sábado, 23 de outubro de 2021

A força de tardes assim

 

Oiço pouco trânsito na rua. Na casa ao lado, de vez em quando ouvem-se crianças a brincar. Junto de mim, sobre a mesa da cozinha, está uma caixa com folhas de papel que, desde que aqui estou, fui recortando de revistas antigas (em breve, direi para quê).

A meio da tarde, liguei o rádio na antena 2 à hora em que falam de língua portuguesa e de literatura. Nada melhor para uma tarde de um sábado tranquilo em casa. Para mim, é claro.

Depois, na rubrica 'A força das coisas' de Luís Caetano, houve uma longa entrevista com Isabel Lucas que trabalha no Público e escreveu novo livro sobre viagens. Agora o espaço visado é o Brasil e alguns dos seus autores,  como Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e outros.

Foi uma longa e interessante conversa sobre os diferentes lugares que a autora visitou para construir o seu livro, sobre as pessoas com quem conviveu,  sobre as muitas histórias ligadas a essa viagem de trabalho e de encantamento.

Uma conversa calma cheia de emoção, em que os livros e os seus autores são bons companheiros para o prazer da leitura e para ajudar a conhecer as pessoas, as terras, os hábitos, a cultura. E, realço, o diálogo foi sempre claro, amistoso, culto, vivo, mas sem pressas. Tão raro, meu Deus!

O programa acabou e a noite já escureceu a janela. Vou fechar a caixa dos recortes das folhas, que ainda vai a menos de meio. Sinto vontade de ler um bocadinho. Com a força que vem de coisas assim.

 

Cores de outono em Londres

 





quinta-feira, 21 de outubro de 2021

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Os barcos e as gaivotas

 

São muitos os barcos de recreio que circulam no rio Douro, entre o Cais de Gaia e a Afurada. Silenciosos ou com mais ruído vão passando para lá e para cá, num vai-vem colorido de turistas e de publicidade a marcas de vinho do Porto. Isto de passear no rio, nem que seja só por uns minutos, pode animar o corpo e a alma já que a alegria de brincar às viagens curtas num longo rio é para todas as idades. E quem vê corpos não vê corações, embora se pressinta o seu pulsar se o observador não for uma canoa demasiado pequenina.

Em pleno outubro, estes barcos turísticos, uns mais vagarosos outros mais aventureiros, navegam como se fosse verão, apesar de todos os elementos mostrarem sinais de outono, sobretudo ao início e ao final do dia. 

E as gaivotas, nos intervalos em que o rio não é riscado por rastos de espuma de barcos mais velozes, valsam com leveza na água ou aproximam-se, sem medo, dos pacientes pescadores à linha, pousando nas grades do passadiço ou sobrevoando os telhados. Ou abrem as asas e voam bem alto. Não sei se para verem a serra do Pilar ou a ponte Luís I mais de perto. Ou outras belezas das duas margens que não cansam o olhar. Ah, e o olhar humano é também um bom modo de voo.





segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Às vezes sentia vergonha

 

A Câmara do concelho onde vivo teve como presidente, durante largos anos, um homem que era muito conhecido sobretudo por más razões da sua governança. Ele eram os berros, ele eram os amiguismos, ele eram os eletrodomésticas para conquistar votos, ele eram as gaffes, ele eram os populismos, etc.

Nas diversas conversas quotidianas, as pessoas diziam que essas e outras verdades existiam, assim como havia negócios em que ele ficaria sempre a ganhar, mas que havia obra feita. Pensada e arquitetada durante o seu mandato ou não, várias obras apareceram, de facto, nessa altura. 

Porém, era fácil surgirem, porque os novos tempos assim o exigiam a qualquer um e no concelho, até então, havia muito pouco. Portanto, tudo o que se fazia era visível.

Nesse tempo - e ainda agora - seja onde for que vá, se disser donde venho, logo vem à baila o nome da criatura que, felizmente, deixou o cargo há bastantes anos. Às vezes eu sentia vergonha de dizer, porque parecia logo ouvir: diz-me donde vens, digo-te já quem és. 

Não seria necessário justificar fosse o que fosse, mas depressa fazia saber que nunca tinha votado nele.

Talvez me tenha lembrado disto hoje porque aparecem demasiadas figuras públicas que deveriam dar exemplos de honestidade à comunidade que as elegeu ou que as colocou em determinado lugar, mas olham só para si e para os seus desejos ou para o seu próprio proveito ou para o poder que querem garantir. E isto acontece na política, na banca, na igreja, etc. 

Como se o mundo que existe fosse apenas o seu mundo. E sem precisar sequer de dar justificações.

