segunda-feira, 8 de junho de 2026

O nome da rua


Vinha de longe e não conhecia aquela rua. Procurou-a no mapa, mas não a encontrou. Resolveu perguntar a um homem que passava passeando o cão. Não, não sabia o nome da rua, embora lá passasse muitas vezes. Também não tinha tempo para procurar alguma placa ou perguntar a alguém, porque o cão puxava a trela com toda a força. Se a largasse, teria de correr muito e já não tinha pernas para isso.

Mais adiante, perguntou a uma mulher que estava a colher flores do seu jardim. A mulher disse que não se lembrava porque ultimamente esquecia-se de tudo.

O homem continuou o seu caminho e avistou um café com um nome curioso: Café Oásis. Entrou, pediu um café e perguntou o nome da rua ao rapaz que o atendeu. Com sotaque brasileiro, ele respondeu que não sabia, mas que iria perguntar à patroa. E foi, mas ela estava a conversar com outra mulher - do outro lado do balcão - e não gostava de ser interrompida.

Como o café era pequeno e os clientes estavam todos atendidos, o empregado deixou-se ficar à espera de fazer a pergunta e, mesmo sem querer, ia ouvindo a conversa entre as duas mulheres. Uma delas dizia e repetia: Esta é a rua das mulheres sós. 

E logo foi dizer ao homem desconhecido que aquela rua era a rua das mulheres sós. O desconhecido acreditou porque se habituara a ver o mundo cada vez mais estranho. E saiu do café a pensar no nome da rua. 

Muito próxima do café, viu uma mulher a falar ao telefone. As palavras saíam-lhe entre sorrisos. Afastando-se, o homem olhou para trás; a mulher, sorridente, acenou-lhe e entrou no café. O desconhecido acenou também, pensando que era bom que o nome da rua estivesse errado.

 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Crianças: hoje é o seu Dia!

 

Retirei o excerto, em baixo, do ‘Expresso Curto’ de hoje.

 O número de crianças em Portugal vai diminuindo. Julgo que quase ninguém gostaria de voltar aos velhos tempos em que muitas famílias - a grande parte muito pobre - tinham muitos filhos; os mais novos eram criados pela irmãos mais velhos que não podiam fazer escolhas de vida por falta de tempo e de dinheiro.

Os dados mostram, então, que, atualmente, vivemos o oposto: muito poucas crianças e famílias pequenas. Será que a situação vai mudar? Tenhamos esperança. 

E o tempo que as crianças passam com a família também é reduzido, porque muitas horas são passadas na escola. 

Não estaremos também a aumentar o tempo de solidão de toda a família?


“Crianças Hoje é Dia Mundial da Criança. Um retrato da infância em Portugal mostra que há apenas uma criança para cada dez adultos no país. Portugal sofreu a segunda maior queda da população infantil na União Europeia, nos últimos 50 anos e as crianças em Portugal passam cada vez mais tempo na escola e vivem com famílias cada vez menores.”


domingo, 24 de maio de 2026

No calor sufocante de antigos maios

 

Uma noite destas, acordei com trovoada. O que para muitos é fascínio, a ponto de se porem à janela, para verem o céu a riscar-se de luz, para mim é susto e stresse. Não sei se por memórias antigas também.

Impossível não me lembrar de trovoadas da minha infância em que a família se juntava numa divisão da casa. A minha mãe acendia uma vela benzida junto do raminho de oliveira igualmente benzida e rezávamos, em voz alta e em tom de novena, a oração a santa Bárbara. E eram lembrados os pecados do mundo de que a trovoada era um aviso e pelos quais devíamos pedir perdão a Deus.

Eu e os meus irmãos acompanhávamos as orações da nossa fervorosa mãe. O meu pai ia sussurrando, sem grande convicção, as ladainhas que a minha mãe iniciava. E eram muitas. E todas bem proferidas, sem qualquer atropelo de sílabas ou de palavras. 

O meu avô, ai, o meu avô, não me lembro se ele acompanhava as palavras devotas da minha mãe. O que sei é que não as sabia de cor, mas a presença dele era um alívio na sala, apenas iluminada pela vela acesa, e onde quase nem entrava ar, porque a porta estava fechada à luz dos relâmpagos. Só no final da tempestade, é que notávamos como o calor da sala se tinha tornado sufocante.

