domingo, 30 de setembro de 2012

Domingo de outono

Compota de abóbora sobre a mesa. Com sabor a limão e a canela. A marmelada, no armário, espera os frios doces do inverno. As folhas amareladas caem no chão mole e húmido que dá descanso por não precisar de ser regado.

O pôr do sol tem menos fogo e a noite fecha-se mais cedo. Abrem-se gavetas com tempo de as arrumar. Pega-se num livro que há muito estava por abrir. Tudo parece mais silencioso e menos efémero. Ou é por hoje ser domingo?

EU e os outros

São imensos os exemplos quotidianos em que o EU se opõe aos outros. E em pequenas coisas. Todos conhecemos pessoas que gostam de falar, com muito pormenor, dos seus assuntos, revelando, porém, falta de tempo para ouvir os outros.

E, atenção, eu também não serei exceção.

Para além da indisponibilidade de ouvir os outros, há também o achar que as virtudes existem essencialmente no trabalho pessoal e os defeitos só abundam no de outrem.

Vem isto a propósito das palavras do Dr António Borges a propósito de medidas que ele próprio ditou, sendo aceites pelo governo e rejeitadas pela maioria dos cidadãos, incluindo empresários. O resultado foi o referido conselheiro chamar-lhes ignorantes, uma vez que não tinham compreendido o alcance de estratégias, por si criadas, e que resolveriam problemas económicos do país, como a privatização da RTP, da CGD, da TSU e muitos etecetras em que o cidadão comum ficaria a perder cada vez mais, embora isso pouco pareça contar.

O que fará com que algumas pessoas se achem os donos do mundo e vejam os outros como uma massa de pequenos figurantes?!

Será uma questão de educação? De genética? 

Sei lá bem. Se calhar nem eles. E, como não sabem pensar nisso, continuam a espalhar a sua ignorância humana.

sábado, 29 de setembro de 2012

Já há nozes

 


"Deus dá nozes a quem não tem dentes"

 "Deus dá as nozes mas não as parte"

Hoje lembrei-me de Almodóvar

No cemitério, muitas mulheres arranjavam as flores, enfeitavam as jarras, carregavam baldes de água, esfregavam as pedras, varriam as folhas, apanhavam os caules cortados e caídos...

E, despachadas, pensavam nos mortos e tinham pressa para irem cuidar dos vivos.

E ainda falavam umas com as outras. Das flores que trouxeram, do trabalho que os filhos não têm, da doença exigente dos pais, dos problemas quezilentos com os vizinhos, do tempo mais frio de outono...

Num espaço de morte, pulsava pujante vida. 

Apesar de muitas diferenças, parecia que Almodóvar tinha passado por ali. Ou então por lugar muito semelhante.
 

 
Volver - Penélope Cruz

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O que é que a casa tem?

  Não é nada raro ouvir: quem me dera ir já para casa. E isto não são só os adultos que dizem mas também os jovens e até as crianças.

Os adultos, ainda que gostem e precisem do seu trabalho, desabafam com frequência: quem me dera ir embora. 

E logo se adivinha o gosto por terem a casa bem arrumada, o cantinho do sofá ali mesmo à espera...

Os jovens, na escola, sobretudo na última aula do dia ou da semana, dizem sempre que podem: ó setora, deixe-nos sair mais cedo. Assim, vamos mais cedo para casa. 

Claro que não saem, mas não deixam de o dizer, porque a vontade seria mesmo essa.

E, muitas vezes, o professor pensa lá para ele que também gostaria e bem precisava de ir mais cedo para casa.

 E como é bom chegar a casa ainda com sol! Ver a luz a entrar pela janela faz lembrar dias luminosos com tempo para olhar os desenhos que se vão diluindo com o passar das horas.

O que é que a casa tem?

Será o aconchego há muito perdido? Será o ninho onde se procura um pouco mais de calor? Será o silêncio que não se conhece noutros lugares? Será o alimento que se vai saboreando sem hora e sem lugar certo? Será a concha que não deixa fugir o mar?...

Tenho poucos minutos, mas...