 

sábado, 16 de outubro de 2021

Não te reformes, disse ela.

 

Há uns anos, em dias de mais cansaço, pensava na reforma e, em conversas de intervalo para café, comunicava-o às vezes a colegas. Eram minutos em que, embora um bocadinho a correr, se falava das nossas vidas como gostos e desejos, estados da saúde (sem muitos pormenores, senão lá ia o intervalo todo), idas aqui ou ali, coisas de etc.

Num dia em que falei do assunto, uma colega, de quem sou amiga, disse-me: 'enquanto puderes, não te reformes. Dizem logo que temos todo o tempo do mundo e pedem-nos tudo e mais alguma coisa'.

Apesar de já ter passado bastante tempo, lembro-me bem da conversa e, em muitos casos, sei que é assim, mas não devia ser, na minha opinião. Quem se reforma, depois de longos anos de trabalho, tem toda a legitimidade de ter tempo para se dedicar a coisas que lhe dão prazer, como passear, ler, ir ao cinema, jardinar, aprender outras coisas, dedicar-se a outras causas, etc. sem nunca ouvir: 'podes porque não tens nada para fazer'.

Isto faz-me lembrar uma peripécia contada por uma das minhas tias, que sempre viveram numa casa de lavoura: um dia, um homem que lá trabalhava estava na hora do descanso, a seguir ao almoço, já depois de ter trabalhado longas horas. Um outro homem, que  descarregava um carro de bois, voltou-se para ele e disse-lhe: enquanto descansas, anda-me ajudar!

Ora, não ponho em dúvida a ajuda a família, o que, para mim, é inquestionável. E às vezes a gestão não é fácil porque muitos de nós, que já não estão no ativo, temos filhos, netos e pais. Daí chamarem-nos a geração sanduíche. 

Se às vezes é difícil gerir tudo, também é um privilégio sentir que ajudamos e aliviamos um bocadinho aqueles que amamos. Gosto muito de o fazer, mas também gosto muito de ter algum tempo por minha conta. E tenho-o, felizmente. Oxalá todos e todas pudessem dizer a mesma coisa. Com alegria e sem culpabilidade.

 

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

'Não tenho nada que fazer, estou reformado'

 

Conheço-o desde que se casou. Um homem alto, simpático, com as suas camisas aos quadradinhos, calças de bombazine e pulover. Foi serralheiro durante muitos anos e trabalhava por turnos. Às vezes, penso que teria tido capacidade e inteligência para uma profissão, por exemplo, ligada à saúde. 

Quando chegava ou partia de madrugada, tentava não acordar ninguém, sobretudo a mulher, a quem sempre chamou pelo petit nom e que sempre foi o amor da vida dele. Continua a sorrir com as histórias de namoro que ela sempre conta. Fica alegre com a sua alegria, apoia-a na sua tristeza, poupa-lhe os desgostos que pode e, mesmo sem pensar em promessas feitas, sempre esteve presente 'na saúde e na doença, na alegria e na tristeza...' 

Pois bem, depois de muitos anos de trabalho dedicado, veio a reforma. E as doenças dos familiares com quem viviam. E os seus cuidados diários. E as sua mortes. E as preocupações e ajudas mais variadas de pai. E as chamadas de vizinhos que viviam sós e precisavam de alguém...

Sempre o vi em atividade e quase esquecido de si próprio. Para ele, os outros, sobretudo a família mais próxima, sempre contaram mais.  Uma vida inteira de disponibilidade e generosidade, sem má cara, sem más palavras, sem qualquer queixa, sem azedume, sem cobrar nada.

Como a idade não perdoa, apesar de ter saúde, ouve muito mal, mas continua sempre a ajudar a família. Tal como durante toda a sua vida, pouco tempo lhe sobra para ele, a não ser a leitura do seu JN e os jogos do seu FCP. No entanto, não deixa de dizer, como sempre ouvi: se precisares de alguma, diz, não tenho nada que fazer, estou reformado. 

 

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Conversa na bomba de gasolina com mano dentro

 

- Arranjas-me um bidão de gasolina? 

- Ó mano, combustível só no carro.

- Tenho o carro parado. Preciso de gasolina.

- Se eu pudesse, mano, vendia, mas não posso.

- O bidão é pequeno. Ninguém precisa de saber.

- Ó mano, já tive stress por causa disso. 

- Fogo, custava-te alguma coisa?

- Ó mano, vai à Galp. Pode ser que te arranjem. Não quero ter mais stress, mano.

 

Quando saí da bomba de gasolina, o meu telefone tocou. Era o meu mano.