sábado, 31 de dezembro de 2011

Recomeça…


Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga

À espera de um Ano Novo


quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Receita de ano novo

 Matisse
 
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
 

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
 

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade

 Matisse

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Naquela noite


O que ela mais pediu foi que “naquela noite” não ficasse sozinha. Claro que gostava de ficar com a filha mais velha, mas podia ser a mais nova, um dos filhos ou um dos netos.
Ainda faltava um mês, e ela já falava “naquela noite”. Parecia ser um marco do tempo presente. Como ia fazer noventa anos, repetia que o futuro dela seria apenas um bocadinho a mais para além do tempo que estava a viver. Talvez pela idade avançada, “aquela noite” era muito importante. Se tivesse a companhia da filha mais velha, podia queixar-se de alguma dor, porque teria logo uma massagem que a aliviaria.
E foi, então, a filha mais velha que resolveu fazer-lhe companhia naquela noite. Quando acordaram, a velha mãe ficou contente com o beijo que a filha lhe deu  e, sorridente, desejou-lhe um Feliz Natal!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Sem sombra (de dúvida)


Desenhos de silêncio


Era uma vez uma princesa…


 Para a S.
Por que é que se usa sempre o verbo no passado (pretérito imperfeito) se nos queremos referir ao presente?
Pois bem, é uma menina a quem muitas vezes chamamos princesa. Não é só por ter a pele clarinha, cabelos louros, um  rosto bonito,  uma voz suave, ser elegante, pronunciar bem as palavras…
 Não, chamamos-lhe princesa porque está atenta nas aulas, faz os trabalhos de casa, tem habilidade para o desporto e para produzir bonitos trabalhos manuais, gosta de ler, de ir ao cinema, de estar com a família e os amigos, de brincar perto das árvores e das flores…
E como se isto não bastasse, tem um nome carregadinho de sabedoria.
É por isso que, ao vê-la, apetece dizer assim:
   Era uma vez uma princesa…

Fios de luz


Meu rei...


Em época de Natal, e faltando vários dias para os Reis, em conversa, numa sala com muita luz e louras rabanadas sobre a mesa, veio à baila o termo “meu rei” utilizado em S. Pedro da Cova, Gondomar. Tanto é dito a homem ou mulher. Tem é de merecer apreço e carinho.
Ela contou, com alegria cintilante nos azuis olhos fundos e profundos, que a avó de um seu aluno, quando se lhe dirige, diz: Meu rei…
Seria bom que pudéssemos dizer e ouvir muitas vezes: Meu rei…
Cresceríamos em autoestima, evitando, em muitos setores,  “andar sem rei nem roque”!

Diário de Mariana


26 de dezembro 2011
Querido diário,
Nos últimos dias, foi tão grande a correria: prendas que faltavam, arranjos da casa,  preparação do jantar de Natal e do almoço do dia seguinte…
Nestes casos, já sei que não paro: Mariana, para aqui; Mariana, para acolá…
E se fossem só os afazeres domésticos, mas é também: Mariana, aproveita este bocadinho livre e vai estudar… Mariana, não te esqueças do teu contrato de leitura… Às vezes, nem sei para que lado me hei de virar.  
A minha mãe não ficou chateada com as notas que tirei (eu acho que ela faz de conta que tem confiança em mim, mas está sempre com receio que não me safe). Não foram altamente como as da Bia, mas foram mais ou menos. A minha mãe até disse: Mariana, se conseguiste chegar até aqui, podes ir muito mais além (quando a minha mãe me diz isto, eu rio-me e pergunto-lhe se vou viajar!).
Mas passamos tanto tempo a desejar bom Natal e resume-se a um dia ou dois com mais convívio, tipo familiares mais chegados, mas não sei muito bem se as pessoas se reúnem porque  querem mesmo ou é só por tradição.  Pelo que vou observando, acho até que muitas pessoas fazem o frete, porque têm mais trabalho, não podem sair tão à vontade, não podem ver os programas preferidos sem serem interrompidas, têm mais despesa…  A avó da Cláudia fica tão stressada com a reunião de toda a família que já se sentiu mal várias vezes na noite do Natal. E fica toda a gente triste a a perguntar se valeu a pena aquela trabalheira.
Eu acho que as pessoas têm a sua rotina e nem sempre gostam de variar o esquema. Eu por acaso até gosto, não acho muita piada é estarem sempre a chamar por mim. Penso até que abusam, porque como não sou tão estudiosa como as minhas irmãs, toda a família acha que o que não me falta é tempo.
Hoje estava a responder a uma mensagem do Gi e logo a minha mãe: Mariana, penteia o cabelo para ires comigo ao supermercado. Pronto, já sabia que ia apanhar com um carrinho nas canelas e, ainda por cima, ouvi: Mariana, não sejas distraída!
Cá em casa, ao sábado, vejo sempre um semanário. Esta semana, li um título que dizia que há muitos velhos que ficam nos hospitais porque não têm quem os receba em casa. Eu acho péssimo isso. Se calhar, os familiares desses velhotes andam cheios de sorrisinhos a desejar bom Natal a muita gente. Quando li o título (vou ver se tenho tempo para ler a notícia toda), imaginei  essas pessoas a olhar tristes e paradas para as portas a verem se alguém chegava…  Claro que às vezes é complicado quando eles não ouvem, quando repetem muitas vezes a mesma coisa, quando pensam que todos também têm muito tempo livre… mas daí a deixá-los sozinhos nos hospitais e nos lares! Que horror! É indecente.
E não digo isto só por ser Natal. A minha avó até me disse: espero, Mariana, que no futuro não faças isso e que tenhas trabalho em condições. Pois. Oxalá.
Muitos abracinhos, querido diário.
Mariana

Natureza viva...


...natureza morta


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Nasce mais uma vez


Nasce mais uma vez,
Menino Deus!
Não faltes, que me faltas
Neste inverno gelado.
Nasce nu e sagrado
No meu poema,
Se não tens um presépio
Mais agasalhado.
Nasce e fica comigo
Secretamente,
Até que eu, infiel, te denuncie
Aos Herodes do mundo.
Até que eu, incapaz
De me calar,
Devasse os versos e destrua a paz
Que agora sinto, só de te sonhar.

Miguel Torga

Reflorir, sempre



Não é já de Natal esta poesia.
E, se a teus pés deponho algo que encerra
e não algo que cria,
é porque em ti confio: como a terra,
por sobre ti os anos passarão,
a mesma serás sempre, e o coração,
como esse interior da terra nunca visto,
a primavera eterna de que existo,
o reflorir de sempre, o dia a dia,
o novo tempo e os outros que hão-de vir.

Jorge de Sena, Poesia-I