quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Gente normal e Vida normal

 

Acordar de manhã cedo é bom, mas acordar com boas notícias é ainda melhor: Trump perdeu em toda a linha nas eleições intercalares.

A grande maioria dos norte-americanos fartou-se de mentiras, de falsas promessas, de humilhações, de ódios, de insultos, de atitudes errantes e ridículas, de defesa corrupta em causa própria, de enriquecimento imparável, de atropelo das leis, de ataques e ambição incontroláveis…

Espera-se que esta derrota seja um bom sinal para a Humanidade. E uma lição para os Trumpzinhos que emergem em lugares mesmo improváveis, imitando o chefe-Rei-do-Universo, exercendo força com os fracos e fraqueza com os fortes.

As fotos das notícias de hoje são animadoras. Refiro-me às que mostram gente normal e feliz com a vitória dos Democratas. E não são só barbies e kens … e bajuladores, e procuradores de lucros a todos os níveis…

Não conheço os EUA, apenas visitei Nova York e um dos meus genros é americano. Pelo pouco que sei, que vi, que ouvi dizer é um país imenso e de imensas maravilhas.

Um dia, era a minha neta pequenina, fez-me várias perguntas sobre a minha infância. Pôs as mesmas questões à avó americana. Julgo que era para um trabalho escolar. Quis saber se eu tinha ido à escola depois do ensino primário e se tínhamos frigorífico em casa.

Às duas respondi que não, embora já nessa altura, tivéssemos casa própria. Quanto aos estudos, a grande parte das raparigas ficava em casa porque eram os trabalhos de casa que as esperavam. Quanto ao frigorífico, as casas que eu conhecia também não o tinham.

Porém, a avó americana, que tem uma idade semelhante à minha, respondeu que sim às duas questões. Depois da primária, continuou os estudos e não conhecia nenhuma casa onde, na época, não houvesse frigorífico. 

Esta amostra é apenas um pequeno sinal das potencialidades de um país rico, considerado um modelo de abertura e democracia, mas que, com Trump, perdeu mais do que ganhou.

Ainda ao menos que ele já reconheceu a derrota nestas eleições. Também seria difícil defender o contrário. Vai dizendo é que se no boletim de voto estivesse o nome dele, a vitória seria arrebatadora! Pois! 

Não vai ter é o caminho tão aberto para percorrer conforme lhe dá na cabeça como até aqui, o que será bom e normal para o país e para o mundo. Mas saberá Trump o que é normal?


terça-feira, 20 de outubro de 2026

Darem-me o lugar faz-me pensar

 

Entrei na carruagem do metro que ia cheia. Logo um jovem adulto se levantou para me dar o lugar. Tinha andado bastante e doíam-me as pernas, mas o motivo não era esse, com certeza, porque as dores dos outros pouco se veem e pouco se sentem. Era a imagem de quem nasceu há muitos anos e que o cabelo branco acentua. Deixei de pintar o cabelo há uns dois anos, por decisão minha, aceitando passar pela fase do cabelo de várias cores: o branco da raiz e a outra parte pintada. Nada bonito, de facto. Muitas vezes, ouvi: Mãe, pinta o cabelo e outras vozes também mo diziam.

Pois bem, a cor do cabelo também influencia muito o dar ou não dar o lugar. O meu como está grisalho, também me ajudou por certo a ter lugar naquela carruagem com muita gente de pé. E se foi bom poder sentar-me e aliviar o cansaço das pernas, também me fez pensar na passagem do tempo que não podemos contrariar. Faço e gosto de fazer yoga e pilates e vou ao ginásio, não sou é suficientemente disciplinada para andar mais a pé. Vou encontrando desculpas para andar de carro: é mais rápido, os sacos das compras são pesados, o supermercado é longe, o tempo é pouco para o que quero e preciso de fazer…

Mas, voltando à carruagem do metro londrino, gostei da atitude do rapaz que, quando nos viu entrar - a mim, à minha filha e à minha neta - logo me deu o lugar, com um sorriso de simpatia, mostrando atenção aos outros e às necessidades dos outros. Um bom sinal. Que também faz pensar. À época é de bastante incomunicação, de solidão, mesmo de jovens. Pensar que há rapazes e raparigas e talvez adultos que se refugiam em relações amorosas com figuras criadas pela inteligência artificial dá que pensar. Haver um jovem que dá o lugar, com um sorriso e não como um frete, a uma pessoa muito mais velha do que ele também faz pensar. Pela positiva. Com esperança.

Para além disso, sei que o tempo é irreversível e aceito-o (que remédio!), embora haja muitos momentos em que apetece dizer: ó tempo, volta pra trás…’


segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Um almoço de domingo em pub londrino

 

Um dia, em conversa, disse a alguém que gostava dos pubs de Londres, A pessoa não conhecia Londres e fez cara de espanto, porque associava pubs a cervejarias pouco recomendáveis. Nada disso, pelo menos pelos pubs que conheço.

A palavra pub vem de public houses. Existem por todo o lado e eram antigas estalagens onde os caminhantes comiam e também pernoitavam, assim como os animais que os transportavam podiam descansar. É secular a tradição.

Hoje são restaurantes bonitos, muitos com flores garridas e viçosas  em taças penduradas ou em canteiros, junto a mesas também no exterior. 

Se muitos jovens os procuram para convívio, sobretudo ao domingo, veem-se diferentes gerações da família sentadas à mesma mesa. Quanto mais fora do centro de Londres,  menos turistas se veem e são, aparentemente, residentes locais que os frequentam. 

Em qualquer estação do ano, os clientes, sobretudo à noite, sentam-se ou ficam de pé cá fora com o seu copo, quase sempre de cerveja, em conversa animada durante muito tempo. Se chover, não há problema, entram no pub ou abrigam-se como podem e a conversa continua.

Num dos últimos domingos que fui a um pub almoçar, ia observando as pessoas que lá estavam  (também havia dois cães) ou que entravam ou que saíam: famílias com crianças pequenas, mesas de amigos ou amigas… o ambiente era descontraído, de vozearia alta e de gargalhadas estridentes. Comentei até que em Portugal, não costumamos ser tão exuberantes. A família não concordou e houve logo exemplos de restaurantes do Porto, por exemplo, em que as pessoas se riem tão alto como falam. 

O típico Sunday roast (o assado de domingo): carne assada com batatas, vegetais de várias cores (cenoura, pastinaca, couve…) e o yorkshire pudding (uma espécie de pão) tudo com um sabor de subir aos céus estava em muitas  mesas, como é tradição ao domingo.

À noite, já em casa, estivemos a ver um episódio atrasado dos Traidores, uma série da BBC com enorme sucesso.

