segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Quem pergunta...


Durante muitos anos, fui professora de francês.
No início de um ano letivo, numa das primeiras aulas, uma aluna perguntou-me:
- Como se diz dióspiro em francês?
Fiquei sem resposta porque, de facto, não me lembrava ou não sabia.
Disse-lhe que não podia responder, mas que, na aula seguinte, lhe diria.
Resposta dela quase imediata:
- Todos os anos pergunto como se diz dióspiro em francês e até agora nenhum professor me soube responder!
É claro que fiquei com menos vontade de procurar a palavra no dicionário para, no dia seguinte, alegremente, a informar.

Hoje lembrei-me desta peripécia, quando vi os dióspiros no prato e ouvi o ministro da Educação a afirmar que quer que os professores do Ensino Básico se submetam a mais exames. É um pouco como a aluna que atira a pergunta para ver a reação.
Ou será que em comum existe apenas o tempo dos dióspiros?

sábado, 26 de outubro de 2013

Branca Flor na Biblioteca





O primeiro texto referido na apresentação do livro Branca Flor:

Biblioteca Municipal, 26 de out. 2013

Muito obrigada, Clementina, pelo convite que me fizeste para estar aqui e parabéns pela publicação do teu livro Branca Flor.
Saúdo também a mesa pela amizade que nos une e pelo gosto comum da leitura e da escrita, assim como cumprimento todos os presentes.
 Acrescento que é sempre um prazer estar aqui na Biblioteca Municipal de Gondomar.
Há mais de 20 anos que oiço falar desta história.
Comecei a ouvir falar dela quando as minhas filhas andavam na escola primária e a minha filha mais velha era aluna da Clementina.
A Ana chegava a casa e dizia com ar feliz: hoje a Clementina contou mais um bocadinho da história do Manuel.
É curioso que tenho memória de ter ouvido mais vezes o nome de Manuel do que de Branca Flor, apesar de ser esta personagem feminina que encontra muitas soluções para as dificuldades que ocorrem a cada passo.

E eu, que também sempre gostei de ouvir e ler histórias, ficava interessada pelo reconto que me ia chegando, através da minha filha, sendo sempre realçado o modo de contar da professora.
Mais tarde, durante uma viagem, que fizemos com as nossas famílias, recordo-me de ouvir a Clementina contar a história às crianças, enquanto seguíamos num percurso longo de autocarro. E nós, os adultos, ficámos calados, ouvindo a história, assim como os outros viajantes dos lugares  próximos.
Foi, portanto, com muita alegria, carinho e emoção que ouvi da Clementina que ia publicar Branca Flor e quando vi a história escrita, ilustrada e em livro.
Por estes dias, falando com as minhas filhas sobre a narrativa, passados mais de vinte anos, vejo que se mantém o encantamento pela forma como a história de Manuel e Branca Flor era contada na sala de aula ou noutros contextos. As palavras encantatórias faziam com que os ouvintes acompanhassem, em imaginação, o jovem casal através de montes e vales à procura de soluções para vencerem os obstáculos que, malevolamente, iam surgindo. A viagem imaginária ainda hoje continua.
E muitos alunos da Clementina foram ouvindo, ao longo dos anos, a história, por certo com o mesmo entusiasmo e sedução.
 
 Apesar de eu não ter conhecido Diamantino, que deu origem à divulgação deste conto, quase o imagino a contar a história de Branca Flor, enquanto Clementina, ainda menina, a escutava com interesse e atenção.
A referência a esse homem, de pouca instrução, pode ser também uma homenagem a muitos contadores de histórias que vivem de forma anónima, mas que vão deixando boas sementes pelos caminhos por onde passam.
 Crianças que ouviram a estória de Branca Flor estão cá hoje. Alguns já não são meninos e histórias como estas ajudaram, com certeza, a formar a sua personalidade.
As boas histórias, contadas oralmente ou por escrito, também aproximam as pessoas e convocam humanos sentimentos.
A vida uniu Manuel e Branca Flor e a sua história reuniu todos os que aqui estamos.
Para escrever o seu texto, a Clementina teve de escolher e cuidar das palavras, mantendo, no entanto, a vivacidade e o ritmo da tradição oral. As belas ilustrações completaram a obra de arte à qual agora todos temos acesso.
Neste momento, só me resta agradecer, mais um vez, o convite para estar aqui e, sobretudo, poder ler e ouvir a história em qualquer altura.  
Parabéns à Clementina pela escrita de Branca Flor; a Aurélio Mesquita pela ilustração; ao João Carlos, da Editora Lugar da Palavra, pela publicação.
Boas leituras e muito obrigada a todos.
DG



Branca Flor de Clementina Sousa

Hoje, será apresentada, na Biblioteca Municipal de Gondomar, pelas 16 h, a história Branca Flor que a autora foi contando, ao longo de diferentes gerações, aos seus alunos.

