segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Terna é a neve!

Nos arredores de Londres, a neve chegou acompanhada de muito frio. A mãe levou a menina à janela para ver a neve a cair e alguma da sua brancura já espalhada.
A menina, que já viu o Frozen vezes sem conta e as paisagens frias de neve intensa do filme, olhou o exterior da casa e disse para a mãe:
Mamã, esta neve é bebé!


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O Porto é divertido?


"O inquérito, realizado a 15.000 pessoas em todo o mundo, avalia as cidades com base na gastronomia, cultura, simpatia, acessibilidade de preços, felicidade e condições de vida. O Time Out City Life Index 2018 elaborou o ranking das cidades mais excitantes do mundo para se viver e visitar em 2018. No total, a lista é composta por 32 cidades." 

Nesta lista, o Porto surge em segundo lugar, a seguir a Chicago. Lisboa é a oitava.
Realmente, o Porto está na moda! 
Os preços e as rendas das casas continuarão mais facilmente a subir, o que, para muitos, não é lá muito divertido!

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Armar professores - mais uma Trumpalhada!

"Pois disse, não é erro, não há um erre a mais na palavra, Donald Trump não admite amar professores, “admite armar professores”. E não, não foi uma frase no meio de nada, foi mais de um minuto a falar sobre o assunto, em que o Presidente dos Estados Unidos precisou de levar uma cábula (apanhada pelo fotógrafos) para dizer a pais que perderam os filhos coisas como “eu ouço-vos”.

Mas o Presidente norte-americano não só ouviu, também falou. E falou numa sala com sobreviventes e familiares do tiroteio de há uma semana na escola secundária de Stoneman Douglas, em Parkland (Florida), onde Nikolas Cruz, um ex-aluno de 19 anos, entrou e disparou a eito. Morreram 17 pessoas.

“Se tivessem um professor armado, ele poderia acabar com o ataque muito depressa”, disse Trump, afirmando que as escolas poderiam armar 20% dos professores para travar “maníacos” que tentem atacá-los.

“Se o treinador tivesse uma arma no cacifo, não teriam de ter fugido, ele teria disparado sobre o atirador e seria o fim de tudo aquilo”, afirmou o presidente. “Para um maníaco - e porque todos eles são um cobardes - uma zona livre de armas é o mesmo que dizer ‘vamos lá atacá-los porque não vão disparar de volta’… [Dar armas a professores] é certamente algo que vai ser discutido”, garantiu. Trump pediu que quem concordava com a solução erguesse as mãos. Alguns levantaram. Outros não.

“Quantas crianças têm de ser baleadas?”, perguntou ao Presidente um pai de uma rapariga de 18 anos que foi assassinada. Um grupo de alunos juntara-se em frente à Casa Branca para protestar, exigindo que sejam tomadas medidas para controlar o uso de armas.

O New York Times mostra como a NRA, organização que faz lóbi pelo uso de armas, tem canais nas redes sociais altamente virais. E o Vox analisa dados que mostram a dimensão do problema americano, num trabalho assinado por um jornalista que escolhe o seguinte título para o seu artigo: “Eu faço a cobertura violência com armas há anos. As soluções não são um grande mistério”.

A Amnistia Internacional culpa Trump por um retrocesso mundial nos recursos humanos (no El Pais)."


Pedro Santos Guerreiro, In Expresso Curto de hoje 


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Há tantas raposas na terra!

 
 Em muitas noites, nos arredores de Londres, é frequente ouvir as raposas que regougam, roncam, uivam, gritam.

