Hoje, a minha cadela - a Castanha - foi vista pela veterinária. Apesar de ter sido sempre bastante saudável, tem alguns problemas de articulações, justificados pela idade. Nasceu em 2011, portanto já tem 15 anos.
Agora, que abri o computador, lembrei-me do texto que há pouco escrevi, para a coletânea proximidades (2025) sobre ela. Partilho-o agora.
Foi adotada depois de
recolhida, muito pequenina, fora de um portão tapado e fechado, numa rua de aldeia de
pouco movimento. Parecia ter caído, assustada, de uma árvore qualquer e ficado ali
muito quieta, com medo de ser calcada ou absorvida pela terra. Não tinha chip,
ninguém a conhecia, ninguém a procurou, estava com fome e tremia de medo.
Chegando a nossa casa, trazida pelo filho de uma amiga, que nome escolher para
ela? Olhando para a cor e tamanho daquela cadelinha, quase recém-nascida e que
lembrava uma castanhinha, logo surgiu: Castanha.
A Castanha cresceu, mas nunca
gostou de estar só.
Nos tempos de suposta
solidão, a Castanha arrasta o tapete, aninha-se sobre ele, junto ao portão de
grades, e ali fica à espera que alguém passe na rua, ou entre, ou comunique com
ela. Faz lembrar pessoas à janela, que se querem abrir aos outros e não ficar na
sua casca fria de fruto frágil e só.
Ainda não há muitos anos, confesso que a palavra solidão me dizia bem menos do que me diz agora. Achava até ideia lamechas e com cheiro a queixume. Eu tinha tanto para fazer: a escola, a família, a casa, os livros que gostava de ler, os textos que queria escrever, que ouvir a palavra solidão soava a ociosidade.
A vida, porém, vai alertando, com perdas e ganhos, para essa injustiça de pensamento e fraco entendimento do mundo.
Só compreendemos melhor os outros quando passamos por situações semelhantes. Nada é pior do que a indiferença, tipo: não sei o que sentes nem me interessa saber, porque não sei o que isso é. Ou então, a minha dor é bem mais forte do que a tua - ainda que seja evidente que não é assim.
Tudo isto me veio à cabeça ao ouvir hoje uma de quatro irmãs que sempre viveram juntas, numa casa grande e antiga de que cuidavam como se fosse uma parte importante da família, porque nela todas tinham nascido e vivido. A casa tinha assistido a casamentos, a nascimentos, a alegrias, a tristezas, a doenças, a mortes...
Há dias, uma dessas quatro irmãs faleceu e as três que ficaram sentiram-se profundamente tristes e orfãs, quebrando-se o todo que todas formavam, com todo o amor que sempre repartiam e que era sagrado como Deus que adoravam e que estava presente em tudo o que faziam. Por elas e pelos outros.
E ela, uma das quatro irmãs, agora três, todas nascidas até aos anos cinquenta do século XX, mencionava a falta de ânimo atual e a solidão que via aumentar na casa e na família que chegaram a julgar eternas. No tempo em que todas as cadeiras da mesa estavam preenchidas e a palavra solidão ainda não tinha chegado.
E alarguei a ideia da solidão - que, de uma forma ou outra, toca a todos - a tantos homens e mulheres que não têm ninguém para conversar, para desabafar, para contar as peripécias do dia a dia; para dizer o que dói, como dói, porque dói...
E tantas pessoas vivem em aldeias isoladas, e outras tantas isoladas em apartamentos de cidades que muitos degraus ou elevadores avariados separam da rua, dos pequenos prazeres de tomar um café servido quente à mesa em dia gelado, de dizer bom dia, de trocar sorrisos, de ter companhia, de ser-se notado...
Tanta gente que não recebe um beijo, que não tem um abraço, que não ouve um elogio nem palavra carinhosa, que não vê um olhar meigo e calmo, que não sente outra mão na sua mão...
É tão mau quando isto acontece, quando tantos homens e mulheres vivem sós e são velhos. Alguns ficam sine die no hospital, apesar de terem alta, ou vivem num lar e as visitas são para os outros...
E, no entanto, têm sonhos, têm ideias, têm recordações, têm histórias para contar, veem-se ao espelho e a imagem esconde muito do que ainda sentem; não gostam de ser tratados como coisas feias e desajeitadas e paradas no tempo; vão calando as palavras de que se esquecem cada vez mais, sabendo-se cada vez mais sós e tantas vezes em s.o.s.
Hoje, o presidente da República eleito vai tomar posse. Votei nele e vou tentar ver pela televisão as cerimónias. Oxalá o Chega não chegue para estragar a festa, como tantas vezes gosta de fazer com muito ruído e aparato.
O presidente cessante, o homem dos afetos, dos abraços, das imprevisibilidades, das selfies, das matreirices, das palavras ditas a qualquer hora e a propósito de quase tudo, das dissoluções da assembleia, do imbróglio no 'caso das gémeas', das hérnias, dos gelados comidos com prazer, das viagens, das aulas dadas sem papel, das gaffes e momentos aproveitados por humoristas, do calor humano depois do gelo de Cavaco...
