quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Coisas de verão - à semana, sim; ao fim de semana, não!

 

É caso para dizer: quem nunca foi ao Castro Sampaio, em Labruge, Vila do Conde, não deixe de ir, se e quando puder.

Pode-se ir pela praia, por exemplo, a partir de Mindelo, havendo passadiços em muito do percurso.

Ao longe, avista-se a capelinha num vasto terreiro, donde se desfruta o mar imenso. Faz lembrar as cantigas de amigo - quando o namorado partia mar fora para ir para as guerras, das quais nunca se sabia se e quando voltaria.

As praias pequenas, cercadas de altos rochedos chamam e acarinham.

E o restaurante, que mais parece bar comum de praia, serve peixe bom e bem cozinhado. Saboreá-lo ao fim da tarde será como dar a mão em momento relaxado e confiante de prazer.

Porém, diz quem sabe que ao fim de semana é horrível pelas enchentes.

Ir de carro é outro frete, porque os acessos são apertados.

Durante a semana? Belo e tranquilo.

Durante o fim de semana? O melhor é ficar em casa, ou escolher outro lugar.

É que há mar e mar; muito motivo para lá ir: mas, com confusão, pode perder-se a vontade de lá voltar!


Coisas de verão - e depois do adeus

  

Vi em casa o eclipse. Abri a janela, pus os óculos e vi o sol em forma de lua. O tempo escureceu, mas não tanto como eu pensava.

Senti uma brisa a entrar pela janela. Suave e boa. Os ramos da camélia agitaram-se. Mas pouco. Os carros na rua passaram a ser raros. Senti a calma força da natureza.

Perto de casa, já tinha visto muita gente, uns de pé, outros sentados, óculos na mão, à espera do eclipse.

Na televisão, falava quem fez muitos e muitos quilómetros para chegar ao sítio em que o sol mais se esconderia. Como em Bragança. Havia pessoas comovidas, outras repetiam lugares comuns que era o que saía no momento…

Um brasileiro, emocionado, também me comoveu. Para ele, o eclipse era um fenómeno democrático que unia toda a gente, sem distinção.

Realmente há maravilhas da natureza que revelam maravilhas dos seres humanos.

E que perduram, mesmo depois do adeus!

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Coisas deste verão - os óculos do eclipse e os desmancha-prazeres!


Hoje precisei de ir à farmácia aonde vou habitualmente. É uma farmácia pequena e fica numa rua fora do centro da vila, hoje cidade. 

Estive lá uns 15 minutos para comprar os medicamentos de que precisava. Durante esse tempo, vieram umas quatro pessoas à procura de óculos para ver o eclipse.

Quando a porta se abria e se a farmacêutica não conhecia as pessoas, logo dizia: desculpe, mas, se é para os óculos do eclipse, já não tenho!

E ia comentando: Estou farta de dizer a mesma coisa! Que passe depressa o eclipse e venha o dia de amanhã!

E acrescentou outra coisa que, com alguma razão, também poderia ser para mim, embora, neste caso, já tenha os meus óculos na carteira: as pessoas procuram as coisas mesmo na última!

Cá em casa já toda a gente tem óculos e está entusiasmada para assistir logo ao eclipse.

Porém, com ou sem ironia, já ouvi: Todos os dias, o dia dá lugar à noite e não é preciso tanta festa!

Quem o disse ouviu que era desmancha-prazeres.

Mas, cá pra mim, as nuvens ou o nevoeiro é que vão ser os maiores desmancha-prazeres.

Mesmo assim, que a Festa não se eclipse!


terça-feira, 11 de agosto de 2026

Coisas de verão - a senhora do vestido lilás!

 

Logo que nos sentámos no café Velasquez, reparei numa senhora, que, sozinha, ocupava uma das mesas rente ao vidro que separava o interior da esplanada.

As mangas curtas do vestido lilás realçavam-lhe a magreza dos braços. O cabelo, cortado a direito, pressentia-se liso pela laca. Alguém da mesa também reparou nela e perguntou:

- Em que rua morará aquela senhora?

Logo veio a resposta: 

- Numa das avenidas próximas, por certo.

Concordámos. Pela postura. Pela sobriedade. 

Porém, durante o tempo que estivemos no café, a senhora do vestido lilás não tirou os olhos do telemóvel. Nem as mãos.

Não sei se estava a receber mensagens! Não parecia porque a expressão era sempre igual.

Saímos. Sem saber quanto tempo iria ficar no café a senhora do vestido lilás. A senhora que parecia viver numa das casas bonitas das bonitas avenidas. Talvez numa casa com flores e largas janelas. 

Mas sem ouvir ninguém a tocar à campainha. Nem a ser chamada, amorosamente, pelo nome.


domingo, 9 de agosto de 2026

Coisas de verão - o bar da praia não anuncia só gelados


Já me tinham avisado do evento, porque sabem que gosto de livros.

Mas também gosto de gelados!

Num pequeno cartaz, na parede de um bar da praia, anunciava-se a apresentação de um livro de Inês Meneses e Tó Zé Brito, escrito por eles a quatro mãos.

Prometia. Sou fã do podcast Fala com ela, que IMM dinamiza há uns anos. Também gosto de muitas canções de TZB. 

Era ao fim da tarde. 

Fui com a minha neta. De vez em quando, eu traduzia-lhe algumas coisas que achava importantes.

A autora viveu em Mindelo dos 3 aos 21 anos, aonde vem com frequência com o companheiro, Tó Zé Brito.

O local da apresentação do livro era aprazível e dedicado a atividades culturais. Julgo que já foi escola primária. Quero conhecer melhor o espaço e o que nele se realiza.

A conversa entre os autores - o casal - foi serena e amorosa. Falaram do respeito mútuo, do prazer partilhado na escrita diária do livro, dos gostos comuns como a leitura e o cinema.

Gostei muito do que disseram, da calma com que o disseram e espero gostar do livro também:

Ao fim do dia/Memórias e confissões de um casal, Contraponto.

E gostei que a minha neta também tivesse apreciado, apesar da barreira da língua. Mesmo assim, espero ter-lhe proporcionado uma boa memória do momento.

A par dos gelados e bolas de Berlim que adora e come na praia!


sábado, 8 de agosto de 2026

Coisas de verão - o amolador de facas


criançada andava toda na brincadeira.

De repente, faz-se ouvir um apito que vinha do fundo da rua. 

- Olha, é o assobio do amolador das facas - disseram os mais velhos.