Com prazeres simples, como entrar num bonito pub londrino, nem nos lembramos de tantas traições que proliferam no mundo. Não convém esquecê-las, mas se lhes dermos um intervalo, para nós, comuns mortais, não será pior.


domingo, 18 de outubro de 2026

A rua também pode ser biblioteca

 

Quando fui a Londres da última vez, ao passar numa rua, logo reparei numa casinha de madeira, colocada num muro, e que servia de pequena biblioteca para permuta de livros, discos, etc

A ideia não é nova porque sei que existem semelhantes em vários sítios do nosso país, por exemplo, em Mindelo, em Espinho, etc., mas achei bonito e que dá dignidade aos locais públicos, como uma rua, onde toda a gente pode passar. Muitas vezes,  associamos a rua, sobretudo nas grandes cidades, ao desconhecido, ao perigo, ao possível vandalismo. Ou, nestes casos, em que a portinha estava aberta, a ver coisas que não eram para lá chamadas

Ora, ver uns objetos bonitos assim, em ótimas condições, num passeio público, com uma mensagem simples e clara, apelando à partilha generosa e à cultura dá sossego e alegra à alma, fazendo acreditar que o mundo não é só ruído e violência e que há pessoas que se preocupam com a beleza do mundo, com o bem-estar dos outros, através de gestos e ações simples.

Só tinha levado um livro para ler, estava quase no fim, mas tinha ficado de o emprestar a uma amiga. De outro modo, teria ido lá pô-lo. Podia ser que alguma pessoa portuguesa passasse e o levasse consigo para ler.  

E eu era capaz de pôr dentro uma mensagem, louvando o trabalho realizado neste país. Se fosse uma pessoa local ou de outra proveniência a levá-lo, não fazia mal porque a rua a está aberta a todos. Como uma biblioteca . Ainda que pequena.


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Quem pergunta quer resposta, mas nem sempre assim acontece





Quando vou a Londres passar uns dias, a minha filha pergunta-me sempre: Mãe, o que queres visitar? Da última vez, eu disse: gostava de ver a Tapeçaria de Bayeux, no  Museu Britânico, e logo ela me disse: Seria bom, mãe, mas está esgotadíssimo. Já marcámos a visita, mas só daqui a muitas semanas temos lugar.

Tive pena, porque seria uma oportunidade para ver aquela obra de arte medieval francesa na companhia da família. Mas, paciência, o que não tem remédio remediado está.

Porém, o que digo e o que penso habitualmente, quando a minha filha me faz esta pergunta, é que quero sobretudo conhecer o espírito do lugar: caminhar nas ruas próximas, ir ao supermercado, à padaria, à escola buscar a minha neta, entrar numa loja ou outra que me parece bonita e diferente, olhar os edifícios, ver as pessoas a passar, ou sentadas nas confeitarias ou cafés com o seu computador aberto…

Quando vemos as notícias, sobretudo nalguns canais de enormes audiências, parece que o mundo atual está pejado de crimes e violência, que existem, de facto, mas a grande parte das populações é pacífica e trabalha no dia a dia, fazendo o melhor que pode e sabe sem prejudicar ninguém. Assim pensassem e agissem os poderosos que nos  (des) governam e que tantos transtornos têm causado no mundo pela malvadez da sua ambição desmedida e desumana. 

Ora, isto veio a propósito da pergunta que me faz a minha filha sobre o que eu gostaria de ver em Londres. Eu ainda acrescentaria: estar em casa algum tempo durante o dia e desfrutar do ambiente calmo e luminoso para poder ler o livro que sempre levo e escrever textos pequenos como este, que também me alegram e aliviam.

Não é pedir muito, acho eu, e, felizmente, posso fazê-lo, mas sei que em Londres ou em qualquer lugar do mundo muitas pessoas não o podem fazer.

E, por mais perguntas que façam, são poucas as respostas que encontram.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Os pequenos tradutores


Depois da escola, durante mais de uma semana, fui com a minha neta lanchar sempre ao mesmo sítio em Londres: uma pequena confeitaria com bolos tipo caseiro e sumos naturais. Como fechava às quatro e meia, éramos quase sempre as últimas clientes a entrar e as funcionárias já nos conheciam, sobretudo a minha neta que escolhia sempre o mesmo bolo e o mesmo sumo.

Como ela domina a língua inglesa e eu sei apenas um bocadinho, acabava por preguiçar um pouco: exprimia os meus desejos em português porque tinha logo tradutora. Numa tarde, uma das funcionárias - talvez a mais curiosa - perguntou que língua eu falava. 

- Portuguese - dissemos nós, quase ao mesmo tempo.

E eu logo acrescentei com aquele orgulho quentinho de avó: como não domino a língua inglesa, ela é a minha tradutora.

Com ar simpático, a funcionária sorriu, mostrando conhecimento pelo menos do nome do nosso país e disse:

- Sou turca e quando a minha mãe vem cá, o meu filho também serve muitas vezes de tradutor para a avó.

E como me soube bem o sumo de maçã que eu também pedia habitualmente. Enquanto bebia, fui dizendo como era bom os avós terem netos que os sabem ajudar.

 Não sei muito bem o que a minha neta respondeu, mas o sorriso abriu-se e também os bracitos para um abracinho que, esse, dispensa traduções.


terça-feira, 22 de setembro de 2026

PALMA(S)!

 




sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Duas amigas

 

Quando eu era pequena, tinha uma vizinha cujo pai lhe batia. Antes de lhe bater, dizia que lhe custava muito, mas que tinha de o fazer porque não tinha outra solução. A miúda sofria as agressões e nem sabia qual dor era a maior: se a física, se a dor de saber que não tinha ninguém que a ouvisse, que gostasse dela, que lhe fizesse crer que não estava sozinha no mundo.

Lembrei-me desta história a propósito dos discursos em que o governo diz compreender todas as dificuldades dos portugueses, mas, por exemplo, baixar o preço dos combustíveis, isso é que não. 

Um pouco na senda de que o povo ‘aguenta’, como afirmava um banqueiro há uns anos.

Voltando à vizinha da minha infância, reencontrei-a há uns tempos. Pareceu-me que fazia de conta que era feliz, talvez para fugir a mais pancadas que nunca mais esquecera. Combinámos um café, com dia e hora marcados para não ficar no ar, como tantas vezes acontece.

E falámos. E falámos. Dos filhos. Dos netos. Das solidões que tantas vezes começam na infância e que, ao longo da vida, se vão acumulando. E lembrámos o tempo em que jogávamos à macaca com uma  pedrita a servir de patela  ou com uma latinha de Nívea cheia de areia. E de novo vieram à baila as solidões. Aumentadas por governantes que agridem de diferentes formas e desamparam o mundo. Como se não houvesse outra forma de governar. Como se não houvesse outra solução.

Despedimo-nos com um sorriso de velhas meninas amigas. E fomos cada uma para o seu lado. 

Gostei do reencontro mas nessa noite mal dormi. E era capaz de afirmar que ela também não.


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Setembro

 O relógio

Como habitualmente, o telefone toca. Oito menos dez. A filha está a chegar ao trabalho. Atende ainda um pouco ensonada. Sim, está tudo bem. E tu? Pois, acho bem que arranjes tempo para ir ao ginásio. Para te manteres bem como estás. Sim, imagino que te soubesse bem uma folga. Deixa lá, amanhã já é fim de semana.