... quero dizer que gostei de dar a primeira aula da manhã. Felizmente acontece muitas outras vezes.
Como tinha havido a comemoração do Dia Europeu das Línguas, os alunos tinham ficado de escolher um poema de Fernando Pessoa para ler à turma. Foi-lhes pedido que justificassem a escolha.
Pelas 8.30, com a sala tranquila, o céu carregado e parado de nuvens, quase todos os alunos cabriram os cadernos e começaram, um a um, a apresentar o seu trabalho.
Alguns tinham trazido pequenos livros com os poemas.
Eu olhava a manhã nos rostos concentrados e atentos dos miúdos. E imaginava-os em casa a preparar os trabalhos, a pensar como os iriam partilhar na aula seguinte. Como a professora iria reagir. Como a turma os iria receber.
E fiquei contente. E senti a alegria de poder começar o dia assim.
E também por não me ter esquecido de lhes pedir o trabalho. Como às vezes acontece. Pelo menos a mim.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Hoje comemora-se o Dia Europeu das Línguas



«Meu desejo é desalinhar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da vida».
             Mia Couto    



«As palavras, como os pássaros, voam por cima das fronteiras políticas».
Rodrigues Castelão



«Porque bonitas são as línguas depois de manejadas e celebradas pelas pessoas».
                 Ondjaky



«Da minha língua vê-se o mar».
               Vergílio Ferreira

domingo, 23 de setembro de 2012

Os palacetes de César

Hoje passei, de carro, em César - entre Ovar e S. João da Madeira.

Não conhecia esta terra. Chamaram-me a atenção alguns belos palacetes - uns bem conservados, outros aparentemente abandonados.

O dia era de fim de setembro carregado e chuvoso. Vi uma palmeira que uma trepadeira lilás coloriu, vi os tais palacetes com plantas com tempo e espaço para crescerem onde podiam. Pressenti o passado que foi morrendo aos poucos, enquanto as ervas daninhas invadiam, sem dono, muito do presente.

Fiquei com vontade de voltar a César. Para percorrer as suas ruas e olhar também os  palacetes antigos.  Um deles ergue-se da vegetação verdejante e vasta.

  Pelo que sei, César nunca teria passado em César, senão diria: a César o que é de César!

Chuva de outono




sábado, 22 de setembro de 2012

Doce outono


Outono



Os valores (des)conhecidos

Ontem, numa aula, veio a propósito a expressão "Valores humanos". Perguntei aos alunos, em bloco, como poderiam tornar mais específico esse conceito abrangente. Repeti a pergunta e continuei a não ter resposta da turma. Reformulei a questão e o silêncio continuou.

Se eu não conhecesse a maioria dos alunos, até pensava que o diálogo entre nós era difícil.

Até que uma aluna disse: "é isso da dignidade e não sei quê?"

Felizmente, depois surgiram outros: solidariedade, honestidade, responsabilidade...

Alguns rostos pareciam dizer que eram palavras que lembravam catequese antiga de que já pouco se falava.

Isto assim não tem jeito!

Acabo de ouvir que entraram pessoas para lugares de direção, no Ministério da Saúde, com dados falsos nos seus curriculos. A palavra frequentemente adotada nestes casos é lapso.

Será lapso dizer que que se tem mestrado ou doutoramento sem os ter feito? Para o comum dos mortais - e honestos - isso é uma grande mentira. E um insulto a quem trabalha muito para fazer pós-graduações.

Nas escolas básicas e secundárias, exigimos que os alunos estudem e não copiem trabalhos da net. Porém, os mais jovens conhecem também o que se passa à sua volta e essas recomendações vão soando a estranho. 

Há cada vez mais trabalhos, que são entregues e classificados, que foram feitos por outrem. Há licenciados cujo ganha-pão é fazer trabalhos para alunos universitários que os entregam como se fossem seus. Existem teses de mestrado e doutoramento com plágio. Para não falar de políticos que conseguiram licenciaturas quase sem pôr os pés na Faculdade.

E como os enganos - os tais lapsos - se fazem com um mero e natural encolher de ombros, lá estão os altamente beneficiários de cargos, apenas porque se pertence a um partido poderoso. Ou se conhece A ou B que também detém muito poder e pode fazer um jeito porque também dá jeito.

Isto assim não tem jeito!


A música do taxista

Ela entrou no táxi para uma viagem curta. A luz amarelada do fim da tarde acetinava-lhe os cabelos negros. Os brincos compridos tombavam em ousadia.