- Ainda me lembro de um que passava na rua da minha infância - disse outro ainda jovem, mas já não tão jovem assim.

É a primeira vez que oiço este som - disse um dos mais novos.

- E o amolador vinha também de carrinha e com altifalante? -  perguntou uma das crianças.

- Nem pensar! -  logo alguém respondeu. Vinha numa espécie de bicicleta adaptada onde cabia a ferramenta necessária ao afiar das facas. Tocava um apito para chamar os clientes.

A carrinha já próxima, a criançada quis experimentar o serviço. Os adultos foram buscar duas facas para afiar. 

O homem abriu a porta de trás da carrinha e ligou um rodízio moderno.

Quando devolveu as facas afiadas, recebeu cinco euros de cada uma. 

O mais velho dos mais novos logo disse:

- Com este dinheiro, mais valia comprar facas novas.

Valeu pela memória antiga do assobio - pensei eu, enquanto a carrinha se afastava com o apito eletrónico e a peripécia terminava por ali. 

Como uma onda diferente que se mistura, lentamente, no oceano da memória.


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Coisas de verão - passando no passadiço


0 passadiço aproxima-me os olhos da vegetação e flores das dunas, do mar a vibrar de espuma, de corpos sossegados ao sol, de crianças reconstruindo castelos de areia…

Bem perto, passam peregrinos rumo ao norte. 

Um casal cruza-se comigo.

Sorrimo-nos. 

Olho as conchas de Santiago das mochilas. Lembram o apagar da sede em pequenas fontes que dão força, seja qual for a viagem.

Sorrisos partilhados também.


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Coisas de verão - maré vaza


São incontáveis as cores das pequenas pedras que vejo na areia molhada enquanto caminho durante a maré vaza.

Também inúmeras são as suas formas. Difícil dizer quais as mais bonitas ou mais perfeitas.

Se não fossem tão diferentes, não seriam tão belas nem cativariam o olhar.

Há uns anos, apanhava algumas e levava-as para casa; agora, prefiro vê-las na praia, onde moram.

Amanhã, já não estarão no mesmo lugar. Imensos são os sítios para onde podem ir, levadas pelo mar.



terça-feira, 4 de agosto de 2026

Coisas de verão - uma pergunta e um beijo

 

A pergunta

- Avó, que tempo é?

- Que tempo, meu amor? Se vai chover? Queres saber se vem mais calor?

- Não, avó, que tempo é agora?

- Não entendo.  Diz então em inglês.

- What time is it?

- Ah! São 12,20, meu amor.

- Obrigada, avó! Ainda temos tempo.


O beijo

Caminho na praia. Na areia firme e molhada. Ondas pequenas vêm até mim. Frias, sabem-me bem e refrescam-me os pés. Continuo. 

Em sentido contrário, e também pela água, vem um casal. Ladeado por um cão. Aproximam-se os três.

Param, de repente. O casal enlaça as mãos, sorrindo. O cão começa a saltitar. Dão um beijo. No cão!


domingo, 2 de agosto de 2026

Coisas de verão - um café


Chego ao aeroporto e aproximo-me do setor das chegadas. Muita gente. Não admira: é verão e início de agosto. Umas pessoas olham com atenção o placard informativo das partidas e chegadas; outros parecem procurar alguém;  taxistas fora de regras arriscam a  cativar clientes: Táxi. Precisa de táxi?

 Um vai-vém de pessoas para cá e para lá com a sua mala de férias a correr sob rodinhas; crianças a esticar os braços para quem as espera com um sorriso de saudades interrompidas.

Em breve, também abraçarei a minha neta. Nem tomei café depois de almoço para não perder tempo. Quero estar na porta do desembarque para a ver sair e vê-la a correr para mim.

Olho de novo o placard. O avião que eu espero, e que vem de Londres, tem um atraso de 10 m. Será mais, com certeza, contando com a recolha das malas do porão que o ronceiro tapete rolante vai devolver, mais o tempo de controle de fronteira!

Ainda vai demorar um bocadinho o abraço que quero dar e receber logo que a minha neta transponha a porta de desembarque, desatando a correr até desaguar nos meus braços!

Olho de novo para o placard! Faço as contas entre o Landed e os minutos que todas as formalidades demoram!

Ainda tenho tempo de tomar o café, de que sinto falta, antes de chegar à porta de desembarque. 

Vou ao café em frente. 

Uma fila grande. Chega à minha vez na caixa:  Um café, por favor. Pago.

Pode pedir à minha colega aqui ao lado. Olho o relógio. E também as pilhas de copos de papel - uns pequenos, outros grandes. Não resisto e pergunto: costumam reciclar os copos?

A funcionária, com doce sotaque brasileiro, diz que não sabe, mas que todos os copos são ‘jogados’ nos contentores do papel e cartão.

Bebo o café em poucos goles. Com prazer mas com pressa. Pouso o copo no balcão. Volto-me para quase correr até à porta do desembarque para ver a minha neta sair. 

Já não é preciso. A sua voz sorridente está mesmo rente a mim: Avó!

E abraçamo-nos, enquanto vou dizendo: minha estrela, meu sol!

Gostava de lho ter dito à saída da porta do desembarque! 

Mas era tão bom vê-la chegar para passar as férias em Portugal que não valia a pena lamentar o café já tomado!


quarta-feira, 22 de julho de 2026

A morte também é feiticeira!

 



terça-feira, 14 de julho de 2026

Pedi uma informação e tive-a com toda a clareza

 Ontem, em Gaia, eu andava à procura de uma rua que sabia estar próxima de mim, mas que não sabia encontrar.

Mais uma vez disse para mim própria que tenho de aprender a usar o gps. Como não estou habituada a usá-lo, teria de ser â moda antiga: perguntar até encontrar.

Pois bem, um casal aproximava-se e, como vinham com saca com compras de supermercado, logo pensei que deviam residir por ali ou, pelo menos, conhecer a zona.

Fiz a pergunta sobre a localizaçåo da rua aonde eu tinha de ir. Pararam, ela olhou-me com ar sério, ele, mais simpaticamente, tirou o telemóvel do bolso e logo me mostrou a localização, confirmando, com os dedos, o percurso que teria de seguir: ir em frente e virar à esquerda depois de passar a linha do metro. Eram estrangeiros, vi pela expressão. Agradeci com um sorriso que foi retribuído por ambos, desta vez.

