domingo, 3 de maio de 2026
sexta-feira, 1 de maio de 2026
Meu querido mês de Maio!
Hoje, é o teu primeiro Dia e, por isso, é feriado! Levantei-me cedo, como acontece regularmente. Talvez não fosse necessário, mas, para mim, é e é bom. Assim, o dia rende mais e posso fazer as boas e preguiçosas pausas da hora do almoço e do fim de tarde. Ai que prazer sentar-me no sofá, ver as notícias, pensar, ler, crochetar, não fazer nada...
Gosto de ti, mês de Maio. Vens, logo no teu primeiro Dia, ativo e reivindicativo para que os deveres e direitos de todos não sejam esquecidos. És festejado nas ruas, com muitas bandeiras, muitos slogans de alerta, muitas vozes que se querem fazer ouvir. Sabes, lembro-me muito bem do Primeiro Dia em que foste festejado em Portugal e em Liberdade. Ainda moram nos meus olhos as multidões em praças e ruas. A alegria e deslumbramento eram tão grandes!
Quando nasces, Maio, sobretudo nas aldeias, muitas vezes apercebes-te do perfume e das cores das maias em muitas portas e janelas. É bonito serem flores a proteger do mal, segundo a tradição. Porém, ontem não as pus, porque são difíceis de encontrar ou de apanhar. Escasseiam quando antigamente eram abundantes. E o ritual era engraçado: ir ao monte apanhar um raminho das giestas de flor amarela. Também cresciam e floriam à beira das ruas ou caminhos. Como agora são poucas, há quem as junte, criativamente, a outras flores. Como mostram estas fotos amigas que recebi.
Maio, o que nos trarás? São tantas as incertezas. São tantas as imprevisibilidades. São tantas as reviravoltas e ganâncias de quem governa o mundo que o mundo até entontece.
Quando eu era pequena, tinha medo de ti, Maio, por causa das trovoadas frequentes e previsíveis que te acompanhavam. Nesse tempo, o melhor boletim meteorológico era o meu avô. Olhava para o céu e acertava sempre. Hoje, já não seria bem assim, porque muitas tempestades chegam violentas e revolvem, de repente, os locais onde desabam. Tal como as guerras, atingem pessoas e espaços inocentes, sem dó nem piedade.
Meu querido mês de Maio, fico-me por aqui;
Vê se abrandas o sofrimento
que aumenta em cada momento.
Podemos confiar em ti?
quarta-feira, 29 de abril de 2026
Manhã
segunda-feira, 27 de abril de 2026
Na 'minha cidade com mar ao fundo'!
Ontem, fui à 'minha cidade com mar ao fundo' - Espinho. Cheguei pela hora da abertura das lojas. Depois de um cafezinho, estava na rua 19. Uma das primeiras lojas aonde entrei foi a bonita Bertrand. Eu tinha uns livros em mente e um vale ainda do Natal que queria descontar.
Entrei e parei a ver os livros mais em evidência, aqueles que à entrada estão dispostos de modo a chamar logo a atenção. Um deles era de um apresentador da tvi. E outros que devem vender bem. Muito bem. E veio-me à cabeça a frase que agora muita gente diz: 'Toda a gente escreve livros'. E, se são figuras mediáticas, os livros vendem-se. E muitos. E se as editoras têm dinheiro para a publicidade, ainda se vendem mais. Muito mais.
Se calhar, alguém diz a mesma frase quando, modestamente, publico os meus livros. Já agora, estou a trabalhar numa história para crianças que gostaria de publicar ainda este ano e que está a ser ilustrada. Só que, como tanta gente que gosta de escrever, sou desconhecida, anónima e as editoras, que aceitam publicar, têm poucos recursos e são pequenas. Só é grande o prazer de escrever, ver ilustrado e concluído um livro, feito honestamente, com amor, com criatividade, que, de uma forma ou outra, também anda por aí.
Pois bem, os livros que eu queria comprar eram da Capicua e cuja coleção, julgo, tem o titulo 'Mão Verde'. Ao balcão, estavam duas jovens, simpáticas e educadas, que me informaram que, pelo menos, um desses livros só estava à venda online. Perguntei por outros livros de Capicua, também para crianças. Para além de ser muito talentosa e escrever muito bem, ela aborda temas importantes do dia a dia, como de ligação à natureza. Também compõe músicas muito bonitas e motivadoras para as crianças.
Uma das jovens pesquisou livros da autora no computador e foi buscá-los a outro espaço que não estava acessível ao público. E pensei o óbvio: há autores e livros muito bons que não estão visíveis nas livrarias. E é pena. Muita pena. Os leitores ficavam a ganhar.
Portanto, o que está logo à frente dos olhos de quem entra nas livrarias são muitas vezes livros que rendem muito dinheiro: à livraria, aos editores, a quem os escreve.
Não costumo interessar-me por esses livros e acho que o farei cada vez menos.
sábado, 25 de abril de 2026
sexta-feira, 24 de abril de 2026
Outras coisas de que me lembro
Na Faculdade, sobretudo no primeiro ano, naquelas aulas em que o discurso do professor era difícil de entender, eu sentia que gostava de saber muito mais. E, já que estou a abrir a caixa das fragilidades, eu sentia a falta de não ter ido estudar logo a seguir à escola primária. E a principal razão de não ter ido foi ser menina, ter de aprender a fazer tudo o que era próprio de meninas, como trabalhos domésticos, família, coser, bordar... O resto era conversa ociosa ou coisas de ricos.
Eram comuns outros casos semelhantes. E, muito pior ainda, eram as crianças que, pelos dez anos, começavam a trabalhar no duro para ajudar a família. E eram imensas. E andavam muitas vezes com fome e descalças.
Na altura da quarta classe, a minha professora insistiu, até onde pôde, para eu continuar a estudar, mas não foi bem sucedida. Talvez essa atitude da professora tenha sido um dos principais motores para eu retomar os estudos na adolescência, vendo, na prática, que o esforço e as energias despendidas eram bem maiores do que se tudo fosse feito no tempo certo.
O ensino obrigatório para todos é das melhores conquistas de Abril. Pesem ainda as dificuldades de muitos alunos na conclusão do secundário, no acesso e na continuação no ensino universitário.
Ora, na Faculdade, quando eu podia, passava algum tempo a ler ou a estudar na biblioteca. E via, com alguma frequência, entrar, de repente, alguns alunos como se viessem a fugir, sentarem-se de repente em lugares vagos e dispersos, fingindo de imediato que estavam a estudar. Tudo isto era feito em clima de silêncio e de medo.