 Paula Rego, numa entrevista, com o seu  encantamento infantil, confessou: "Em Londres, não saio à noite porque tenho medo das raposas" (talvez por, na calada da noite, saírem das tocas, nos parques, e procurarem alimento nas ruas onde encontram sacos de lixo acessíveis).
Na minha infância, em que o tempo era mais de castigo do que prémio, ouvia-se: "Se não estudares, tens uma raposa" (reprovação).
E, por falar em raposas, lembrei-me da fábula de Esopo "A raposa e o queijo".
Recordei-a:
Estava um corvo num ramo de uma árvore e, no bico, segurava um queijo. Passando uma raposa, logo desejou a iguaria que não estava ao seu alcance por se encontrar demasiado alta. Para tal, elogiou a voz do corvo, pedindo que cantasse. O corvo, ingenuamente seduzido, abriu a boca para começar o seu canto, deixando logo cair o queijo. A esperta raposa, tendo conseguido o que pretendia, fugiu veloz levando consigo o desejado pitéu.
Também sobre uma raposa é um conto de Teolinda Gersão, incluído no livro  A mulher que prendeu a chuva,  "O casaco de raposa vermelha".
Não esqueço esta narrativa que me fascinou, tendo, muito resumidamente, dela retido:
Uma bancária deseja intensamente comprar um casaco de pele de raposa vermelha que viu numa montra de uma loja. Faz todos os cálculos do dinheiro de que pode dispor e o desejo de adquirir o casaco torna-se obsessivo.
Chega, finalmente, o dia tão desejado em que vai buscar o casaco e, vestindo-o, começa a correr em direção à floresta, tal qual uma raposa verdadeira.
Paralelamente a estes pensamentos, surgem os pequenos livrinhos que o meu pai nos comprava na Feira do Livro do Porto e cujas personagens eram, recorrentemente, as raposas, as cegonhas e os lobos. Parece que me estou a ver sentada na soleira da porta segurando um desses livrinhos na mão.
Um dia, ouvi uma vizinha falar de outra vizinha chamando-lhe manhosa e vingativa e logo me lembrei de uma história em que a raposa convidou a cegonha para almoçar, servindo a comida em pratos rasos, uma vez que a cegonha lhe tinha oferecido um almoço em jarras altas onde só um longo bico caberia.
Mesmo de raposa. 

sábado, 17 de fevereiro de 2018

ANA MOURA - FADO LOUCURA

"Conscientemente escrevo..."

Poema do Futuro

Conscientemente escrevo e, consciente,
medito o meu destino.

No declive do tempo os anos correm,
deslizam como a água, até que um dia
um possível leitor pega num livro
e lê,
lê displicentemente,
por mero acaso, sem saber porquê.
Lê, e sorri.
Sorri da construção do verso que destoa
no seu diferente ouvido;
sorri dos termos que o poeta usou
onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo;
e sorri, quase ri, do íntimo sentido,
do latejar antigo
daquele corpo imóvel, exumado
da vala do poema.

Na História Natural dos sentimentos
tudo se transformou.
O amor tem outras falas,
a dor outras arestas,
a esperança outros disfarces,
a raiva outros esgares.
Estendido sobre a página, exposto e descoberto,
exemplar curioso de um mundo ultrapassado,
é tudo quanto fica,
é tudo quanto resta
de um ser que entre outros seres
vagueou sobre a Terra.

António Gedeão, in 'Poemas Póstumos'

Do Amor - Paulo de Carvalho

Outro filme que revi: "Café Society" de Woody Allen



Gostei particularmente de rever ambientes e adereços dos anos trinta; o desempenho do ator Jesse Eisenberg, que aprecio bastante, no papel do jovem Bobby, que, querendo singrar na vida, sai de Nova York e vai para Hollywood, onde um tio é um famoso agente ligado à indústria do cinema.
O guarda-roupa, a música (não podia faltar o som encantatório do saxofone), os diálogos, nomeadamente no espaço da família judia de Bobby, contribuem para contar histórias em que sobressai a do jovem Bobby e de Vonnie, Kristen Stewart, por quem se apaixona, tal como o tio rico, Phil, com quem ela, secretária, vem a casar, depois de este se ter separado da mulher.
Bobby, apesar de casar com uma mulher adorável, também chamada Verónica, não consegue esquecer o seu grande amor, Vonnie. Esta parece sentir igualmente grande prazer nos passeios que dá com Bobby, aproveitando a ausência do marido e o desconhecimento de Verónica, grávida pela segunda vez.
Para além disto, senti a falta do fino humor mais contundente dos primeiros filmes de Woody Allen. 
O facto de, aparentemente, Vonnie amar os dois homens, Phil e Bobby, tão diferentes, incluindo a idade, poderá ser interpretado como uma espécie de completude que se busca e que raramente coabita numa única pessoa. Será?
E Phil, a entrar no outono da vida e a pretender viver cenários primaveris com Vonnie, tão bela e tão jovem.
Quando o filme terminou, desliguei o computador. Bastavam-me as imagens que acabava de ver.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Chavela Vargas - Si No Te Vas (Banda Sonora de "JULIETA" de Pedro Almodó...

