segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Os meus tios de Leiria


Chegaram do Brasil há uma meia dúzia de anos. Era difícil viver lá onde viviam, sobretudo porque várias vezes foram assaltados. Os filhos estavam bem, tinham o seu trabalho, as suas famílias e os seus amigos. Por isso, decidiram vir para Portugal. A idade já tinha avançado bastante, mas ainda teriam possibilidade de trabalhar e de viver mais em paz. Gostavam de Leiria, por isso foi o lugar escolhido para se instalarem. O ganha-pão seria uma pequena loja num centro comercial.

Nos primeiros tempos, foi difícil enfrentar a dureza de não terem clientes. Não eram conhecidos e sentiam até que o sotaque brasileiro criava uma certa desconfiança, que lhes custava vencer. Não perderam o ânimo, continuaram, foram ganhando confiança de clientes que iam aumentando. Sentiam-se felizes em Leiria, onde fizeram alguns amigos e aonde eram visitados de quando em vez pela família. Ah, e a arca congeladora estava cheiinha, para uns bons petiscos partilhados. 

Na noite catastrófica da semana passada, acordaram sobressaltados, vendo a chaminé e telhas a voar como se fossem pedaços de papel. Era uma situação nunca vivida em mais de setenta anos de vida, nem cá nem na vida toda no Brasil. A casa, que é baixa e, talvez por isso, não completamente atingida velos ventos, ficou sem água, sem luz, sem ligações ao exterior. Como em todas as casas dos vizinhos que iam enfrentando o pesadelo como podiam. O barulho da queda de árvores próximas juntava-se à imensidão de estrondos de tantas coisas a cair desamparadas no chão.

Na manhã seguinte, incontactáveis, como milhares de pessoas em Leiria, foram arrumando os cacos. Como os vizinhos. Todos se iam entreajudando.

E as coisas congeladas da arca? - Perguntou uma familiar, numa intermitência de rede.

Estamos bem, não nos caiu nenhuma telha na cabeça, e isso é que mais importa, disseram eles.

Só não sabem é quando a vida vai recomeçar. 

E o pior é que parece que ninguém sabe.


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