quinta-feira, 25 de maio de 2017

Diário de Mariana - Ham....ster!

Querido diário,
Estou a fazer um intervalinho, porque sinto necessidade de te visitar e escrever.
Só que o intervalinho é mesmo intervalinho porque o tempo aparece sempre cronometrado. X horas para as aulas, Y minutos para o recreio; X horas para o estudo, Y minutos para descanso...
Que vida! O que oiço em casa é que sou uma privilegiada e não tenho nada que me queixar, porque há milhões de pessoas que gostavam de ter a vida que eu tenho. Eu sei isso tudo, mas ter horas pra tudo e sem tempo pra relaxar também cansa. Gostava era de poder pensar assim: "Ei, fixe, não tenho nada pra fazer", mas tenho sempre a metralhar-me a cabeça o que já devia ter feito e não fiz e lá aparecem os grilos falantes: "Mariana, organiza-te melhor e não sejas preguiçosa". Brrrrrr...
Agora, mudando de assunto enquanto posso: tenho reparado que muita gente quando fala está sempre a intervalar com "ham, ham"... Deve ser mania ou influência de quem viveu no estrangeiro, mas por acaso a minha irmã que vive em Londres não diz e nem ganhou sotaque, apesar de só falar português com a Clarinha.
Às vezes, chega a ser irritante e como acho fixe tipo brincar com as palavras, apetece-me completar o "Ham, ham" com: HAM...ster!!!
Pronto, já tenho de ir para as aulas. Hoje por acaso entro um bocadinho mais tarde, mas o que é bom acaba depressa.
Um abracinho
Mariana

terça-feira, 23 de maio de 2017

Diário de Mariana - Que aflição!

Querido diário,
Daqui a dias, acabam as aulas e ainda tenho testes para fazer e um Contrato de Leitura para apresentar. Os professores andam aflitos para terminar a matéria, a minha mãe não me pode ver sentada no sofá sem estudar, mas stressa se me vê stressada: "Calma, Mariana, tudo se consegue se houver organização e vontade".
Só que ela diz estas coisas com uma voz de quem quer esconder que está stressada. Que aflição!
A cada passo, ouve-se muita gente conhecida a dizer: "Sejam felizes para aqui, sejam felizes para acolá", mas era melhor dizer que com esta correria e tanta coisa para fazer ser infeliz é mais normal.
O Gi anda numa de zen e diz-me para eu ter calma. Ele ainda não aprendeu que fico menos calma quando me dizem para ter calma!
Se me queixo deste sufoco de testes e trabalhos às minhas irmãs, logo que dizem: "se tivesses estudado como deve ser logo de início, não era nada disto". Não compreendem que o que está feito está feito.
Neste momento, acho que ninguém me pode ajudar. Não sou muito de chorar por tudo e por nada, mas se começasse até nascia um novo rio.
Pra mais, ontem à noite soube do atentado em Manchester. Em casa, ficamos logo atentos a tudo se acontecem coisas graves em Inglaterra. Não há direito. E há tantas pessoas boas como a minha irmã (é um bocado chata, mas acabo sempre por lhe dar razão, embora não lhe diga com facilidade), o meu cunhado e a minha sobrinha que acho horrível o que os terroristas fazem a tanta gente que só faz bem à Humanidade.
Nem quero pensar que acontece alguma coisa à Clarinha. Isso era super pior do que todo o sufoco na escola. Nem tem comparação possível. Que aflição.
E pensar que se vai a um concerto, como o da Ariana Grande, para se curtir música fixe e estar com pessoas fixes e acontece este massacre de repente. Não há direito.
Bem, vou estudar mais um bocado que a minha mãe já 'ta a stressar porque repete que 'ta cansada. É mau sinal. Que aflição!
Um abracinho, querido diário
Mariana

quinta-feira, 18 de maio de 2017

"Mulher sentada, vestido azul"

Pablo Picasso
Este quadro foi recentemente vendido,
 num leilão de Nova Yorque, por 45 milhões.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Diário de Mariana - Salvador


Querido diário,
Caí na asneira de dizer à minha mãe que me sentia um bocadinho Salvador. Ela deu uma gargalhada e começou a cantar toda irónica: "Todos nós temos Amália na voz...".
Às vezes, arrependo-me de não ficar calada. Ao menos tu, querido diário, não me gozas nem me achas inocente.
Tu, querido diário, és tipo os peixes para quem o Santo António falou e, enquanto ouviam, se mantiveram caladinhos que nem ratos, apesar de terem a cabecita levantada. Quando estudámos o Sermão nas aulas, eu não achei muita piada, porque devia estar em dias de me apetecer falar e de querer ouvir respostas e reações, mas hoje concordo perfeitamente que quem nos ouve não esteja sempre a dar palpites.
Como a minha mãe teve aquela reação, eu nem disse nada ao Gi, porque haveria chatice pela certa e ainda lhe chamava palhaço e nem me apeteceu falar muito com ele.
Sei que sou idealista e talvez egoísta, mas por que é que nunca se encontra alguém que pense como nós? Se calhar, era grande seca, mas que sabia bem, lá isso sabia.
Que pontaria, o Gi acaba de me mandar uma mensagem. Não acredito no que estou a ler: Meu bem, ouve as minhas preces...
Ajuda-me, querido diário, porque, mesmo em silêncio, és o meu salvador.
Um abracinho
Mariana