Sem demora, entravam uns sujeitos corpulentos e, sem alarde, dirigiam-se aos alunos recém-chegados. Em surdina prepotente, saíam com eles para serem interrogados pela pide, que não suportava opiniões nem palavras, nem gestos contra o regime.
Também em intervalos das aulas, ou quando havia mais alunos a circular pelos corredores, misturavam-se os ‘bufos’, também corpulentos e de olhos que apontavam em todas as direções. Ouviam as conversas para poderem acusar os mais subversivos, que tinham a coragem de agir ou falar em prol da Liberdade.
Por estas e por outras, faz doer ouvir o partido que, na Assembleia da República e não só, mente, engana, manipula, insulta, discrimina, desrespeita, diz tudo o que lhe dá jeito ou lhe ocorre no momento, dizer que antigamente é que era bom. Coitados, falam, falam, mas não sabem do que falam.
E o dirigente desse partido chama os jornalistas para o verem na missa, a comungar, a ajoelhar-se, a benzer-se ... E diz-se ungido por Deus!
Até (me) faz bufar. De raiva!
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Coisas de que me lembro!
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| Imagem publicada hoje no Expresso Curto |
No Dia 25 de Abril de 1974, eu estava no primeiro ano da faculdade de Letras do Porto, no curso de Românicas. A turma era grande e quase toda no feminino. Encantavam-me algumas aulas e noutras sentia-me como um peixinho muito pequeno e desajeitado fora de água.
Lembro-me de uma professora ainda jovem que levava as aulas muito estruturadas, quase ditava os apontamentos, num misto de aluna e professora, mas que motivava para o estudo atento e para a leitura.
Uma outra professora dava as aulas de pé, encostava-se muitas vezes ao quadro e fumava cigarro atrás de cigarro. Na aula havia silêncio e o que ela ensinava tornava-se encantatório.
Recordo outro professor que levou aulas e aulas com a análise das primeiras linhas de um livro do século XVI, estabelecendo relações infindáveis com outras obras e saberes da época. Havia quem quase adormecesse naquela aula em que o professor falava sempre olhando os papéis e quase nunca os alunos.
Outro professor, muito jovem e de barbas, comunicava bem melhor e parecia divertido com alguns conteúdos que transmitia.
Impossível esquecer também um outro professor, em início de carreira, que usava uma linguagem tão hermética que a grande parte de nós não entendia nada. Ele expunha os seus saberes, sem, aparentemente, a preocupação de se fazer entender. De vez em quando, circulavam papelinhos secretos, contra o modo fechado como o professor conduzia a aula. Ninguém tinha coragem de reagir em volta aita.
Era de História de Portugal um outro professor também muito jovem. Esse ia respondendo a questões. Durante o diálogo que estabelecia com os alunos, olhava de vez em quando para a porta, parecendo receoso de estar a cometer uma infração, respondendo a dúvidas. E um dia, num desses momentos de interação, a porta abre-se, entra o reitor, o professor fica corado, cessam as questões e a aula fica mais triste.
Se tiverem tempo e paciência, amanhã continuo, porque há outras coisas de que me lembro.
terça-feira, 21 de abril de 2026
Dai-nos, Senhor, palavras bonitas em cada dia!
Ontem já tinha falado do prazer de ouvir (e também tecer) um elogio - que não soe a falso nem a interesseiro, é claro.
Hoje volto ao assunto, porque cada vez mais vejo a importância de dizer e ouvir boas palavras, como um elogio, um agradecimento...
Pode ser também um olhar, um sorriso, um aceno, um obrigada, um momento de atenção, uma palavra dita com carinho...
Muitas vezes, vamos a conduzir, damos passagem, e o outro condutor passa indiferente como se nada se tivesse passado.
Também abrir a porta a alguém para deixar passar ou segurar uns momentos na porta fica muitas vezes sem um obrigado. Quem o faz parece que nem repara na outra pessoa. Como se andássemos demasiado esquecidos ou distraídos. Ou sós no mundo.
Por isso, aqui juntei algumas palavras, em jeito de pequena oração (e que maltratada anda a católica religião!):
Dai-nos, Senhor, palavras boas em cada dia
Porque sem elas não há alegria.
Podem ser de elogio, de agradecimento,
ou de simples e humano reconhecimento.
Ou então em forma de sorriso;
o mundo anda triste e violento
fazendo pensar que não há siso.
Quando se vê algo bonito e bom
que nos aquece o coração,
Por que não elogiar?
E 'se Deus nos deu voz'
por que não boas palavras usar?
Dêmos e recebamos, Senhor, boas palavras em cada dia
que para a alma são alimento,
como para o corpo o pão é sustento.
Precisamos de muita força para dizer não à tirania!
domingo, 19 de abril de 2026
Domingo com ramos de árvore floridos e com bola também
Há muitos anos, tive uma amiga que me disse uma coisa que não esqueci: 'Escreve, enquanto as árvores estão floridas'.
Há dias, um amigo incentivou-me a escrever, dizendo gostar do que escrevo.
Não sei se é problema de geração, mas fico sem jeito perante os elogios, embora me saibam bem. A quem não sabem? Quem não gosta de mimos que julga serem verdadeiros? E as palavras são dos mimos melhores que existem.
Porém, a moda atual não é elogiar os outros, mas enaltecer o ego, evidenciando virtudes próprias e marcando defeitos dos outros.
Hoje é domingo, estou em casa e está bom tempo. Olhei as rosas amarelas dos canteiros, fui ao quintal com a velha Castanha ao meu lado e voltei para dentro com vontade de abrir o computador.
É que ver árvores floridas no meu quintal e saber que alguém pode gostar das minhas palavras são um bom estímulo para me sentar a escrever.
Mas devo dizer uma coisa: também o faço por algum egoísmo. É que se não escrevesse, por pouco que seja, teria menos alegria ao ver as árvores floridas e ao ouvir palavras bonitas que dão prazer. Apetece-me dizer: 'Escrever faz (-me) bem!
Bom fim de tarde deste domingo de sol!
E, como hoje jogam os grandes da bola, desejo que a vossa vitória vos saiba bem.
Para mim, vitória vitória terá/teria de ser azul. Será?
quarta-feira, 15 de abril de 2026
Tocar piano sem falar francês!
