quinta-feira, 26 de março de 2026

Abertura

 

Hoje, a minha cadela - a Castanha - foi vista pela veterinária. Apesar de ter sido sempre bastante saudável, tem alguns problemas de articulações, justificados pela idade. Nasceu em 2011, portanto já tem 15 anos. 

Agora, que abri o computador, lembrei-me do texto que há pouco escrevi, para a coletânea proximidades (2025) sobre ela. Partilho-o agora.

 

Foi adotada depois de recolhida, muito pequenina, fora de um portão tapado e fechado, numa rua de aldeia de pouco movimento. Parecia ter caído, assustada, de uma árvore qualquer e ficado ali muito quieta, com medo de ser calcada ou absorvida pela terra. Não tinha chip, ninguém a conhecia, ninguém a procurou, estava com fome e tremia de medo.

 Chegando a nossa casa, trazida pelo filho de uma amiga, que nome escolher para ela? Olhando para a cor e tamanho daquela cadelinha, quase recém-nascida e que lembrava uma castanhinha, logo surgiu: Castanha.

A Castanha cresceu, mas nunca gostou de estar só.

Nos tempos de suposta solidão, a Castanha arrasta o tapete, aninha-se sobre ele, junto ao portão de grades, e ali fica à espera que alguém passe na rua, ou entre, ou comunique com ela. Faz lembrar pessoas à janela, que se querem abrir aos outros e não ficar na sua casca fria de fruto frágil e só.

 

É que há muitas janelas,

No sofá, prontas a abrir.

Mas por atuais sinais,

Melhor é olhar os demais,

Comunicar e sorrir!

 


sexta-feira, 20 de março de 2026

Arte


A arte tem tantas formas

a embelezar cada dia;

Trabalhá-la ou conhecê-la

É repartir alegria.

 

Proliferam os talentos

Em terras de Gondomar:

Artesãos e escritores,

Pintores e escultores,

E tantos a acrescentar.

 

Ler, escrever e contar

Foi arte que nos chamou.

E o trabalho de vida inteira,

Em prata, ouro e madeira

Gondomar celebrizou.

 

Tantos modos de expressão

Nós podemos encontrar.

Parabéns a quem produz

ou na arte encontra luz

Para a vida celebrar!


In proximidades, Seda Publicações, 2025

quarta-feira, 18 de março de 2026

'Pai e filho e mar'

  

Enviado por: Asas e livros - AC<ac@contadoresdehistorias.com




quarta-feira, 11 de março de 2026

Raisparta a solidão!

 

Ainda não há muitos anos, confesso que a palavra solidão me dizia bem menos do que me diz agora. Achava até ideia lamechas e com cheiro a queixume. Eu tinha tanto para fazer: a escola, a família, a casa, os livros que gostava de ler, os textos que queria escrever, que ouvir a palavra solidão soava a ociosidade.

A vida, porém, vai alertando, com perdas e ganhos, para essa injustiça de pensamento e fraco entendimento do mundo.

Só compreendemos melhor os outros quando passamos por situações semelhantes. Nada é pior do que a indiferença, tipo: não sei o que sentes nem me interessa saber, porque não sei o que isso é. Ou então, a minha dor é bem mais forte do que a tua - ainda que seja evidente que não é assim. 

Tudo isto me veio à cabeça ao ouvir hoje uma de quatro irmãs que sempre viveram juntas, numa casa grande e antiga de que cuidavam como se fosse uma parte importante da família, porque nela todas tinham nascido e vivido. A casa tinha assistido a casamentos, a nascimentos, a alegrias, a tristezas, a doenças, a mortes...

Há dias, uma dessas quatro irmãs faleceu e as três que ficaram sentiram-se profundamente tristes e orfãs, quebrando-se o todo que todas formavam, com todo o amor que sempre repartiam e que era sagrado como Deus que adoravam e que estava presente em tudo o que faziam. Por elas e pelos outros.