A história, de tradição oral, tem, agora, a forma escrita. E bem escrita.

Para além do texto e das ilustrações, o (re)encontro de muitos, a quem tinha sido contada (também) esta história, será outra mais-valia.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Diário de Mariana



Querido diário,
A minha mãe costuma dizer que não há fome que não dê em fartura.
Na verdade, ainda há pouco te escrevi e estou contigo outra vez. Ontem à noite, tive uma ideia e não sosseguei enquanto não escrevi uma história para o concurso “Uma história com um livro dentro”.
Tens uma coisa em comum com a minha cadela: não falas e eu gostava que dissesses alguma coisa para eu saber a tua opinião!
Seja como for, vou contar-te a história que escrevi, desta vez sem o Gi. Escrevi-a sozinha. Se fosse com a Bia, se calhar ficava com uma linguagem mais cuidada, como a minha professora de Português costuma dizer, mas tive muita vontade de a escrever e só terminei quando a história também me pareceu que chegava ao fim.
Oxalá gostes, porque, apesar de seres apenas um diário, és o meu diário e representas um papel muito importante na minha vida. Sem ti, eu teria as ideias mais desarrumadas e, se calhar, andava tristonha. Acredita porque é mesmo assim.
Aqui vai, então, embora ainda não tenha título. Penso que não faz mal, porque não se pode escrever tudo de repente e de uma vez.. As palavras são como as plantas que as mães põem no jardim e que vão dando sempre novas flores que se podem colher em qualquer altura.