Ontem fui à Casa da Música, no Porto, assistir a um concerto de piano. Durou 2 h, com intervalo. A primeira parte foi preenchida com o 'Requiem' de Mozart; a segunda, com a 'Sinfonia Fantástica' de Berlioz.
Nos dias que correm, podemos interrogar-nos sobre se dá prazer ouvir um pianista em palco - no qual apenas existe um piano - durante duas longas horas
Pois bem, apesar de nada versada em piano, gostei. Gostei muito. E gostei também do ambiente durante o espetáculo: do silêncio por parte do público, de não se ouvir nenhum telemóvel, de nenhuma foto ser tirada, de quase não existirem tosses...
Fiquei com vontade de lá voltar em breve, sobretudo em concertos de fim de tarde, porque cada vez sou menos notívaga. Da beleza tranquila e inspiradora gosto cada vez mais.
O pianista era Vadym Kholodenko, um músico muito premiado e ainda jovem da Ucrânia.
Durante o concerto, iam-me passando coisas pela cabeça, como conversas que vou tendo com a minha neta. Ela aprende piano, mas sem paixão. Eu digo-lhe às vezes: 'Quem me dera tocar piano'. Ela, então, responde na sua graciosa inocência: 'Avó, se quiseres, eu ensino-te'. Pois, tal como a grande maioria das pessoas da minha geração, não tive a possibilidade de 'tocar piano e falar francês'. Fiquei-me pela língua, o que foi muito bom.
O mundo atual está globalizado. Ontem, viam-se muitos estrangeiros na Casa da Música. Todos unidos e atraídos pela linguagem universal da Música. E nos rostos havia sossego e alegria, o que também (me) tocou.
quarta-feira, 8 de abril de 2026
O café
Talvez por ainda ter na boca o gostinho bom do café do pequeno almoço, lembrei-me de algumas situações em que tomar café entra em ação.
É que 'tomar café' pode dar para tudo e mais alguma coisa. Por exemplo, dizer 'vamos tomar café' pode ser conversar, conviver, estar com alguém, sem sequer o café vir para a mesa.
Também o convite 'anda tomar café comigo em minha casa' pode significar uma boa e partilhada amizade ou até mais intimidade.
Mas o que desarma qualquer um é quando surge o convite 'Vamos tomar café' e a resposta é: 'Eu não tomo café'. É como se a mesa ficasse vazia ou aquecêssemos as mãos em chávena quentinha de café e, de repente, ficasse gelada.
Esta semana, fui ao cinema com amigas. Depois, fomos 'tomar café', sem vir sequer café para a mesa, apesar de sermos todas - acho eu - apreciadoras.
E eu ia pensando como é bom ter pessoas amigas com quem 'tomar café', em dias em que o tempo tantas vezes escasseia para os outros, em dias em que não nos saem da cabeça governantes que maltratam o mundo, que passam a vida a vangloriar-se a si próprios, a culpabilizar e a responsabilizar apenas os outros...
O que vale é que o prazer de coisas boas e simples como 'tomar café' em casa ou com pessoas amigas ninguém nos pode tirar.
Muitas pessoas já não o podem fazer.
segunda-feira, 6 de abril de 2026
E depois da Páscoa
Aberto o computador, e também as portadas para entrar a luz da manhã, olho os retratos das minhas filhas ainda adolescentes - feitos há muito tempo em viagem feliz a Paris -, o quadro pintado por uma colega e amiga pintora, um ovo de loiça com ovinhos da Páscoa, um saquinho de amêndoas que não foi aberto...
E escrevo sobre estes dias de Páscoa. Ter tempo traz também alguma doçura. Diferente mas igualmente boa como a que vamos ingerindo por estes dias. Apesar dos exageros que gostaria de recusar. Conseguirei cumprir algumas promessas que faço a mim própria? Vou ver se é desta. O que vale é que tenho ido ao ginásio e tenho feito yoga. Mas não basta, Maria, digo para mim própria, com calma e sem obsessões.
Ontem, domingo de Páscoa, recebi a visita pascal em casa. Não sabia a hora da vinda do compasso, mas ouvi o som da campainha festiva que o anunciava na rua. Como agora muita gente não está em casa ou não tem vontade de abrir a porta nesse dia, quase tive de ir chamar o grupo para que entrasse.
Por coincidência, um afilhado meu estava cá em casa e recebêmo-lo em conjunto. E lemos a oração, e rezámos o Pai-Nosso, e recordámos brevemente tempos passados de escola, onde eu então trabalhava, e que um dos elementos frequentava, e desejámos Boa Páscoa uns aos outros...
E gostei de ver a diversidade do grupo: pessoas de Gondomar, mas também brasileiros e de África, juntos num propósito de comunicar alegremente e afirmar valores em que acreditam.
Enquanto isto, Trump ia mostrando a sua ira ao Irão, país que também é conhecido pela sua ira. O presidente americano, usando insultos, fez mais um ultimatum que, como tantos outros, seria alterado. E, assim, a ira vai aumentando, perante o silêncio forçado e sofrido de tantos inocentes. E mortes. Muitas mortes. E muita destruição.
E, poucas horas antes, o homem que se julga senhor do mundo - ou, melhor, do seu petróleo - falava de Deus e de ser capaz de vencer o mal!
Hoje é segunda-feira de Páscoa, um dia (quase) normal de trabalho. E mais um dia de guerra, como, infelizmente, se vai tornando normal.
Porém, ser um pequeno grupo de homens, megalómanos, de loucura e ambição desmedidas a provocar tantos danos no mundo, isso é que não é normal.
Bons dias de Páscoa, enquanto for possível!
terça-feira, 31 de março de 2026
quinta-feira, 26 de março de 2026
Abertura
Hoje, a minha cadela - a Castanha - foi vista pela veterinária. Apesar de ter sido sempre bastante saudável, tem alguns problemas de articulações, justificados pela idade. Nasceu em 2011, portanto já tem 15 anos.
Agora, que abri o computador, lembrei-me do texto que há pouco escrevi, para a coletânea proximidades (2025) sobre ela. Partilho-o agora.
Foi adotada depois de
recolhida, muito pequenina, fora de um portão tapado e fechado, numa rua de aldeia de
pouco movimento. Parecia ter caído, assustada, de uma árvore qualquer e ficado ali
muito quieta, com medo de ser calcada ou absorvida pela terra. Não tinha chip,
ninguém a conhecia, ninguém a procurou, estava com fome e tremia de medo.
