terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

O cabide

 

Havia uma homem que vivia numa aldeia. Trabalhava de manhã à noite e raramente sorria. Só quando recebia visitas em casa, mas isso era raro. Nesses dias em que vinha algum amigo jogar cartas - quase sempre ao sábado à noite -, parecia um homem diferente: falava, ria, tinha sentido de humor e a casa ficava mais alegre. Os filhos olhavam para ele e, como ainda eram crianças, acreditavam que o pai se tinha transformado e também para eles sorriria.

Porém, quando as pessoas iam embora, voltava a ficar muito sério, as palavras esgotavam-se e todos ficavam mais sós.

Passavam os dias e o homem continuava a trabalhar, a trabalhar, mas sempre de rosto fechado e assim era em casa.

Nos domingos em que havia festa na aldeia, a família vestia a roupa melhor e ia até lá. Enquanto se dirigiam à festa, onde se encontravam com pessoas conhecidas e comiam doces - todos pareciam contentes.

Só que os filhos já tinham aprendido uma coisa: quando regressassem a casa, as palavras do pai ficariam penduradas no cabide do casaco domingueiro. E, por isso, já na festa entristeciam.


 

domingo, 25 de fevereiro de 2024

Dizem que não há domingo sem sol, mas há sem programa!

 

Que o poeta Fernando Pessoa me perdoe, mas ocorre-me parafraseá-lo: Ai que prazer ter um domingo para viver e sem nada marcado para fazer!

Não sei se é preguiça, algum cansaço acumulado, a idade que não perdoa, etc, mas gosto muito dos domingos em que posso gerir o meu tempo, quase sempre ficando em casa e fazendo o que quero e o que o momento me vai pedindo.

Teria bastante dificuldade em sair de casa de manhã todos os dias para o trabalho, chegar à noite e não parar um pouco, pelo menos, no fim de semana, embora saiba que não temos de ser todos iguais nem gostar das mesmas coisas. Deus me livre. Porém, para mim, trabalhar fora as horas normais e continuar a trabalhar em casa ao fim do dia pode ser muito duro. E a dureza aumenta se houver indiferença, desamor ou não reconhecimento.

No tempo em que as minhas filhas eram pequenas, poucos homens faziam trabalhos de casa e o que era feito pela maioria era encarado como ajuda, quase favor e não obrigação, ainda que as mulheres também trabalhassem fora.  Muitas zangas e momentos infelizes esta prática provocou. Felizmente, as coisas vão mudando. Para melhor, neste caso.

E, neste domingo por minha conta sem ter de pensar até no que vou fazer para o almoço, tenho a portada da janela aberta e vejo algumas camélias que caem empurradas pelo vento. Muitas outras mantêm-se nas suas hastes, ainda que frágeis.

De vez em quando, o vento sopra mais forte. Oh, fechou até uma portada e a luz natural da sala diminuiu. Porém, como estamos a meio do dia, pode ainda vir sol. Espero é que o meu domingo continue sem programa.

Bom domingo para todos!

 

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Pequenos diálogos improváveis ou, se calhar, não!

 

1. O melhor será ir pela positiva

- Meu amor, come, não deites fora a comida. Estás a ficar todo sujo. 

- Eu não quero comer.

- Assim a avó fica triste.

- T(r)iste, não, avó, (f)eliz! 


2. O telemóvel com rede

- Mãe, quando posso ter telemóvel com net?

- Ainda não precisas, querida. Tens net no teu ipad para usares em casa.

- Não é a mesma coisa, mamã. 

- Para além de não precisares, o telemóvel com net pode trazer muitos perigos às crianças. Podemos até falar sobre isso.

- Eu sei, mamã, e já me estou preparar para esta conversa há anos!



sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Já sei em quem vou votar, mas...

 

Tenho visto quase todos os debates para as eleições de 10 de março. Já me têm dito que é preciso ter paciência para tal. Sim, tenho tido. No entanto, há coisas que oiço com as quais concordo, outras com que discordo completamente, outras que não entendo sequer, como as contas que são apresentadas devagar ou a correr ou então sugeridas ou escondidas. O que detesto mesmo são as interrupções que sobretudo o candidato mais estridente põe em prática constantemente. O que faço, nestes casos, é mudar de canal ou fazer outra coisa. Penso: não tenho de aturar isto.

E, logo a seguir aos debates, e sempre que posso, oiço os comentadores que opinam sobre o que foi dito pelos candidatos ou que não foi dito e devia ter sido dito ou que não disseram porque não podiam dizer, etc. Sendo eu uma comum dos mortais, às vezes concordo com o que dizem, outras vezes irrito-me e mudo de canal, porque há comentadores que mostram demasiado a tendência política que é a sua e quase já se adivinha o que vão dizer.

Logo à noite, lá estarei, acho eu, no sofá, com o crochet em mãos, a ver o debate com os candidatos com assento parlamentar, seguido dos múltiplos debates. Só espero é que a gritaria não supere a expressão das ideias.

Seja como for, ainda que bastantes vezes insatisfeita com o partido em que conto votar, para mim, é o que me parece ser mais útil para o país e que, sobretudo, reúne pessoas com quem mais me identifico. Essa poderá continuar a ser a razão da minha escolha de há uns anos a esta parte.

Peço desculpa a quem chegou até aqui e que deve estar a pensar: então, e qual é o partido? Talvez tenham razão, porque, se me meti nelas...

