quinta-feira, 30 de novembro de 2017

A visita



O dia estava mesmo frio. Uma boa altura para ir ao Camden Arts Center, perto do centro de Londres. Um pequeno museu. Sossegado. Pessoas simpáticas na receção. Átrio com exposição de livros e postais bonitos. Não turísticos. Um café luminoso com vista para o jardim. Sandwiches e saladas. E sopa do dia. A galeria é no andar de cima. 
Visitantes da galeria apenas um:  a visitante. Não fazia mal. Não precisava de se pôr em bicos de pés para ver as obras. Estava tudo ao alcance do seu olhar.
Havia duas exposições: uma ocupava uma sala e era de Christian Nyampeta (Words after World), um jovem artista nascido em 1981; e outra de Nathalie Du Pasquier (Other rooms), menos jovem, nascida em 1957, que ocupa duas salas e dá capa ao catálogo.
A visitante percorreu as três salas com vagar e alguma atenção. Fixou-se mais na exposição maior: pelas cores exuberantes, pelo desenho, pelo geometria. Pelos volumes.
Leu referências sobre os autores dos trabalhos. Desceu  até ao átrio. Havia escadas. Usava menos o elevador. Num écran, os autores falavam dos seus trabalhos e do local onde estavam expostos.
A visitante parou a ver e a ouvir.
Nathalie Du Pasquier, com um sorriso de alegre encantamento, falava do seu trabalho. 
Havia legendas. Muito bem. Assim a visitante compreendia melhor. A designer e pintora foi dizendo que era feliz todos os dias ao realizar o seu trabalho. E estas palavras tão simples e ditas com verdade da expressão cativaram a visitante. Tanto como a obra exposta.
A visitante comprou alguns postais não turísticos e saiu.
A visitante tinha ganhado o dia.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Quando um livro acaba e a vontade de o reler começa!

Acabei de ler o Manual para Mulheres de Limpeza de Lucia Berlin. Li toda a coletânea de contos sempre com a mesma vontade. São mais de quinhentas páginas que nos fazem segurar o livro durante todo o tempo possível porque tudo é contado com muita vivacidade e de uma maneira verosímil - a autora diz que não é preciso que a história seja verdadeira, tem é de ser verosímil, venha ela donde vier.
O final das histórias é sempre inesperado e sugestivo, o que dá logo vontade de ler o conto seguinte.
Problemas como a droga, a doença, o alcoolismo, o fracasso familiar, a miséria são apresentados de uma forma realista mas não deprimente. Estão lá e as pessoas que os corporizam riem, choram, falam, pedem ajuda, calam-se, gritam...
Mas o amor, os encontros felizes, a reconciliação, os afetos estão presentes e pressentem-se os abraços e as conversas e os silêncios...
A infância e a juventude são igualmente recorrentes, como são as relações sobretudo mães-filhos.
O fascínio pela natureza também lá está, tanto pela observação do momento (as montanhas, as flores, as árvores, as aves, o céu estrelado) como imagens da memória.
Também gostei do facto de haver várias histórias em que a leitura e a escrita são referidas, como o conto que aborda um curso de escrita criativa numa prisão.
Ao longo das narrativas, tantas vezes tecidas com bom humor, existem personagens de quem é dito que "gostam das pessoas".
Com este livro, acho que Lucia Berlin também gosta(va) mesmo das pessoas.

Que bom haver boas sugestões!


Presto sempre atenção às sugestões literárias e musicais de Nicolau Santos, no seu Expresso Curto. Ontem, Seal foi um dos cantores sugeridos, embora não por estas músicas.
E, habitualmente,  acho boas as suas partilhas.
É bom ver e ouvir um homem que tanto sabe de Economia falar destas coisas de cultura, reconhecendo-lhes muita importância para a vida de cada um.
Referiu também o livro 4321 de Paul Auster.
O título é sugestivo porque, a meu ver, muita coisa haverá para descobrir.
Quando puder, vou tentar lê-lo.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Comeres e beberes em Istambul

A semana passada esteve chuvosa e fria. Tomar chá frequentemente ajuda a aquecer - tanto lá como cá.