Ouviam-se as chamadas constantes para a rua X, nº Y.

Ela ia vendo a paisagem que raramente olhava, porque habitualmente passava a conduzir.

O taxista olhava a cliente pelo retrovisor onde refletiam os seus óculos Ray-Ban. 

Quando ela entrou, a música de fundo era o som da rádio. Poucos minutos depois, era jazz, cantado por voz feminina e em língua inglesa.

Ela olhava a paisagem amarelada pelo fim da tarde e início do outono que a música mais harmonizava.

Ele olhava pelo retrovisor e via que a cliente estava a gostar, apesar de se manter em silêncio.

Durante o dia, o taxista já tinha posto Tony Carreira, Xutos e Pontapés, Amália...

Os seus óculos Ray-Ban eram como o algodão: nunca enganavam!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A Criança e a Vida

Júlio Resende

Companheira do sol e das raízes, cheguei à grande cidade. Numa mão levava o diploma, na outra, o medo. O resto era a história antiga da minha solidão e da minha esperança...

A escola que me deram não era um desses poéticos lugares, brancos e cheios de flores com que sonhamos no fim do curso: era um velho primeiro andar, de uma rua suja de sal, pregões e humidade. Os rapazes que me deram também não tinham nada de comum com esses meninos de bata branca, normais, nos primeiros dias de aula, e que as mãezinhas nos entregam como se fossem de porcelana.

Lembro-me desse nosso primeiro encontro, tão comovidamente, que receio não encontrar a palavra exata para o esboçar. 

Abri a porta e eles entraram. Eram quarenta e cinco e faltavam carteiras. Faltavam muitas carteiras, mesmo quando os sentei três a três e pus cinco na mesa que me destinaram para secretária. O diretor chegou e disse: — Este é o seu reino e aqui tem os seus «meninos». E sorria. — Se tiver sarilhos há de tê‑los, mas não estranhe – a esquadra da polícia fica no fim da rua. E eu estou ao seu dispor. Para as necessidades imediatas, aqui tem isto. Tem de escolher desde o princípio: ou a Senhora, ou eles. Sem complacências, se quiser sobreviver. Lamento dar-lhe a escória. Mas, paciência.

Desceu a escada.
E eu fiquei ali, face à nova aventura.

O silêncio que me envolveu era um silêncio pesado, expectante. E, no meio do silêncio, eles ali estavam, na manhã que nascia. Esculpidos em vento e mar. Vinham dos barcos ancorados no cais, do bairro de lata, de sabe-Deus-donde. Traziam nas mãos, em vez de mala e livros – não sei porquê, mas traziam – folhas de plátano e ramos de amendoeira florida. O outono dourava-lhes os cabelos. Eram sementes vivas da mais autêntica liberdade e não sabiam nada de preconceitos, nem de palavras, nem de coisa nenhuma.

Olhei-os também em silêncio. Um por um. Longamente. Depois, peguei na régua que o diretor acabara de oferecer-me como apoio e dei-a ao que me pareceu mais velho: Toma! Vai atirar fora. E depois, não sei o que lhes disse. Mas a fome de ternura era neles como o sol, a chuva e o desconforto. E como éramos primários, pobres e sozinhos, estabelecemos desde aquela hora um entendimento lúcido e discreto.

E foi assim que ficámos solidários e Amigos – Para – Sempre.

Aprendi então que a Verdade é uma palavra real.
E a Lealdade, também.

Depois, muitos vieram: da Europa, da África, das ilhas perdidas do Atlântico. Mas ali, na escola húmida e despojada, é que aconteceu o milagre que nunca mais se repetira. 

Tenho-me perguntado muitas vezes porquê. E cada vez vou tendo mais a certeza que o excesso de conforto destrói o Rosto Iluminado do Homem. Aqueles não tinham, não esperavam, nem pediam nada: por isso, estavam disponíveis para tudo. Os passeios que demos, as notícias que comentámos, os poemas que lemos, a vida que conscientemente os ajudei a desventrar, foram a sua primeira riqueza e fizeram crescer na «escória» uma branca flor de fraterna alegria. 