O que não deixo de dizer é que quero votar, como tenho feito desde o 25 de Abril. Julgo que só uma vez não votei. Enquanto puder, manifesto-me pondo a cruzinha onde julgo que é melhor, esperando que a cruz que o país e o mundo vão carregando possa diminuir.


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Dois momentos da manhã de hoje

 

1. Atualmente, um dos meus prazeres é ouvir um podcast de que goste, enquanto me desloco de carro. Ainda hoje de manhã isso me aconteceu, na viagem até à 'minha' cidade com o mar ao fundo - Espinho.

Como não ia com pressa, ia sendo ultrapassada por outros carros, camionetas e camiões, embora tenha o cuidado de não estorvar quem não quer ou não pode perder tempo enquanto conduz.

E ia pensando que a vida com pequenos prazeres tem muito mais piada. É um direito tão importante como qualquer dever.

 

2. Na mesma manhã, soube de uma jovem mãe que anda à procura de casa porque teria de sair da atual à qual o senhorio destinara novas funções.  Procurou e, finalmente, encontrou uma casa cuja renda não excedia as suas posses. A família alegrou-se. O senhorio deu-lhe a chave. Ela fez uma limpeza ao apartamento e foi lá pondo alguns dos seus pertences. Estava feliz.

Chegou o dia combinado para a assinatura do contrato. Finalmente, poderia trazer o resto das coisas e a família ter mais descanso.

Logo de manhã, a jovem recebeu um telefonema apressado do novo senhorio. Tinha mudado de ideias. A reunião ficava sem efeito.


 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Dê-me aí o dinheirinho, devagar, devagarinho...

 

Há mais de vinte dias, perante o espanto do comum dos mortais, que seguiam as imagens e ouviam as notícias, houve aviões da Força Aérea que levaram várias dezenas de inspetores da PJ à Madeira investigar casos de corrupção. A intervenção do Ministério Público era justificada pelos fortes indícios. Houve três detidos, um dos quais o presidente da Câmara do Funchal.

Durante a investigação e nos dias que se seguiram, as televisões da Madeira e do continente transmitiam imagens sem fim. Mostravam, explicavam, referiam branqueamento de capitais, tráfico de influências, recebimento de dinheiros não justificados, etc, etc. de que os detidos eram acusados.

Os casos deviam ser muito graves - a montanha não podia parir um rato - houve demissões e longas audições, já em Lisboa, que demoraram dias e dias.

Os casos de corrupção divulgados eram muitos e eram graves. O Ministério Público pedia a prisão preventiva dos três arguidos. Perante as notícias, era o mais certo, pensava a grande maioria.

O mesmo não deviam pensar os advogados, pagos a peso de diamante, habituados a dissecar as acusações e as leis e a mostrar, airosamente, que, de facto, só os seus  clientes têm razão.

Hoje, ainda sem a decisão se há ou não eleições na Madeira, depois de muitos dias e noites, passado o Carnaval, o juiz decidiu que as portas se abrissem e os três detidos saíssem em liberdade. Para ele, nada havia a declarar contra os arguidos. Tudo explicaram, tudo justificaram. Estava tudo clarinho.

Nem sei se até acrescentou: desculpem qualquer coisinha!

Tudo isto é estranho. Muito estranho. Inquietante até. 

Pronto, o juiz decide, está decidido, mas o povo, no qual me incluo, ficou ainda mais confuso e nada, mesmo nada, convencido.

 

Quarta-feira de cinzas e Dia dos Namorados

Bom dia!

Comecemos pela Quarta-feira de Cinzas. Já aqui tenho dito que a minha mãe era muito religiosa. Tinha até desgosto de os filhos não serem praticantes como ela achava que deviam ser. Vem isto a propósito do dia de hoje que dá início à Quaresma. Quando eu era muito nova, ia sozinha ou com a minha mãe à missa logo de manhã, neste dia. Recordo que sentir a imposição da cinza na testa e ouvir as palavras 'Lembra-te que em pó te hás de tornar' faziam-me uma certa impressão e não alegravam o meu dia. Ainda faltava muito para eu compreender o alcance da mensagem.

Talvez o ritual se cumpra ainda, embora muitas igrejas estejam mais vazias em qualquer dia do ano e da semana. No entanto, quando vejo uma igreja aberta e tenho tempo, entro por uns minutos. Gosto daquele silêncio. Nesses momentos, não sei se penso no 'pó em que me hei de tornar', mas no que posso fazer - ainda que pouco - enquanto isso não acontece.

E hoje, por contraste, também é dia dos namorados. 

Um dia destes, ouvi alguém dizer: Enquanto namorava, nunca houve este dia e tenho pena. Referia-se ao tempo antes de casar. E logo ouviu uma resposta-sugestão: então, conta esses anos e festeja-os agora. És nova e ainda tens tempo. Houve sorrisos animados que também são uma forma de amor.

E, já que comecei com uma recordação, sobre o namoro também as há. Como o namoro que começava ou acabava no dia da festa anual da terra. Era engraçado ver as raparigas em grupo, com as suas roupas novas e sorrisos de meninas-mulheres, com os primeiros saltos altos e meias de vidro, a passar por grupos de rapazes que, sem o dizer, também se tinham esmerado na fatiota. Todas e todos com ar namoradeiro, ainda que tímido.

Agora é tudo diferente. E, em muitos casos, para melhor, acho eu, apesar de todas as balbúrdias e desamores atuais.

E viva o Amor, e quem o vive, também através de tantas coisas belas que fazem e partilham, embora a vida mostre que quase nada é eterno.