E o meu avô, aquele homenzarrão, de sorriso maroto e que tantas vezes contava as mesmas histórias e sempre com graça, sabia quando voltava a bonança. O som dos trovões ia ditando as  suas palavras: a trovoada já está mais longe. Vai passar em cinco minutos. As suas palavras acalmavam e eram as mais felizes e esperadas previsões da meteorologia do momento. 

Quando tudo serenava, abríamos a porta da sala, e também a janela. A vela já apagada mantinha-se no lugar, o raminho de oliveira e seca permanecia, sagrada, na jarrinha de vidro. 

Já libertos da trovoada, o meu irmão, o mais novo da família, ia brincar, a minha mãe e nós, as filhas, retomávamos os trabalhos domésticos, o meu pai ia para a oficina, preocupado com o trabalho. Quanto ao meu avô, resgatava uma das histórias antigas que sempre começavam assim: Uma ocasião...

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A menina que queria ser polícia!

 

Fiz parte do júri do concurso cujo cartaz mostrei no post anterior. Os concorrentes iam do primeiro ciclo ao ensino secundário e cada um já tinha sido vencedor no seu escalão e no seu agrupamento. Portanto, quem chegava à final das provas concelhias eram alunos muito bons. Uns com alguma timidez, outros com muita desenvoltura e à vontade, mas em todos se notava apoio da família e das professoras. Quando assim é, a 'obra nasce' com muito mais entusiasmo e convicção. 

Aos alunos era pedido que escolhessem um livro, que fotografassem objetos ligados à obra para serem apresentados ao público e, a partir deles, tecessem a sua argumentação. E um excerto, também à escolha de cada um, teria de ser lido. 

Muitas crianças encantaram, chovendo aplausos. Sobretudo os alunos do primeiro ciclo levaram os objetos que também fotografaram. E, antes da prova, algumas professoras ajudavam-nos a transportá-los, cheios de cor, bem desenhados e bem colados. Bonita e importante interação.

A propósito de A bicicleta que tinha bigodes, de Ondjaki, lá subiu ao palco um menino com um rádio vistoso, uma escola tipo casinha acolhedora...

Era um gosto ver os meninos e meninas com o seu livrinho na mão e a carinha muito próxima do microfone para que todas as palavras que diziam se ouvissem e se ouvissem bem.

A seguir, veio o segundo ciclo, depois o terceiro e, finalmente, o secundário. 

E a uma jovem do 12º ano, foi dito, no final da sua apresentação, que era uma belíssima contadora de histórias e que sobretudo muitas crianças gostariam  de a ouvir - pela dicção, pela expressividade, pelo amor com que contava... Ficou feliz com o elogio, disse que gostaria muito de fazer essa experiência, e que, no futuro, queria ser polícia! Foi surpreendente essa vontade expressa com um largo sorriso.

Quando ela descia do palco, surgiu-me o título para uma história: A menina que queria ser polícia!


domingo, 17 de maio de 2026

Ler para querer mais!

 


terça-feira, 5 de maio de 2026

Não é por ser meu neto!...

 

- Agora, meu amor, como acabámos o jogo, vamos contar as pecinhas. Pode ser?

- Sim, avó: uma, duas, três, quatro, cinco, sete…

- Achas que é sete? Depois do cinco é sete?

- Vou contar outra vez: cinco, seis, sete, oito, nove, dez!

- Muito bem! Esta peça foi a primeira, esta foi a segunda... Queres continuar?

- Quero, avó.

-  Terceira, quarta, quinta…

- Muito bem, meu amor. Continua.

- Avó, não sei mais. 

- Eu ajudo-te, vá lá!

- Quarta, quinta, sexta…

- Ótimo! E depois de sexta?

- Não me lembro, avó.

- Pensa bem! Quarta, quinta, sexta...

- Já sei, avó.

- Então, qual é?

- Sábado!!!!

domingo, 3 de maio de 2026

Mãe

 
A minha Mãe era Rosa



Feliz Dia da Mãe!