A mesa

Um cheirinho bom a café acabado de fazer. A compota de figo e maçã, os ovos mexidos acabadinhos de saltar para o prato. O pão que teve a noite para descongelar e parecer fresco.

A manhã com tempo

Toma o pequeno almoço nas calmas. Sem obrigações nem pressas. À frente, a televisão sem som. Com títulos a passar rápidos: as trapalhadas do Neves, as meias palavras do Montenegro, as habilidades do Ventura, as trumpalhadas do Sr América que quer pôr em tudo o nome da América! E outras.

 Continua a saborear o seu querido pequeno almoço neste início de setembro porque já lá vai o querido mês de agosto. Do sol e do dia do seu eclipse, da praia e de muitas maresias, de alegrias pelas alegrias da criançada da família, de muitos pratos na mesa perto do churrasco, de aniversários com músicas de ídolos dos pré-adolescentes, de preocupações para que nada falte e tudo esteja a contento de todos!

É setembro. Com calor, depois de uma semana de chuva. As hidrângeas amadureceram. Os dióspiros também vão mudando de cor. Continua à mesa. Degustando memórias recentes. Também de alguns cansaços.  Olha pela janela. O sol tem brilhos de final de verão. Levanta-se. Põe a loiça na banca e deixa-a por lavar. A máquina está avariada. Crente que não vai ficar assim o novo dia.




quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Dolly Parton


Li hoje que Dolly Parton nasceu no estado de Tennessee, numa família pobre e foi a quarta de doze irmãos. O pai era analfabeto. A família soube alimentar-lhe o sonho de cantar. E ela soube multiplicar e partilhar muitos sonhos. Chegou a rainha do country. Mas não só. Contribuiu para causas sociais muito importantes, como a vacinação contra a covid-19 e alfabetização infantil. Morreu ontem aos oitenta anos. Tencionava continuar a cantar. Muita gente continuará a cantar por e para ela. 



segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Coisas de final de verão?

 Perante tanta chuva, hoje dei comigo a pensar no Natal!

Por cá, costumamos dizer: vem a festa do Rosário (em outubro), os Fiéis (em novembro) e logo estamos no Natal.

Ontem e hoje, aqui no Norte, a chuva é tanta que parece outono. Daí eu pensar nos presentes para o Natal - presentes que posso fazer ou comprar sem ser em lojas. Não estarei a contribuir para a economia, mas será um estímulo para quem tem talentos, habilidades, podendo, assim, ganhar algum dinheiro e ver o seu trabalho manual reconhecido.

Mas esta semana, em que se prevê intempérie, terá vindo estragar planos de quem contava com um tempo tranquilo de quase final de verão. 

Felizmente temos a capacidade de nos adaptarmos às situações. E há muitas ofertas, porque, mesmo vilas ou cidades pequenas vão preservando e embelezando o seu património.

Ontem, eu estava com a família na bela festa da Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, mas a chuva era tanta pela manhã, que fomos parar Ponte de Lima. As crianças andaram felizes no museu do brinquedo e nós, adultos, pudemos recordar brinquedos que tivemos ou que muito gostaríamos de ter tido na nossa infância.

Portugal é pequeno mas bonito e variado. Que também não escapa a intempéries de vária ordem.

Que haja, pelo menos, boas alternativas!

Continuação de bom verão! Seja ele seco ou molhado!


sábado, 22 de agosto de 2026

Coisas de verão - casa amada!


Hoje, 22 de agosto, a minha mãe faria 100 anos. Partiu aos 96. A família pensava - e julgo que ela também - que a vida lhe permitiria festejar o centenário. As maleitas não eram de monta, apesar de algumas persistirem.

Hoje dei comigo a pensar em coisas que ficaram da vida da minha mãe: o gosto pelas flores, pela vida calma, pelas palavras poéticas, pelos sabores da comida que tão bem confecionava … 

E o amor por tudo que entendia ser criado por Deus.

E o amor pela casa - o seu reino e o seu paraíso. 

A casa era o lugar das pequenas coisas que só lá encontrava e lhe davam a feliz tranquilidade de que precisava: as linhas e lãs, a máquina de costura; os livros sobre santos e os jornais que lembravam diferentes santidades; os versos que fazia e tantos outros que sabia de cor;  as plantas que lhe mostravam a sua sede e as suas necessidades…

Tanto a minha mãe amava a casa que a família repete a expressão que também ela repetia inúmeras vezes: minha casinha meu lar!


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Coisas de verão - o antes e o depois


Quando tenho qualquer festa em casa, como aniversários, fico bastante stressada, embora tente disfarçar. Alguma coisa pode correr mal, a comida pode não estar como eu gostaria, pode faltar alguma coisa, pode haver algum esquecimento…

Ah! Se alguém não vier, penso que houve desinteresse; se vierem em grande número, sinto desconforto!

Valha-me Deus!


Vem o dia. Vêm as pessoas: a família é grande. Alguns amigos. Uns de perto, outros de longe.

Tudo se vai abrindo como pequena nuvem que dá lugar a mais luz do sol.

Desta vez, no aniversário da Clarinha, como em tantas casas portuguesas nesta altura do ano, falaram-se várias línguas, e uma delas foi o italiano. 

Todos à mesa, vieram à baila canções italianas na memória de muitos, títulos de filmes, expressões conhecidas…

Apesar do trabalho que as festinhas em casa dão sempre, como foi bom ver as solidariedades, as linguagens e boa disposição partilhadas. 

Afinal, o mundo é uma bola em que todos cabemos e na qual entramos com forças e fragilidades.

E, com a leveza possível dos dias, tudo se torna mais querido, neste ‘querido mês de agosto’. 


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Coisas de verão - a mulher do pôr do sol

 

A cena repetia-se. Ao pôr do sol, quando o calor amainava e ficava mais espaço no areal para as gaivotas, ela chegava à praia com os seus óculos escuros e chapéu de abas largas. Sentava-se no muro em frente à esplanada, com meio corpo inclinado para o pôr do sol e balbuciava algumas palavras não muito percetíveis.

 Os habitués da esplanada, para o último fino do dia com tremoços e amendoins, já se tinham habituado à presença dela, sentada de lado, no muro baixo e em frente. Houve até quem a fotografasse à sorrelfa apenas porque dava uma boa foto a contra-luz.

Porém, uma das crianças, naturalmente curiosa, aproximou-se da mulher para perceber o que dizia e ouviu-a repetir: 

- Será que voltas amanhã? Será que voltas amanhã?

Logo que percebeu as palavras dela, veio, a correr, contar.

- Mãe, a senhora perguntou se voltava amanhã. Ela fala com o sol?

- Talvez, filho, ou dirigia-se a alguém.

- Mãe, mas eu não vi ninguém.

