sábado, 31 de dezembro de 2016

Num Centro Comercial e Feliz Ano Novo! Ah! E também rabanadas!

Há dias, por casualidade, encontrei uma amiga num Centro Comercial. Falámos das nossas vidas, como é natural.
E referimos outras amigas que, apesar de não estarem sempre presentes, presentes estão na minha lembrança.
E, naquela manhã, ela disse-me uma coisa muito simples, mas que me soube muito bem ouvir: então, quando voltas ao blogue? Já não escreves desde o dia 11!
Pois bem, apesar de todos os afazeres, sobretudo natalícios, foi um bom e feliz motivo para me sentar hoje (depois de ter feito as rabanadas) à frente do computador e partilhar imagens de uma agradável visita que fiz, ontem, ao Museu Mineiro de S. Pedro da Cova, com outra amiga. 
Partilho também um conto de Natal. Talvez por ter uma filha emigrada, acho que, nas pequenas coisas que escrevo, este tema está em mim muito presente.
E não podia deixar de me lembrar de Georges Michael que, tal como outros músicos que nos deixaram este ano, partiu demasiado cedo.
Ele deu tanta doçura a tantos momentos das nossas vidas!

Um ótimo Ano Novo!


Um conto (ainda) de Natal!



Caminhos para as estrelas

Podia dizer-se que Celeste, embora de forma simples, vivia bem e sentia-se bem. Havia bastantes anos que alugara aquela casa. Já nem sabia ao certo quantos. E punha-se a pensar. Foi a seguir à partida do marido. Portanto, havia dez anos. Quando passou a viver só, optou por se mudar para uma casa mais pequena e os filhos concordaram.
Por essa altura, decidiu fazer o que nunca tinha conseguido concretizar até então: escrever diferentes histórias. Embora não fosse esse o seu principal objetivo, a escrita também atenuaria o peso magoado de alguma solidão.
Sempre escrevera pequenos contos dispersos, nos quais não reconhecia muita qualidade. Sentia que lhe faltava tempo e concentração para, maduramente, reler, corrigir e aprofundar as narrativas. Queria passar a fazê-lo o mais brevemente possível, mas o momento demorava a chegar.
Os filhos conheciam-lhe esse gosto e motivavam-na para que continuasse a escrever, também de forma mais abundante e sustentada, uma vez que dispunha agora de mais tempo; tinha acabado de se aposentar. Celeste, olhando as grandes obras de autores que moravam, sábios, na sua estante, achara sempre uma ousadia querer partilhar e publicar os  seus textos que, por vezes, até desvalorizava.
Porém, o melhor - concluía de forma positiva - era continuar a escrever, cada vez mais e melhor, reflexões, histórias, textos cuja escrita lhe dava imenso prazer. Às vezes, achava que escrevia mais para si e de si, embora, com as suas palavras, pretendesse abraçar todas as pessoas, sem as quais a vida não faria sentido. Mesmo assim, escrevia pouco, embora lhe andassem a bailar algumas ideias na cabeça. Tinha-as até registado num bloquinho que guardava na carteira. Precisava de sossegar ou de um impulso para passar à prática.
 Os filhos, sempre presentes no seu pensamento, viviam em diferentes países - um no Canadá e outro na Islândia. Tinham organizado a sua vida bem longe de Portugal, porque lá haviam encontrado melhor trabalho e mais reconhecimento profissional. Os netos frequentavam as escolas nos países de acolhimento, que já conheciam melhor do que o dos pais e avós, ao qual associavam sobretudo as férias grandes ou o Natal.
Antes da mudança, Celeste teve a preocupação de a casa dispor de espaço suficiente para que, quando os filhos e netos viessem a Portugal, pudessem lá ficar confortavelmente. Aquando das suas poucas visitas, a casa era toda arranjada, para ficar ainda mais bonita. Pelas claraboias, parecia entrar mais intensamente a luz.
De facto, a casa tinha várias claraboias que permitiam a Celeste ver, em qualquer momento, a luz do dia, o luar ou a escuridão da noite. Se havia nuvens, distinguia a cor com que o céu se tingia ou carregava. Quando chovia, sentava-se muitas vezes a olhar os pingos de chuva a cair e a escorrer, ronceiros mas brilhantes, nos vidros transparentes e retangulares. Até as luzes incertas das noites de trovoada a fascinavam.
Com o tempo, foi-se ligando àquela casa como a uma pessoa amada ou a um cão estimado, cuja companhia não se dispensa. Quando lhe ocorriam estas associações, logo se lembrava do  Dunas - o velho labrador - que vivera com a família mais de dez anos, como se dela fizesse parte. Olhando as claraboias, estas e muitas outras recordações cintilavam como estrelas.
 A casa, para Celeste, era o seu teto, o seu abrigo, um caminho para atingir as estrelas, apesar de achar indispensável o convívio com a família e amigos.
 Havia noites em que, entre as estrelas, via a fugaz luz faiscante de um avião e era inevitável pensar em possíveis viagens para visitar os filhos e os netos: as suas estrelas. Seria difícil a deslocação, porque ficaria muito cara por ser enorme a distância.
Se continuasse a escrever, como pretendia, poderia imaginar que todos viviam mais próximos. Organizar as ideias e as palavras seria também um caminho para aceder a mais momentos felizes. Motivos para as suas histórias não faltavam. Tanta coisa acontecia em cada momento e a memória estava também tão preenchida. Era, de facto, urgente começar a escrever como pretendia. Tanto tinha desejado escrever mais e melhor e agora, que tinha mais tempo livre, ia adiando o seu projeto. Os filhos e os netos faziam-lhe falta, mesmo para escrever.
Num fim de tarde de início de dezembro, sentou-se no cantinho habitual do sofá e, olhando o céu escuro e invernoso, lembrou-se de que em breve o Natal chegaria. Sempre o tinha passado em família. Uma família grande e calorosa. Passavam tempos em que não se encontravam, mas todos sabiam que podiam contar uns com os outros. Pena sentia de não ter a companhia aconchegante dos filhos e dos netos que este ano haviam decidido não vir a Portugal, dizendo que, possivelmente, em breve se encontrariam.  Celeste interrogava-se: Em breve? Mas quando? Como? Onde?
No dia de Natal, apesar da diferença horária, falariam pelo Skype. Não era a mesma coisa, mas já era alguma coisa. Habituara-se, com o avançar dos anos, a não exigir mais do que a vida lhe ia dando. E já era tanto!
De facto, depois de algumas perdas muito importantes e da mudança para a casa das claraboias, tendo-se despojado de muita coisa que não considerava essencial, aprendera a relativizar os problemas e a gostar de ver bocadinhos de céu em vez de pretender abarcar o Céu por inteiro.
Os filhos e os netos iam dando notícias quase diariamente pelo Skype ou pelo WhatsApp; estavam bem, o que lhe dava consolo. A avaliar pelas imagens e palavras recebidas, todos pareciam saudáveis e felizes. Via que se olhavam amorosamente, que sorriam uns para os outros, que trocavam palavras de carinho e apreço. Que mais poderia desejar como presente de Natal?
Educara os filhos para serem cidadãos  honestos, responsáveis e respeitadores do outro - fosse ele pessoa ou elemento da Natureza. E tinham excedido em muito o que lhes ensinara. Não teria a sua presença neste Natal, mas estaria com a restante família à qual estava profundamente ligada. E pensava para si que os filhos e os netos nunca deixavam de estar com ela.
Na véspera de Natal à noite, depois de arrumadas as travessas do bacalhau com batatas e hortaliças - tudo viera para a mesa a fumegar ; os pratos de aletria, de rabanadas - adoçantes do ar e dos sentidos; os sacos abertos das prendas - que eram feitas cada vez mais por cada um a pensar em cada um, regressou a casa. O familiar convívio natalício e festivo enchia-lhe a alma, mas voltar a casa era sempre regressar ao seu pequeno paraíso, como a um prolongado, sereno e amado abraço.
Antes de se deitar, sentou-se no seu lugar preferido do sofá, olhando, mais uma vez, a claraboia do teto da sala. Viu, então, um avião que deixava um lastro reluzente. Parecia viajar entre as estrelas.
De repente, acendeu a luz, leu e releu as mensagens que, no momento, estava a receber pelo WhatsApp. Ajeitou os óculos e voltou atrás para confirmar o que lia. Queria ter a certeza dos presentes que estava a receber.
Cada um dos filhos oferecia-lhe uma viagem, para breve, ao país para onde tinham emigrado. Celeste poderia, assim, abraçar os filhos e os netos, passar com eles algum tempo e conhecer melhor a região.
Respirou fundo, olhou a claraboia e o céu, que sempre lhe aparecia aos bocadinhos, naquela noite desenhava-se como inteiro.
Entretanto, olhou para o computador dizendo, decidida e confiante,  para si: não me vou deitar sem começar a escrever uma das histórias que andam na minha cabeça há tanto tempo.
Seriam um presente para os netos.  Pô-las-ia em forma de livrinho, em papel claro e luzidio, e juntar-lhes-ia imagens que aumentassem o brilho das palavras. Poderiam lê-las em conjunto.
Olhando o céu através das claraboias e imaginando as próximas viagens para rever os filhos e os netos, logo lhe surgiu um título para a primeira história: "Janelas para as minhas estrelas".

