sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Setembro

 O relógio

Como habitualmente, o telefone toca. Oito menos dez. A filha está a chegar ao trabalho. Atende ainda um pouco ensonada. Sim, está tudo bem. E tu? Pois, acho bem que arranjes tempo para ir ao ginásio. Para te manteres bem como estás. Sim, imagino que te soubesse bem uma folga. Deixa lá, amanhã já é fim de semana.

A mesa

Um cheirinho bom a café acabado de fazer. A compota de figo e maçã, os ovos mexidos acabadinhos de saltar para o prato. O pão que teve a noite para descongelar e parecer fresco.

A manhã com tempo

Toma o pequeno almoço nas calmas. Sem obrigações nem pressas. À frente, a televisão sem som. Com títulos a passar rápidos: as trapalhadas do Neves, as meias palavras do Montenegro, as habilidades do Ventura, as trumpalhadas do Sr América que quer pôr em tudo o nome da América! E outras.

 Continua a saborear o seu querido pequeno almoço neste início de setembro porque já lá vai o querido mês de agosto. Do sol e do dia do seu eclipse, da praia e de muitas maresias, de alegrias pelas alegrias da criançada da família, de muitos pratos na mesa perto do churrasco, de aniversários com músicas de ídolos dos pré-adolescentes, de preocupações para que nada falte e tudo esteja a contento de todos!

É setembro. Com calor, depois de uma semana de chuva. As hidrângeas amadureceram. Os dióspiros também vão mudando de cor. Continua à mesa. Degustando memórias recentes. Também de alguns cansaços.  Olha pela janela. O sol tem brilhos de final de verão. Levanta-se. Põe a loiça na banca e deixa-a por lavar. A máquina está avariada. Crente que não vai ficar assim o novo dia.




quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Dolly Parton


Li hoje que Dolly Parton nasceu no estado de Tennessee, numa família pobre e foi a quarta de doze irmãos. O pai era analfabeto. A família soube alimentar-lhe o sonho de cantar. E ela soube multiplicar e partilhar muitos sonhos. Chegou a rainha do country. Mas não só. Contribuiu para causas sociais muito importantes, como a vacinação contra a covid-19 e alfabetização infantil. Morreu ontem aos oitenta anos. Tencionava continuar a cantar. Muita gente continuará a cantar por e para ela. 



segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Coisas de final de verão?

 Perante tanta chuva, hoje dei comigo a pensar no Natal!

Por cá, costumamos dizer: vem a festa do Rosário (em outubro), os Fiéis (em novembro) e logo estamos no Natal.

Ontem e hoje, aqui no Norte, a chuva é tanta que parece outono. Daí eu pensar nos presentes para o Natal - presentes que posso fazer ou comprar sem ser em lojas. Não estarei a contribuir para a economia, mas será um estímulo para quem tem talentos, habilidades, podendo, assim, ganhar algum dinheiro e ver o seu trabalho manual reconhecido.

Mas esta semana, em que se prevê intempérie, terá vindo estragar planos de quem contava com um tempo tranquilo de quase final de verão. 

Felizmente temos a capacidade de nos adaptarmos às situações. E há muitas ofertas, porque, mesmo vilas ou cidades pequenas vão preservando e embelezando o seu património.

Ontem, eu estava com a família na bela festa da Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, mas a chuva era tanta pela manhã, que fomos parar Ponte de Lima. As crianças andaram felizes no museu do brinquedo e nós, adultos, pudemos recordar brinquedos que tivemos ou que muito gostaríamos de ter tido na nossa infância.

Portugal é pequeno mas bonito e variado. Que também não escapa a intempéries de vária ordem.

Que haja, pelo menos, boas alternativas!

Continuação de bom verão! Seja ele seco ou molhado!


sábado, 22 de agosto de 2026

Coisas de verão - casa amada!


Hoje, 22 de agosto, a minha mãe faria 100 anos. Partiu aos 96. A família pensava - e julgo que ela também - que a vida lhe permitiria festejar o centenário. As maleitas não eram de monta, apesar de algumas persistirem.

