domingo, 18 de outubro de 2026

A rua também pode ser biblioteca

 

Quando fui a Londres da última vez, ao passar numa rua, logo reparei numa casinha de madeira, colocada num muro, e que servia de pequena biblioteca para permuta de livros, discos, etc

A ideia não é nova porque sei que existem semelhantes em vários sítios do nosso país, por exemplo, em Mindelo, em Espinho, etc., mas achei bonito e que dá dignidade aos locais públicos, como uma rua, onde toda a gente pode passar. Muitas vezes,  associamos a rua, sobretudo nas grandes cidades, ao desconhecido, ao perigo, ao possível vandalismo. Ou, nestes casos, em que a portinha estava aberta, a ver coisas que não eram para lá chamadas

Ora, ver uns objetos bonitos assim, em ótimas condições, num passeio público, com uma mensagem simples e clara, apelando à partilha generosa e à cultura dá sossego e alegra à alma, fazendo acreditar que o mundo não é só ruído e violência e que há pessoas que se preocupam com a beleza do mundo, com o bem-estar dos outros, através de gestos e ações simples.

Só tinha levado um livro para ler, estava quase no fim, mas tinha ficado de o emprestar a uma amiga. De outro modo, teria ido lá pô-lo. Podia ser que alguma pessoa portuguesa passasse e o levasse consigo para ler.  

E eu era capaz de pôr dentro uma mensagem, louvando o trabalho realizado neste país. Se fosse uma pessoa local ou de outra proveniência a levá-lo, não fazia mal porque a rua a está aberta a todos. Como uma biblioteca . Ainda que pequena.


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Quem pergunta quer resposta, mas nem sempre assim acontece





Quando vou a Londres passar uns dias, a minha filha pergunta-me sempre: Mãe, o que queres visitar? Da última vez, eu disse: gostava de ver a Tapeçaria de Bayeux, no  Museu Britânico, e logo ela me disse: Seria bom, mãe, mas está esgotadíssimo. Já marcámos a visita, mas só daqui a muitas semanas temos lugar.

Tive pena, porque seria uma oportunidade para ver aquela obra de arte medieval francesa na companhia da família. Mas, paciência, o que não tem remédio remediado está.

Porém, o que digo e o que penso habitualmente, quando a minha filha me faz esta pergunta, é que quero sobretudo conhecer o espírito do lugar: caminhar nas ruas próximas, ir ao supermercado, à padaria, à escola buscar a minha neta, entrar numa loja ou outra que me parece bonita e diferente, olhar os edifícios, ver as pessoas a passar, ou sentadas nas confeitarias ou cafés com o seu computador aberto…

Quando vemos as notícias, sobretudo nalguns canais de enormes audiências, parece que o mundo atual está pejado de crimes e violência, que existem, de facto, mas a grande parte das populações é pacífica e trabalha no dia a dia, fazendo o melhor que pode e sabe sem prejudicar ninguém. Assim pensassem e agissem os poderosos que nos  (des) governam e que tantos transtornos têm causado no mundo pela malvadez da sua ambição desmedida e desumana. 

Ora, isto veio a propósito da pergunta que me faz a minha filha sobre o que eu gostaria de ver em Londres. Eu ainda acrescentaria: estar em casa algum tempo durante o dia e desfrutar do ambiente calmo e luminoso para poder ler o livro que sempre levo e escrever textos pequenos como este, que também me alegram e aliviam.

Não é pedir muito, acho eu, e, felizmente, posso fazê-lo, mas sei que em Londres ou em qualquer lugar do mundo muitas pessoas não o podem fazer.

E, por mais perguntas que façam, são poucas as respostas que encontram.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Os pequenos tradutores


Depois da escola, durante mais de uma semana, fui com a minha neta lanchar sempre ao mesmo sítio em Londres: uma pequena confeitaria com bolos tipo caseiro e sumos naturais. Como fechava às quatro e meia, éramos quase sempre as últimas clientes a entrar e as funcionárias já nos conheciam, sobretudo a minha neta que escolhia sempre o mesmo bolo e o mesmo sumo.

Como ela domina a língua inglesa e eu sei apenas um bocadinho, acabava por preguiçar um pouco: exprimia os meus desejos em português porque tinha logo tradutora. Numa tarde, uma das funcionárias - talvez a mais curiosa - perguntou que língua eu falava. 

- Portuguese - dissemos nós, quase ao mesmo tempo.

E eu logo acrescentei com aquele orgulho quentinho de avó: como não domino a língua inglesa, ela é a minha tradutora.

