Junto à casa da minha
infância, havia uma laranjeira antiga. Era muito alta e os ramos, exuberantes,
alargavam-se, dando fresca sombra em dias de sol. Vestindo as batinhas que a nossa
mãe costurava na sua máquina Singer, a minha irmã e eu ficávamos a brincar
longas horas debaixo da laranjeira. Era uma árvore tão alta que, se se olhasse
para cima, apenas se viam pássaros a esvoaçar de galho em galho. Estes, de tão
densos, nem deixavam ver o céu. As folhas secas iam caindo e eram engolidas
pela terra que abundava debaixo da laranjeira.
Ora, nessa altura, eu
tinha uma boneca de papelão – a minha preferida, se se pode dizer assim de um único
objeto que se tem. Era a minha boneca. Tinha as faces coradinhas e os olhos
azul escuro que não abriam nem fechavam, mas que pareciam olhar sempre para mim.
Só os bracinhos e as pernitas mexiam.
Um dia, enquanto brincava
sozinha debaixo da laranjeira, levantou-se um vento repentino, um relâmpago fez
garatujas no céu; logo a seguir um trovão rebentou e a chuva começou a cair. Rápida
e inesperada, era uma tempestade a faiscar e a estoirar no fim de tarde que
logo se fechou em noite.
Com medo, corri para
dentro de casa, deixando os brinquedos debaixo da laranjeira. Talvez ela os
protegesse e a minha mãe já estava a chamar.
Logo que acordei no dia
seguinte, fui a correr ver a minha boneca.
Incrédula, em vez de a reencontrar redondinha e inteira, deparei com pedaços
de papelão desbotados, amolecidos e quase desfeitos na lama. Descrente e desolada,
olhei para cima para ver se a densidade dos ramos e das folhas podia ou não ter
sido uma barreira protetora. No alto, como a bonança tinha voltado, os pássaros
esvoaçavam alegremente, como se nada tivesse acontecido. E que triste fiquei por
ver que não comungavam da minha dor ao deparar com a minha boneca já sem vida.
Tal como eu até àquele
dia, talvez os pássaros ainda não tivessem sentido o desgosto da primeira grande
perda.