Chegando a nossa casa, trazida pelo filho de uma amiga, que nome escolher para
ela? Olhando para a cor e tamanho daquela cadelinha, quase recém-nascida e que
lembrava uma castanhinha, logo surgiu: Castanha.
A Castanha cresceu, mas nunca
gostou de estar só.
Nos tempos de suposta
solidão, a Castanha arrasta o tapete, aninha-se sobre ele, junto ao portão de
grades, e ali fica à espera que alguém passe na rua, ou entre, ou comunique com
ela. Faz lembrar pessoas à janela, que se querem abrir aos outros e não ficar na
sua casca fria de fruto frágil e só.
É que há muitas janelas,
No sofá, prontas a abrir.
Mas por atuais sinais,
Melhor é olhar os demais,
Comunicar e sorrir!
sexta-feira, 20 de março de 2026
Arte
A arte tem tantas formas
a embelezar cada dia;
Trabalhá-la ou conhecê-la
É repartir alegria.
Proliferam os talentos
Em terras de Gondomar:
Artesãos e escritores,
Pintores e escultores,
E tantos a acrescentar.
Ler, escrever e contar
Foi arte que nos chamou.
E o trabalho de vida
inteira,
Em prata, ouro e madeira
Gondomar celebrizou.
Tantos modos de expressão
Nós podemos encontrar.
Parabéns a quem produz
ou na arte encontra luz
Para a vida celebrar!
In proximidades, Seda Publicações, 2025
quarta-feira, 18 de março de 2026
quarta-feira, 11 de março de 2026
Raisparta a solidão!
Ainda não há muitos anos, confesso que a palavra solidão me dizia bem menos do que me diz agora. Achava até ideia lamechas e com cheiro a queixume. Eu tinha tanto para fazer: a escola, a família, a casa, os livros que gostava de ler, os textos que queria escrever, que ouvir a palavra solidão soava a ociosidade.
A vida, porém, vai alertando, com perdas e ganhos, para essa injustiça de pensamento e fraco entendimento do mundo.
Só compreendemos melhor os outros quando passamos por situações semelhantes. Nada é pior do que a indiferença, tipo: não sei o que sentes nem me interessa saber, porque não sei o que isso é. Ou então, a minha dor é bem mais forte do que a tua - ainda que seja evidente que não é assim.
Tudo isto me veio à cabeça ao ouvir hoje uma de quatro irmãs que sempre viveram juntas, numa casa grande e antiga de que cuidavam como se fosse uma parte importante da família, porque nela todas tinham nascido e vivido. A casa tinha assistido a casamentos, a nascimentos, a alegrias, a tristezas, a doenças, a mortes...
Há dias, uma dessas quatro irmãs faleceu e as três que ficaram sentiram-se profundamente tristes e orfãs, quebrando-se o todo que todas formavam, com todo o amor que sempre repartiam e que era sagrado como Deus que adoravam e que estava presente em tudo o que faziam. Por elas e pelos outros.
E ela, uma das quatro irmãs, agora três, todas nascidas até aos anos cinquenta do século XX, mencionava a falta de ânimo atual e a solidão que via aumentar na casa e na família que chegaram a julgar eternas. No tempo em que todas as cadeiras da mesa estavam preenchidas e a palavra solidão ainda não tinha chegado.
E alarguei a ideia da solidão - que, de uma forma ou outra, toca a todos - a tantos homens e mulheres que não têm ninguém para conversar, para desabafar, para contar as peripécias do dia a dia; para dizer o que dói, como dói, porque dói...
E tantas pessoas vivem em aldeias isoladas, e outras tantas isoladas em apartamentos de cidades que muitos degraus ou elevadores avariados separam da rua, dos pequenos prazeres de tomar um café servido quente à mesa em dia gelado, de dizer bom dia, de trocar sorrisos, de ter companhia, de ser-se notado...
Tanta gente que não recebe um beijo, que não tem um abraço, que não ouve um elogio nem palavra carinhosa, que não vê um olhar meigo e calmo, que não sente outra mão na sua mão...
É tão mau quando isto acontece, quando tantos homens e mulheres vivem sós e são velhos. Alguns ficam sine die no hospital, apesar de terem alta, ou vivem num lar e as visitas são para os outros...
E, no entanto, têm sonhos, têm ideias, têm recordações, têm histórias para contar, veem-se ao espelho e a imagem esconde muito do que ainda sentem; não gostam de ser tratados como coisas feias e desajeitadas e paradas no tempo; vão calando as palavras de que se esquecem cada vez mais, sabendo-se cada vez mais sós e tantas vezes em s.o.s.
Raisparta a solidão!
segunda-feira, 9 de março de 2026
Quando o político vem, o pobre desconfia!
Hoje, o presidente da República eleito vai tomar posse. Votei nele e vou tentar ver pela televisão as cerimónias. Oxalá o Chega não chegue para estragar a festa, como tantas vezes gosta de fazer com muito ruído e aparato.
O presidente cessante, o homem dos afetos, dos abraços, das imprevisibilidades, das selfies, das matreirices, das palavras ditas a qualquer hora e a propósito de quase tudo, das dissoluções da assembleia, do imbróglio no 'caso das gémeas', das hérnias, dos gelados comidos com prazer, das viagens, das aulas dadas sem papel, das gaffes e momentos aproveitados por humoristas, do calor humano depois do gelo de Cavaco...
Tudo e mais alguma coisa, mas também o rei da empatia, da proximidade com os cidadãos, da prova de que os políticos não estão num pedestal, onde muitos se colocam, mesmo que a base estale de fragilidade e tenham sempre de se desviar para pôr os pés e não caírem.
Marcelo aparecia sempre sozinho, Seguro irá ter a companhia da mulher e dos filhos. E trocará muitos sorrisos. E será um homem feliz, porque os números não enganam: foi o presidente que teve mais votos. Mas, como homem consciente e sério que parece ser, também sabe que a vida no governo e no país não está fácil e a situação internacional está ainda mais difícil. Vai ter de dizer sim muitas vezes e não outras tantas. E sofrer as consequências das opções que tomar, sejam elas quais forem. Difícil, Tó Zé! Mas chegado aqui, há 'estrada para continuar'. Bora lá.