Hoje dei comigo a pensar em coisas que ficaram da vida da minha mãe: o gosto pelas flores, pela vida calma, pelas palavras poéticas, pelos sabores da comida que tão bem confecionava … 

E o amor por tudo que entendia ser criado por Deus.

E o amor pela casa - o seu reino e o seu paraíso. 

A casa era o lugar das pequenas coisas que só lá encontrava e lhe davam a feliz tranquilidade de que precisava: as linhas e lãs, a máquina de costura; os livros sobre santos e os jornais que lembravam diferentes santidades; os versos que fazia e tantos outros que sabia de cor;  as plantas que lhe mostravam a sua sede e as suas necessidades…

Tanto a minha mãe amava a casa que a família repete a expressão que também ela repetia inúmeras vezes: minha casinha meu lar!


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Coisas de verão - o antes e o depois


Quando tenho qualquer festa em casa, como aniversários, fico bastante stressada, embora tente disfarçar. Alguma coisa pode correr mal, a comida pode não estar como eu gostaria, pode faltar alguma coisa, pode haver algum esquecimento…

Ah! Se alguém não vier, penso que houve desinteresse; se vierem em grande número, sinto desconforto!

Valha-me Deus!


Vem o dia. Vêm as pessoas: a família é grande. Alguns amigos. Uns de perto, outros de longe.

Tudo se vai abrindo como pequena nuvem que dá lugar a mais luz do sol.

Desta vez, no aniversário da Clarinha, como em tantas casas portuguesas nesta altura do ano, falaram-se várias línguas, e uma delas foi o italiano. 

Todos à mesa, vieram à baila canções italianas na memória de muitos, títulos de filmes, expressões conhecidas…

Apesar do trabalho que as festinhas em casa dão sempre, como foi bom ver as solidariedades, as linguagens e boa disposição partilhadas. 

Afinal, o mundo é uma bola em que todos cabemos e na qual entramos com forças e fragilidades.

E, com a leveza possível dos dias, tudo se torna mais querido, neste ‘querido mês de agosto’. 


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Coisas de verão - a mulher do pôr do sol

 

A cena repetia-se. Ao pôr do sol, quando o calor amainava e ficava mais espaço no areal para as gaivotas, ela chegava à praia com os seus óculos escuros e chapéu de abas largas. Sentava-se no muro em frente à esplanada, com meio corpo inclinado para o pôr do sol e balbuciava algumas palavras não muito percetíveis.

 Os habitués da esplanada, para o último fino do dia com tremoços e amendoins, já se tinham habituado à presença dela, sentada de lado, no muro baixo e em frente. Houve até quem a fotografasse à sorrelfa apenas porque dava uma boa foto a contra-luz.

Porém, uma das crianças, naturalmente curiosa, aproximou-se da mulher para perceber o que dizia e ouviu-a repetir: 

- Será que voltas amanhã? Será que voltas amanhã?

Logo que percebeu as palavras dela, veio, a correr, contar.

- Mãe, a senhora perguntou se voltava amanhã. Ela fala com o sol?

- Talvez, filho, ou dirigia-se a alguém.

- Mãe, mas eu não vi ninguém.

- Pois, filho, se calhar, é mesmo o sol que a senhora procura!


sábado, 15 de agosto de 2026

Coisas de verão - os palavrões

 

Fui cedo passear o cão ao passadiço. À hora em que pouca gente passa, a não ser os peregrinos. Ou pessoas que moram por ali e querem aproveitar as horas em que não chegam os banhistas com sacas e caixas de farnéis, com os guarda-sóis, tapa-ventos e muitos etecetras.

Ora, sentados, na beira do passadiço, estavam dois homens a conversar. Faziam-se ouvir e bem.  O outro ruído era o do mar e, comparando com as vozes deles, era bem mais brando.

Apeteceu-me abrandar para ouvir o que diziam, não fosse o cão puxar-me com toda a força. Mas deu para ouvir algumas coisas.

Falavam de futebol e de política, tudo misturado. E não havia frase nenhuma - todas muito curtas - em que não entrassem palavras começadas por cê, por pê, por efe…

E como o cão puxava com tanta força, até pensei: será que o cão não gosta de palavras a que não está habituado? E ainda deu para ouvir: F…

Ou fui eu que pensei???