma doce homenagem ao amigo de muitos anos que lhe tinha adoçado muitos dias.
Ao sábado, como é dia de mercado, há mais pessoas que reparam no epitáfio e ficam enternecidas.
A encimar o pequeno disco redondo, lê-se Sugar. Sugar era o nome do cão.

O padeiro dos caracóis

Existe em West Hampstead uma padaria que vende, para além de outras espécies, pão chalah: um pão redondo ou entrançado, que se assemelha à nossa fogaça mas menos doce. É um pão bastante consumido pelos judeus mas não só. Tanto este como a mais simples baguette vendem-se em abundância nessa padaria.
É muito frequente ver o padeiro a falar com os clientes, dentro ou fora do balcão. É alto, magro e tem uma farta cabeleira grisalha e aos caracóis. Parece conhecer os clientes e ter prazer em saber que apreciam o pão que faz todos os dias. 
Gosto muito do pão chalah e do pão francês que sempre peço fatiado.
Levantar cedo e comer fatias daquelas espécies de pão com compota caseira ao pequeno almoço ajuda a celebrar o dia.
Há uns tempos, ouvi contar que, enquanto o padeiro foi de férias, todo o pão perdeu qualidade e os clientes queixavam-se de que estava queimado, de que estava cru, etc, e perguntavam quando regressava.
Quando voltou, teve de responder a tantas perguntas e o tempo que gastava era tanto que nem o deixavam recuperar a boa qualidade do seu pão. 
Um dia, vi-o a coçar o cabelo encaracolado. Talvez ainda estivesse a pensar no assunto.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

A menina e o distribuidor de jornais

Todos os dias, ao fim da tarde, a menina regressava do infantário a casa, no seu carrinho. A hora era de muito movimento e os seviços chamavam ao local muitas pessoas: a estação do metro, os cafés, a padaria, a estação do comboio...
Ora, quando a menina se aproximava da entrada do metro, procurava logo, com os olhinhos claros e curiosos, o homem que distribuía jornais. Levantava o bracito no gesto de aceitar o jornal. O homem, sorria e entregava-lhe, com um largo sorriso, o jornal que era recebido com alegria. Como se fosse um presente.
Se a menina não o tivesse feito, eu não teria reparado no sorriso bonito do distribuidor de jornais que, atenta e alegremente, cumpria a sua função. 
A cena era bonita, mas a menina nunca a veria como notícia. Mesmo que soubesse ler.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A senhora do fato amarelo

Gosto de caminhar nas ruas de West Hampstead, perto do centro de Londres. É uma zona bonita e sossegada. Veem-se muitas pessoas jovens a empurrar carrinhos de bebés, e, muitas vezes, com outras crianças pela mão; alguns velhos a passear com o cão, dizendo, com um sorriso amigável, que o companheiro de quatro patas também o é; nas esplanadas, desfruta-se da conversa ao ar livre em zona residencial e cosmopolita.
Ora, também como em qualquer lugar, existem seres humanos que se destacam, por exemplo, pela indumentária quando passam nas ruas, onde proliferam, como em qualquer cidade europeia, as calças de ganga e as sapatilhas. 
Um dia, junto de um supermercado local e com mais lojas nas proximidades, vi passar uma senhora de uns oitenta anos e com um fato amarelo-canário. Imaginei o seu guarda-fatos com roupas antigas que nunca deixara de usar e que vestia quando saía de casa, nem que fosse só para dar uma voltinha a pé.
A saia era larga, comprida e com pregas; o casaco tinha ombreiras muito mais largas do que os seus ombros magros, lembrando a moda que há muitos anos deixou de ser moda.
Sentei-me num banco e fiquei a olhar a senhora do fato amarelo. Até ser apenas um pontinho ao longe. Andava devagar, talvez como o tempo que vivia e cujas cores não queria perder. E que guardava no solitário guarda-fatos das memórias.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Algumas notas sobre Últimas Notícias do Sul

É um livro de viagens, escrito por Luís Sepúlveda, publicado em 2012, com fotografias de Daniel Mordzinski. Referindo-se ao fotógrafo, recorrentemente o escritor diz  ser seu sócio.
Viajam pela Patagónia, vão revelando lugares e contando muitas histórias de seres humanos e materiais que encontram nessa vasta região: os comboios; um pequeno e velho avião; um homem que procurava a madeira perfeita para construir violinos; a mulher de 95 anos que vivia feliz acompanhada de boas memórias, de flores e de animais; de um homem pequenino e misterioso conhecido por duende...
E falam da gastronomia local, da poeira dos caminhos, das tabernas onde os homens contavam histórias sobre habitantes antigos, da partilha da cabaça com o chá-mate, do silêncio da estepe, do vento constante, do desejo de fotografar com a câmara e com palavras uma região entre a Argentina e o Chile que foi sonhada por muitos...

É como se o leitor estivesse à mesma mesa de um café onde se bebe, se petisca, se conversa, se deseja tocar a beleza de tantos mundos diferentes que por lá sempre convergiram.
Nunca fui nem provavelmente irei à Patagónia, mas foi como se lá tivesse estado e permanecido para conhecer gente e lugares que se  fundem naquele espaço tão procurado, apesar do clima agreste.
Muito melhor do que se por lá tivesse passado a correr, como acontece em muitas viagens turísticas.

Já tinha o livro há bastante tempo e nunca o havia lido. Em boa hora o comecei a ler porque gostei muito da viagem. Da contada e da que, através do livro, também vivi.