Foi como se um vento de loucura nos tivesse perturbado a todos, e o mundo estivesse suspenso do que fizéssemos. E nas paredes sujas da sala, pintámos o sol e pássaros verdes. E nos buracos dos tinteiros partidos nasceram flores. Eles eram a Terra quente e aprenderam a amá‑la também. E a pobreza que os esboçava começou a ser um pretexto, não para a sua derrota, mas para a sua dignidade e a sua força. 

A alegria daqueles rapazes contagiava os indiferentes e as pessoas, muitas, muitas: poetas, professores, pintores, operários, sentiam que junto deles as manhãs eram mais claras e a fome mais terrível. Hoje, alguns serão operários honestos, ardinas apressados, vendedores ambulantes; outros serão marinheiros, outros, sei lá o que serão! Sei lá o que a vida fez deles!

Estas páginas são uma homenagem que lhes devo. Guardei-as, dia após dia, ano após ano, até os perder nos novos caminhos que tive de pisar, como um testemunho. Oxalá alguns deles possam ler estas linhas e reencontrar-se nelas.

Não eram génios, nem poetas, nem meninos-prodígios. Eram filhos de pescadores, de varinas, de ladrões-de-coisas... essenciais-ao-dia-a-dia. Moravam em casas com buracos e dormiam nos barcos, no vão das portas, nos degraus da doca, em qualquer sítio. Alimentavam­‑se de um bocadinho de pão, de um peixe assado e às vezes de água. Apenas. Tinham oito, nove, dez, onze, quinze anos, mas conheciam as mil maneiras de escapar aos polícias, de viajar de borla, de sobreviver. 

Os dias eram-lhes duros e comprados com muita coragem e destemor. Por isso custei a entender – ENTENDI!? – como a Poesia foi para eles tão violenta e tão fácil. Pediam para fazer poemas, como quem pede o pão da fome. A princípio a medo, ingénuos. Depois, a mergulharem na aventura da palavra com uma dor e uma lucidez já adultas.

Quando expus a primeira coletânea de textos destes rapazes, ilustrados por alguns dos nomes mais válidos da nossa pintura, o ambiente que cercou a exposição, ao verem a idade dos autores, foi de suspeita e dúvida. Quando eles apareciam, desgrenhados e sujos – a hilaridade era quase completa. E eram eles que me confortavam, soberanos: —Deixe lá. Têm a cabeça cheia de vento. Não percebem nada.

E ficava tudo certo, outra vez.

Mas ensinaram-me que, quando se é humilhado naquilo que em nós é claridade e certeza, aprende-se mais depressa o sentido exato da liberdade, da paz, do ódio, do amor e do ridículo do quotidiano. Eles revelaram-me que a miséria transforma as crianças, mais que os adultos, em anjos implacáveis de lucidez, e que a fome os ateia e lhes faz crescer nos olhos brancas e terríveis asas de sonho ou destruição. 

E há, nestes anjos de fogo, uma voz oculta e violenta em que é preciso, é urgente, meditarmos. Ela pode denunciar, construir ou semear a alegria, a vergonha ou o remorso.

Ela pode ser a semente da Esperança, da Paz entre os homens.
Ela pode ser o ódio.
Ela pode ser o Amor.
Maria Rosa Colaço
A Criança e a Vida
Lisboa, Ed. Ulmeiro, 1996
(Adaptação)

Bem ou mal do século?

Há uma expressão antiga de que me lembro às vezes.

A propósito das turmas, alguns professores diziam: é uma turma certinha. Muitas vezes ouvia a expressão e ficava a pensar no que a palavra "certinha" poderia representar: pessoas que falavam todas ao mesmo tempo e no mesmo tom de voz? Pessoas que se sentavam e levantavam ao mesmo tempo? Pessoas que usavam roupa das mesmas cores? Pessoas que diziam as mesmas coisas e aderiam às mesmas ideias?

Agora julgo que ninguém o diz. Cada vez "certinha", neste contexto, é palavra pouco certa. Se é que alguma vez o foi.

Uma das razões é o facto de ser natural a existência de diversidade na sala de aula. De facto, cada aluno tem uma história de vida bem diferente das demais. Algumas bastante  difíceis.  Muitas vezes só os diretores de turma é que se vão apercebendo de problemas familiares e económicos graves.

O direito à diferença é um bem do século. Porém, tanta desigualdade já é um mal.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

O diário de Mariana

Querido diário

18 de setembro 2012

Já tinha saudades de te escrever uma página, querido e amigo diário. Não sei, mas às vezes, apetecia-me dizer tanta coisa que nem sei como começar.