- Pois, filho, se calhar, é mesmo o sol que a senhora procura!


sábado, 15 de agosto de 2026

Coisas de verão - os palavrões

 

Fui cedo passear o cão ao passadiço. À hora em que pouca gente passa, a não ser os peregrinos. Ou pessoas que moram por ali e querem aproveitar as horas em que não chegam os banhistas com sacas e caixas de farnéis, com os guarda-sóis, tapa-ventos e muitos etecetras.

Ora, sentados, na beira do passadiço, estavam dois homens a conversar. Faziam-se ouvir e bem.  O outro ruído era o do mar e, comparando com as vozes deles, era bem mais brando.

Apeteceu-me abrandar para ouvir o que diziam, não fosse o cão puxar-me com toda a força. Mas deu para ouvir algumas coisas.

Falavam de futebol e de política, tudo misturado. E não havia frase nenhuma - todas muito curtas - em que não entrassem palavras começadas por cê, por pê, por efe…

E como o cão puxava com tanta força, até pensei: será que o cão não gosta de palavras a que não está habituado? E ainda deu para ouvir: F…

Ou fui eu que pensei???


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Coisas de verão - à semana, sim; ao fim de semana, não!

 

É caso para dizer: quem nunca foi ao Castro Sampaio, em Labruge, Vila do Conde, não deixe de ir, se e quando puder.

Pode-se ir pela praia, por exemplo, a partir de Mindelo, havendo passadiços em muito do percurso.

Ao longe, avista-se a capelinha num vasto terreiro, donde se desfruta o mar imenso. Faz lembrar as cantigas de amigo - quando o namorado partia mar fora para ir para as guerras, das quais nunca se sabia se e quando voltaria.

As praias pequenas, cercadas de altos rochedos chamam e acarinham.

E o restaurante, que mais parece bar comum de praia, serve peixe bom e bem cozinhado. Saboreá-lo ao fim da tarde será como dar a mão em momento relaxado e confiante de prazer.

Porém, diz quem sabe que ao fim de semana é horrível pelas enchentes.

Ir de carro é outro frete, porque os acessos são apertados.

Durante a semana? Belo e tranquilo.

Durante o fim de semana? O melhor é ficar em casa, ou escolher outro lugar.

É que há mar e mar; muito motivo para lá ir: mas, com confusão, pode perder-se a vontade de lá voltar!


Coisas de verão - e depois do adeus

  

Vi em casa o eclipse. Abri a janela, pus os óculos e vi o sol em forma de lua. O tempo escureceu, mas não tanto como eu pensava.

Senti uma brisa a entrar pela janela. Suave e boa. Os ramos da camélia agitaram-se. Mas pouco. Os carros na rua passaram a ser raros. Senti a calma força da natureza.

Perto de casa, já tinha visto muita gente, uns de pé, outros sentados, óculos na mão, à espera do eclipse.

Na televisão, falava quem fez muitos e muitos quilómetros para chegar ao sítio em que o sol mais se esconderia. Como em Bragança. Havia pessoas comovidas, outras repetiam lugares comuns que era o que saía no momento…

Um brasileiro, emocionado, também me comoveu. Para ele, o eclipse era um fenómeno democrático que unia toda a gente, sem distinção.

Realmente há maravilhas da natureza que revelam maravilhas dos seres humanos.

E que perduram, mesmo depois do adeus!

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Coisas deste verão - os óculos do eclipse e os desmancha-prazeres!


Hoje precisei de ir à farmácia aonde vou habitualmente. É uma farmácia pequena e fica numa rua fora do centro da vila, hoje cidade. 

Estive lá uns 15 minutos para comprar os medicamentos de que precisava. Durante esse tempo, vieram umas quatro pessoas à procura de óculos para ver o eclipse.

Quando a porta se abria e se a farmacêutica não conhecia as pessoas, logo dizia: desculpe, mas, se é para os óculos do eclipse, já não tenho!

E ia comentando: Estou farta de dizer a mesma coisa! Que passe depressa o eclipse e venha o dia de amanhã!

E acrescentou outra coisa que, com alguma razão, também poderia ser para mim, embora, neste caso, já tenha os meus óculos na carteira: as pessoas procuram as coisas mesmo na última!

Cá em casa já toda a gente tem óculos e está entusiasmada para assistir logo ao eclipse.

Porém, com ou sem ironia, já ouvi: Todos os dias, o dia dá lugar à noite e não é preciso tanta festa!

Quem o disse ouviu que era desmancha-prazeres.

Mas, cá pra mim, as nuvens ou o nevoeiro é que vão ser os maiores desmancha-prazeres.

Mesmo assim, que a Festa não se eclipse!


terça-feira, 11 de agosto de 2026

Coisas de verão - a senhora do vestido lilás!

 

Logo que nos sentámos no café Velasquez, reparei numa senhora, que, sozinha, ocupava uma das mesas rente ao vidro que separava o interior da esplanada.

As mangas curtas do vestido lilás realçavam-lhe a magreza dos braços. O cabelo, cortado a direito, pressentia-se liso pela laca. Alguém da mesa também reparou nela e perguntou:

- Em que rua morará aquela senhora?

Logo veio a resposta: 

- Numa das avenidas próximas, por certo.

Concordámos. Pela postura. Pela sobriedade. 

Porém, durante o tempo que estivemos no café, a senhora do vestido lilás não tirou os olhos do telemóvel. Nem as mãos.

Não sei se estava a receber mensagens! Não parecia porque a expressão era sempre igual.

Saímos. Sem saber quanto tempo iria ficar no café a senhora do vestido lilás. A senhora que parecia viver numa das casas bonitas das bonitas avenidas. Talvez numa casa com flores e largas janelas. 

Mas sem ouvir ninguém a tocar à campainha. Nem a ser chamada, amorosamente, pelo nome.


domingo, 9 de agosto de 2026

Coisas de verão - o bar da praia não anuncia só gelados


Já me tinham avisado do evento, porque sabem que gosto de livros.

Mas também gosto de gelados!

Num pequeno cartaz, na parede de um bar da praia, anunciava-se a apresentação de um livro de Inês Meneses e Tó Zé Brito, escrito por eles a quatro mãos.

Prometia. Sou fã do podcast Fala com ela, que IMM dinamiza há uns anos. Também gosto de muitas canções de TZB. 

Era ao fim da tarde. 

Fui com a minha neta. De vez em quando, eu traduzia-lhe algumas coisas que achava importantes.

A autora viveu em Mindelo dos 3 aos 21 anos, aonde vem com frequência com o companheiro, Tó Zé Brito.

O local da apresentação do livro era aprazível e dedicado a atividades culturais. Julgo que já foi escola primária. Quero conhecer melhor o espaço e o que nele se realiza.

A conversa entre os autores - o casal - foi serena e amorosa. Falaram do respeito mútuo, do prazer partilhado na escrita diária do livro, dos gostos comuns como a leitura e o cinema.

Gostei muito do que disseram, da calma com que o disseram e espero gostar do livro também:

Ao fim do dia/Memórias e confissões de um casal, Contraponto.

E gostei que a minha neta também tivesse apreciado, apesar da barreira da língua. Mesmo assim, espero ter-lhe proporcionado uma boa memória do momento.