Dizem as notícias que a primeira visita oficial do novo presidente vai ser a uma aldeia do interior, onde mora uma dezena de pessoas e onde se instalou muita solidão e desamparo. Ontem, vi uma das habitantes dessa aldeia com um sorriso de sábia descrença nos políticos que a visitam, habituada a que está ao esquecimento ou a receber visitas e promessas de políticos apenas em campanhas eleitorais. Essa descrença é partilhada por muita gente, porque, infelizmente, são demasiados os casos de políticos que se servem em vez de servirem as pessoas e que falam, falam, falam, mas que, chegados ao podium do poder, se remetem ao silêncio.
O Seguro trará segurança e confiança ao país? Deus queira que sim. E que seja capaz de trabalhar para que haja menos solidão e desamparo em tantos setores da nossa sociedade.
A cerimónia já começou. Os trabalhos de Seguro também.
P.S. Senhor Professor Marcelo, apareça de vez em quando. O Tó Zé é fixe, mas o senhor também foi. Cada um à sua maneira, é claro.
domingo, 8 de março de 2026
Diferenças
No tempo em que muitas
crianças deixavam a escola depois da quarta classe, muitos afazeres logo os
esperavam, mesmo que bem gostassem de continuar a estudar. O abandono escolar
acontecia por falta de dinheiro na família, por preconceito, para ajudar no
trabalho dos pais...
Às meninas cabia sobretudo
o trabalho doméstico: cuidar da casa, dos irmãos, dos avós… Muitas dessas meninas
iam buscar água ao poço da aldeia, segurando vasilhas grandes nas suas mãos ainda
pequeninas. Iam e vinham em grupo feminino de diferentes idades e seguiam
conversas das mulheres que, tanto falavam alto, como baixavam a voz para segredarem
o que sabiam ou o que lhes ia na alma, como discutiam, como davam gargalhadas,
como insultavam, como ameaçavam…
Nas histórias que contavam,
entrava com frequência a figura do marido: «O meu homem…», nomeado muitas vezes
sem o eme final.
As meninas mais curiosas escutavam
as conversas, mas sem compreender muita coisa. Porém, quando as mulheres se
apercebiam que estavam a ser escutadas, desciam o olhar até elas – segurando com
mãos firmes o caneco da água que transportavam à cabeça – e murmuravam, como se
lançassem cartas para o futuro:
- Vós pra lá ides!
Algumas das meninas entreolhavam-se,
continuavam sem compreender, mudavam a vasilha da água para a outra mão e a
calçada parecia mais comprida, misteriosa e íngreme. De repente, o pensamento
recuava-lhes até ao seu tempo de escola, em que ocupavam as filas de trás, aonde
chegavam palavras pequeninas, enquanto frases mais longas e com futuro se
destinavam sobretudo às meninas das filas da frente.
Havia, contudo,
professoras com o dom de descobrir nas crianças vontade e capacidade para
continuar a estudar. Não queriam que as suas vidas fossem pela água abaixo.
Porém, tais palavras eram muitas vezes levadas pelo vento.
Oh! Não me venham dizer
que no tempo da outra senhora é que era bom!
sábado, 7 de março de 2026
Pedra
Na aldeia, as mulheres
usavam o cabelo comprido. Quase sempre preso durante toda a vida, tal como se
sentiam desde as horas cansadas e doloridas em que tomavam consciência de si.
Algumas – poucas – faziam
tranças antes de o enrolarem e prenderem atrás. Talvez as mais românticas, as
que liam livros e revistas com histórias de amor que as faziam suspirar. Ou as
que ouviam palavras que lhes adoçavam a vida e lhes davam confiança.
Porém, as que se só ouviam
falas bravias e agrestes penteavam-se como mais uma obrigação: como lavar a
roupa, como limpar a casa, como fazer a comida à hora certa, como ouvir todas
as culpas pelos males domésticos, como se abrir para o marido…
Um dia, uma dessas
mulheres estava a chorar, enquanto se penteava, sentada numa pedra fora de casa.
Gostava de cortar o cabelo, mas o marido não deixava, nem o pai o tinha nunca consentido.
Se o conseguisse, seria também um modo de banir de si palavras repisadas e sem
contraditório, como obediência e submissão.
Atualmente, a rua onde
viveram essas mulheres-Sansão está em ruínas. Algumas dessas mulheres, ao longo
da vida, viram as suas forças a decair, delas não ficando pedra sobre pedra.
Outras, enfrentando dureza antiga e petrificada, não deixaram de partir pedra para
evitar derrocadas.
terça-feira, 3 de março de 2026
Sim, foi feliz o sábado passado!
Boa tarde a todos! Em primeiro lugar
estou contente por revisitar a UNICEPE, aonde vinha com alguma frequência no
meu tempo de faculdade. A partir de agora, posso voltar com mais vontade.
Obrigada por esta oportunidade.
Agradeço também à Editora Novembro que a escolheu para apresentarmos a segunda edição deste nosso livro. Pela reedição e pelas palavras elogiosas ao livro, também o nosso agradecimento.
E obrigada, querida família, queridos
amigos, por terem vindo, o que nem sempre é fácil conseguir nos dias que
correm. Ou porque há outras coisas para fazer, ou porque o cansaço do dia a dia
é grande e apetece não ter programa, não cumprir horários ou, então, ficar em
casa ou a desfrutar do sol. Ou porque há compromissos agendados, ou se vive
longe, como são as razões de não ter cá as minhas duas filhas e os meus dois
netos. Tenho um deles e, tal como os primos que também estão cá, felizmente gostam
de livros, o que é uma janela aberta para muitas coisas boas da vida e uma
ajuda para acreditar no futuro.
Para mim, é um gosto muito grande ver-vos
todos aqui para a apresentação desta segunda edição do livro As fadas do Bosque
das Cores e das Estórias, história de que continuo a gostar muito,
desculpem a imodéstia, e cujas ilustrações da Cristina Pinto, sempre achei
maravilhosas pela alegria das cores, pelas personagens a que deu vida, pelos
cenários que recriou…
E desculpem ser juíza em causa
própria, mas alguns dos temas são cada vez mais importantes na nossa vida atual,
como o facto de as fadas não quererem viver fechadas apenas na sua cor.
E para ti, Cristina, um obrigada
muito especial pela tua amizade e pelo teu trabalho tão criterioso. Só por
curiosidade, e espero não estar a ser intrometida, na mesa de trabalho da
Cristina, juntamente com os materiais de desenho, de pintura, de recorte, etc
estava sempre a cópia da história, para ir aferindo pormenores.