Mesmo com as indicações do simpático homem, acabei por seguir pela rua errada: paralela à que eu pretendia. Apesar de procurar alguma placa, nada encontrei sobre o nome da rua. Vendo um homem de meia idade a aproximar-se, perguntei-lhe sobre a rua que eu procurava. E vi, de novo, que não era português. Logo me explicou claramente onde era a rua que, por acaso, ficava perto. Daí a pouco, lá estava eu, feliz e contente, a tocar à campainha do prédio que eu procurava.

Moral da história: tenho de aprender a usar o gps. Para além disso, confirmo: os imigrantes também nos ajudam a encontrar caminhos que precisamos de seguir.


domingo, 12 de julho de 2026

Desculpem, mas a palavra solidão não me sai da cabeça!

 

Cada vez há mais pessoas sós. Pela experiência que tenho, são mais as mulheres. Quando se vive só por opção, é uma coisa; se foi a vida que impõs tal condição, é outra coisa bem diferente.

Entremos nalgumas casas - salvo seja, que é uma forma de dizer. Durante muito tempo, a vida corre e nem se dá conta de que passa a toda a velocidade: há a família, o trabalho e a casa apenas está só durante umas horas.

Porém, se há filhos, estes crescem e, num ápice, seguem a sua vida e a casa esvazia-se, passando a ficar só durante muito mais tempo, tal como fica só quem lá continua a viver e já em tempo de reforma. Às vezes, os filhos voltam, mesmo em idade de terem o seu próprio poiso e de os pais estarem em idade de mais repouso. Voltam pelos mais diversos motivos: por separação do casal, por falta de dinheiro, por falta de trabalho...

E há casas que passam a ficar longamente silenciosas, por morte de alguém que lá viveu: um  elemento do casal, irmãos, pais… 

Quando assim é, na passagem dos dias e no repouso da noite, a solidão faz acordar o grande peso que traz consigo. Conversas pequeninas que apetecia descarregar ao final do dia ficam guardadas; vontade de sentir um abraço não se concretiza… Porém, se há filhos, netos ou outros familiares mais atentos, mesmo que vivam mais longe, é uma janela que se pode abrir mais facilmente. Se não os há, nem uma pessoa amiga e próxima, então a solidão é mesmo uma pedra que custa a remover.

Sem pretender encontrar escapatórias desnessárias, acho que muitos governantes - do país e do mundo - não diminuem a solidão que se vai instalando em pessoas de todas as idades; pelo contrário, até a aumentam. Parecem fazer muito mais por si próprios do que trabalhar afincadamente para o bem das pessoas comuns que sustentam o mundo.

Talvez porque a solidão ainda não lhes entrou na cabeça.




sexta-feira, 10 de julho de 2026

E se não fossem os professores?

 

Para muitos, o que se está a passar com a correção dos exames do ensino secundário é um caos, para outros - onde o governo se inclui - é um percurso quase natural porque a entrada no digital está a acontecer pela primeira vez.

Na disciplina de Português, por exemplo, há professores que recebem composições incompletas, ou com páginas  de letra diferente, logo pertencendo a outro aluno.

E muitas questões são colocadas pelos professores mas a plataforma não responde.

Mesmo assim, os professores continuam a corrigir os itens que podem. Para além do seu brio profissional, muitos fazem-no a pensar nos seus alunos - que também fizeram exames - e não querem ver prejudicados com mais prolongamento de prazos.

Enquanto isto, o ministro da educação desdobra-se em entrevistas com respostas às vezes vagas e outras tantas culpabilizadoras de outrem, como é o caso de professores terem culpa no atraso, por agrafarem as provas no sítio indevido, o que se provou não ser verdade.

A vontade do senhor ministro era tanta de mostrar serviço moderno que acabou por prestar um mau serviço - pior do que o antigo.

E pergunto: se não houvesse o zelo e o trabalho dos professores? Já se diz que noutras profissões as pessoas sairiam à rua para se manifestarem contra um trabalho que chega às pinguinhas ao computador e tarde e a más horas.

O primeiro ministro, esse lá aparece de vez em quando em sítios públicos, com sobrolho carregado ou com cara de quem está acima de todas as perceçoes,  relativizando o que acontece e pedindo que os deixem trabalhar. Só que se esquece de dizer que quem o está a fazer são os professores. Queria ver se não fossem. 


terça-feira, 7 de julho de 2026

Adiós!

  

Ontem o resultado

Não foi como se queria

Correu bem aos espanhóis 

Que levaram a alegria


0 Ronaldo até chorou

Mas não o selecionador

Que diz sempre muito bem

E que tudo é o maior!


Lá estava o nosso Primeiro

Que de jogos não falha um

E gosta de chutar a bola

E que a apanhe qualquer um


Mas a vida é mesmo assim

Ele é ganhar e perder

Na próxima vai correr melhor

Dizemos nós animados

À espera que haja sorte

E nem sempre organizados!


E será que tudo vai ser

Como queremos de truz?

Quem vai gerir tantos talentos:

O Conceição ou Jesus?


segunda-feira, 6 de julho de 2026

Alegria procura-se!

 

Em jogos como o de logo à noite, entre Portugal e Espanha, fico um pouco ansiosa e, se o digo às minhas filhas, logo querem saber a razão. Quando veem que é por causa da bola, riem-se e desvalorizam.

Enquanto adolescentes, eram adeptas e sócias do FCP (eu também fui durante uns anos e ainda conservo o meu cartão azul).

Foram crescendo, seguindo as suas vidas e perderam essa vontade de ir a jogos de futebol. Desse tempo ficaram só os cachecóis que levavam ao pescoço ou atados à cintura. Moram cá em casa como objeto feliz de que não me quero desfazer.  Recordam momentos bem mais fervorosos e inocentes do que as negociatas que envolvem a banca, políticos, empresários e muito, muito dinheiro. E muitas muitas influências!

Porém, nos jogos da seleção, a minha filha que vive fora do país vê os jogos e, lá em casa, torcem todos por Portugal, apesar das nacionalidades diferentes. A minha neta quis até uma camisola da seleção portuguesa e veste-a para ver os jogos em casa. Por acaso não sei o número que tem nas costas, mas tenho curiosidade.

Será que é por estar fora que presta mais atenção à seleção portuguesa do que a irmã que vive cá? Não sei. Emigrada há muitos anos, vejo-a como uma cidadã do mundo (parece lugar comum, mas é o que sinto), apesar de ela manter vivas as raízes portuguesas. Não procura  porém, um restaurante português só porque tem saudades. O marido, que é americano,  é capaz de o procurar com mais facilidade e apetite. E como ele gosta de pratos de bacalhau! Quando lá vou, lá vão umas postinhas do fiel amigo na mala!

