terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Gente franca


Um filme português com uma família: os pais, duas filhas, um genro e uma neta. 
Ao balcão do café, à mesa, no cansado sofá, todos conversam sobre as suas vidas, mostram afetos, partilham preocupações e arrelias... tudo como numa família comum.
O pai é um pescador que vai, todos os dias, no seu barco, em busca de peixe do rio. O negócio não corre bem, mas não deixa de sair de casa cedo, sob as luzes róseas que as madrugadas vão mostrando.
É um homem reflexivo de mãos grossas, braços musculados, que puxa as redes, que as conserta, que põe o motor do barco a trabalhar diariamente sob o céu pintado de cores ainda da noite ou do alvorecer. 
Recorrentemente, em terra, olha o horizonte, fuma cigarros em silêncio, bebe solitárias cervejas, senta-se à mesa dizendo poucas palavras, ouve conselhos da mulher e parece arrastar consigo ondas de alguma tristeza e algum mistério, mas nunca de desamor.
Toda a família parece unida por fortes e alegres laços, apesar dos problemas que advêm de fracos recursos. Sem grandes dramas nem grandes euforias, vivem o pulsar dos dias que em conjunto vão alimentando.
Não há, no filme, uma grande história, mas as pequenas histórias dos dias de muita gente.

Gostei do filme "Terra Franca" de Leonor Teles, jovem realizadora portuguesa, que escolheu aquela família e não atores profissionais. E é curioso que todos pareciam estar a viver os momentos sem o incómodo das câmaras.
Retomando uma palavra do título, a ideia que fica é que é uma família de gente franca, o que é consolador.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Uma ilustre casa na serrania


A Torre da Lagariça fica em Resende, perto de Lamego. Lá estão as ruínas da casa que terá inspirado Eça de Queirós para escrever o seu livro A ilustre casa de Ramires.
Os acessos não são fáceis, o abandono da casa mete dó, mas vale a pena ir até lá. Junto dela não passam carros, está cercada de serranias e ouve-se o calmo e profundo silêncio.
Se puderem, vejam o blogue Carruagem 23, https://carruagem23.blogspot.com/2019/01/aventura-dos-cinco.html, onde Vítor Oliveira conta a aventura de cinco amigos que visitaram a casa que está à venda e em ruínas.
A intenção não era a compra, mas ver os ainda visíveis sinais de uma casa que parece ter sido muito inspiradora para um dos nossos maiores escritores.
Mesmo em ruínas,  continua a sê-lo para quem dela se aproxima nos nossos dias.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Por que razão as igrejas estão tanto tempo fechadas?

A Igreja de Santa Maria, no Marco de Canaveses, merece ser visitada. Pela sua singularidade, pela sua luz interior e muito mais que só vê e sente quem lá entrar. Ontem de manhã, sábado, estava fechada e não se via ninguém nas imediações. É pena.
O arquiteto foi Siza Vieira.
Do adro, sobretudo do alto da escadaria, tem-se uma vista bonita de serranias. 
Do outro lado da rua, há um café moderno, de simpático atendimento. Valha-nos isso em dias frios com portas da igreja fechadas.

Doce domingo com... pouco açúcar!


sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Conversa ao pé da porta

- Sabe que hoje é o dia do sorriso?
- Soube logo pela manhã.
- Não parece muito entusiasmado.
- Por que diz isso?
- Ainda não sorriu.
- Há dias, era o dia do agradecimento e tive de dizer obrigado vezes sem conta.
- Não lhe deve ter custado. Acho-o sempre gentil.
- O que me custa é que hoje é o dia do sorriso e em casa ainda não vi nenhum.
- Se calhar, estão a guardá-lo para mais tarde.
-  Guardar? Tal como eu guardo esta solidão?

Também há troncos em rede!


Camélias e gato olhando



quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Conversa à janela

         - Filha, anda ver a neve.
- Até a janela está fria, mãe.
- Olha como a neve cai do céu.
- No Frozen, ainda cai mais. 
- Se quiseres, podemos ver o filme outra vez.
- Quero, mãe.
- Repara como os telhados também se cobrem de neve.
- Mamã, esta neve é bebé.


Conversas ao pé da porta

- Obrigada. Ela vai ficar contente.
- Este ano, dei um avental aos netos das minhas amigas.
- Também deste um avental aos rapazes?
- Ora essa, por que não?


terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Cortar ou não cortar, eis a questão


"a Porto Editora nega que tenha havido censura no caso dos polémicos cortes de um poema de Álvaro de Campos num manual escolar do 12º ano, mas confirma que retirou três versos à "Ode Triunfal" por conterem “linguagem “explícita”, relacionada com a “prática da pedofilia”. A decisão, noticiada domingo pelo Expresso, foi recebida com incredulidade e crítica pelas associações de professores de Português. A “Ode Triunfal” é um “texto canónico, uma referência” que não pode ser truncada desta forma, dizem. O Expresso descobriu entretanto mais um manual onde os versos foram omitidos." 
in Expresso Curto de hoje

A descoberta do corte de alguns versos da "Ode Triunfal" de Fernando Pessoa,  num manual de Português de 12º ano, tem dado que falar nos últimos dias.
 Se, por um lado, rejeito qualquer forma de censura; por outro, sei que, embora todos os temas possam ser tratados nas aulas,  é preciso tempo para os abordar devidamente. 
Muitos jovens não conversam em casa, ou porque estão a maior parte do tempo sozinhos ou os problemas familiares criam as suas próprias discussões e angústias; na escola, o tempo torna-se escasso para o debate de ideias; os programas são extensos; os resultados dos exames são muito escrutinados, sobretudo se forem maus.
Ora, por estas e por outras razões talvez, os autores do referido manual fizeram um corte cirúrgico discutível. Se a intenção era afastar temas embaraçosos da sala de aula, a editora podia ter pensado que o tracejado, em vez dos versos, levantaria, como é compreensível, muitas questões aos alunos, atendendo a que são seres pensantes.
Acrescente-se que a "Ode Triunfal" de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, é um extraordinário poema que só poderia ser produzido por um poeta genial que consegue pôr por palavras a imensidão de sensações captadas pela junção de múltiplos espaços e tempos da Humanidade. Contudo, como acontece com os outros textos, tem de ser analisado no tempo necessário.
Diga-se também que, pelo que sei, o poema não é habitualmente lecionado na íntegra por ser muito extenso, embora os alunos tenham acesso à totalidade do texto porque está disponível em muitos suportes.
Seja como for, a discussão é sempre útil e enriquecedora para todos os que trabalham nos e com os manuais, independentemente de ser uma grande ou pequena editora.  Nada nem ninguém é perfeito e pode sempre melhorar-se a qualidade dos produtos, para mais se se trata de educação.
Possam, assim, os autores dos programas concluir que também é preciso tempo para a lecionação dos conteúdos e formação dos jovens, porque a escola é a principal fornecedora desses bens cada vez mais essenciais.
E possa também a obra de Fernando Pessoa e outros autores ser mais conhecida. Se tal acontecer, nem haverá estes cortes porque o sentido crítico e cívico, que se espera dos jovens do 12º ano, ajudará a que o diálogo sobre todos os temas se estabeleça de forma construtiva, dentro e fora da sala de aula. 
 Deixo aqui a "Ode Triunfal" (se faltarem alguns versos, peço desculpa, porque a intenção não é cortar).
 http://arquivopessoa.net/textos/2459