Obrigada, A., pelas fotos. Bom regresso. É pena não encontrares chuva.

Flores amarelas sob céu cinzento


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Lição

Um dia, houve a apresentação de um livro num infantário. Havia meninos e pais a assistir. As autoras  sentaram-se em cadeiras baixinhas, tal como todos os presentes. Como a assistência não era numerosa, travou-se um diálogo, neste caso, mesmo de proximidade.
Havia uma menina muito faladora que revelava bem se estava a gostar, ou não, das conversas ou das estórias que também foram lidas.
A um dado momento, a menina, que devia ter uns três anos, disse para as autoras, encostando-se à mãe:
- Eu gosto de ouvir estórias, mas têm de ser pequeninas e que eu perceba, senão fico com muito sooooono!
Todos sorriram e tentariam aprender a lição.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

O guardador de livros

Era um homem que vivia só e não gostava de emprestar livros, ou melhor, nunca os emprestava. E desde muito novo que os comprava. Mesmo quando o dinheiro era pouco e o desejo de ler era muito. Eram criteriosamente escolhidos, lidos e organizados nas estantes. Que existiam na sala, no quarto e se estendiam pelas paredes do corredor.
Quando queria, encontrava-os facilmente, ou para falar deles em encontros literários ou em pequenos grupos que o convidavam para falar de um livro ou do papel da leitura ou simplesmente para os reler. Dificilmente deixava que o interlocutor manuseasse os livros que eram seus. Se alguns dados fossem necessários, era ele que os procurava e ditava-os ao interessado. Se alguém lhe pedisse para fotografar a capa, ou algum elemento do interior do livro, só autorizava se não fosse com flash.
E assim foi ao longo de muitos e muitos anos. 
Às vezes convidava uns amigos para a sua casa. Mais amigos dos livros, por assim dizer.
Nunca os deixava sós junto das suas preciosidades, para se certificar que ninguém lhes mexia ou as tirava do lugar.
Ainda não disse, mas o guardador de livros há muito que tinha redução no bilhete de transportes públicos. Um dia, aconteceu o que cada um tem mais certo.
O apartamento foi vendido, os livros colocados em caixotes e alguns foram para reciclar. Como eram muito pesadas, houve caixas que cederam no transporte. Alguns livros caíram na rua encharcada e ninguém os quis.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Um parque para todos - até quando?

Hampstead Heath, em Londres, num soalheiro - ainda que frio - domingo de manhã.

domingo, 19 de novembro de 2017

Um livro interessante


Disse muitas vezes aos meus alunos que não utilizassem o adjetivo "interessante" e, apesar disso, usei-o no título. Foi o que me ocorreu para este livro de contos - histórias curtas que relatam vivências da autora, como é dito em textos preliminares.
Gosto do estilo: frases curtas, objetividade na narração dos factos, às vezes aparentemente pequeninos como são os dos comuns mortais; outros de grande complexidade, tal como são também muitos dos comuns mortais.
A autora, nascida no Alasca, em 1936, morreu na Califórnia, em 2004, tendo deixado dezenas de contos escritos. Este livro é uma coletãnea dos considerados melhores.
Comecei a ler e, se pudesse, não parava durante horas seguidas.
As histórias abordam temas ligados às profissões que a autora teve para sobreviver, relações familiares tempestuosas, casamentos falhados, mas também uma adesão sem reservas à vida, mesmo na profundidade dos mares.
O título da obra é de um dos contos.
Vale a pena ler. Tem vivacidade, fala do mundo, nem sempre cor-de-rosa, mas as cores da natureza humana nem sempre o são. E isso é interessante. Muito.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Abbey Road e a imagem que ficou


Algumas pessoas atravessam a passadeira com o mesmo movimento de braços que os Beatles, o que faz do local - já bonito em si - um lugar de observação e divertimento. E talvez algumas das músicas ainda andem no ar ou na memória.

Curioso!