 Pois bem, não sei ainda se vou ver o jogo de logo à noite. A dúvida até me trouxe  uma quadra:

Será que logo à noite

Vamos perder ou ganhar?

Nem sei até se vou ver o jogo

Ou se prefiro jardinar!


E ‘afinal havia outra’:


Nestes jogos decisivos,

Há sentimento e  emoção!

E se é a Espanha que ganha?!

Oh! Não, isso é que não!


Bom jogo e que ganhe Portugal! 

E, já que estamos no Texas: Alegria procura-se!


sexta-feira, 3 de julho de 2026

Afinal há inferno?

 

Quando eu era pequena, assustavam-nos com o inferno. Dizes asneiras, vais para o inferno; não obedeces, vais para o inferno…

Nos últimos anos, a mentalidade mudou e chegou-se à conclusão de que não havia inferno. Que alívio!

Mas, afinal, há! Muita gente o sente por estes dias: quem vive ou trabalha na rua ou ao sol, quem vive em casas pequenas e quentes, quem vive só e quase não vê ninguém, quem está a ser atingido por incêndios…

Tudo isto é inferno!

E fomos nós, humanidade, que fomos deitando achas para esta fogueira que cada vez controlamos menos: lixos atirados à toa, construção de casas em lugares errados, agentes poluidores à solta e tanta coisa mais que ‘vemos, ouvimos e lemos’!

Não nos falte água - que também vai escasseando - para nos hidratarmos e apagarmos os fogos que fomos ateando - uns bem mais do que outros. E que agora nos incendeiam o corpo e a alma.

Desculpe, mãe, muitas vezes lhe disse que não havia inferno, mas afinal há. É muito diferente do de antigamente, mas não deixa de ser inferno.


quinta-feira, 2 de julho de 2026

Calor, solidão …


Os dias tórridos que estamos a viver não são novidade para ninguém e dizer que está calor ainda aquece mais o ambiente, às vezes sufocante.

E, na noite passada, para além do calor, houve vento, muito vento. Perto de minha casa, há estufas e eu estava sempre a ver quando voava, com estrondo, alguma cobertura de zinco, como já aconteceu. 

Quase desfeito ficou,  porém, um guarda-sol que voou da casa vizinha. Ainda bem que a minha cadela não andava, naquele momento, em passeio de busca noturna. 

Pela hora do almoço, dois funcionários do Serviço do Ambiente tocaram-me à porta, para recolha de verdes. Enquanto faziam o trabalho, pediram-me água. A garrafa que tinham na carrinha estava vazia e torta pela exposição ao calor.

E isto são apenas uns ínfimos pontinhos de uma geografia afogueada e quase toda pintada a vermelho.

Bem mais angustiante será viver em casas pequenas e quentíssimas. E sem ninguém para falar, a quem se queixar, a quem dirigir um gesto e receber um abraço. Para abrir ou fechar uma janela para que o sol não atordoe mais, para que o ar seja mais suportável e alivie a solidão. Curiosamente, o tema da solidão foi abordado hoje no programa Sociedade Civil do canal 2. 

Ao longo dos 60 minutos, ficámos a conhecer muito trabalho solidário no sentido de ajudar pessoas a interagirem mais, irem ao encontro de quem vive só, não pode sair e precisa de comunicar para que a vida faça sentido. Cinco pessoas de cinco instituições - todas elas mulheres e ainda jovens - expuseram projetos de amor aos outros e de ligação afetiva às comunidades.

Houve calor humano, bem diferente do calor que nos está a assolar. Este era dispensável, o outro  - o calor humano - anda muito faltoso mas é cada vez mais urgente e necessário. 


sábado, 27 de junho de 2026

Uma das 'minhas' músicas!

 


Futebol

 

Futebol se joga no estádio?

Futebol se joga na praia,

futebol se joga na rua,

futebol se joga na alma.

A bola é a mesma: forma sacra

para craques e pernas de pau.

Mesma a volúpia de chutar

na delirante copa-mundo

ou no árido espaço do morro.

São voos de estátuas súbitas,

desenhos feéricos, bailados

de pés e troncos entrançados.

Instantes lúdicos: flutua

o jogador, gravado no ar

— afinal, o corpo triunfante

da triste lei da gravidade.

 

Carlos Drummond de Andrade, In Poesia errante

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Hoje


Ainda estão quentes as brasas

Da noite de S. João

Não nos falte a alegria 

Para lançar o balão!


segunda-feira, 22 de junho de 2026

É São João!


Ó meu rico São João

Vê se desces cá à Terra

Há tanta desunião

E é tão mortífera a guerra!


E o desconcerto do mundo

Vai crescendo em cada dia

Uns não saem da tristeza

Outros só veem alegria!


E não sei se também sentes

Os gritos de sofrimento

Ouvidos dentro de casa

Em vez de paz e alento!


Não te peço, S. João,

Que venhas lutar por nós

Cada um pode fazer muito

Mas sentimo-nos tão sós!


sexta-feira, 19 de junho de 2026

Com a bebida no balcão

 

Já se conheciam há muitos anos, tinham convivido durante muito tempo, mas raramente se encontravam. Raramente falavam. Raramente trocavam mensagens. Quase só pelo Natal e pelos anos dele. Dela, não, porque ele não sabia as datas dos aniversários e nunca perguntava. Era muito discreto. Sempre assim tinha sido.

Um dia, cruzaram-se, curiosamente, junto a um cruzamento. Ficaram felizes pelo encontro. Ela mais do que ele. Pelo menos parecia. E deram um abraço. Bastante rápido porque estavam na rua e, como eu já disse, ele era discreto. E ela também, embora fosse menos. Cada um pensava que tinha coisas a dizer um ao outro. Ficaram, porém, pelas palavras triviais de quem já não se vê há muito tempo: tudo bem, como vais, estás bem, como tens passado…

Um deles, já não sei bem qual, foi dizendo que a solidão ia pesando. E também já não sei se foi ele ou ela que teve  vontade de dar a mão - acho que foi ela -, sentar-se num banco e ficar a conversar, a conversar... Sem pressas e sem agruras.

Mas não havia banco e ele estava com pressa. Ela ainda teve tempo de dizer que era o seu aniversário. Ele deu-lhe os parabéns e desejou-lhe um dia feliz. E que em breve se encontrariam com mais tempo. E despediu-se.