Rever "Julieta"


   Revi o filme "Julieta" de Almodóvar. 
No ecrã, reencontrei rostos recorrentes em filmes deste realizador, como é o caso de Rossy de Palma, que, neste caso, faz o papel de uma empregada doméstica numa casa junto ao mar, onde vive uma mulher, ainda jovem, doente, em coma, cujo marido trabalha na pesca.
Este homem, Xoan, vai conhecer Julieta no comboio, numa viagem noturna, e apaixonam-se, vindo a viver juntos e a ter uma filha, após a morte da primeira mulher.
Nessa viagem em que se conheceram, segue também um homem mais velho, desesperando de solidão. Dirige a palavra a Julieta, mas esta inquieta-se e muda de lugar. Numa das paragens seguintes, o homem sai do comboio e suicida-se.
Anos mais tarde, Xoan, quando a filha é adolescente, depois de uma discussão com Julieta por ciúmes que esta demonstra, vai para o mar e morre, porque o barco naufraga devido a uma grande tempestade.
Entretanto, a filha, muito ligada ao pai, depois de um retiro, afasta-se da mãe e, propositadamente, não permite que ela saiba onde se encontra.
Já no outono da vida, Julieta começa a procurar a filha, numa busca ansiosa e contínua.
Ora, neste filme, existem temas recorrentes de Almodóvar: a doença (como o coma), os conflitos entre pais e filhos, a homossexualidade, a busca do passado, a solidão, a culpabilidade...
Julieta sente culpa pelo suicídio do velho homem que queria comunicar com alguém e de quem ela, assustada, se afastou; pela morte do companheiro após uma discussão; pelo desaparecimento da filha com quem poderia ter dialogado mais...
Comove-me a canção final, em tom plangente, na voz de Chavela Vargas: "Si no te vas".
É necessário viver intensamente, sentir muito, conhecer muito para realizar filmes que são espelhos em que, por uma questão ou por outra,  muitos de nós se reveem.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

"Quando penso que uma palavra"


Enviado por:
http://contadoresdestorias.wordpress.com

Leonard Cohen - Dance Me to the End of Love

Ne me quitte pas, Jacques Brel

'Cet amour'

Clã | Problema de Expressão

O fogo e a água na expressão do amor!

O tempo ainda era de cartas de amor. Em papel. Às vezes com tinta de tinteiro. Azul, de preferência. Ele escrevia-lhe cartas de amor e ela queria responder, mas não sabia a fórmula certa desejada. As coisas faladas eram mais fáceis. Bastava sorrir, abraçar, beijar. Às escondidas porque essas coisas tinham de ser sem ninguém ver.
E as cartas que recebia eram bonitas e intensas. Gostava de as ouvir ler em voz alta. Ouvir porque a primeira leitura era difícil e quase nunca era dela.
Ele escrevia com letra muito miudinha e havia palavras que não se percebiam bem. Ela, apesar do seu amor,  tinha preguiça de decifrar tudo, mas queria saber tudo o que as cartas diziam.
Ora, tinha uma amiga que era dada a leituras e a escritas. Era ela que lhas lia. Depois de as ouvir, então relia-as vezes sem conta sozinha, porque sabia as linhas onde estavam as frases que a tinham emocionado mais e confirmado a sua paixão por ele.
E era também a amiga que escrevia as respostas.
- É isso mesmo que eu quero dizer, mas não digas nada a ninguém.
- Nem tu vais dizer que não és tu que escreves.
E sorriam. E voltavam a ler. E emendavam algumas coisas.
- Não ponhas essa palavra. Ele ainda me pergunta o que significa e eu não sei.
E voltavam a rir.
Depois de tudo concluído, metiam a carta num envelope que era fechado com um bocadinho de saliva.
- E se pusesse bâton e desse um beijinho na carta? Ele devia gostar. Pensava que era nele.
- É melhor uma gotinha de água e ele julga que estás a chorar de saudades.
- É isso mesmo.
- Vou buscar.
- Oh, deitei de mais e ficou tudo borratado.
- O poeta é que não viu esta, senão é que diria que as "cartas de amor são ridículas".


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Ensinamento

Kay Sage

Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor. Essa palavra de luxo.