Com ar simpático, a funcionária sorriu, mostrando conhecimento pelo menos do nome do nosso país e disse:

- Sou turca e quando a minha mãe vem cá, o meu filho também serve muitas vezes de tradutor para a avó.

E como me soube bem o sumo de maçã que eu também pedia habitualmente. Enquanto bebia, fui dizendo como era bom os avós terem netos que os sabem ajudar.

 Não sei muito bem o que a minha neta respondeu, mas o sorriso abriu-se e também os bracitos para um abracinho que, esse, dispensa traduções.


terça-feira, 22 de setembro de 2026

PALMA(S)!

 




sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Duas amigas

 

Quando eu era pequena, tinha uma vizinha cujo pai lhe batia. Antes de lhe bater, dizia que lhe custava muito, mas que tinha de o fazer porque não tinha outra solução. A miúda sofria as agressões e nem sabia qual dor era a maior: se a física, se a dor de saber que não tinha ninguém que a ouvisse, que gostasse dela, que lhe fizesse crer que não estava sozinha no mundo.

Lembrei-me desta história a propósito dos discursos em que o governo diz compreender todas as dificuldades dos portugueses, mas, por exemplo, baixar o preço dos combustíveis, isso é que não. 

Um pouco na senda de que o povo ‘aguenta’, como afirmava um banqueiro há uns anos.

Voltando à vizinha da minha infância, reencontrei-a há uns tempos. Pareceu-me que fazia de conta que era feliz, talvez para fugir a mais pancadas que nunca mais esquecera. Combinámos um café, com dia e hora marcados para não ficar no ar, como tantas vezes acontece.

E falámos. E falámos. Dos filhos. Dos netos. Das solidões que tantas vezes começam na infância e que, ao longo da vida, se vão acumulando. E lembrámos o tempo em que jogávamos à macaca com uma  pedrita a servir de patela  ou com uma latinha de Nívea cheia de areia. E de novo vieram à baila as solidões. Aumentadas por governantes que agridem de diferentes formas e desamparam o mundo. Como se não houvesse outra forma de governar. Como se não houvesse outra solução.

Despedimo-nos com um sorriso de velhas meninas amigas. E fomos cada uma para o seu lado. 

Gostei do reencontro mas nessa noite mal dormi. E era capaz de afirmar que ela também não.


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Setembro

 O relógio

Como habitualmente, o telefone toca. Oito menos dez. A filha está a chegar ao trabalho. Atende ainda um pouco ensonada. Sim, está tudo bem. E tu? Pois, acho bem que arranjes tempo para ir ao ginásio. Para te manteres bem como estás. Sim, imagino que te soubesse bem uma folga. Deixa lá, amanhã já é fim de semana.

A mesa

Um cheirinho bom a café acabado de fazer. A compota de figo e maçã, os ovos mexidos acabadinhos de saltar para o prato. O pão que teve a noite para descongelar e parecer fresco.

A manhã com tempo

Toma o pequeno almoço nas calmas. Sem obrigações nem pressas. À frente, a televisão sem som. Com títulos a passar rápidos: as trapalhadas do Neves, as meias palavras do Montenegro, as habilidades do Ventura, as trumpalhadas do Sr América que quer pôr em tudo o nome da América! E outras.

 Continua a saborear o seu querido pequeno almoço neste início de setembro porque já lá vai o querido mês de agosto. Do sol e do dia do seu eclipse, da praia e de muitas maresias, de alegrias pelas alegrias da criançada da família, de muitos pratos na mesa perto do churrasco, de aniversários com músicas de ídolos dos pré-adolescentes, de preocupações para que nada falte e tudo esteja a contento de todos!

É setembro. Com calor, depois de uma semana de chuva. As hidrângeas amadureceram. Os dióspiros também vão mudando de cor. Continua à mesa. Degustando memórias recentes. Também de alguns cansaços.  Olha pela janela. O sol tem brilhos de final de verão. Levanta-se. Põe a loiça na banca e deixa-a por lavar. A máquina está avariada. Crente que não vai ficar assim o novo dia.




quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Dolly Parton


Li hoje que Dolly Parton nasceu no estado de Tennessee, numa família pobre e foi a quarta de doze irmãos. O pai era analfabeto. A família soube alimentar-lhe o sonho de cantar. E ela soube multiplicar e partilhar muitos sonhos. Chegou a rainha do country. Mas não só. Contribuiu para causas sociais muito importantes, como a vacinação contra a covid-19 e alfabetização infantil. Morreu ontem aos oitenta anos. Tencionava continuar a cantar. Muita gente continuará a cantar por e para ela.