Se fosse um filme, veríamos uma mulher parada, com ar hesitante, olhando um cruzamento e um homem a afastar-se.

Como se saísse de momentos de letargia, ela respirou fundo e seguiu até ao café mais próximo. Podia ser que encontrasse alguém conhecido com quem pudesse conversar um pouco. Nem que ficassem de pé, com a bebida descansando no balcão!


quarta-feira, 10 de junho de 2026

Impossível não me lembrar de Elza


Há uns anos, tive uma aluna - a Elza - que leu este soneto de Camões numa aula. Enquanto ela o dizia, fez-se um silêncio profundo. É que o tom de voz, a postura, o sentimento ... tudo fazia brilhar ainda mais a humana beleza triste do poema.

Não sei onde estará Elza a viver e a trabalhar. Talvez ainda saiba o soneto de cor. De uma coisa tenho quase a certeza: quem a ouviu ficou a gostar ainda mais de Luís de Camões.


Erros meus, má Fortuna, Amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a Fortuna sobejaram,
Que para mim bastava Amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que já as frequências suas me ensinaram
A desejos deixar de ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa a que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De Amor não vi senão breves enganos.
Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!


Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

O nome da rua


Vinha de longe e não conhecia aquela rua. Procurou-a no mapa, mas não a encontrou. Resolveu perguntar a um homem que passava passeando o cão. Não, não sabia o nome da rua, embora lá passasse muitas vezes. Também não tinha tempo para procurar alguma placa ou perguntar a alguém, porque o cão puxava a trela com toda a força. Se a largasse, teria de correr muito e já não tinha pernas para isso.

Mais adiante, perguntou a uma mulher que estava a colher flores do seu jardim. A mulher disse que não se lembrava porque ultimamente esquecia-se de tudo.

O homem continuou o seu caminho e avistou um café com um nome curioso: Café Oásis. Entrou, pediu um café e perguntou o nome da rua ao rapaz que o atendeu. Com sotaque brasileiro, ele respondeu que não sabia, mas que iria perguntar à patroa. E foi, mas ela estava a conversar com outra mulher - do outro lado do balcão - e não gostava de ser interrompida.

Como o café era pequeno e os clientes estavam todos atendidos, o empregado deixou-se ficar à espera de fazer a pergunta e, mesmo sem querer, ia ouvindo a conversa entre as duas mulheres. Uma delas dizia e repetia: Esta é a rua das mulheres sós. 

E logo foi dizer ao homem desconhecido que aquela rua era a rua das mulheres sós. O desconhecido acreditou porque se habituara a ver o mundo cada vez mais estranho. E saiu do café a pensar no nome da rua. 

Muito próxima do café, viu uma mulher a falar ao telefone. As palavras saíam-lhe entre sorrisos. Afastando-se, o homem olhou para trás; a mulher, sorridente, acenou-lhe e entrou no café. O desconhecido acenou também, pensando que era bom que o nome da rua estivesse errado.

 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Crianças: hoje é o seu Dia!

 

Retirei o excerto, em baixo, do ‘Expresso Curto’ de hoje.

 O número de crianças em Portugal vai diminuindo. Julgo que quase ninguém gostaria de voltar aos velhos tempos em que muitas famílias - a grande parte muito pobre - tinham muitos filhos; os mais novos eram criados pela irmãos mais velhos que não podiam fazer escolhas de vida por falta de tempo e de dinheiro.

Os dados mostram, então, que, atualmente, vivemos o oposto: muito poucas crianças e famílias pequenas. Será que a situação vai mudar? Tenhamos esperança. 

E o tempo que as crianças passam com a família também é reduzido, porque muitas horas são passadas na escola. 

Não estaremos também a aumentar o tempo de solidão de toda a família?


“Crianças Hoje é Dia Mundial da Criança. Um retrato da infância em Portugal mostra que há apenas uma criança para cada dez adultos no país. Portugal sofreu a segunda maior queda da população infantil na União Europeia, nos últimos 50 anos e as crianças em Portugal passam cada vez mais tempo na escola e vivem com famílias cada vez menores.”


domingo, 24 de maio de 2026

No calor sufocante de antigos maios

 

Uma noite destas, acordei com trovoada. O que para muitos é fascínio, a ponto de se porem à janela, para verem o céu a riscar-se de luz, para mim é susto e stresse. Não sei se por memórias antigas também.

Impossível não me lembrar de trovoadas da minha infância em que a família se juntava numa divisão da casa. A minha mãe acendia uma vela benzida junto do raminho de oliveira igualmente benzida e rezávamos, em voz alta e em tom de novena, a oração a santa Bárbara. E eram lembrados os pecados do mundo de que a trovoada era um aviso e pelos quais devíamos pedir perdão a Deus.

Eu e os meus irmãos acompanhávamos as orações da nossa fervorosa mãe. O meu pai ia sussurrando, sem grande convicção, as ladainhas que a minha mãe iniciava. E eram muitas. E todas bem proferidas, sem qualquer atropelo de sílabas ou de palavras. 

O meu avô, ai, o meu avô, não me lembro se ele acompanhava as palavras devotas da minha mãe. O que sei é que não as sabia de cor, mas a presença dele era um alívio na sala, apenas iluminada pela vela acesa, e onde quase nem entrava ar, porque a porta estava fechada à luz dos relâmpagos. Só no final da tempestade, é que notávamos como o calor da sala se tinha tornado sufocante.

E o meu avô, aquele homenzarrão, de sorriso maroto e que tantas vezes contava as mesmas histórias e sempre com graça, sabia quando voltava a bonança. O som dos trovões ia ditando as  suas palavras: a trovoada já está mais longe. Vai passar em cinco minutos. As suas palavras acalmavam e eram as mais felizes e esperadas previsões da meteorologia do momento. 

Quando tudo serenava, abríamos a porta da sala, e também a janela. A vela já apagada mantinha-se no lugar, o raminho de oliveira e seca permanecia, sagrada, na jarrinha de vidro. 

Já libertos da trovoada, o meu irmão, o mais novo da família, ia brincar, a minha mãe e nós, as filhas, retomávamos os trabalhos domésticos, o meu pai ia para a oficina, preocupado com o trabalho. Quanto ao meu avô, resgatava uma das histórias antigas que sempre começavam assim: Uma ocasião...

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A menina que queria ser polícia!

