quarta-feira, 8 de abril de 2026

O café

 

Talvez por ainda ter na boca o gostinho bom do café do pequeno almoço, lembrei-me de algumas situações em que tomar café entra em ação.

É que 'tomar café' pode dar para tudo e mais alguma coisa. Por exemplo, dizer 'vamos tomar café' pode ser conversar, conviver, estar com alguém, sem sequer o café vir para a mesa.

Também  o convite 'anda tomar café comigo em minha casa' pode significar uma boa e partilhada amizade ou até mais intimidade.

Mas o que desarma qualquer um é quando surge o convite 'Vamos tomar café' e a resposta é: 'Eu não tomo café'. É como se a mesa ficasse vazia ou aquecêssemos as mãos em chávena quentinha de café e, de repente, ficasse gelada.

Esta semana, fui ao cinema com amigas. Depois, fomos 'tomar café', sem vir sequer café para a mesa, apesar de sermos todas - acho eu - apreciadoras.

E eu ia pensando como é bom ter pessoas amigas com quem 'tomar café', em dias em que o tempo tantas vezes escasseia para os outros, em dias em que não nos saem da cabeça governantes que maltratam o mundo, que passam a vida a vangloriar-se a si próprios, a culpabilizar e a responsabilizar apenas os outros...

O que vale é que o prazer de coisas boas e simples como 'tomar café' em casa ou com pessoas amigas ninguém nos pode tirar. 

Muitas pessoas já não o podem fazer.


segunda-feira, 6 de abril de 2026

E depois da Páscoa


Aberto o computador, e também as portadas para entrar a luz da manhã, olho os retratos das minhas filhas ainda adolescentes - feitos há muito tempo em viagem feliz a Paris -, o quadro pintado por uma colega e amiga pintora, um ovo de loiça com ovinhos da Páscoa, um saquinho de amêndoas que não foi aberto...

E escrevo sobre estes dias de Páscoa. Ter tempo traz também alguma doçura. Diferente mas igualmente boa como a que vamos ingerindo por estes dias. Apesar dos exageros que gostaria de recusar. Conseguirei cumprir algumas promessas que faço a mim própria? Vou ver se é desta. O que vale é que tenho ido ao ginásio e tenho feito yoga. Mas não basta, Maria, digo para mim própria, com calma e sem obsessões.

Ontem, domingo de Páscoa, recebi a visita pascal em casa. Não sabia a hora da vinda do compasso, mas ouvi o som da campainha festiva que o anunciava na rua. Como agora muita gente não está em casa ou não tem vontade de abrir a porta nesse dia, quase tive de ir chamar o grupo para que entrasse.

Por coincidência, um afilhado meu estava cá em casa e recebêmo-lo em conjunto. E lemos a oração, e rezámos o Pai-Nosso, e recordámos brevemente tempos passados de escola, onde eu então trabalhava, e que um dos elementos frequentava, e desejámos Boa Páscoa uns aos outros...

E gostei de ver a diversidade do grupo: pessoas de Gondomar, mas também brasileiros e de África, juntos num propósito de comunicar alegremente e afirmar valores em que acreditam.

Enquanto isto, Trump ia mostrando a sua ira ao Irão, país que também é conhecido pela sua ira. O presidente americano, usando insultos, fez mais um ultimatum que, como tantos outros, seria alterado. E, assim, a ira vai aumentando, perante o silêncio forçado e sofrido de tantos inocentes. E mortes. Muitas mortes. E muita destruição.

E, poucas horas antes, o homem que se julga senhor do mundo - ou, melhor, do seu petróleo - falava de Deus e de ser capaz de vencer o mal!

Hoje é segunda-feira de Páscoa, um dia (quase) normal de trabalho. E mais um dia de guerra, como, infelizmente, se vai tornando normal.

Porém, ser um pequeno grupo de homens, megalómanos, de loucura e ambição desmedidas a provocar tantos danos no mundo, isso é que não é normal.


Bons dias de Páscoa, enquanto for possível!


terça-feira, 31 de março de 2026

Páscoa

 

Postal enviado por: ac@contadoresdehistorias.com



quinta-feira, 26 de março de 2026

Abertura

 

Hoje, a minha cadela - a Castanha - foi vista pela veterinária. Apesar de ter sido sempre bastante saudável, tem alguns problemas de articulações, justificados pela idade. Nasceu em 2011, portanto já tem 15 anos. 

Agora, que abri o computador, lembrei-me do texto que há pouco escrevi, para a coletânea proximidades (2025) sobre ela. Partilho-o agora.

 

Foi adotada depois de recolhida, muito pequenina, fora de um portão tapado e fechado, numa rua de aldeia de pouco movimento. Parecia ter caído, assustada, de uma árvore qualquer e ficado ali muito quieta, com medo de ser calcada ou absorvida pela terra. Não tinha chip, ninguém a conhecia, ninguém a procurou, estava com fome e tremia de medo.