Tudo e mais alguma coisa, mas também o rei da empatia, da proximidade com os cidadãos, da prova de que os políticos não estão num pedestal, onde muitos se colocam, mesmo que a base estale de fragilidade e tenham sempre de se desviar para pôr os pés e não caírem.
Marcelo aparecia sempre sozinho, Seguro irá ter a companhia da mulher e dos filhos. E trocará muitos sorrisos. E será um homem feliz, porque os números não enganam: foi o presidente que teve mais votos. Mas, como homem consciente e sério que parece ser, também sabe que a vida no governo e no país não está fácil e a situação internacional está ainda mais difícil. Vai ter de dizer sim muitas vezes e não outras tantas. E sofrer as consequências das opções que tomar, sejam elas quais forem. Difícil, Tó Zé! Mas chegado aqui, há 'estrada para continuar'. Bora lá.
Dizem as notícias que a primeira visita oficial do novo presidente vai ser a uma aldeia do interior, onde mora uma dezena de pessoas e onde se instalou muita solidão e desamparo. Ontem, vi uma das habitantes dessa aldeia com um sorriso de sábia descrença nos políticos que a visitam, habituada a que está ao esquecimento ou a receber visitas e promessas de políticos apenas em campanhas eleitorais. Essa descrença é partilhada por muita gente, porque, infelizmente, são demasiados os casos de políticos que se servem em vez de servirem as pessoas e que falam, falam, falam, mas que, chegados ao podium do poder, se remetem ao silêncio.
O Seguro trará segurança e confiança ao país? Deus queira que sim. E que seja capaz de trabalhar para que haja menos solidão e desamparo em tantos setores da nossa sociedade.
A cerimónia já começou. Os trabalhos de Seguro também.
P.S. Senhor Professor Marcelo, apareça de vez em quando. O Tó Zé é fixe, mas o senhor também foi. Cada um à sua maneira, é claro.
No tempo em que muitas
crianças deixavam a escola depois da quarta classe, muitos afazeres logo os
esperavam, mesmo que bem gostassem de continuar a estudar. O abandono escolar
acontecia por falta de dinheiro na família, por preconceito, para ajudar no
trabalho dos pais...
Às meninas cabia sobretudo
o trabalho doméstico: cuidar da casa, dos irmãos, dos avós… Muitas dessas meninas
iam buscar água ao poço da aldeia, segurando vasilhas grandes nas suas mãos ainda
pequeninas. Iam e vinham em grupo feminino de diferentes idades e seguiam
conversas das mulheres que, tanto falavam alto, como baixavam a voz para segredarem
o que sabiam ou o que lhes ia na alma, como discutiam, como davam gargalhadas,
como insultavam, como ameaçavam…
Nas histórias que contavam,
entrava com frequência a figura do marido: «O meu homem…», nomeado muitas vezes
sem o eme final.
As meninas mais curiosas escutavam
as conversas, mas sem compreender muita coisa. Porém, quando as mulheres se
apercebiam que estavam a ser escutadas, desciam o olhar até elas – segurando com
mãos firmes o caneco da água que transportavam à cabeça – e murmuravam, como se
lançassem cartas para o futuro:
- Vós pra lá ides!
Algumas das meninas entreolhavam-se,
continuavam sem compreender, mudavam a vasilha da água para a outra mão e a
calçada parecia mais comprida, misteriosa e íngreme. De repente, o pensamento
recuava-lhes até ao seu tempo de escola, em que ocupavam as filas de trás, aonde
chegavam palavras pequeninas, enquanto frases mais longas e com futuro se
destinavam sobretudo às meninas das filas da frente.
Havia, contudo,
professoras com o dom de descobrir nas crianças vontade e capacidade para
continuar a estudar. Não queriam que as suas vidas fossem pela água abaixo.
Porém, tais palavras eram muitas vezes levadas pelo vento.
Oh! Não me venham dizer
que no tempo da outra senhora é que era bom!
Na aldeia, as mulheres
usavam o cabelo comprido. Quase sempre preso durante toda a vida, tal como se
sentiam desde as horas cansadas e doloridas em que tomavam consciência de si.
Algumas – poucas – faziam
tranças antes de o enrolarem e prenderem atrás. Talvez as mais românticas, as
que liam livros e revistas com histórias de amor que as faziam suspirar. Ou as
que ouviam palavras que lhes adoçavam a vida e lhes davam confiança.
Porém, as que se só ouviam
falas bravias e agrestes penteavam-se como mais uma obrigação: como lavar a
roupa, como limpar a casa, como fazer a comida à hora certa, como ouvir todas
as culpas pelos males domésticos, como se abrir para o marido…
Um dia, uma dessas
mulheres estava a chorar, enquanto se penteava, sentada numa pedra fora de casa.
Gostava de cortar o cabelo, mas o marido não deixava, nem o pai o tinha nunca consentido.
Se o conseguisse, seria também um modo de banir de si palavras repisadas e sem
contraditório, como obediência e submissão.
Atualmente, a rua onde
viveram essas mulheres-Sansão está em ruínas. Algumas dessas mulheres, ao longo
da vida, viram as suas forças a decair, delas não ficando pedra sobre pedra.
Outras, enfrentando dureza antiga e petrificada, não deixaram de partir pedra para
evitar derrocadas.