E ela, uma das quatro irmãs, agora três, todas nascidas até aos anos cinquenta do século XX, mencionava a falta de ânimo atual e a solidão que via aumentar na casa e na família que chegaram a julgar eternas. No tempo em que todas as cadeiras da mesa estavam preenchidas e a palavra solidão ainda não tinha chegado. 

E alarguei a ideia da solidão - que, de uma forma ou outra, toca a todos - a tantos homens e mulheres que não têm ninguém para conversar, para desabafar, para contar as peripécias do dia a dia; para dizer o que dói, como dói, porque dói...

E tantas pessoas vivem em aldeias isoladas, e outras tantas isoladas em apartamentos de cidades que muitos degraus ou elevadores avariados separam da rua, dos pequenos prazeres de tomar um café servido quente à mesa em dia gelado, de dizer bom dia, de trocar sorrisos, de ter companhia, de ser-se notado... 

Tanta gente que não recebe um beijo, que não tem um abraço, que não ouve um elogio nem palavra carinhosa, que não vê um olhar meigo e calmo, que não sente outra mão na sua mão...

É tão mau quando isto acontece, quando tantos homens e mulheres vivem sós e são velhos. Alguns ficam sine die no hospital, apesar de terem alta, ou vivem num lar e as visitas são para os outros...

E, no entanto, têm sonhos, têm ideias, têm recordações, têm histórias para contar, veem-se ao espelho e a imagem  esconde muito do que ainda sentem; não gostam de ser tratados como coisas feias e desajeitadas e paradas no tempo; vão calando as palavras de que se esquecem cada vez mais, sabendo-se cada vez mais sós e tantas vezes em s.o.s.

Raisparta a solidão!

 



segunda-feira, 9 de março de 2026

Quando o político vem, o pobre desconfia!

 

Hoje, o presidente da República eleito vai tomar posse. Votei nele e vou tentar ver pela televisão as cerimónias. Oxalá o Chega não chegue para estragar a festa, como tantas vezes gosta de fazer com muito ruído e aparato.

O presidente cessante, o homem dos afetos, dos abraços, das imprevisibilidades, das selfies, das matreirices, das palavras ditas a qualquer hora e a propósito de quase tudo, das dissoluções da assembleia, do imbróglio no 'caso das gémeas', das hérnias, dos gelados comidos com prazer, das viagens, das aulas dadas sem papel, das gaffes e momentos aproveitados por humoristas, do calor humano depois do gelo de Cavaco... 

Tudo e mais alguma coisa, mas também o rei da empatia, da proximidade com os cidadãos, da prova de que os políticos não estão num pedestal, onde muitos se colocam, mesmo que a base estale de fragilidade e tenham sempre de se desviar para pôr os pés e não caírem.

Marcelo aparecia sempre sozinho, Seguro irá ter a companhia da mulher e dos filhos. E trocará muitos sorrisos. E será um homem feliz, porque os números não enganam: foi o presidente que teve mais votos. Mas, como homem consciente e sério que parece ser, também sabe que a vida no governo e no país não está fácil e a situação internacional está ainda mais difícil. Vai ter de dizer sim muitas vezes e não outras tantas. E sofrer as consequências das opções que tomar, sejam elas quais forem. Difícil, Tó Zé! Mas chegado aqui, há 'estrada para continuar'. Bora lá.

Dizem as notícias que a primeira visita oficial do novo presidente vai ser a uma aldeia do interior, onde mora uma dezena de pessoas e onde se instalou muita solidão e desamparo. Ontem, vi uma das habitantes dessa aldeia com um sorriso de sábia descrença nos políticos que a visitam, habituada a que está ao esquecimento ou a receber visitas e promessas de políticos apenas em campanhas eleitorais. Essa descrença é partilhada por muita gente, porque, infelizmente, são demasiados os casos de políticos que se servem em vez de servirem as pessoas e que falam, falam, falam, mas que, chegados ao podium do poder, se remetem ao silêncio.