Quando apresentámos a primeira
edição, ainda no tempo da pandemia, convidámos para a apresentação a Dra Idalina
Ferreira, querida colega e amiga, com quem muito se aprende, e que, nessa
altura, partilhou palavras sempre atentas, rigorosas, profundas e com graça, o
que também é muito bom. Obrigada, Idalina, por teres aceitado de novo o nosso convite.
Quando pus o cartaz/convite no meu
blogue, tive um comentário de alguém que me desejou um dia feliz para hoje. Uma
ideia muito simples, mas que me fez pensar na
importância de momentos como estes, em que, cada um à sua maneira, se aproxima da
arte e da beleza, seja pela escrita, pela leitura, pelos desenhos, pela edição
dos livros…
Já tivemos o prazer de
apresentar a 1ª edição do livro a algumas centenas de crianças do 1º ciclo, de agrupamentos
de Escolas de Valbom e das Antas, com sessões dinâmicas de leitura de uma
resenha da história, debate a propósito das ideias veiculadas no livro, seguido
de uma oficina de criação de uma floresta para a qual as crianças fizeram
personagens para a habitar, tendo, árvores e personagens, ficado a morar no
teto das bibliotecas. Foi muito prazeroso verificar, no terreno, as potencialidades
de trabalho que o livro proporciona junto dos alunos do 1º ciclo, do primeiro
ano ao quarto ano. O entusiasmo que se conseguiu provocar nos meninos, a
interação entre estes e nós durante o debate e, finalmente, a participação ativa
deles na criação de habitantes para a floresta, ultrapassou as nossas melhores
expectativas. Foram momentos muito bons, que nos encheram o coração, pela
adesão, entusiasmo e alegria demonstrados.
Só uma curiosidade! Entre os habitantes que as crianças desenharam e recortaram para habitar a floresta, havia animais e fadas, naturalmente. Um dia, um menino perguntou: posso desenhar um fadinho?
Também fizemos uma atividade, a propósito do livro, com um grupo de meninos, durante um dia, na Biblioteca Municipal de Gondomar, em que o resultado final foi a apresentação de um teatrinho de marionetas criadas por eles, apresentado às famílias e aos presentes na biblioteca.
Vamos tentar continuar a dinamizar mais momentos deste género em mais algumas escolas, para estimularmos a leitura, a imaginação e a criatividade.
E agora, podemos ler uns pequenos excertos do nosso livro. Espero que gostem.
Muito obrigada, mais uma vez, por terem vindo e que continuemos a encontrar-nos! Também através dos livros. Um abraço para todos.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
Convite - Todos serão bem-vindos
No próximo sábado, apresentaremos a segunda edição do livro As Fadas do Bosque das cores e das estórias. É às 16 horas, na Unicepe, no Porto. Se puderem, apareçam. Serão muito bem-vindos.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
Ontem, houve coisas fixes e outras mesmo nada!
Hoje, o 'Expresso Curto' diz que o povo mostrou que Seguro também é fixe, retomando o slogan de Mário Soares há quarenta anos, e votando nele em peso.
Ontem, dia de eleições presidenciais, o dia amanheceu sem chuva, sem vento, sem trovoada, sem granizo... Pelo menos aqui na minha zona nortenha. Oxalá tenha sido assim em todo o país. Foram umas tréguas muito boas quanto às tempestades e quanto às gritarias obsessivas de Ventura, que não se cansa de dizer, tipo Calimero, que todos se uniram para o tramar. Para além dos temas que repete até à exaustão.
Eu já tinha votado no domingo anterior e o dia foi normal, com a diferença de esperar pelas projeções eleitorais às oito da noite. Dei a sopa ao meu neto e, à hora prevista, estava eu de comando na mão para conhecer as previsões nos diferentes canais. Respirei de alívio. Ganharia Seguro e Ventura ficaria muito atrás. Isso foi o mais fixe daquela hora e daquele dia.
Nesses momentos, Ventura estava na missa, enquanto os jornalistas, fiéis às audiências, o esperavam bem junto à porta de madeira daquela 'casa de Deus' (como dizia a minha mãe) e onde estava o mediático ser humano - tantas vezes desumano - que separa pessoas, que cria ódios, que mente, que distorce a realidade, que engana... O que não é nada católico. E não me sai da cabeça esta contradição: exibir uma religião, como devotado seguidor, e praticar o contrário do que essa Igreja defende. Um espetáculo condenável, a meu ver, que também pode afastar ainda mais pessoas das igrejas - e muitas já estão quase vazias.
Muito positiva achei a mobilização de tanta gente para votar 'Pelo Seguro'. Poder-se-á dizer que muita gente votou não a favor de Seguro, mas contra Ventura. Se o fez, é porque viu mérito no homem que foi eleito Presidente da República. De facto, parece ser um homem decente, honesto, calmo, consciente dos problemas atuais... Dizem que não tem ideias. O melhor é ter poucas e boas do que ter muitas e não passarem do papel ou de promessas enganosas.
Tenho uma amiga que, ontem à noite, dizia 'Seguro é o meu Presidente'. Oxalá todos sintamos, com o tempo, que é o Presidente de todos os portugueses. E que fale o mais verdade possível. E que não desapareça quando a situação é grave, nem fale a toda a hora por tudo e por nada. E que não seja arrogante nem excessivamente vaidoso. E que peça desculpa quando necessário. E que não sirva sobretudo a si próprio e aos seus. E que não faça de conta que é super-homem que está acima dos demais. Isso seria muito fixe.
Ah, e quase na despedida, um beijinho ao Professor Marcelo, que tantos beijinhos e abracinhos distribuiu. Apetece-me dedicar-lhe, carinhosamente, uma canção: 'Com açúcar e com afeto'. Nunca tirei nenhuma selfie com ele, nem nunca tive vontade, embora no início até achasse piada, mas virou cansativo e, por isso, nada fixe.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
Laranjeira
Junto à casa da minha
infância, havia uma laranjeira antiga. Era muito alta e os ramos, exuberantes,
alargavam-se, dando fresca sombra em dias de sol. Vestindo as batinhas que a nossa
mãe costurava na sua máquina Singer, a minha irmã e eu ficávamos a brincar
longas horas debaixo da laranjeira. Era uma árvore tão alta que, se se olhasse
para cima, apenas se viam pássaros a esvoaçar de galho em galho. Estes, de tão
densos, nem deixavam ver o céu. As folhas secas iam caindo e eram engolidas
pela terra que abundava debaixo da laranjeira.