A par dos gelados e bolas de Berlim que adora e come na praia!


sábado, 8 de agosto de 2026

Coisas de verão - o amolador de facas


A criançada andava toda na brincadeira.

De repente, faz-se ouvir um apito que vinha do fundo da rua. 

- Olha, é o assobio do amolador das facas - disseram os mais velhos.

- Ainda me lembro de um que passava na rua da minha infância - disse outro ainda jovem, mas já não tão jovem assim.

É a primeira vez que oiço este som - disse um dos mais novos.

- E o amolador vinha também de carrinha e com altifalante? -  perguntou uma das crianças.

- Nem pensar! -  logo alguém respondeu. Vinha numa espécie de bicicleta adaptada onde cabia a ferramenta necessária ao afiar das facas. Tocava um apito para chamar os clientes.

A carrinha já próxima, a criançada quis experimentar o serviço. Os adultos foram buscar duas facas para afiar. 

O homem abriu a porta de trás da carrinha e ligou um rodízio moderno.

Quando devolveu as facas afiadas, recebeu cinco euros de cada uma. 

O mais velho dos mais novos logo disse:

- Com este dinheiro, mais valia comprar facas novas.

Valeu pela memória antiga do assobio - pensei eu, enquanto a carrinha se afastava com o apito eletrónico e a peripécia terminava por ali. 

Como uma onda diferente que se mistura, lentamente, no oceano da memória.


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Coisas de verão - passando no passadiço


0 passadiço aproxima-me os olhos da vegetação e flores das dunas, do mar a vibrar de espuma, de corpos sossegados ao sol, de crianças reconstruindo castelos de areia…

Bem perto, passam peregrinos rumo ao norte. 

Um casal cruza-se comigo.

Sorrimo-nos. 

Olho as conchas de Santiago das mochilas. Lembram o apagar da sede em pequenas fontes que dão força, seja qual for a viagem.

Sorrisos partilhados também.


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Coisas de verão - maré vaza


São incontáveis as cores das pequenas pedras que vejo na areia molhada enquanto caminho durante a maré vaza.

Também inúmeras são as suas formas. Difícil dizer quais as mais bonitas ou mais perfeitas.

Se não fossem tão diferentes, não seriam tão belas nem cativariam o olhar.

Há uns anos, apanhava algumas e levava-as para casa; agora, prefiro vê-las na praia, onde moram.

Amanhã, já não estarão no mesmo lugar. Imensos são os sítios para onde podem ir, levadas pelo mar.



terça-feira, 4 de agosto de 2026

Coisas de verão - uma pergunta e um beijo

 

A pergunta

- Avó, que tempo é?

- Que tempo, meu amor? Se vai chover? Queres saber se vem mais calor?

- Não, avó, que tempo é agora?

- Não entendo.  Diz então em inglês.

- What time is it?

- Ah! São 12,20, meu amor.

- Obrigada, avó! Ainda temos tempo.


O beijo

Caminho na praia. Na areia firme e molhada. Ondas pequenas vêm até mim. Frias, sabem-me bem e refrescam-me os pés. Continuo. 

Em sentido contrário, e também pela água, vem um casal. Ladeado por um cão. Aproximam-se os três.

Param, de repente. O casal enlaça as mãos, sorrindo. O cão começa a saltitar. Dão um beijo. No cão!


domingo, 2 de agosto de 2026

Coisas de verão - um café


Chego ao aeroporto e aproximo-me do setor das chegadas. Muita gente. Não admira: é verão e início de agosto. Umas pessoas olham com atenção o placard informativo das partidas e chegadas; outros parecem procurar alguém;  taxistas fora de regras arriscam a  cativar clientes: Táxi. Precisa de táxi?

 Um vai-vém de pessoas para cá e para lá com a sua mala de férias a correr sob rodinhas; crianças a esticar os braços para quem as espera com um sorriso de saudades interrompidas.

Em breve, também abraçarei a minha neta. Nem tomei café depois de almoço para não perder tempo. Quero estar na porta do desembarque para a ver sair e vê-la a correr para mim.

Olho de novo o placard. O avião que eu espero, e que vem de Londres, tem um atraso de 10 m. Será mais, com certeza, contando com a recolha das malas do porão que o ronceiro tapete rolante vai devolver, mais o tempo de controle de fronteira!

Ainda vai demorar um bocadinho o abraço que quero dar e receber logo que a minha neta transponha a porta de desembarque, desatando a correr até desaguar nos meus braços!

Olho de novo para o placard! Faço as contas entre o Landed e os minutos que todas as formalidades demoram!

Ainda tenho tempo de tomar o café, de que sinto falta, antes de chegar à porta de desembarque. 

Vou ao café em frente. 

Uma fila grande. Chega à minha vez na caixa:  Um café, por favor. Pago.

Pode pedir à minha colega aqui ao lado. Olho o relógio. E também as pilhas de copos de papel - uns pequenos, outros grandes. Não resisto e pergunto: costumam reciclar os copos?

A funcionária, com doce sotaque brasileiro, diz que não sabe, mas que todos os copos são ‘jogados’ nos contentores do papel e cartão.

Bebo o café em poucos goles. Com prazer mas com pressa. Pouso o copo no balcão. Volto-me para quase correr até à porta do desembarque para ver a minha neta sair. 

Já não é preciso. A sua voz sorridente está mesmo rente a mim: Avó!

E abraçamo-nos, enquanto vou dizendo: minha estrela, meu sol!

Gostava de lho ter dito à saída da porta do desembarque! 

Mas era tão bom vê-la chegar para passar as férias em Portugal que não valia a pena lamentar o café já tomado!


quarta-feira, 22 de julho de 2026

A morte também é feiticeira!

 



terça-feira, 14 de julho de 2026

Pedi uma informação e tive-a com toda a clareza

 Ontem, em Gaia, eu andava à procura de uma rua que sabia estar próxima de mim, mas que não sabia encontrar.

Mais uma vez disse para mim própria que tenho de aprender a usar o gps. Como não estou habituada a usá-lo, teria de ser â moda antiga: perguntar até encontrar.

Pois bem, um casal aproximava-se e, como vinham com saca com compras de supermercado, logo pensei que deviam residir por ali ou, pelo menos, conhecer a zona.

Fiz a pergunta sobre a localizaçåo da rua aonde eu tinha de ir. Pararam, ela olhou-me com ar sério, ele, mais simpaticamente, tirou o telemóvel do bolso e logo me mostrou a localização, confirmando, com os dedos, o percurso que teria de seguir: ir em frente e virar à esquerda depois de passar a linha do metro. Eram estrangeiros, vi pela expressão. Agradeci com um sorriso que foi retribuído por ambos, desta vez.

Mesmo com as indicações do simpático homem, acabei por seguir pela rua errada: paralela à que eu pretendia. Apesar de procurar alguma placa, nada encontrei sobre o nome da rua. Vendo um homem de meia idade a aproximar-se, perguntei-lhe sobre a rua que eu procurava. E vi, de novo, que não era português. Logo me explicou claramente onde era a rua que, por acaso, ficava perto. Daí a pouco, lá estava eu, feliz e contente, a tocar à campainha do prédio que eu procurava.