Já estive várias vezes em Abbey Road e, curioso, nunca atravessei a mítica passadeira para peões, eternizada por um álbum dos Beatles. E, curioso também, passam lá diferentes gerações e não apenas as que mais os ouviam e dançavam. A avaliar pelas fotografias que são tiradas por pessoas de todos os continentes, parecem vir de propósito àquele local como se vai a outro sítio onde se sente mais vivamente a presença de quem lá esteve ou viveu.
Vêm, não sei se por nostalgia, se por amor à música que engloba o mundo e a vida, se por desejo de transpor uma passadeira de fama nem que seja por segundos. E que por sinal já está um pouco gasta.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Caído no chão

Ontem, um homem velho caiu junto à porta de um grande supermercado. Ia só.
Era muito alto, forte e usava óculos. Feriu-se na testa, donde escorria algum sangue, mas sorriu por não ter partido os óculos.
Foi difícil levantá-lo porque era muito pesado. Um casal aproximou-se logo e mais duas pessoas que passaram depois da queda ajudaram a levantá-lo. Quando se viu de pé, o homem agradeceu e disse ter escorregado nas folhas húmidas do chão.
Afinal, já não ia ao supermercado.
Ainda era um homem bonito. 
Não sei se a sua intenção era ter companhia enquanto bebia o café em copo grande que era oferecido a todos os clientes com cartão.
Voltou para o metro e um homem indiano disse que o levava até à estação.

domingo, 12 de novembro de 2017

Sharing the wonderful world

Namíbia
Palau

Obrigada, F. e M. J., pelas fotografias, tiradas na última semana, e por poder partilhá-las aqui. De facto, existem, às vezes perto, outras vezes longe de nós, lugares de incalculável beleza, como estes - o primeiro, na África austral, junto ao Atlântico; o segundo, um pequeno país insular no Pacífico.


quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Peregrinação de cada um!


Há dias, fui ao cinema Trindade, no Porto, ver o filme Peregrinação, do realizador João Botelho.
Quando entrei, a sala estava quase vazia. Minutos depois, começaram a chegar muitos idosos, ocupando quase todos os lugares.
Ouvi depois que eram utentes de um lar e que estar ali resultava de uma "Caixinha dos desejos", que, desta vez, se traduziram numa ida ao cinema. Achei uma bonita  ideia.
Via-se que alguns daqueles idosos não estavam habituados a ir ao cinema.
Ora, o filme dura 110m, sem intervalo, e exibe muitas das dificuldades e relações violentas vividas pelos marinheiros portugueses, no séc. XVI, através dos olhares de Fernão Mendes Pinto, que os transpôs para o seu livro Peregrinação.
Atrás de mim, ouvia-se uma voz que repetia: "Nunca mais acaba", outra: "Preciso de ir à casa de banho".
Talvez, quando regressassem ao Lar, dissessem que não tinham gostado muito do filme.
Talvez os cuidadores presentes, numa atitude muito louvável, ficassem satisfeitos com a oportunidade de proporcionar aos velhos um cinema sem barreiras arquitetónicas, ver um filme português, aprender um pouco mais da nossa História, conviver, conversar depois sobre diferentes assuntos, conhecer uma boa obra de arte, etc.
Talvez os dinamizadores do cinema Trindade ficassem felizes  ao verem que o grupo estava feliz por vir ao cinema.
E talvez  alguns idosos retivessem somente cenas bonitas, paisagens bonitas, músicas bonitas, jovens bonitas, para atenuar as cenas mais violentas ou aflitivas de confronto humano ou com forças da natureza.
Porque às vezes já basta a longa e pesada peregrinação de cada um!

domingo, 5 de novembro de 2017

Árvores da quinta da CCDRN - ao Campo Alegre

Tronco da canforeira
Canforeira



Feto arbóreo
Arália
Araucária

Bananeira
Feto arbóreo negro

A "Rota das árvores" é uma iniciativa da CCDRN, muito louvável e gratuita.
Algumas das fotos não têm legenda, porque tive dúvidas sobre os nomes das árvores, mas acho que a sua beleza é sempre boa para os olhos. E não só, é claro.