 

Fiz parte do júri do concurso cujo cartaz mostrei no post anterior. Os concorrentes iam do primeiro ciclo ao ensino secundário e cada um já tinha sido vencedor no seu escalão e no seu agrupamento. Portanto, quem chegava à final das provas concelhias eram alunos muito bons. Uns com alguma timidez, outros com muita desenvoltura e à vontade, mas em todos se notava apoio da família e das professoras. Quando assim é, a 'obra nasce' com muito mais entusiasmo e convicção. 

Aos alunos era pedido que escolhessem um livro, que fotografassem objetos ligados à obra para serem apresentados ao público e, a partir deles, tecessem a sua argumentação. E um excerto, também à escolha de cada um, teria de ser lido. 

Muitas crianças encantaram, chovendo aplausos. Sobretudo os alunos do primeiro ciclo levaram os objetos que também fotografaram. E, antes da prova, algumas professoras ajudavam-nos a transportá-los, cheios de cor, bem desenhados e bem colados. Bonita e importante interação.

A propósito de A bicicleta que tinha bigodes, de Ondjaki, lá subiu ao palco um menino com um rádio vistoso, uma escola tipo casinha acolhedora...

Era um gosto ver os meninos e meninas com o seu livrinho na mão e a carinha muito próxima do microfone para que todas as palavras que diziam se ouvissem e se ouvissem bem.

A seguir, veio o segundo ciclo, depois o terceiro e, finalmente, o secundário. 

E a uma jovem do 12º ano, foi dito, no final da sua apresentação, que era uma belíssima contadora de histórias e que sobretudo muitas crianças gostariam  de a ouvir - pela dicção, pela expressividade, pelo amor com que contava... Ficou feliz com o elogio, disse que gostaria muito de fazer essa experiência, e que, no futuro, queria ser polícia! Foi surpreendente essa vontade expressa com um largo sorriso.

Quando ela descia do palco, surgiu-me o título para uma história: A menina que queria ser polícia!


domingo, 17 de maio de 2026

Ler para querer mais!

 


terça-feira, 5 de maio de 2026

Não é por ser meu neto!...

 

- Agora, meu amor, como acabámos o jogo, vamos contar as pecinhas. Pode ser?

- Sim, avó: uma, duas, três, quatro, cinco, sete…

- Achas que é sete? Depois do cinco é sete?

- Vou contar outra vez: cinco, seis, sete, oito, nove, dez!

- Muito bem! Esta peça foi a primeira, esta foi a segunda... Queres continuar?

- Quero, avó.

-  Terceira, quarta, quinta…

- Muito bem, meu amor. Continua.

- Avó, não sei mais. 

- Eu ajudo-te, vá lá!

- Quarta, quinta, sexta…

- Ótimo! E depois de sexta?

- Não me lembro, avó.

- Pensa bem! Quarta, quinta, sexta...

- Já sei, avó.

- Então, qual é?

- Sábado!!!!

domingo, 3 de maio de 2026

Mãe

 
A minha Mãe era Rosa



Feliz Dia da Mãe!


sexta-feira, 1 de maio de 2026

Meu querido mês de Maio!

 

Hoje, é o teu primeiro Dia e, por isso, é feriado! Levantei-me cedo, como acontece regularmente. Talvez não fosse necessário, mas, para mim, é e é bom. Assim, o dia rende mais e posso fazer as boas e preguiçosas pausas da hora do almoço e do fim de tarde. Ai que prazer sentar-me no sofá, ver as notícias, pensar, ler, crochetar, não fazer nada... 

Gosto de ti, mês de Maio. Vens, logo no teu primeiro Dia, ativo e reivindicativo para que os deveres e direitos de todos não sejam esquecidos. És festejado nas ruas, com muitas bandeiras, muitos slogans de alerta, muitas vozes que se querem fazer ouvir. Sabes, lembro-me muito bem do Primeiro Dia em que foste festejado em Portugal e em Liberdade. Ainda moram nos meus olhos as multidões em praças e ruas. A alegria e deslumbramento eram tão grandes!

Quando nasces, Maio, sobretudo nas aldeias, muitas vezes apercebes-te do perfume e das cores das maias em muitas portas e janelas. É bonito serem flores a proteger do mal, segundo a tradição. Porém, ontem não as pus, porque são difíceis de encontrar ou de apanhar. Escasseiam quando antigamente eram abundantes. E o ritual era engraçado: ir ao monte apanhar um raminho das giestas de flor amarela. Também cresciam e floriam à beira das ruas ou caminhos. Como agora são poucas, há quem as junte, criativamente, a outras flores. Como mostram estas fotos amigas que recebi.



Maio, o que nos trarás? São tantas as incertezas. São tantas as imprevisibilidades. São tantas as reviravoltas e ganâncias de quem governa o mundo que o mundo até entontece.

Quando eu era pequena, tinha medo de ti, Maio, por causa das trovoadas frequentes e previsíveis que te acompanhavam. Nesse tempo, o melhor boletim meteorológico era o meu avô. Olhava para o céu e acertava sempre. Hoje, já não seria bem assim, porque muitas tempestades chegam violentas e revolvem, de repente, os locais onde desabam. Tal como as guerras, atingem pessoas e espaços inocentes, sem dó nem piedade.

Meu querido mês de Maio, fico-me por aqui;

Vê se abrandas o sofrimento

que aumenta em cada momento.

Podemos confiar em ti?


quarta-feira, 29 de abril de 2026

Manhã


Hoje está a chover!

Uma chuva macia e serena

Que me fez logo lembrar

Dias de quando eu era pequena!


Eu e a minha irmã


segunda-feira, 27 de abril de 2026

Na 'minha cidade com mar ao fundo'!

 

Ontem, fui à 'minha cidade com mar ao fundo' - Espinho. Cheguei pela hora da abertura das lojas. Depois de um cafezinho,  estava na rua 19. Uma das primeiras lojas aonde entrei foi a bonita Bertrand. Eu tinha uns livros em mente e um vale ainda do Natal que queria descontar.

Entrei e parei a ver os livros mais em evidência, aqueles que à entrada estão dispostos de modo a chamar logo a atenção. Um deles era de um apresentador da tvi. E outros que devem vender bem. Muito bem. E veio-me à cabeça a frase que agora muita gente diz: 'Toda a gente escreve livros'. E, se são figuras mediáticas, os livros vendem-se. E muitos. E se as editoras têm dinheiro para a publicidade, ainda se vendem mais. Muito mais.