Adélia Prado 

A enfermeira que vinha de Londres

É sempre assim. Quando viajo de avião e sinto turbulência, começo a falar com a pessoa do lado. O tempo passa mais depressa e oiço com menos ansiedade: "Como estamos a atravessar uma zona de turbulência, pedimos aos senhores passageiros que apertem os cintos...". 
Foi o que aconteceu recentemente num regresso de Londres.
Eu vinha a ler uma revista e, ao meu lado, uma jovem dormia a bom dormir.
Que pena não me acontecer o mesmo, pensei eu.
Como o voo era da TAP, serviram "uma pequena refeição", como costumam anunciar. A minha vizinha de lugar acordou quando passou o carrinho com os alimentos. Devia ser a fome a dar horas. E, logo a seguir, outro período de turbulência. Antes que ela voltasse a dormir, eu ataquei:
- Isto está a tremer bastante, não acha?
- Nem tinha reparado, disse ela.
E, ingerindo a sandezinha de alface e fiambre, o sumo Compal, o chocolate Regina e o cafezinho, fomos falando. 
Era enfermeira, trabalhava em Londres, gostava muito do que fazia, vinha a Portugal sempre que podia, não aguentava estar muito tempo sem ver a família e os amigos e o sol... Não, não pensava voltar. De maneira nenhuma. Não teria as mesmas oportunidades de trabalho.
- Pois, também por isso a minha filha emigrou. Sempre que posso e é necessário, passo uns dias em Londres para a ajudar.
A mãe também a visitava às vezes. Enquanto trabalhava, sem nada lhe pedir, a mãe arrumava a casa e fazia compras e cozinhava e lavava roupa, disse a sorrir.
Eu também sorri.
- Quase todas as mães são assim.
Um dia, quis que a mãe fosse apenas para passear e conhecer Londres. Tirou férias e foi a cicerone. A mãe adorou e ela também.
E continuámos a falar destas coisas simples mas luminosas da vida.
Veio a descida, a aterragem e a despedida.
- Muito prazer. Muitas felicidades.
- Gostei muito de a conhecer. Também para a sua filha.
Pode ser que nos encontremos de novo num avião.
Ah! Não lhe perguntei o nome. Era a enfermeira que vinha de Londres.

Sinais londrinos de primavera


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

A enfermeira de olhos azuis

Eu estava como visitante de um hospital e encontrava-me junto do doente. Era necessária a presença da enfermeira. Toquei e apareceu uma senhora de bata, mas não era a enfermeira que prestava seviço ao doente daquela cama.
Não, tinha ido a outra enfermaria. Não demorava.
Esperei algum tempo e como receasse esquecimento, dirigi-me à sala da enfermagem. Procurei-a com os olhos, mas não a vi. Como não sabia o nome dela, indiquei a cama e acrescentei que era uma enfermeira de olhos azuis.
Duas enfermeiras que se encontravam na sala entreolharam-se e, com cara de poucos amigos, disseram que lhe diriam logo que chegasse.
Senti-me um pouco invasora de um espaço que não me era destinada e pouco hábil  por ter usado palavras informais.
Passados uns minutos, chegou a enfermeira por quem esperávamos. Pedi-lhe desculpa por ter indicado a cor dos olhos para a identificar, mas não sabia o nome.
- Enfermeira Vitória, disse com alguma secura.
Apresentei a razão de a ter chamado, dizendo:
- Senhora Enfermeira Vitória...
Em segundos, aprendi então que, sem se conhecer a pessoa, é melhor não falar da cor dos olhos, nem que seja delicadamente.
Por isso, sobre a cor dos olhos da enfermeira Vitória, aqui se acaba a pequena história.

Nota- É claro que a enfermeira não se chamava Vitória, mas os olhos eram azuis.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

As flores do supermercado

Como habitualmente, a avó foi buscar a neta à escolinha. Como habitualmente, a Clarinha não queria vir no carrinho.
- Não, não e não, quero ir a pé, ia dizendo  na pequenez grande dos dois aninhos.
A avó já não sabia o que fazer. Tirou da carteira uma garrafinha de sumo. Orgânico como habitualmente. Nem assim.
- Quero ir a pé, não quero ir no carrinho. Não é divertido, acrescentou.
A avó sorriu pela palavra dita, mas logo se seguiram mil expressões para convencer a neta.
- Passamos pelo supermercado. Queres?
- Não, não é divertido.
E a avó foi dizendo que não estava a achar piada nenhuma e que não a podia levar pela mão e, ao mesmo tempo, empurrar o carrinho.
E disse com desejo de convencimento:
- Vamos comprar flores para a mamã no supermercado.
Aceitou. Finalmente. Também já era tempo. E o carrinho começou a rolar.
- Vamos olhar, Clarinha se vem algum carro. E o sinal está vermelho, vês? Temos de esperar.
Chegaram ao supermercado.
- Olha que flores bonitas, Clarinha, para dares à mamã.
- E também ao papá, corrigiu a Clarinha, apontando para um raminho de tulipas,  cujas cores começou a indicar.
A avó sorriu um pouco comovida.
E era capaz de jurar que a Clarinha se ia habituando a achar divertidos momentos simples como aqueles.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Numa escolinha em Londres