Ora, nessa altura, eu
tinha uma boneca de papelão – a minha preferida, se se pode dizer assim de um único
objeto que se tem. Era a minha boneca. Tinha as faces coradinhas e os olhos
azul escuro que não abriam nem fechavam, mas que pareciam olhar sempre para mim.
Só os bracinhos e as pernitas mexiam.
Um dia, enquanto brincava
sozinha debaixo da laranjeira, levantou-se um vento repentino, um relâmpago fez
garatujas no céu; logo a seguir um trovão rebentou e a chuva começou a cair. Rápida
e inesperada, era uma tempestade a faiscar e a estoirar no fim de tarde que
logo se fechou em noite.
Com medo, corri para
dentro de casa, deixando os brinquedos debaixo da laranjeira. Talvez ela os
protegesse e a minha mãe já estava a chamar.
Logo que acordei no dia
seguinte, fui a correr ver a minha boneca.
Incrédula, em vez de a reencontrar redondinha e inteira, deparei com pedaços
de papelão desbotados, amolecidos e quase desfeitos na lama. Descrente e desolada,
olhei para cima para ver se a densidade dos ramos e das folhas podia ou não ter
sido uma barreira protetora. No alto, como a bonança tinha voltado, os pássaros
esvoaçavam alegremente, como se nada tivesse acontecido. E que triste fiquei por
ver que não comungavam da minha dor ao deparar com a minha boneca já sem vida.
Tal como eu até àquele
dia, talvez os pássaros ainda não tivessem sentido o desgosto da primeira grande
perda.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
'Eu é que mando no meu coração'
Na viagem de carro de regresso da escola, o menino queixou-se à mãe:
- Os meninos da minha sala dizem que os meus desenhos são feios!
A mãe consolou-o, dizendo que gostava dos desenhos dele e de tanta coisa que ele faz, como as construções de legos e de outros jogos.
Mas o menino continuou:
- Dizem sempre que os meus desenhos são feios.
A viagem foi continuando e a conversa também, sempre à volta dos desenhos que a mãe dizia serem bonitos, mas que os coleguinhas do menino diziam serem feios.
Até que o menino concluiu:
- Eu gosto dos meus desenhos e eu é que mando no meu coração!
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
Os meus tios de Leiria
Chegaram do Brasil há uma meia dúzia de anos. Era difícil viver lá onde viviam, sobretudo porque várias vezes foram assaltados. Os filhos estavam bem, tinham o seu trabalho, as suas famílias e os seus amigos. Por isso, decidiram vir para Portugal. A idade já tinha avançado bastante, mas ainda teriam possibilidade de trabalhar e de viver mais em paz. Gostavam de Leiria, por isso foi o lugar escolhido para se instalarem. O ganha-pão seria uma pequena loja num centro comercial.
Nos primeiros tempos, foi difícil enfrentar a dureza de não terem clientes. Não eram conhecidos e sentiam até que o sotaque brasileiro criava uma certa desconfiança, que lhes custava vencer. Não perderam o ânimo, continuaram, foram ganhando confiança de clientes que iam aumentando. Sentiam-se felizes em Leiria, onde fizeram alguns amigos e aonde eram visitados de quando em vez pela família. Ah, e a arca congeladora estava cheiinha, para uns bons petiscos partilhados.
Na noite catastrófica da semana passada, acordaram sobressaltados, vendo a chaminé e telhas a voar como se fossem pedaços de papel. Era uma situação nunca vivida em mais de setenta anos de vida, nem cá nem na vida toda no Brasil. A casa, que é baixa e, talvez por isso, não completamente atingida velos ventos, ficou sem água, sem luz, sem ligações ao exterior. Como em todas as casas dos vizinhos que iam enfrentando o pesadelo como podiam. O barulho da queda de árvores próximas juntava-se à imensidão de estrondos de tantas coisas a cair desamparadas no chão.
Na manhã seguinte, incontactáveis, como milhares de pessoas em Leiria, foram arrumando os cacos. Como os vizinhos. Todos se iam entreajudando.
E as coisas congeladas da arca? - Perguntou uma familiar, numa intermitência de rede.
Estamos bem, não nos caiu nenhuma telha na cabeça, e isso é que mais importa, disseram eles.
Só não sabem é quando a vida vai recomeçar.
E o pior é que parece que ninguém sabe.
domingo, 1 de fevereiro de 2026
Já fui votar
Gostava de ser, mas não sou muito de antecipações. Porém, desta vez, optei pelo voto antecipado. Não vá o diabo tecê-las e haver qualquer imprevisto que me impeça de ir votar na próxima semana.
Cheguei à escola, onde votei, antes das nove horas. Muito perto do portão, uma pequena instalação com plantas em garrafas de plástico, lembrando a necessidade de reciclagem e reutilização, para proteção da natureza.
À entrada, estavam dois seguranças e um homem para ajudar na consulta do painel e que, quando saí, me desejou, gentilmente, um bom domingo. A minha mesa seria a três, mesa onde estavam concentradas muitas Marias. Com o boletim de voto, recebi também dois envelopes - um para colocar o boletim com o voto e outro maior onde entrou o anterior. Foi então que o presidente da mesa me perguntou: A menina sabe como fazer?
Não gosto mesmo nada que me tratem por menina, mas ouvi a explicação toda, que ele estará neste momento a repetir e assim continuará, por certo, ao longo do dia.
Terminada a função, fui a uma confeitaria muito próxima comprar pão. Enquanto esperava na fila, vi um painel que informava que havia chocolate quente feito na hora e 'com chocolate verdadeiro'. E pensei: Ainda bem que há coisas verdadeiras. Para além do chocolate, é claro.
Quando cheguei a casa, falei com a minha para filha que hoje faz anos e, logo a seguir, mandei-lhe a foto de uma camélia do jardim. Quando nasceu, parecia que a Liberdade estava segura. Agora, não. Oxalá não fique cada vez mais frágil perante tantas e diferentes intempéries, onde cabem truculentas e gritadas aventuras.
Um bom domingo e que o sol não nos abandone!
sábado, 31 de janeiro de 2026
Notre innocence, où es-tu?
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
Há empadão e empadão!!!
Gosto muito de empadão, de carne ou de legumes, ou de carne e legumes ou só de legumes (como vou fazer hoje para o almoço). Há dias, no Expresso Curto, o jornalista dava uma receita de empadão, assunto que não é nada habitual naquela publicação. Achei graça e aproveitei para rever os ingredientes: cebola, alho, louro, carne, tomate...