Um abracinho, querido diário
Mariana


Imagem da net



Sem título à vista


Quando Mariana chegou a Londres, para visitar a irmã do meio, a chuva começou a cair intensamente. Chovia tanto que a mãe e a irmã não queriam sair da estação do metro. Mariana estava a ficar impaciente: vinham a Londres para se abrigarem da chuva? Queria era passear nas ruas, tirar fotografias e… estar com a irmã e o cunhado, é claro. Se ficassem molhadas, logo secavam. Então, a casa não tinha aquecimento?
Ainda lá ficaram uma boa meia hora, porque a mãe de Mariana dizia que não estava para apanhar uma gripe ou constipação e que as coisas não se fazem a correr nem à chuva.
Pelo meio-dia, Mariana viu dois braços a acenar do lado de fora da estação. Era a irmã que vinha ao seu encontro, porque começava a estranhar a demora. Que saíssem porque a chuva ia passar, com certeza; tinham de aproveitar o tempo porque os dias estavam mais curtos e daí a pouco era noite. Tudo isto depois da troca de abraços e beijinhos, enquanto a mãe de Mariana se voltava para a filha que vivia em Londres e exclamava muito orgulhosa: minha rica filha.
Logo que saíram da estação de Liverpool Street, apanharam um autocarro e foram almoçar ao Boroughmarket. Mariana não conhecia quase nada de Londres e não queria refilar. De certeza que as irmãs e a mãe não lhe dariam razão, por isso optou por olhar à sua volta e não fazer exigências. A mãe ainda disse:
- Mariana, estás tão esquisita. Não falas nem ris, como é costume!
A adolescente encolheu os ombros, porque não lhe apetecia mesmo falar. Também não compreendia bem porquê. Estava feliz por estar com a irmã, que já não via há meses, a não ser pelo skype, e, ainda assim, não muitas, porque a irmã dedicava-se muito ao trabalho e tinha pouco tempo.
Mariana fixou, então, o olhar numa criança de trotinete, com roupa e sapatos cor –de-rosa. A menina parecia uma princesa. Viu um par apaixonado, com sorriso cúmplice e de mãos dadas, que parou para se abraçar…
Quando se aproximavam do mercado, os cheiros da comida faziam-se sentir com intensidade. Havia barraquinhas com comida de muitos países, com nomes estranhos, mas com um aspeto que fazia crescer água na boca. Mariana queria comer logo uma sanduiche, mas a mãe e as irmãs não concordaram.
Era quase sempre assim. Elas, como mais velhas e mais conhecedoras do mundo,  é que decidiam sempre. Como a chuva persistia, ainda ao menos que o mercado tinha uma área coberta, porque as pessoas eram imensas. A mãe de Mariana até disse: o mercado seria bem melhor sem estas hordas de turistas, mas o que é certo é que também andamos a passear. Mariana não sabia muito bem o que queria dizer a palavra “hordas” mas devia significar bandos de gente.
Foram andando junto às barraquinhas do mel, das compotas, das sanduiches de carne exótica, do pão, dos sumos naturais, da comida vegetariana… quando, de repente, Mariana vê, sentado no chão, numa esquina do mercado, um sem-abrigo a ler, tranquilamente, um livro. Que fixe, pensou Mariana, uma boa ideia para escrever a minha história com um livro dentro.
Parou a olhar o homem que nem pareceu reparar. Já devia estar habituado a que as pessoas olhassem para ele. E para o cão que estava a dormir ao seu lado. Isso é que Mariana achava estranho: um cão a dormir a toda a hora! Isso já tinha visto muitas vezes, mas um sem-abrigo a ler tão concentrado é que ainda não.
Disse à irmã mais velha: vou tirar uma fotografia porque o sem-abrigo a ler está a dar-me uma ideia para um trabalho da escola. Porém, as irmãs logo se opuseram: nem penses, Mariana, em fazer uma coisa dessas. E não olhes tanto. Parece que nunca visitaste uma grande cidade. Sim, Mariana já tinha visitado outras capitais: Lisboa, Madrid, Paris…e via muitas coisas que também se encontram nas aldeias: as folhas das árvores a esvoaçar pelo chão, uma criança a tentar agarrar uma bola de sabão…
Um sem-abrigo a ler um livro é que nunca tinha visto. Vinha-lhe até um desejo curioso. Ou seria mórbido? Queria ver o título do livro, o tempo que o sem-abrigo demorava a ler cada página, se passava várias folhas ou se lia uma de cada vez e até ao fim, se molhava o dedo com saliva para mudar de página, se parecia entusiasmado com o desenrolar da história, se lia algum bocadinho em voz alta, se parecia gostar muito e voltava atrás…
Estava com estas vontades e pensamentos, quando olhou à sua volta e só viu as tais hordas de turistas..Toda a gente passava com alguma coisa de comer na mão. A mãe e as irmãs tinham desaparecido. Não conhecia ninguém e tudo lhe era estranho. A chuva continuava a cair desalmadamente. O sem-abrigo lia como se estivesse sozinho num deserto. Nada o fazia mexer. De repente, um relâmpago acende uma luz repentina e fugidia. O sem-abrigo estremece e o cão também. Com a mesma serenidade, o homem levanta-se para procurar um sítio menos exposto ao temporal. Com a ponta do dedo, dobra a pontinha da página e pousa, fechado, o livro.
Mariana não sabia o que fazer, porque, com a trovoada, ficava sempre aterrorizada.
O sem-abrigo, sem olhar para ninguém, pegou em tudo ao mesmo tempo, incluindo o cão adormecido, e mudou-se. Mariana viu o título: Amada vida de Alice Munro, um livro de contos da escritora que recebeu o Prémio Nobel de Literatura 2013.
Como Mariana continuava sozinha e muito próxima, o sem-abrigo perguntou-lhe em bom português: ó rapariga, nunca viste um livro? Vê lá se queres espreitar para dentro  da história! Olha que este livro tem muitas!
Mariana sentiu vontade de lhe responder, mas as irmãs e a mãe chegavam, com ar preocupado, por terem deixado também de a ver por entre aquela multidão, em hora de almoço de um sábado de chuva.
Mariana sentiu-se aliviada. Por que ficaste para trás, Mariana? – perguntaram as irmãs em uníssono.
- Já tenho uma ideia para a minha história com um livro dentro, disse Mariana.
As irmãs sorriram e a mãe também, enquanto dizia: e nem tiveste medo da trovoada!

Imagem da net