Há um menino que é filho de uma vietnamita e de um alemão, outro menino que nasceu em Espanha e que vive agora em Londres, uma menina de pai português e mãe inglesa...
E os meninos são acompanhados por educadoras europeias, africanas, asiáticas...
A uni-los está a língua inglesa. Que conta as histórias, que canta as canções, que ensina as letras e os números, que transmite regras...
Uma grande parte dos infantários de Londres terão igualmente meninos das mais variadas proveniências e os profissionais que lá trabalham também nasceram longe. Um dia resolveram emigrar para terem uma vida melhor.
Tal como muitos pais das crianças. E as diferenças, se elas existem, passam a não ser diferenças aos olhos dos meninos, ou de quem lá trabalha, ou de quem lá entra.
Talvez o mundo futuro seja assim e oxalá que assim seja para boa memória futura.
Alguns pais e muitos avós destes meninos não tiveram acesso à escolaridade tão longa como seria necessário. Talvez estas crianças tenham, por direito, esse direito, nem sempre facilmente conquistado pelos progenitores.
Ah, e a unir todos eles está também a maravilha da comunicação.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

As raposas

Nos arredores de Londres, há noites de frio cortante e de gritos de raposas que ainda mais cortam a noite. Parecem gatos angustiados em luta pelo cio ou pela fome. 
Vêm à procura de comida e às vezes é fácil encontrá-la se os sacos do lixo não estão dentro do contentor. É só rasgá-los que as unhas estão sempre nesse modo. 
Se há janelas iluminadas, a luz pode ajudar. Ou então a lua ou as estrelas se as nuvens consentirem.
Apesar de já as ter ouvido com frequência, nunca vi nenhuma. Dizem que fogem se veem pessoas. Preferem a fuga e os esconderijos, muitas vezes nos parques que raramente perdem a cor verde. Os arbustos servem de apoio e disfarçam a presença.
De madrugada, voltarão aos esconderijos.
Ao contrário de outras raposas que circulam à luz do dia, como se a luz do sol brilhasse sobre si.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

A segunda- feira

Tocou à campainha e logo a porta alta se abriu. Sorriram e disseram bom-dia. Ambas eram estrangeiras, mas a que chegava falava menos a língua do país para onde tinha imigrado havia cinco anos.
Com a família, falava a sua própria língua; em casa das senhoras, estava habitualmente sozinha a fazer os trabalhos domésticos, quase nem precisando de falar. Nos trabalhos da casa, não havia grandes diferenças. Também já sabia que se a porta do fogão estava aberta, era preciso lavar o forno; se a torradeira estava na banca, precisava de ser limpa por dentro. O resto fazia como habitualmente se faz.
 Ía para uma casa onde lhe ofereciam café. Habituara-se a não aceitar. Para mais, o café mexia-lhe com os nervos e queria andar calma para poder trabalhar e mandar dinheiro para a família.
E como trabalhava quase sempre só, levava um pequeno rádio para ouvir a música do seu país. Só podia fazê-lo à segunda-feira porque, nos outros dias, ia para casas em que os donos entravam e saíam quase sem nada dizerem e tinha receio de incomodar.
A segunda-feira era, assim, o dia que demorava menos a passar. Ouvir rádio tornava tudo mais leve e alegre.
De regresso a casa, caminhava junto ao Tamisa e sentia a falta de o seu país, a Moldávia, não ter sido bafejado pelo mar.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Responsabilidade? Eis uma questão.

Um dia destes, ou melhor, uma noite destas, ouvi a atriz Ana Bola dizer, num programa de televisão,  que na idade em que está, 65 anos, apetecia-lhe não ter responsabilidades. E acrescentou que tem mãe e um filho que adora, que sabe precisarem dela e a quem quer ajudar, mas que também ela existe, tal como existiu muito trabalho já realizado.
Ora, dizendo isto, era como se reproduzisse o sentir de muitas pessoas dessa idade, sobretudo mulheres.
Tenho uma amiga que refere muitas vezes que faz parte da geração sanduíche, porque está aberta aos pais, aos filhos e aos netos.
E nem sempre é fácil ter a sábia paciência nem aplicar o necessário ajuste a tão diferentes situações. Quando surge a questão: e eu?, logo aparecem garras de culpabilidade. Estarei a ser egoísta? Dizer 'eu' não poderá ser entendido como desejo de afastamento daqueles que têm toda a importância para mim?
São dilemas que se juntam a outros de uma pessoa que se sente viva.
Sim, também acho que às vezes apetecia não ter responsabilidades, mas talvez fosse como representar uma peça num palco cheio de buracos.