As férias terminaram, já tenho aulas, a turma está maior e a sala de aula hoje parecia mais pequena e mais quente porque está muito calor. Eu por acaso não gosto de estar sempre a dizer mal, mas não acho nada bem que as portas das salas sejam tão pesadas que nem se mantêm abertas. As profs mais velhotas é que se devem ver gregas porque sempre ouvi as minhas tias e as minhas avós a falar dos calores. Ai que calor! Ai que calor!

Eu ainda não conheço bem os outros alunos que entraram para a minha turma. Às vezes, acho que as pessoas pensam que nos conhecemos todos muito bem mas nem por isso.

Amanhã vai ser a avaliação diagnóstica. A minha dêtê já falou dos relatórios que vai receber de todos os profs. Vai ser gastar papel até mais não. Claro que sou eu a dizer isso, porque a dêtê diz sempre: meninos, têm de estudar muito. Não imaginam como é bom quando há sucesso!
Ela até é fixe.

Hoje, depois da escola, fui lanchar com a minha mãe (que mania que ela tem de me dizer: anda lanchar comigo, Mariana, sem me perguntar se posso e se quero!). Por acaso até foi bom porque ouvi uma coisa muito fixe. Uma amiga que ela encontrou disse que andava à procura do pão-de-deus. Pelos vistos é um pão com coco ou açúcar por cima. E o pão era um miminho para o filho que tinha sido eleito delegado. Ela queria esse pão porque ele gosta muito. Achei mesmo altamente.

Eu um dia que tenha filhos vou-lhes fazer muitas festinhas. E não só enquanto são bebés. Eu conheço pessoas que são infelizes toda a vida porque não tiveram miminhos pelo menos quando eram pequenos.

Hoje fico-me por aqui, querido diário, porque estou muito contente e quando estou contente escrevo menos.

Talvez amanhã diga por que estou tão contente.

Muitos abracinhos, querido diário.

Mariana

domingo, 16 de setembro de 2012

Sabores de Lisboa (A Brasileira do Chiado e os Pastéis de Belém)




Pormenores do Museu dos Coches - Belém



Douro - Ouro do Nosso Património (Mundial da Unesco)



No rescaldo das férias

Não me posso queixar. Pude ter férias, dei alguns passeios no nosso belo país, aproximei-me do mar, estive mais tempo e mais perto da minha família mais chegada e fundamental para mim, convivi com amigos também muito importantes na minha vida. E sabia que continuava a ter trabalho e salário ao fim do mês, apesar da supressão de subsídios.

Mas sei que milhares (se calhar, milhões) de portugueses não poderão dizer o mesmo, sobretudo em relação ao trabalho e à possibilidade de deslocações, ainda que curtas. Ontem, as ruas de muitas cidades mostraram-no bem. Com ou sem cor partidária, as pessoas manifestaram-se pacificamente, mostrando os seus rostos para que os governantes saibam que o país tem identidade e não é uma massa amorfa a quem se aplicam sucessivas experiências.

Eu não participei das manifestações, mas, ao ver as reportagens, senti que os cidadãos não podem continuar sempre do outro lado. E louvei quem foi porque o país é de todos e não apenas de alguns que mal conhecem as realidades profundas.

Dos cartazes que vi - mostrados pelas televisões - chamou-me a atenção um com um espelho. Segurava-o uma jovem, com uma bolinha vermelha no nariz, e que dizia com um sorriso empático e expressivo: "Sorria, estar a ser roubado"

As inquietações manifestadas pelas pessoas, para além de muitos desgovernos, nasciam do desemprego, da necessidade de emigração, da redução de salários, da falta de esperança, da descrença nos governantes...

Oxalá os políticos tenham visto estas imagens (a tática habitual é dizer que não viram o que não lhes interessa) e tenham alguma sensibilidade para as ter em conta em algumas medidas, até agora  tomadas às cegas.

Sei que muitos portugueses nem férias puderam ter. Até o mar, que está tão próximo, foi-se tornando mais distante.

Será que um dia se poderá dizer: Sorria, não está a ser roubado!?


Maria Clara Miguel partilhou O Tesouro, na Feira do livro de Gondomar - 2012