Moral da história: tenho de aprender a usar o gps. Para além disso, confirmo: os imigrantes também nos ajudam a encontrar caminhos que precisamos de seguir.


domingo, 12 de julho de 2026

Desculpem, mas a palavra solidão não me sai da cabeça!

 

Cada vez há mais pessoas sós. Pela experiência que tenho, são mais as mulheres. Quando se vive só por opção, é uma coisa; se foi a vida que impõs tal condição, é outra coisa bem diferente.

Entremos nalgumas casas - salvo seja, que é uma forma de dizer. Durante muito tempo, a vida corre e nem se dá conta de que passa a toda a velocidade: há a família, o trabalho e a casa apenas está só durante umas horas.

Porém, se há filhos, estes crescem e, num ápice, seguem a sua vida e a casa esvazia-se, passando a ficar só durante muito mais tempo, tal como fica só quem lá continua a viver e já em tempo de reforma. Às vezes, os filhos voltam, mesmo em idade de terem o seu próprio poiso e de os pais estarem em idade de mais repouso. Voltam pelos mais diversos motivos: por separação do casal, por falta de dinheiro, por falta de trabalho...

E há casas que passam a ficar longamente silenciosas, por morte de alguém que lá viveu: um  elemento do casal, irmãos, pais… 

Quando assim é, na passagem dos dias e no repouso da noite, a solidão faz acordar o grande peso que traz consigo. Conversas pequeninas que apetecia descarregar ao final do dia ficam guardadas; vontade de sentir um abraço não se concretiza… Porém, se há filhos, netos ou outros familiares mais atentos, mesmo que vivam mais longe, é uma janela que se pode abrir mais facilmente. Se não os há, nem uma pessoa amiga e próxima, então a solidão é mesmo uma pedra que custa a remover.

Sem pretender encontrar escapatórias desnessárias, acho que muitos governantes - do país e do mundo - não diminuem a solidão que se vai instalando em pessoas de todas as idades; pelo contrário, até a aumentam. Parecem fazer muito mais por si próprios do que trabalhar afincadamente para o bem das pessoas comuns que sustentam o mundo.

Talvez porque a solidão ainda não lhes entrou na cabeça.




sexta-feira, 10 de julho de 2026

E se não fossem os professores?

 

Para muitos, o que se está a passar com a correção dos exames do ensino secundário é um caos, para outros - onde o governo se inclui - é um percurso quase natural porque a entrada no digital está a acontecer pela primeira vez.

Na disciplina de Português, por exemplo, há professores que recebem composições incompletas, ou com páginas  de letra diferente, logo pertencendo a outro aluno.

E muitas questões são colocadas pelos professores mas a plataforma não responde.

Mesmo assim, os professores continuam a corrigir os itens que podem. Para além do seu brio profissional, muitos fazem-no a pensar nos seus alunos - que também fizeram exames - e não querem ver prejudicados com mais prolongamento de prazos.

Enquanto isto, o ministro da educação desdobra-se em entrevistas com respostas às vezes vagas e outras tantas culpabilizadoras de outrem, como é o caso de professores terem culpa no atraso, por agrafarem as provas no sítio indevido, o que se provou não ser verdade.

A vontade do senhor ministro era tanta de mostrar serviço moderno que acabou por prestar um mau serviço - pior do que o antigo.

E pergunto: se não houvesse o zelo e o trabalho dos professores? Já se diz que noutras profissões as pessoas sairiam à rua para se manifestarem contra um trabalho que chega às pinguinhas ao computador e tarde e a más horas.

O primeiro ministro, esse lá aparece de vez em quando em sítios públicos, com sobrolho carregado ou com cara de quem está acima de todas as perceçoes,  relativizando o que acontece e pedindo que os deixem trabalhar. Só que se esquece de dizer que quem o está a fazer são os professores. Queria ver se não fossem. 


terça-feira, 7 de julho de 2026

Adiós!

  

Ontem o resultado

Não foi como se queria

Correu bem aos espanhóis 

Que levaram a alegria


0 Ronaldo até chorou

Mas não o selecionador

Que diz sempre muito bem

E que tudo é o maior!


Lá estava o nosso Primeiro

Que de jogos não falha um

E gosta de chutar a bola

E que a apanhe qualquer um


Mas a vida é mesmo assim

Ele é ganhar e perder

Na próxima vai correr melhor

Dizemos nós animados

À espera que haja sorte

E nem sempre organizados!


E será que tudo vai ser

Como queremos de truz?

Quem vai gerir tantos talentos:

O Conceição ou Jesus?


segunda-feira, 6 de julho de 2026

Alegria procura-se!

 

Em jogos como o de logo à noite, entre Portugal e Espanha, fico um pouco ansiosa e, se o digo às minhas filhas, logo querem saber a razão. Quando veem que é por causa da bola, riem-se e desvalorizam.

Enquanto adolescentes, eram adeptas e sócias do FCP (eu também fui durante uns anos e ainda conservo o meu cartão azul).

Foram crescendo, seguindo as suas vidas e perderam essa vontade de ir a jogos de futebol. Desse tempo ficaram só os cachecóis que levavam ao pescoço ou atados à cintura. Moram cá em casa como objeto feliz de que não me quero desfazer.  Recordam momentos bem mais fervorosos e inocentes do que as negociatas que envolvem a banca, políticos, empresários e muito, muito dinheiro. E muitas muitas influências!

Porém, nos jogos da seleção, a minha filha que vive fora do país vê os jogos e, lá em casa, torcem todos por Portugal, apesar das nacionalidades diferentes. A minha neta quis até uma camisola da seleção portuguesa e veste-a para ver os jogos em casa. Por acaso não sei o número que tem nas costas, mas tenho curiosidade.

Será que é por estar fora que presta mais atenção à seleção portuguesa do que a irmã que vive cá? Não sei. Emigrada há muitos anos, vejo-a como uma cidadã do mundo (parece lugar comum, mas é o que sinto), apesar de ela manter vivas as raízes portuguesas. Não procura  porém, um restaurante português só porque tem saudades. O marido, que é americano,  é capaz de o procurar com mais facilidade e apetite. E como ele gosta de pratos de bacalhau! Quando lá vou, lá vão umas postinhas do fiel amigo na mala!

 Pois bem, não sei ainda se vou ver o jogo de logo à noite. A dúvida até me trouxe  uma quadra:

Será que logo à noite

Vamos perder ou ganhar?

Nem sei até se vou ver o jogo

Ou se prefiro jardinar!


E ‘afinal havia outra’:


Nestes jogos decisivos,

Há sentimento e  emoção!

E se é a Espanha que ganha?!

Oh! Não, isso é que não!


Bom jogo e que ganhe Portugal! 

E, já que estamos no Texas: Alegria procura-se!


sexta-feira, 3 de julho de 2026

Afinal há inferno?

