terça-feira, 2 de março de 2021

Quadragésimo sétimo dia

 

Diário à espera de melhores dias


Nota 1. Os novelos que tinha em casa tinham chegado ao fim. Talvez a minha mãe tivesse alguns restinhos nas sacas intermináveis onde guarda tudo que, um dia, pode dar jeito. Logo que pude, comecei a desatar os nós das sacas, procurei, procurei mas só 

via lãs e fazer malha nunca foi o meu forte. Precisava era de novelos de linha, para fazer crochet ao sabor da vontade, do tempo disponível e da imaginação. Perante aquele emaranhado de restinhos de lã, fitas, elásticos e tecidos, perdi a paciência e desisti, para mais uns sacos de papel já estavam quase a rasgar. Pronto, o melhor era ir ao supermercado. Fui ao Continente, porque há uns tempos tinha visto novelos na prateleira das agulhas, alfinetes, carrinhos de linhas... Quando entrei, dirigi-me logo lá. As linhas eram a minha prioridade. Oh, não havia novelos, o que foi confirmado por uma funcionária sempre em andamento. Regressei então a casa com pão, yogurtes, mas sem as desejadas linhas para continuar o trabalho de mãos já começado. Sim, os novelos, uns simples novelos, faziam-me falta. E foi quando me lembrei da senhora que faz bordados, rendas e também vende linhas. E se lhe ligasse? E se lhe pedisse que me vendesse as linhas? O pior era se alguém via e fazia queixa dela. Coitada, ainda era multada por minha causa. Não, o melhor era não ligar e esquecer as linhas, mas que me faziam falta lá isso faziam. Não imaginava era ouvir da minha mãe no dia seguinte:  Olha os novelos de linha que estavam caídos junto às sacas!


Nota 2. Gosto imenso de retrosarias. Com novelos e linhas de todas as cores, botões de todas as formas e feitios, fitas, galões... Na rua das Flores, no Porto, há uma retrosaria e, sempre que lá passava - falo no passado porque há um ano que não passo lá - paro sempre para ver a harmonia da montra e da loja, com muitas coisas, se calhar inúteis e desnecessárias, mas que regalam os olhos. Ah, e há também tecidos de todos os desenhos e espessuras para trabalhos de patchwork. É um lugar que quero revisitar quando houver desconfinamento. E se a manhã ou a tarde estiver fria, há um pouco mais acima um pequeno espaço  com esplanada onde o chocolate quente é de regalar a alma.


Nota 3. 'O piano', de Jane Campion, é um filme de que gosto imenso. A história, as  paisagens, a música tornam aquele trabalho encantatório. Recordo-me da casa da protagonista, situada, julgo, na Nova Zelândia, onde não faltam linhas de múltiplas cores, como num quarto de costura da minha infância. Claro que no filme há outros fios violentos, mas, felizmente, vence a coragem, o entendimento e o amor que vão tecer uma nova vida.


Nota 4. E partilho um excerto da música e do filme.

13 comentários:

  1. Ora muito bem. Mais uma interessante publicação que, gostei de ler! :)

    *
    Seduzida pela leveza do horizonte
    *
    Beijo e um maravilhoso dia.

    ResponderEliminar
  2. Também gosto bastante do filme. É muito irreal, mas trata de problemas humanos e comuns. Pessoalmente gosto dele por essa dimensão de irrealidade, um piano posto no meio de uma praia, uma mulher que casou sem saber com quem e já com uma filha, mas que tem um piano e se senta a tocar em vez de procurar a casa ou se atormentar por estar ali sozinha com a criança e um piano aberto a encher-se de humidade. Não. Ela toca. Sonha talvez com o que não vai encontrar. O realizador dá-nos a dimensão da expectativa e, logo de início, do desacerto que virá.
    Também gosto de retrosarias e sou como sua mãe, tenho caixinhas e sacos de tudo, elásticos, botões, fios, fitas de bainha, fitas de debrum, alfinetes, agulhas, sei lá bem. E muitos, muitos novelos de tricot (outra semelhança com sua mãe). Se entro em retrosarias, apetece-me comprar uma infinidade de coisas, o que não é razoável, algumas nem sei para que servem. Havia uma rua em Lisboa onde as retrosarias proliferavam. Sobra uma ou duas, as outras são lojas de souvenirs pirosos, tenho até vergonha que os estrangeiros levem aquilo para outro país.
    E como o comment já vai longo, Boa tarde, Maria:)

    ResponderEliminar
  3. Obrigada, Bea. O comment foi longo, mas saboroso como sempre.
    Nunca tinha pensado nessa dimensão irreal do filme, porque via aquela mulher ao piano na praia por um desejo de tocar que ela já não controlava. Mas, de facto, ninguém toca piano num sítio tão húmido sem que fique desafinado!
    No Porto, também havia mais retrosarias do que há agora, muitas passaram a ser lojas iguais, com produtos iguais e muitos galos de Barcelos em azulejos também iguais. Até o mercado do Bolhão, que era um sítio emblemático e que está em obras há muito tempo, antes de fechar, estava invadido pelos souvenirs para os turistas.
    Bom fim de tarde, Bea.