Maria Dolores Garrido
In Lugares e Palavras de Natal
Editora Lugar da Palavra

Museu Mineiro de S. Pedro da Cova: Vale a pena uma visita!




2016 - Um ano de muitas perdas. Felizmente ficaram obras!

sábado, 3 de dezembro de 2016

Paris, je t'aime!


"Odeio!", "Teadoro"...

Ontem, fui a uma loja de roupa e ouvi uma das palavras que é muito recorrente, sobretudo entre os jovens, em relação a qualquer peça, ou cor, ou modelo de que não se gosta: "odeio".
Claro que não é para levar à letra, mas acho bizarro este verbo usado neste contexto..
Cliquei num dicionário eletrónico e encontrei sobre o verbo "odiar":
"transitivo direto e pronominal
sentir aversão por (algo, alguém, a si próprio ou um ao outro); detestar(-se), abominar(-se)."
Ora, não gostar de uma cor - como era o caso - não implicaria sentimento tão extremo.
Porém, eu era incapaz de comprar um casaco amarelo-canário, verde-alface, rosa-choque...
Poderia dizer que odeio e poupava palavras porque digo: sou incapaz de usar essas cores, não me vejo com essas cores...
Por outro lado, odeio cenários de guerra que destroem vidas e a vida de muitos seres humanos; odeio o desrespeito pelos mais frágeis, neles cabendo as crianças e os velhos; odeio a destruição voluntária de bens que pertencem à história da Humanidade; odeio os maus tratos domésticos, como se houvesse donos e vassalos; odeio a ambição desmedida dos que empurram, com um sorriso e pancadinhas nas costas, os que não são hábeis e corruptos...
E talvez as jovens que disseram odiar já não sei que cor odeiem também tudo isto. E oxalá que sim.
E, quem sabe, talvez gostem - ou melhor, amem, odorem, curtam, etc, alguns poetas.
Eu, por mim, gosto, amo, adoro, curto este poeta e este poema:

"Beijo pouco, falo menos ainda.

Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora"

Manuel Bandeira


Quem pode dizer que o(s) odeia?