terça-feira, 31 de outubro de 2017

Uma pequena história Sem Sombra de dúvida!






O céu estava coalhado de nuvens pardacentas. O ar gelava. A noite aproximava-se e não se via ninguém na rua ladeada de árvores despidas e negras. No silêncio parado, irrompeu o ruído de um carro, parando junto da porta do casarão, quase sempre fechado. O silvado cobrira os muros altos, isolando a casa. Todos diziam que lá não morava ninguém e contavam-se histórias sobre os habitantes que há muito tinham morrido, mas que, por muito amarem aquela casa e por muitas paixões guardarem, não tinham desaparecido. Porém, o único indício de vida, percebido do exterior, era o carro que, de repente, entrava e saía pelo portão que batia de forma assustadora.
Engolido o carro, tudo voltava ao silêncio.
Numa noite, houve um outro sinal: saía fumo de uma chaminé.
Aproveitando a minha invisibilidade de autora da história, entrei porque o frio era muito e também  não gosto de ficar a espreitar aquém dos muros.
As sebes do enorme jardim estavam desgrenhadas e ressequidas; as árvores erguiam-se nos seus troncos retorcidos, sustentados por raízes irregulares e salientes; algumas rosas vermelhas haviam murchado em botão, as heras trepavam, cobrindo  grossas paredes em ruínas.
Porém, no centro do jardim, erguia-se uma pequeníssima estufa envidraçada. As suas paredes de vidro deixavam ver aveludadas e viçosas rosas amarelas. Era o único sinal de cuidado naquele espaço sem mimo de mão humana. Ao cimo das escadas de pedra, ouviam-se vozes quase murmuradas. De repente, uma porta rangeu, saindo uma bela mulher de rosto palidamente entristecido. Desceu as escadas e dirigiu-se à estufa. Colheu um ramo de rosas e voltou a entrar em casa. O murmúrio estalou de novo.
De repente, as nuvens ganharam movimento e houve um pouco de luar. Sem se ouvir qualquer ruído, a mulher desceu as escadas de granito, trazendo um ramo de rosas secas na mão. A noite foi devolvida às trevas. Sem estrondo da pesada porta exterior, a mulher saiu num ápice, tal como tinha entrado. Nenhuma luz se via. Apenas o fumo da chaminé continuava voando.
De madrugada, a luz da lua iluminou as flores murchas. Ao seu lado, podiam ver-se, jazendo no chão, umas pesadas correntes.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

A escolha dos nomes ou Como é bom não nos chamarmos Procópia!



 Era sempre o pai que gostava de escolher o nome dos/das descendentes. Esteve para optar pelo nome de personagens de epopeias. E até já os tinha escrito num caderninho, onde registava recados para memória futura, com letra muito miudinha. Se o primeiro fosse rapaz, seria Ulisses; se fosse menina, chamar-se-ia Penélope. E não era só por ter lido a Odisseia de Homero, mas a ideia sempre lhe surgia quando via a mãe a tecer um interminável entremeio de renda, enquanto o pai trabalhava em África.
Mas não, os padrinhos não concordaram que a menina se chamasse Penélope, sobretudo a madrinha que disse até: “Pronto, tudo bem, não querem que a menina se chame Procópia como eu, mas, então, tem de se chamar Generosa porque é o que eu sou ao aceitar que a minha graça caia em desgraça e morra comigo, em vez de perdurar". 
E assim ficou o nome Generosa, pronunciado bem alto pela robusta madrinha junto da pia do batismo.
O segundo bebé, até nascer, não tinha nome. Na tarde em que outra menina viu a luz do dia, a médica obstetra pegou nela, voltou-a para a claridade da janela e exclamou: “Que formosa que ela é”. Pronto, estava encontrado o nome: Formosa e muito formosa cresceu.
O pai, que era amante de poesia com rimas, antes do nascimento da terceira filha foi pensando no nome que não destoasse do das irmãs. Como tinha de rimar, pensou em Rosa, mas era muito curto e, confrontado com o das manas, podia parecer demasiado breve e gerador de conflitos ou ciúmes.
Na Maternidade, logo que a menina nasceu, o pai foi com as duas filhas – Generosa e Formosa – visitá-la e à mãe que já não sabia o que fazer porque a bebé chorava, chorava com a boquinha muito aberta e as maçãzinhas do rosto muito vermelhas. As meninas estavam muito caladas, sem saberem o que fazer ou dizer. Foi então que Generosa se aproximou da irmã e esfregou o dedinho indicador no polegar, o que sempre fazia antes de tocar na pele macia e delicada de um bebé. Disse-lhe a mãe: “Podes fazer festas à maninha, querida. Pode ser que deixe até de chorar tanto”. E a pequena Generosa assim fez. Não sei se por cansaço ou pelo carinho acrescido, a recém-nascida sossegou. Foi então que Formosa, que gostava de imitar as palavras da mãe, exclamou: “Que mimosa!”. E logo o pai disse: “Encontrei o nome!” E, assim, Mimosa  ficou..
No regresso a casa, o pai, contente, foi com as meninas visitar uma exposição de pintura de Amadeu (Souza Cardoso) e entraram, para lanchar, no café Orfeu.
E que mais posso dizer eu? Apenas que as meninas cresceram generosas, formosas e mimosas.  Todos os os professores diziam que eram atentas, simpáticas e gostavam de aprender. Porém, as três manifestavam uma reação estranha: recusavam-se a decorar rimas e esquemas rimáticos!!!


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Porto virtuoso

Jardim dos Carregais, ao lado do hospital de Sto António
Horto das Virtudes, junto ao Passeio das Virtudes 
Gingo biloba, bem olhada e descrita por Mário Cláudio
Folha outonal da árvore anterior
O chafariz das Virtudes




E muito se viu e aprendeu nesta visita ao Porto, uma das muitas iniciativas da Casa do Infante.
E, descendo das Virtudes até Miragaia, ouviu-se, fazendo um pouco de silêncio, o Rio Frio que foi entubado e desagua no Rio Douro, junto à Alfândega.
O percurso é inspirador, apesar de alguns locais precisarem de intervenção, mas ter belas Virtudes não significa adquiridas perfeições.
Obrigada, Ci, pelas belas fotos, porque o meu telemóvel, por falta de virtude da dona, ficou... em casa.