Se calhar, alguém diz a mesma frase quando, modestamente, publico os meus livros. Já agora, estou a trabalhar numa história para crianças que gostaria de publicar ainda este ano e que está a ser ilustrada. Só que, como tanta gente que gosta de escrever, sou desconhecida, anónima e as editoras, que aceitam publicar, têm poucos recursos e são pequenas. Só é grande o prazer de escrever, ver ilustrado e concluído um livro, feito honestamente, com amor, com criatividade, que, de uma forma ou outra, também anda por aí.  

Pois bem, os livros que eu queria comprar eram da Capicua e cuja coleção, julgo, tem o titulo 'Mão Verde'. Ao balcão, estavam duas jovens, simpáticas e educadas, que me informaram que, pelo menos, um desses livros só estava à venda online. Perguntei por outros livros de Capicua, também para crianças. Para além de ser muito talentosa e escrever muito bem, ela aborda temas importantes do dia a dia, como de ligação à natureza. Também compõe músicas muito bonitas e motivadoras para as crianças. 

Uma das jovens pesquisou livros da autora no computador e foi buscá-los a outro espaço que não estava acessível ao público. E pensei o óbvio: há autores e livros muito bons que não estão visíveis nas livrarias. E é pena. Muita pena. Os leitores ficavam a ganhar. 

Portanto, o que está logo à frente dos olhos de quem entra nas livrarias são muitas vezes livros que rendem muito dinheiro: à livraria, aos editores, a quem os escreve.

Não costumo interessar-me por esses livros e acho que o farei cada vez menos. 


sábado, 25 de abril de 2026

25 de Abril!



 

Deram-me cravos vermelhos

Com carinho e amizade

Tinham um belo perfume

Deve ser da LIBERDADE!



sexta-feira, 24 de abril de 2026

Outras coisas de que me lembro

 

Na Faculdade, sobretudo no primeiro ano, naquelas aulas em que o discurso do professor era difícil de entender, eu sentia que gostava de saber muito mais. E, já que estou a abrir a caixa das fragilidades, eu sentia a falta de não ter ido estudar logo a seguir à escola primária. E a principal razão de não ter ido foi ser menina, ter de aprender a fazer tudo o que era próprio de meninas, como trabalhos domésticos, família, coser, bordar... O resto era conversa ociosa ou coisas de ricos.

Eram comuns outros casos semelhantes. E, muito pior ainda, eram as crianças que, pelos dez anos, começavam a trabalhar no duro para ajudar a família. E eram imensas. E andavam muitas vezes com fome e descalças.

Na altura da quarta classe, a minha professora insistiu, até onde pôde, para eu continuar a estudar, mas não foi bem sucedida. Talvez essa atitude da professora  tenha sido um dos principais motores para eu retomar os estudos na adolescência, vendo, na prática, que o esforço e as energias despendidas eram bem maiores do que se tudo fosse feito no tempo certo.

O ensino obrigatório para todos é das melhores conquistas de Abril. Pesem ainda as dificuldades de muitos alunos na conclusão do secundário, no acesso e na continuação no ensino universitário.

Ora, na Faculdade, quando eu podia, passava algum tempo a ler ou a estudar na biblioteca. E via, com alguma frequência, entrar, de repente, alguns alunos como se viessem a fugir, sentarem-se de repente em lugares vagos e dispersos, fingindo de imediato que estavam a estudar. Tudo isto era feito em clima de silêncio e de medo.

Sem demora, entravam uns sujeitos corpulentos e, sem alarde, dirigiam-se aos alunos recém-chegados. Em surdina prepotente, saíam com eles para serem interrogados pela pide, que não suportava opiniões nem palavras, nem gestos contra o regime. 

Também em intervalos das aulas, ou quando havia mais alunos a circular pelos corredores, misturavam-se os ‘bufos’, também corpulentos e de olhos que apontavam em todas as direções. Ouviam as conversas para poderem acusar os mais subversivos, que tinham a coragem de agir ou falar em prol da Liberdade.

Por estas e por outras, faz doer ouvir o partido que, na Assembleia da República e não só,  mente, engana, manipula, insulta,  discrimina, desrespeita, diz tudo o que lhe dá jeito ou lhe ocorre no momento,  dizer que antigamente é que era bom. Coitados, falam, falam, mas não sabem do que falam. 

E o dirigente desse partido chama os jornalistas para o verem na missa, a comungar, a ajoelhar-se, a benzer-se ... E diz-se ungido por Deus!

Até (me) faz bufar. De raiva!


quinta-feira, 23 de abril de 2026

Coisas de que me lembro!

 

Imagem publicada hoje no Expresso Curto

No Dia 25 de Abril de 1974, eu estava no primeiro ano da faculdade de Letras do Porto, no curso de Românicas. A turma era grande e quase toda no feminino. Encantavam-me algumas aulas e noutras sentia-me como um peixinho muito pequeno e desajeitado fora de água. 

Lembro-me de uma professora ainda jovem que levava as aulas muito estruturadas, quase ditava os apontamentos, num misto de aluna e professora, mas que motivava para o estudo atento e para a leitura. 

Uma outra professora dava as aulas de pé, encostava-se muitas vezes ao quadro e fumava cigarro atrás de cigarro. Na aula havia silêncio e o que ela ensinava tornava-se encantatório.

Recordo outro professor que levou aulas e aulas com a análise das primeiras linhas de um livro do século XVI, estabelecendo relações infindáveis com outras obras e saberes da época. Havia quem quase adormecesse naquela aula em que o professor falava sempre olhando os papéis e quase nunca os alunos.

Outro professor, muito jovem e de barbas, comunicava bem melhor e parecia divertido com alguns conteúdos que transmitia.

Impossível esquecer também um outro professor, em início de carreira, que usava uma linguagem tão hermética que a grande parte de nós não entendia nada. Ele expunha os seus saberes, sem, aparentemente, a preocupação de se fazer entender. De vez em quando, circulavam papelinhos secretos, contra o modo fechado como o professor conduzia a aula. Ninguém tinha coragem de reagir em volta aita.

Era de História de Portugal um outro professor também muito jovem. Esse ia respondendo a questões. Durante o diálogo que estabelecia com os alunos, olhava de vez em quando para a porta, parecendo receoso de estar a cometer uma infração, respondendo a dúvidas. E um dia, num desses momentos de interação, a porta abre-se, entra o reitor, o professor fica corado, cessam as questões e a aula fica mais triste.