 

Quando eu era pequena, assustavam-nos com o inferno. Dizes asneiras, vais para o inferno; não obedeces, vais para o inferno…

Nos últimos anos, a mentalidade mudou e chegou-se à conclusão de que não havia inferno. Que alívio!

Mas, afinal, há! Muita gente o sente por estes dias: quem vive ou trabalha na rua ou ao sol, quem vive em casas pequenas e quentes, quem vive só e quase não vê ninguém, quem está a ser atingido por incêndios…

Tudo isto é inferno!

E fomos nós, humanidade, que fomos deitando achas para esta fogueira que cada vez controlamos menos: lixos atirados à toa, construção de casas em lugares errados, agentes poluidores à solta e tanta coisa mais que ‘vemos, ouvimos e lemos’!

Não nos falte água - que também vai escasseando - para nos hidratarmos e apagarmos os fogos que fomos ateando - uns bem mais do que outros. E que agora nos incendeiam o corpo e a alma.

Desculpe, mãe, muitas vezes lhe disse que não havia inferno, mas afinal há. É muito diferente do de antigamente, mas não deixa de ser inferno.


quinta-feira, 2 de julho de 2026

Calor, solidão …


Os dias tórridos que estamos a viver não são novidade para ninguém e dizer que está calor ainda aquece mais o ambiente, às vezes sufocante.

E, na noite passada, para além do calor, houve vento, muito vento. Perto de minha casa, há estufas e eu estava sempre a ver quando voava, com estrondo, alguma cobertura de zinco, como já aconteceu. 

Quase desfeito ficou,  porém, um guarda-sol que voou da casa vizinha. Ainda bem que a minha cadela não andava, naquele momento, em passeio de busca noturna. 

Pela hora do almoço, dois funcionários do Serviço do Ambiente tocaram-me à porta, para recolha de verdes. Enquanto faziam o trabalho, pediram-me água. A garrafa que tinham na carrinha estava vazia e torta pela exposição ao calor.

E isto são apenas uns ínfimos pontinhos de uma geografia afogueada e quase toda pintada a vermelho.

Bem mais angustiante será viver em casas pequenas e quentíssimas. E sem ninguém para falar, a quem se queixar, a quem dirigir um gesto e receber um abraço. Para abrir ou fechar uma janela para que o sol não atordoe mais, para que o ar seja mais suportável e alivie a solidão. Curiosamente, o tema da solidão foi abordado hoje no programa Sociedade Civil do canal 2. 

Ao longo dos 60 minutos, ficámos a conhecer muito trabalho solidário no sentido de ajudar pessoas a interagirem mais, irem ao encontro de quem vive só, não pode sair e precisa de comunicar para que a vida faça sentido. Cinco pessoas de cinco instituições - todas elas mulheres e ainda jovens - expuseram projetos de amor aos outros e de ligação afetiva às comunidades.

Houve calor humano, bem diferente do calor que nos está a assolar. Este era dispensável, o outro  - o calor humano - anda muito faltoso mas é cada vez mais urgente e necessário. 


sábado, 27 de junho de 2026

Uma das 'minhas' músicas!

 


Futebol

 

Futebol se joga no estádio?

Futebol se joga na praia,

futebol se joga na rua,

futebol se joga na alma.

A bola é a mesma: forma sacra

para craques e pernas de pau.

Mesma a volúpia de chutar

na delirante copa-mundo

ou no árido espaço do morro.

São voos de estátuas súbitas,

desenhos feéricos, bailados

de pés e troncos entrançados.

Instantes lúdicos: flutua

o jogador, gravado no ar

— afinal, o corpo triunfante

da triste lei da gravidade.

 

Carlos Drummond de Andrade, In Poesia errante

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Hoje


Ainda estão quentes as brasas

Da noite de S. João

Não nos falte a alegria 

Para lançar o balão!


segunda-feira, 22 de junho de 2026

É São João!


Ó meu rico São João

Vê se desces cá à Terra

Há tanta desunião

E é tão mortífera a guerra!


E o desconcerto do mundo

Vai crescendo em cada dia

Uns não saem da tristeza

Outros só veem alegria!


E não sei se também sentes

Os gritos de sofrimento

Ouvidos dentro de casa

Em vez de paz e alento!


Não te peço, S. João,

Que venhas lutar por nós

Cada um pode fazer muito

Mas sentimo-nos tão sós!


sexta-feira, 19 de junho de 2026

Com a bebida no balcão

 

Já se conheciam há muitos anos, tinham convivido durante muito tempo, mas raramente se encontravam. Raramente falavam. Raramente trocavam mensagens. Quase só pelo Natal e pelos anos dele. Dela, não, porque ele não sabia as datas dos aniversários e nunca perguntava. Era muito discreto. Sempre assim tinha sido.

Um dia, cruzaram-se, curiosamente, junto a um cruzamento. Ficaram felizes pelo encontro. Ela mais do que ele. Pelo menos parecia. E deram um abraço. Bastante rápido porque estavam na rua e, como eu já disse, ele era discreto. E ela também, embora fosse menos. Cada um pensava que tinha coisas a dizer um ao outro. Ficaram, porém, pelas palavras triviais de quem já não se vê há muito tempo: tudo bem, como vais, estás bem, como tens passado…

Um deles, já não sei bem qual, foi dizendo que a solidão ia pesando. E também já não sei se foi ele ou ela que teve  vontade de dar a mão - acho que foi ela -, sentar-se num banco e ficar a conversar, a conversar... Sem pressas e sem agruras.

Mas não havia banco e ele estava com pressa. Ela ainda teve tempo de dizer que era o seu aniversário. Ele deu-lhe os parabéns e desejou-lhe um dia feliz. E que em breve se encontrariam com mais tempo. E despediu-se.

Se fosse um filme, veríamos uma mulher parada, com ar hesitante, olhando um cruzamento e um homem a afastar-se.

Como se saísse de momentos de letargia, ela respirou fundo e seguiu até ao café mais próximo. Podia ser que encontrasse alguém conhecido com quem pudesse conversar um pouco. Nem que ficassem de pé, com a bebida descansando no balcão!


quarta-feira, 10 de junho de 2026

Impossível não me lembrar de Elza


Há uns anos, tive uma aluna - a Elza - que leu este soneto de Camões numa aula. Enquanto ela o dizia, fez-se um silêncio profundo. É que o tom de voz, a postura, o sentimento ... tudo fazia brilhar ainda mais a humana beleza triste do poema.

Não sei onde estará Elza a viver e a trabalhar. Talvez ainda saiba o soneto de cor. De uma coisa tenho quase a certeza: quem a ouviu ficou a gostar ainda mais de Luís de Camões.


Erros meus, má Fortuna, Amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a Fortuna sobejaram,
Que para mim bastava Amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que já as frequências suas me ensinaram
A desejos deixar de ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa a que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De Amor não vi senão breves enganos.
Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!


Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

O nome da rua


Vinha de longe e não conhecia aquela rua. Procurou-a no mapa, mas não a encontrou. Resolveu perguntar a um homem que passava passeando o cão. Não, não sabia o nome da rua, embora lá passasse muitas vezes. Também não tinha tempo para procurar alguma placa ou perguntar a alguém, porque o cão puxava a trela com toda a força. Se a largasse, teria de correr muito e já não tinha pernas para isso.

Mais adiante, perguntou a uma mulher que estava a colher flores do seu jardim. A mulher disse que não se lembrava porque ultimamente esquecia-se de tudo.

O homem continuou o seu caminho e avistou um café com um nome curioso: Café Oásis. Entrou, pediu um café e perguntou o nome da rua ao rapaz que o atendeu. Com sotaque brasileiro, ele respondeu que não sabia, mas que iria perguntar à patroa. E foi, mas ela estava a conversar com outra mulher - do outro lado do balcão - e não gostava de ser interrompida.

Como o café era pequeno e os clientes estavam todos atendidos, o empregado deixou-se ficar à espera de fazer a pergunta e, mesmo sem querer, ia ouvindo a conversa entre as duas mulheres. Uma delas dizia e repetia: Esta é a rua das mulheres sós. 

E logo foi dizer ao homem desconhecido que aquela rua era a rua das mulheres sós. O desconhecido acreditou porque se habituara a ver o mundo cada vez mais estranho. E saiu do café a pensar no nome da rua. 

Muito próxima do café, viu uma mulher a falar ao telefone. As palavras saíam-lhe entre sorrisos. Afastando-se, o homem olhou para trás; a mulher, sorridente, acenou-lhe e entrou no café. O desconhecido acenou também, pensando que era bom que o nome da rua estivesse errado.

 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Crianças: hoje é o seu Dia!

 

Retirei o excerto, em baixo, do ‘Expresso Curto’ de hoje.

 O número de crianças em Portugal vai diminuindo. Julgo que quase ninguém gostaria de voltar aos velhos tempos em que muitas famílias - a grande parte muito pobre - tinham muitos filhos; os mais novos eram criados pela irmãos mais velhos que não podiam fazer escolhas de vida por falta de tempo e de dinheiro.

Os dados mostram, então, que, atualmente, vivemos o oposto: muito poucas crianças e famílias pequenas. Será que a situação vai mudar? Tenhamos esperança. 

E o tempo que as crianças passam com a família também é reduzido, porque muitas horas são passadas na escola. 

Não estaremos também a aumentar o tempo de solidão de toda a família?


“Crianças Hoje é Dia Mundial da Criança. Um retrato da infância em Portugal mostra que há apenas uma criança para cada dez adultos no país. Portugal sofreu a segunda maior queda da população infantil na União Europeia, nos últimos 50 anos e as crianças em Portugal passam cada vez mais tempo na escola e vivem com famílias cada vez menores.”


domingo, 24 de maio de 2026

No calor sufocante de antigos maios

 

Uma noite destas, acordei com trovoada. O que para muitos é fascínio, a ponto de se porem à janela, para verem o céu a riscar-se de luz, para mim é susto e stresse. Não sei se por memórias antigas também.

Impossível não me lembrar de trovoadas da minha infância em que a família se juntava numa divisão da casa. A minha mãe acendia uma vela benzida junto do raminho de oliveira igualmente benzida e rezávamos, em voz alta e em tom de novena, a oração a santa Bárbara. E eram lembrados os pecados do mundo de que a trovoada era um aviso e pelos quais devíamos pedir perdão a Deus.

Eu e os meus irmãos acompanhávamos as orações da nossa fervorosa mãe. O meu pai ia sussurrando, sem grande convicção, as ladainhas que a minha mãe iniciava. E eram muitas. E todas bem proferidas, sem qualquer atropelo de sílabas ou de palavras. 

O meu avô, ai, o meu avô, não me lembro se ele acompanhava as palavras devotas da minha mãe. O que sei é que não as sabia de cor, mas a presença dele era um alívio na sala, apenas iluminada pela vela acesa, e onde quase nem entrava ar, porque a porta estava fechada à luz dos relâmpagos. Só no final da tempestade, é que notávamos como o calor da sala se tinha tornado sufocante.

E o meu avô, aquele homenzarrão, de sorriso maroto e que tantas vezes contava as mesmas histórias e sempre com graça, sabia quando voltava a bonança. O som dos trovões ia ditando as  suas palavras: a trovoada já está mais longe. Vai passar em cinco minutos. As suas palavras acalmavam e eram as mais felizes e esperadas previsões da meteorologia do momento. 

Quando tudo serenava, abríamos a porta da sala, e também a janela. A vela já apagada mantinha-se no lugar, o raminho de oliveira e seca permanecia, sagrada, na jarrinha de vidro. 

Já libertos da trovoada, o meu irmão, o mais novo da família, ia brincar, a minha mãe e nós, as filhas, retomávamos os trabalhos domésticos, o meu pai ia para a oficina, preocupado com o trabalho. Quanto ao meu avô, resgatava uma das histórias antigas que sempre começavam assim: Uma ocasião...

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A menina que queria ser polícia!

 

Fiz parte do júri do concurso cujo cartaz mostrei no post anterior. Os concorrentes iam do primeiro ciclo ao ensino secundário e cada um já tinha sido vencedor no seu escalão e no seu agrupamento. Portanto, quem chegava à final das provas concelhias eram alunos muito bons. Uns com alguma timidez, outros com muita desenvoltura e à vontade, mas em todos se notava apoio da família e das professoras. Quando assim é, a 'obra nasce' com muito mais entusiasmo e convicção. 

Aos alunos era pedido que escolhessem um livro, que fotografassem objetos ligados à obra para serem apresentados ao público e, a partir deles, tecessem a sua argumentação. E um excerto, também à escolha de cada um, teria de ser lido. 

Muitas crianças encantaram, chovendo aplausos. Sobretudo os alunos do primeiro ciclo levaram os objetos que também fotografaram. E, antes da prova, algumas professoras ajudavam-nos a transportá-los, cheios de cor, bem desenhados e bem colados. Bonita e importante interação.

A propósito de A bicicleta que tinha bigodes, de Ondjaki, lá subiu ao palco um menino com um rádio vistoso, uma escola tipo casinha acolhedora...

Era um gosto ver os meninos e meninas com o seu livrinho na mão e a carinha muito próxima do microfone para que todas as palavras que diziam se ouvissem e se ouvissem bem.

A seguir, veio o segundo ciclo, depois o terceiro e, finalmente, o secundário. 

E a uma jovem do 12º ano, foi dito, no final da sua apresentação, que era uma belíssima contadora de histórias e que sobretudo muitas crianças gostariam  de a ouvir - pela dicção, pela expressividade, pelo amor com que contava... Ficou feliz com o elogio, disse que gostaria muito de fazer essa experiência, e que, no futuro, queria ser polícia! Foi surpreendente essa vontade expressa com um largo sorriso.

Quando ela descia do palco, surgiu-me o título para uma história: A menina que queria ser polícia!