sábado, 30 de maio de 2015

"Vem-nos à memória..."

Os poetas também nos guiam, mesmo que digamos que não.

E, por isso, vêm-me à memória algumas frases (atualmente) comuns:

- Professora, não posso ir à visita de estudo porque os meus pais estão desempregados.
- Talvez o aluno não tenha razão, mas como a mãe se queixou...
- Não ando com cabeça, os meus pais discutem muito e estão a separar-se.
- O meu filho nunca mente.
- Estudar duas horas por dia? Ó setora, tenho mais que fazer!
- Não sei se o meu filho estuda ou não, o que é certo é que está sempre no computador!
- Se não fossem os colegas da turma, o meu filho seria bem melhor!
- Não tenho amigos na turma, porque são fingidos: os setores não os conhecem.
- Eu depois faço os exercícios no Centro de estudos.
 - ...

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Os provérbios são como as cerejas!



A homem farto as cerejas amargam.
As palavras são como as cerejas, vão umas atrás das outras.
As conversas são como as cerejas.
A mulher e a cereja para seu mal se enfeita. 
Em maio, comem-se as cerejas ao borralho.



quarta-feira, 20 de maio de 2015

Vi o documentário e gostei


O documentário que vi tem por título Pára-me de repente o pensamento, do documentarista Jorge Pelicano. O título foi colhido de um poema de Ângelo de Lima, poeta com textos publicados na revista ORPHEU - introdutora do Modernismo em Portugal (1915).

Ângelo de Lima, poeta e pintor,  esteve internado no hospital psiquiátrico de Conde Ferreira, no Porto, onde o filme foi realizado.
.

Ao longo de uma hora e meia, ouvimos as conversas de alguns pacientes, enquanto passeiam na alameda do hospital. Uns riem, outros esmiúçam  o que sentem, o que pensam, o que veem, o que aconselham...

Quase todos fumam, bebem café, falam de si com a verdade atormentada da doença mas não loucura, como alguns fazem questão de lembrar. 
Há diálogos de pureza quase hilariante; outros que geram silêncios, outros que atingem as profundezas da alma humana, seja ela considerada normal ou não.

E, neste contexto, surge um ator - Miguel Borges . que se instala, por umas semanas, no hospital para preparar uma representação, com a colaboração dos pacientes daquela comunidade de saúde mental.  Também fuma, também bebe café e sobretudo ouve muito mais do que fala. E criam-se laços e empatias. O ator - o Miguel - ouve muitas histórias, enquanto a chuva cai com grossa intensidade.
Era inverno. Estava frio e as camélias aguentavam as fortes chuvadas.

 Quando passar na VCI, ao lado do Centro Hospitalar Conde Ferreira (criado em 1883), lembrar-me-ei dos doentes que vi no filme, que vive(ra)m no edifício, que se apaixonam (como Rosa que está sempre ao lado do namorado, ainda que silenciosa), que sentem alegrias e tristezas, embora lhes "pare muitas vezes o pensamento", tal como referiu Ângelo de Lima no poema que é ensaiado nos pátios do hospital  quando o céu abranda, o dia clareia e o ator acelera o movimento:


Pára-me de Repente o Pensamento

Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz, do esquecimento...

Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado...
Pára e fica e demora-se um momento.

Pára e fica na doida correria...
Pára à beira do abismo e se demora
E mergulha na noite escura e fria

Um olhar de aço que essa noite explora...
Mas a espora da dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.

Ângelo de Lima (1872/1921), in 'Antologia Poética'

Natureza viva




segunda-feira, 18 de maio de 2015

Os autógrafos não são para velhos?!

Passa nas redes sociais um vídeo com Messi  a dar autógrafos aos fãs, enquanto parecia regressar ou partir de ou para qualquer viagem da equipa de futebol..

A seguir a um jovem, apareceu um homem já idoso. O jogador olhou-o com ar de estúpida incredulidade, prosseguiu o caminho e autógrafo nem vê-lo.

Como é possível uma pessoa que já ocupou tantos palcos, que foi e é aplaudido por adeptos de todas as idades ignorar um pedido de autógrafo de um idoso? Ainda não teria tido tempo para aprender que toda a gente tem direito a sonhar?

Quando vi as imagens, lembrei-me da história do velho, do rapaz e do burro. Só que aqui havia apenas duas personagens. Por coincidência, o rapaz também era burro.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Onde estávamos enquanto as rosas floriam?

 
Nos últimos dias, o tema mais abordado no nosso país talvez tenha sido a violência entre jovens. Locais como Figueira da Foz (onde um rapaz foi agredido por um grupo com estaladas e murros durante quase quinze minutos) ou Salvaterra de Magos (onde houve um homicídio de um jovem de 14 anos, sendo o principal suspeito um rapaz de 17) figuraram mais nos media e redes sociais do que na última década, por certo.

Muitas mais foram as situações de violência que conhecemos ou de que ouvimos falar nas nossas ruas, nas nossas escolas, etc.

A violência, por si, já choca; quando é extrema repugna e assusta  ainda mais.

E onde estavam os pais, a família, a sociedade em geral enquanto os jovens cresciam? Para não falar dos diretores das televisões que procuram o lucro a todo o custo; dos governantes que se agarram aos seus lugares, semeando mentiras, cinismos, falsidades e outras violências?