    ResponderEliminar
  4. Sou como a Bea: se entro numa retrosaria saio de lá carregada de coisas inúteis para "usar mais tarde". Linhas de crochet ou lãs, agulhas, bocadinhos de tecido...eu tenho sempre um objectivo para as coisas, só que vou amontoando para quando tiver tempo! Também tenho sacos com lãs, linhas, frascos com botões, agulhas...montes de tralha, também para os meus trabalhos manuais, que não faço por falta de tempo.
    Mas já fiz muita coisa, quando tinha tempo. Colchas, toalhas, paninhos, camisolas...mas agora há mais de dez anos que não faço praticamente nada. E cada ano que passa tenho mais trabalho e menos agilidade, portanto menos tempo e o que me sobra, estou demasiado cansada.

    Por isso sonho tanto com a reforma!
    Tenho tantas coisas para fazer!

    Beijinhos:))

    ResponderEliminar
  5. Olá, Isabel! Eu também gosto muito dessas coisas. Não vou tanto para as lãs, porque acho que não tenho jeito. Eu também tenho várias coisas grandes feitas por mim. As toalhas ainda as uso de vez em quando, mas uma colcha está guardada e dificilmente a usarei, porque gosto de coisas mais práticas. Há muito tempo que faço coisas mais pequeninas em crochet e, habitualmente, ofereço. Mas sabe-me muito bem fazer, sobretudo, quando estou a ver ou a ouvir algum programa que me interessa.
    Quanto à reforma, Isabel, não tenha pressa, e, apesar de todas as canseiras atuais, vá desfrutando das coisas boas. A reforma tem vantagens, mas também tem inconvenientes, como verá mais tarde.
    Um beijinho e um dia com momentos muito bons.

    ResponderEliminar
  6. Olá Maria, fiquei muito instigado e curioso com a situação no novelo, e da multa. Andar pelas ruas de Portugal gera multa? Ela não poderia te entregar pela janela ou deixa rno portão e você o pegar lá?

    Abraço do Brasil.

    Obs. algumas coisas tenho comprado pela internet, quando não há a dispor nas lojas.

    ResponderEliminar
  7. Olá, Calebe. Eu referia-me às lojas. Estão todas fechadas, exceto supermercados, mercearias, de venda de plantas ou de flores, de comida para animais e pouco mais.
    Ora, se lhe pedisse para abrir a loja, alguém podia fazer queixa e a vendedora tinha de pagar multa.
    Mas, sobretudo, em dias em que não se pode circular entre concelhos, os condutores dos carros têm de justificar aonde vão. E, felizmente, e para já, os casos aqui estão a baixar bastante.
    Um abraço, Calebe

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Maria,

      De fato, compreendo bem o posicionamento correto de Portugal no combate ao coronavírus, Brasil deveria aprender com vocês.
      Outrossim, não teria como ter entrega a domicílio ou drive-thru? Assim não há acesso ao estabelecimento.

      Abraço,
      Tudo de bom e bom find ;)

      Eliminar
  8. Olá, Calebe, mas Portugal é muito pequeno em relação ao Brasil. Aqui talvez seja fácil, também por isso. Mesmo assim, nem toda a gente cumpre as regras de confinamento, mas a maior parte sim. Talvez por isso, a situação está a melhorar e em breve as escolas devem abrir.
    Um abraço, Calebe

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Maria,
      Apesar do tamanho, as populações são concentradas o e governo consegue gerir super bem, o problema está nos gestores.
      Recentemente vivemos casos de febre amarela, Gripe A H1N1, Dengue, ... e em todos os casos, houve resposta enfática. Mas, era o tempo em que confiava na ciência.
      Todavia, o tempo passa... e espero estar vivo até lá hehe
      Abraço :D

      Eliminar
  9. Pois, eu nem queria falar dos governantes, mas concordo plenamente consigo. Basta ver como Trump influenciou e alterou para muito pior o mundo, desvalorizando a ciência.
    Sim, mantenha-se bem vivo e não perdendo a boa disposição.
    Um abraço, Calebe

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Assim também o desejo, ainda mais agora podendo me adentrar ao mestrado, algo que desejo muito :D
      Abraço

      Eliminar