O empadão veio a lume por ter sido palavra usada por Seguro, e dirigida como crítica a Ventura, no debate de terça-feira para as presidenciais. De facto, perante qualquer pergunta sobre um determinado assunto mais quente - por exemplo, Trump - Ventura tira o tacho do lume, para não se queimar, e enumera, em alta voz, todos os outros ingredientes que estão no seu receituário e que repete até à exaustão. Faz, no entanto, adaptações consoante o momento e o público, pondo mais ou menos pimenta, fogo mais vivo ou mais brandinho, de modo a agradar aos clientes que lhe oferecem votos e lhe aumentam o poder.
Por isso, a imagem do empadão que Seguro utilizou foi feliz e real. Eu, pessoalmente, prefiro empadão feito com mais calma, sensatez, humanidade e com ingredientes honestos e verdadeiros, que unam todas as pessoas que estão à mesa e não as excluam nem dividam por causa da origem, da cor ... E que o empadão não leve água benta, que se vai buscar ruidosa e hipocritamente para se ser notado, ignorando os valores de respeito humano, defendidos pela Igreja Católica, da qual se quer dar a ideia que se comunga.
Deste empadão, com miscelânea de ingredientes para confundir, enganar e atordoar não gosto. Causam grande tristeza, desconfiança e... uma enorme azia.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
Desconfiança? Sim, Ia!
Os professores, os editores, etc. têm a vida cada vez mais difícil pela dificuldade em distinguir um texto original de um texto reproduzido pela inteligência artificial. Não queria estar na pele deles.
Enquanto era professora, recebi vários trabalhos que eram cópias do que se encontrava na net sobre o assunto. Ainda não havia IA. Na altura, era relativamente fácil detetar que eram cópia, porque bastava transcrever um excerto do texto no computador para que aparecesse na íntegra. Também a língua usada era com frequência o português do Brasil, o que ajudava a identificar quase logo a origem enganosa do texto.
Ora, nos tempos que correm, se um texto for produzido pela IA, julgo que é difícil, senão impossível, ver que não é original e apenas transcrito. Isto causa uma desconfiança imensa e pode acontecer num simples comentário, numa composição, num texto argumentativo, etc. Ainda bem que já não tenho de avaliar textos pretensamente produzidos por alunos.
Pelo pouquíssimo que sei da IA, julgo ser uma ferramenta de consulta fantástica para obter informações nas mais diferentes áreas, mas ser usada e assinada como sendo produção original é que me custa a aceitar. Essas práticas ocorrem até no meio universitário e em diferentes países.
Se isto assim continuar, desconfiamos cada vez do que ouvimos e lemos e, o que é pior, desconfiamos cada vez mais uns dos outros. E quem é sério e honesto nos trabalhos escritos que realiza também não fica excluído da desconfiança, que se vai generalizando. Ou então é olhado como um totó ingénuo que tem a mania que, sozinho, vai mudar o mundo!
domingo, 25 de janeiro de 2026
O companheiro de todas as horas
Li há pouco uma notícia que me impressionou: muitos filhos já limitam o uso do telemóvel pelos pais idosos.
À primeira vista, causou-me impressão porque lembrei-me de pessoas que vivem sós, de mobilidade reduzida e que precisam de alguma coisa para lhes alegrar os dias, para além de programas de televisão da manhã ou da tarde e que tantas vezes contam coisas tão tristes que mais tristes tornam os dias. Só espero é que os filhos que retiram o telemóvel aos pais ou que lhes limitam o seu uso o façam 'com carinho' - expressão de que gosto e que a minha professora de yoga tantas vezes repete também com carinho. E que lhes ofereçam alternativas. E que os visitem. E que falem com eles. E que não os desvalorizem por serem velhos.
Mas também é muito mau ver pessoas de todas as idades a usar constantemente o telemóvel, mostrando que lhe prestam mais atenção do que ao que se está a passar à sua volta. Triste é ver famílias à mesa, cada um com o seu telefone ou ipad - como se não houvesse assunto para conversar. Ou em encontros familiares ou de amigos em que o que se está a passar passa para segundo plano porque o écran do telemóvel, sempre embalado pela mão e percorrido pelos dedos, ocupa o primeiro.
Nos dias que correm, o telemóvel é essencial às diferentes dimensões da nossa vida. Habituámo-nos a ele e faz-nos falta. E é um alvoroço de alma quando o perdemos ou não sabemos onde o deixámos! Mas, se quisermos, há tempo para tudo, mas que o telefone nos comande a vida e façamos dele o companheiro principal de todas as horas, isso não. Para saúde mental - de que tanto se fala - do próprio e de quem está à sua volta.
sábado, 24 de janeiro de 2026
Prato
Gostava de lhes ter
perguntado o segredo do arroz que faziam quando era criança e que, para ela, era
o melhor arroz do mundo. Porém, as tias já cá não estão para lho revelarem. Os
móveis da cozinha estarão noutros lugares e as paredes já terão novos cheiros
impregnados. As cebolas e os alhos virão de longe e não da horta que elas
cultivavam em tempo certo.
Ora, a criança brincava
muitas vezes junto ao pequeno jardim ou no quintal. Perto do meio-dia, se sentia
uma flecha de cheiros e sabores do arroz a atravessar o muro que separava as
duas casas, ia logo a correr à espera de ouvir:
- Queres comer aqui?
Com a pressa, muitas
vezes até se esquecia de pedir à mãe. Quase a chegar, abrandava a correria,
passava pelo lavatório, que tinha sempre sabonete Patti, entrava na cozinha
devagar, depois de pedir licença, e aproximava-se timidamente da mesa já posta,
à espera da pergunta habitual.
Depois de o relógio bater
doze austeras badaladas, rezavam a oração de ação de graças, sentavam-se à mesa
e comiam quase em silêncio, sem ninguém partilhar o feliz deleite do almoço –
jantar, como era comum dizer-se. Cada uma guardava este e outros prazeres só para
si, não fosse parecer luxúria tal confissão.
Ficou-lhe por dizer às tias como gostava do
arroz que faziam e cujo cheirinho a fazia voar ao seu encontro. Também elas
nunca lhe falaram sobre o assunto. Porém, talvez adivinhassem esse gosto, porque,
de vez em quando, punham mais um prato na mesa.