Somos todos um pouco responsáveis pelos estalos que foram dados ao pobre rapaz indefeso. Ao mesmo tempo foi como se todos apanhássemos esses estalos por muitos terem andado demasiado ocupados ou demasiado distraídos. 

Agora, muitos espinhos das rosas entram cada vez mais em confronto. Muitos adultos - os mais diretamente ligados aos protagonistas de casos graves de violência - reconhecem os erros, manifestando a intenção de proceder de modo a evitá-los daí para a frente; outros, porém,  justificam-nos pelas diferentes violências que grassam no mundo. Como se fossem uma inevitabilidade. Talvez ajam assim para não se picarem ainda mais. 

Há tanto a fazer ainda!

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Rosas pequeninas

Junto de uma bomba onde costumo meter gasolina, há uma casa com muitas rosas à volta. Como a bomba de gasolina é à moda antiga, o cliente fica sentado no carro, enquanto o funcionário põe o combustível. É nesse tempo que olho, mais demoradamente, para essa casa.
 Lembro-me dela como nos recordamos de todas as casas bonitas por onde passamos muitas vezes, mesmo sem nunca lá ter entrado.
E a memória que tenho dessa casa é com as pessoas que nela viviam, com cortinas de linho nas janelas lavadas e claras, com rosas pequeninas a florir em todas as primaveras, com a viva beleza do presente tão feliz que exibia eternidade.
Agora já não se veem pessoas na casa. As janelas têm tinta a esboroar-se e, como está tudo fechado, já não acenam as cortinas. Acho que eram bordadas.
Tudo parece ter desaparecido. Tal como o tempo.Tal como os olhares lisos da juventude.Tal como as vozes que agora já não sobem nem descem as escadas, cada vez mais graníticas.
E, contudo, as rosas pequeninas continuam a florir!


sábado, 9 de maio de 2015

"Quelle connerie la guerre!"

 

Barbara

Rappelle-toi Barbara
Il pleuvait sans cesse sur Brest ce jour-là

Et tu marchais souriante
É panouie ravie ruisselante
Sous la pluie
Rappelle-toi Barbara
Il pleuvait sans cesse sur Brest
Et je t'ai croisée rue de Siam
Tu souriais
Et moi je souriais de même
Rappelle-toi Barbara
Toi que je ne connaissais pas
Toi qui ne me connaissais pas
Rappelle-toi
Rappelle-toi quand même ce jour-là
N'oublie pas
Un homme sous un porche s'abritait
Et il a crié ton nom
Barbara
Et tu as couru vers lui sous la pluie
Ruisselante ravie épanouie
Et tu t'es jetée dans ses bras
Rappelle-toi cela Barbara
Et ne m'en veux pas si je te tutoie
Je dis tu à tous ceux que j'aime
Même si je ne les ai vus qu'une seule fois
Je dis tu à tous ceux qui s'aiment
Même si je ne les connais pas
Rappelle-toi Barbara
N'oublie pas
Cette pluie sage et heureuse
Sur ton visage heureux
Sur cette ville heureuse
Cette pluie sur la mer
Sur l'arsenal
Sur le bateau d'Ouessant
Oh Barbara
Quelle connerie la guerre
Qu'es-tu devenue maintenant
Sous cette pluie de fer
De feu d'acier de sang
Et celui qui te serrait dans ses bras
Amoureusement
Est-il mort disparu ou bien encore vivant
Oh Barbara
Il pleut sans cesse sur Brest
Comme il pleuvait avant
Mais ce n'est plus pareil et tout est abimé
C'est une pluie de deuil terrible et désolée
Ce n'est même plus l'orage
De fer d'acier de sang
Tout simplement des nuages
Qui crèvent comme des chiens
Des chiens qui disparaissent
Au fil de l'eau sur Brest
Et vont pourrir au loin
Au loin très loin de Brest
Dont il ne reste rien.

Jacques Prévert (1900/1977)
, Paroles 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Simon & Garfunkel Sound Of Silence

O cão que mora na varanda

Sempre que lá passo, oiço o mesmo choro. Ou latidos. Ou gemidos. Não sei bem. O que sei é que o cão se faz ouvir em todo o prédio. Se a solidão traz ruído, aquele cão deve sentir-se muito só. Como a voz do animal vem sempre do mesmo sítio e nunca se vê o corpo nem a cabeça do bicho, percebe-se que à sua volta deve haver parede, mais parede, outra parede e ainda outra parede. Ou correntes, sei lá. Ainda que bonitas e coloridas.  Ou uma porta fechada junto à caixinha da areia cheirosa.
E como a varanda está exposta ao sol, às vezes, o bicho deve ter  calor e, outras, muito frio. Um frio fino de ter de ficar à espera dos donos um dia inteiro.
Dir-me-ão que é um animal, que não é uma pessoa, que deve ter água e comida, que tem um abrigo e muita gente não o tem...
Mas  porquê ter um animal em casa se ninguém está em casa durante todo o dia? 
Também acho bizarras situações como a de ir levar o cão todas as manhãs a casa de familiares como se de um bebé se tratasse. Nem oito nem oitenta, mas ter um animal preso todo o dia e a ganir de aflição e tristeza também me parece desumano., embora humano o bicho não seja.
À noite, o cão já não se faz ouvir. Não sei se é por ter companhia ou ... pela fraca força de tanto cansaço!