Se tiverem tempo e paciência, amanhã continuo, porque há outras coisas de que me lembro.


terça-feira, 21 de abril de 2026

Dai-nos, Senhor, palavras bonitas em cada dia!

 

Ontem já tinha falado do prazer de ouvir (e também tecer) um elogio - que não soe a falso nem a interesseiro, é claro. 

Hoje volto ao assunto, porque cada vez mais vejo a importância de dizer e ouvir boas palavras, como  um elogio, um agradecimento... 

Pode ser também um olhar, um sorriso,  um aceno,  um obrigada,  um momento de atenção, uma palavra dita com carinho...

Muitas vezes, vamos a conduzir, damos passagem, e o outro condutor passa indiferente como se nada se tivesse passado. 

Também abrir a porta a alguém para deixar passar ou segurar uns momentos na porta fica muitas vezes sem um obrigado. Quem o faz parece que nem repara na outra pessoa. Como se andássemos demasiado esquecidos ou distraídos. Ou sós no mundo.

Por isso, aqui juntei algumas palavras, em jeito de pequena oração (e que maltratada anda a católica religião!):


Dai-nos, Senhor, palavras boas em cada dia

Porque sem elas não há alegria.

Podem ser de elogio, de agradecimento,

ou de simples e humano reconhecimento.

Ou então em forma de sorriso;

o mundo anda triste e violento

fazendo pensar que não há siso.

 

Quando se vê algo bonito e bom

que nos aquece o coração,

Por que não elogiar?

E 'se Deus nos deu voz' 

por que não boas palavras usar?


Dêmos e recebamos, Senhor, boas palavras em cada dia

que para a alma são alimento,

como para o corpo o pão é sustento.

Precisamos de muita força para dizer não à tirania!


domingo, 19 de abril de 2026

Domingo com ramos de árvore floridos e com bola também

 

Há muitos anos, tive uma amiga que me disse uma coisa que não esqueci: 'Escreve, enquanto as árvores estão floridas'. 

Há dias, um amigo incentivou-me a escrever, dizendo gostar do que escrevo.

Não sei se é problema de geração, mas fico sem jeito perante os elogios, embora me saibam bem. A quem não sabem? Quem não gosta de mimos que julga serem verdadeiros? E as palavras são dos mimos melhores que existem.

Porém, a moda atual não é elogiar os outros, mas enaltecer o ego, evidenciando virtudes próprias e marcando defeitos dos outros.


Hoje é domingo, estou em casa e está bom tempo. Olhei as rosas amarelas dos canteiros, fui ao quintal com a velha Castanha ao meu lado e voltei para dentro com vontade de abrir o computador. 

É que ver árvores floridas no meu quintal e saber que alguém pode gostar das minhas palavras são um bom estímulo para me sentar a escrever.

Mas devo dizer uma coisa: também o faço por algum egoísmo. É que se não escrevesse, por pouco que seja, teria menos alegria ao ver as árvores floridas e ao ouvir palavras bonitas que dão prazer. Apetece-me dizer: 'Escrever faz (-me) bem!


Bom fim de tarde deste domingo de sol!

E, como hoje jogam os grandes da bola, desejo que a vossa vitória vos saiba bem.

Para mim, vitória vitória terá/teria de ser azul. Será?


quarta-feira, 15 de abril de 2026

Tocar piano sem falar francês!


Ontem fui à Casa da Música, no Porto, assistir a um concerto de piano. Durou 2 h, com intervalo. A primeira parte foi preenchida com o 'Requiem' de Mozart; a segunda, com a 'Sinfonia Fantástica' de Berlioz.

Nos dias que correm, podemos interrogar-nos sobre se dá prazer ouvir um pianista em palco - no qual apenas existe um piano - durante duas longas horas

Pois bem, apesar de nada versada em piano, gostei. Gostei muito. E gostei também do ambiente durante o espetáculo: do silêncio por parte do público, de não se ouvir nenhum telemóvel, de nenhuma foto ser tirada, de quase não existirem tosses...

Fiquei com vontade de lá voltar em breve, sobretudo em concertos de fim de tarde, porque cada vez sou menos notívaga. Da beleza tranquila e inspiradora gosto cada vez mais.

O pianista era Vadym Kholodenko, um músico muito premiado e ainda jovem da Ucrânia.

Durante o concerto, iam-me passando coisas pela cabeça, como conversas que vou tendo com a minha neta. Ela aprende piano, mas sem paixão. Eu digo-lhe às vezes: 'Quem me dera tocar piano'. Ela, então, responde na sua graciosa inocência: 'Avó, se quiseres, eu ensino-te'. Pois, tal como a grande maioria das pessoas da minha geração, não tive a possibilidade de 'tocar piano e falar francês'. Fiquei-me pela língua, o que foi muito bom. 

O mundo atual está globalizado. Ontem, viam-se muitos estrangeiros na Casa da Música. Todos unidos e atraídos pela linguagem universal da Música. E nos rostos havia sossego e alegria, o que também (me) tocou.


quarta-feira, 8 de abril de 2026

O café

 

Talvez por ainda ter na boca o gostinho bom do café do pequeno almoço, lembrei-me de algumas situações em que tomar café entra em ação.

É que 'tomar café' pode dar para tudo e mais alguma coisa. Por exemplo, dizer 'vamos tomar café' pode ser conversar, conviver, estar com alguém, sem sequer o café vir para a mesa.

Também  o convite 'anda tomar café comigo em minha casa' pode significar uma boa e partilhada amizade ou até mais intimidade.

Mas o que desarma qualquer um é quando surge o convite 'Vamos tomar café' e a resposta é: 'Eu não tomo café'. É como se a mesa ficasse vazia ou aquecêssemos as mãos em chávena quentinha de café e, de repente, ficasse gelada.

Esta semana, fui ao cinema com amigas. Depois, fomos 'tomar café', sem vir sequer café para a mesa, apesar de sermos todas - acho eu - apreciadoras.

E eu ia pensando como é bom ter pessoas amigas com quem 'tomar café', em dias em que o tempo tantas vezes escasseia para os outros, em dias em que não nos saem da cabeça governantes que maltratam o mundo, que passam a vida a vangloriar-se a si próprios, a culpabilizar e a responsabilizar apenas os outros...

O que vale é que o prazer de coisas boas e simples como 'tomar café' em casa ou com pessoas amigas ninguém nos pode tirar. 

Muitas pessoas já não o podem fazer.