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Diário de Mariana - Voltei

Querido diário,
Agora é que vejo como já não te visitava há tanto tempo. E gosto tanto de escrever nestas páginas, mas parece que o tempo é sempre pouco para tanta coisa que há para fazer. E este ano tenho tanta coisa para estudar. E Os Maias que nunca mais acabam. Para entrar mesmo lá dentro é preciso tempo e se leio aos bocadinhos, perco o fio à meada. Um dia destes, fechei-me no quarto à chave porque pensei cá pra mim: "a setora diz que é uma obra maravilhosa e só a ama quem a conhece" e eu quero ver se ela tem razão ou não. 
Não sabia era que ia dar tanta confusão, porque a minha irmã mais velha veio a casa, não me viu, chamou por mim e, como eu estava fechada no quarto, ela imaginou logo coisas, tipo baleia azul ou assim. 
Ela passou-se quando eu lhe disse que não podia abrir a porta porque queria acabar o capítulo. Como sempre, não me levou a sério e disse que ia arrombar a porta. Eu deixei de responder a pensar que ela me deixava em paz, mas nada disso, começou aos murros e ia pifando o fecho da porta. Fogo, que nervos.
Não tive outra solução e abri a porta, furiosa.
Acabou por me pedir desculpa e lá veio a lição de moral: "se às vezes não andasses na lua, não tinha havido esta cena".
Eu nem disse mais nada para não me chatear e acabei por fechar o livro mais uma vez e fui comer bolachas.
Eu acho que sou um bocadinho como o Salvador. É verdade. Não tremas a rir-te de gozo, querido diário. Eu acho que ele diz coisas mesmo fixes que não são copiadas nem para lhe baterem palmas e deve ser por isso que tanta gente gosta dele. Gostei mesmo quando ele disse que era feliz quando fazia as coisas à vontade. Eu disse logo: "estou contigo, Salvador".
E fico com vontade de ser boa pessoa quando estou a ouvir a canção que ganhou o festival, mas não acho bem que esqueçam a irmã dele, a autora da música e da letra. Parece que é tudo Salvador, Salvador, Salvador. Pareço eu e as minhas irmãs. Elas é que merecem todos os elogios e eu fico na sombra (esta comparação não teve jeito nenhum, mas eu sei que me compreendes, querido diário).

Até breve, querido diário
Um abracinho
Mariana

 

domingo, 14 de maio de 2017

A vitória

Ontem, nem parecia verdade o que se estava a ver: a Europa rendida perante uma canção portuguesa nada (felizmente!) festivaleira.
Ouvi que Salvador Sobral "era uma star anti-star". Talvez. De facto, tudo flui com naturalidade, beleza, simplicidade. 
Os dois irmãos são simpáticos, educados, cultos, criativos, atentos ao mundo - que melhor imagem poderia ser dada de Portugal?
E a canção é linda. É como se se apagassem as luzes de todos os artificialismos para viver a verdade da música, da voz, da letra e dos sentimentos.
A vitória bem merecida alegrou imensos portugueses. Ainda bem.
Salvador conheceu ainda outra vitória: a do Benfica no Campeonato.
Pois, não se pode querer tudo!!!

Com os nossos olhos

Ontem, ouvi uma jornalista (Fátima Campos Ferreira) dizer que o Papa tinha cumprimentado, individualmente, todos os jornalistas na viagem aérea de Itália para Leiria, e com todos trocou algumas palavras, olhando-os nos olhos, como se só essa pessoa estivesse no avião.
Hoje, vi imagens da tomada de posse do presidente francês Emmanuel Macron que cumprimentou os convidados, parando junto de cada um e não apenas os instantes fugazes de um cumprimento.
Estes, aparentemente, pequenos gestos podem, para além de algum ritual de cerimónia, significar que todas as pessoas são importantes. Possam ir modificando modos de relacionamento que, consciente ou inconscientemente, são postos em prática seja onde for.
Um olhar pode, de facto, facilitar a aproximação; desviar o olhar ou nem sequer dirigir os olhos na direção de alguém pode levar a um afastamento. Por exemplo, alguns alunos queixam-se de que há professores que não os "veem" porque não olham para eles.
Há muitos muitos anos, num pequeno hotel de termas onde estava com os meus pais, as pessoas confraternizavam, sobretudo ao final do dia. Havia, então, uma senhora que eu via no átrio muitas vezes e que se sentava, como os demais, para conversar, mas que me causava muita confusão. Quando falava, fechava sempre os olhos, não olhando para a pessoa com quem conversava. Eu interrogava-me por que o fazia, porque achava estranhíssimo que não olhasse o rosto nem os olhos das pessoas, como se neles encontrasse uma luz que não pudesse enfrentar. Foi uma imagem que me ficou e que é recorrente na minha memória. 
Felizmente, há coisas que vão mudando para melhor. Oxalá os nossos olhos também ajudem.