O Seguro trará segurança e confiança ao país? Deus queira que sim. E que seja capaz de trabalhar para que haja menos solidão e desamparo em tantos setores da nossa sociedade. 

A cerimónia já começou. Os trabalhos de Seguro também.

 

P.S. Senhor Professor Marcelo, apareça de vez em quando. O Tó Zé é fixe, mas o senhor também foi. Cada um à sua maneira, é claro. 




domingo, 8 de março de 2026

E se todas as mulheres pudessem dizer 'Gracias a la vida'?

 


Diferenças

 

No tempo em que muitas crianças deixavam a escola depois da quarta classe, muitos afazeres logo os esperavam, mesmo que bem gostassem de continuar a estudar. O abandono escolar acontecia por falta de dinheiro na família, por preconceito, para ajudar no trabalho dos pais...

Às meninas cabia sobretudo o trabalho doméstico: cuidar da casa, dos irmãos, dos avós… Muitas dessas meninas iam buscar água ao poço da aldeia, segurando vasilhas grandes nas suas mãos ainda pequeninas. Iam e vinham em grupo feminino de diferentes idades e seguiam conversas das mulheres que, tanto falavam alto, como baixavam a voz para segredarem o que sabiam ou o que lhes ia na alma, como discutiam, como davam gargalhadas, como insultavam, como ameaçavam…

Nas histórias que contavam, entrava com frequência a figura do marido: «O meu homem…», nomeado muitas vezes sem o eme final.

As meninas mais curiosas escutavam as conversas, mas sem compreender muita coisa. Porém, quando as mulheres se apercebiam que estavam a ser escutadas, desciam o olhar até elas – segurando com mãos firmes o caneco da água que transportavam à cabeça – e murmuravam, como se lançassem cartas para o futuro:

-  Vós pra lá ides!

Algumas das meninas entreolhavam-se, continuavam sem compreender, mudavam a vasilha da água para a outra mão e a calçada parecia mais comprida, misteriosa e íngreme. De repente, o pensamento recuava-lhes até ao seu tempo de escola, em que ocupavam as filas de trás, aonde chegavam palavras pequeninas, enquanto frases mais longas e com futuro se destinavam sobretudo às meninas das filas da frente.

Havia, contudo, professoras com o dom de descobrir nas crianças vontade e capacidade para continuar a estudar. Não queriam que as suas vidas fossem pela água abaixo. Porém, tais palavras eram muitas vezes levadas pelo vento.


Oh! Não me venham dizer que no tempo da outra senhora é que era bom!

In proximidades, Seda Edições, 2025 

 

sábado, 7 de março de 2026

Pedra


Na aldeia, as mulheres usavam o cabelo comprido. Quase sempre preso durante toda a vida, tal como se sentiam desde as horas cansadas e doloridas em que tomavam consciência de si.

Algumas – poucas – faziam tranças antes de o enrolarem e prenderem atrás. Talvez as mais românticas, as que liam livros e revistas com histórias de amor que as faziam suspirar. Ou as que ouviam palavras que lhes adoçavam a vida e lhes davam confiança.

Porém, as que se só ouviam falas bravias e agrestes penteavam-se como mais uma obrigação: como lavar a roupa, como limpar a casa, como fazer a comida à hora certa, como ouvir todas as culpas pelos males domésticos, como se abrir para o marido…

Um dia, uma dessas mulheres estava a chorar, enquanto se penteava, sentada numa pedra fora de casa. Gostava de cortar o cabelo, mas o marido não deixava, nem o pai o tinha nunca consentido. Se o conseguisse, seria também um modo de banir de si palavras repisadas e sem contraditório, como obediência e submissão.

 

Atualmente, a rua onde viveram essas mulheres-Sansão está em ruínas. Algumas dessas mulheres, ao longo da vida, viram as suas forças a decair, delas não ficando pedra sobre pedra. Outras, enfrentando dureza antiga e petrificada, não deixaram de partir pedra para evitar derrocadas.

 In proximidades, Seda Edições, 2025