 Chegando a nossa casa, trazida pelo filho de uma amiga, que nome escolher para ela? Olhando para a cor e tamanho daquela cadelinha, quase recém-nascida e que lembrava uma castanhinha, logo surgiu: Castanha.

A Castanha cresceu, mas nunca gostou de estar só.

Nos tempos de suposta solidão, a Castanha arrasta o tapete, aninha-se sobre ele, junto ao portão de grades, e ali fica à espera que alguém passe na rua, ou entre, ou comunique com ela. Faz lembrar pessoas à janela, que se querem abrir aos outros e não ficar na sua casca fria de fruto frágil e só.

 

É que há muitas janelas,

No sofá, prontas a abrir.

Mas por atuais sinais,

Melhor é olhar os demais,

Comunicar e sorrir!

 


sexta-feira, 20 de março de 2026

Arte


A arte tem tantas formas

a embelezar cada dia;

Trabalhá-la ou conhecê-la

É repartir alegria.

 

Proliferam os talentos

Em terras de Gondomar:

Artesãos e escritores,

Pintores e escultores,

E tantos a acrescentar.

 

Ler, escrever e contar

Foi arte que nos chamou.

E o trabalho de vida inteira,

Em prata, ouro e madeira

Gondomar celebrizou.

 

Tantos modos de expressão

Nós podemos encontrar.

Parabéns a quem produz

ou na arte encontra luz

Para a vida celebrar!


In proximidades, Seda Publicações, 2025

quarta-feira, 18 de março de 2026

'Pai e filho e mar'

  

Enviado por: Asas e livros - AC<ac@contadoresdehistorias.com




quarta-feira, 11 de março de 2026

Raisparta a solidão!

 

Ainda não há muitos anos, confesso que a palavra solidão me dizia bem menos do que me diz agora. Achava até ideia lamechas e com cheiro a queixume. Eu tinha tanto para fazer: a escola, a família, a casa, os livros que gostava de ler, os textos que queria escrever, que ouvir a palavra solidão soava a ociosidade.

A vida, porém, vai alertando, com perdas e ganhos, para essa injustiça de pensamento e fraco entendimento do mundo.

Só compreendemos melhor os outros quando passamos por situações semelhantes. Nada é pior do que a indiferença, tipo: não sei o que sentes nem me interessa saber, porque não sei o que isso é. Ou então, a minha dor é bem mais forte do que a tua - ainda que seja evidente que não é assim. 

Tudo isto me veio à cabeça ao ouvir hoje uma de quatro irmãs que sempre viveram juntas, numa casa grande e antiga de que cuidavam como se fosse uma parte importante da família, porque nela todas tinham nascido e vivido. A casa tinha assistido a casamentos, a nascimentos, a alegrias, a tristezas, a doenças, a mortes...

Há dias, uma dessas quatro irmãs faleceu e as três que ficaram sentiram-se profundamente tristes e orfãs, quebrando-se o todo que todas formavam, com todo o amor que sempre repartiam e que era sagrado como Deus que adoravam e que estava presente em tudo o que faziam. Por elas e pelos outros.

E ela, uma das quatro irmãs, agora três, todas nascidas até aos anos cinquenta do século XX, mencionava a falta de ânimo atual e a solidão que via aumentar na casa e na família que chegaram a julgar eternas. No tempo em que todas as cadeiras da mesa estavam preenchidas e a palavra solidão ainda não tinha chegado. 

E alarguei a ideia da solidão - que, de uma forma ou outra, toca a todos - a tantos homens e mulheres que não têm ninguém para conversar, para desabafar, para contar as peripécias do dia a dia; para dizer o que dói, como dói, porque dói...

E tantas pessoas vivem em aldeias isoladas, e outras tantas isoladas em apartamentos de cidades que muitos degraus ou elevadores avariados separam da rua, dos pequenos prazeres de tomar um café servido quente à mesa em dia gelado, de dizer bom dia, de trocar sorrisos, de ter companhia, de ser-se notado... 

Tanta gente que não recebe um beijo, que não tem um abraço, que não ouve um elogio nem palavra carinhosa, que não vê um olhar meigo e calmo, que não sente outra mão na sua mão...

É tão mau quando isto acontece, quando tantos homens e mulheres vivem sós e são velhos. Alguns ficam sine die no hospital, apesar de terem alta, ou vivem num lar e as visitas são para os outros...

E, no entanto, têm sonhos, têm ideias, têm recordações, têm histórias para contar, veem-se ao espelho e a imagem  esconde muito do que ainda sentem; não gostam de ser tratados como coisas feias e desajeitadas e paradas no tempo; vão calando as palavras de que se esquecem cada vez mais, sabendo-se cada vez mais sós e tantas vezes em s.o.s.

Raisparta a solidão!