quarta-feira, 11 de março de 2026

Raisparta a solidão!

 

Ainda não há muitos anos, confesso que a palavra solidão me dizia bem menos do que me diz agora. Achava até ideia lamechas e com cheiro a queixume. Eu tinha tanto para fazer: a escola, a família, a casa, os livros que gostava de ler, os textos que queria escrever, que ouvir a palavra solidão soava a ociosidade.

A vida, porém, vai alertando, com perdas e ganhos, para essa injustiça de pensamento e fraco entendimento do mundo.

Só compreendemos melhor os outros quando passamos por situações semelhantes. Nada é pior do que a indiferença, tipo: não sei o que sentes nem me interessa saber, porque não sei o que isso é. Ou então, a minha dor é bem mais forte do que a tua - ainda que seja evidente que não é assim. 

Tudo isto me veio à cabeça ao ouvir hoje uma de quatro irmãs que sempre viveram juntas, numa casa grande e antiga de que cuidavam como se fosse uma parte importante da família, porque nela todas tinham nascido e vivido. A casa tinha assistido a casamentos, a nascimentos, a alegrias, a tristezas, a doenças, a mortes...

Há dias, uma dessas quatro irmãs faleceu e as três que ficaram sentiram-se profundamente tristes e orfãs, quebrando-se o todo que todas formavam, com todo o amor que sempre repartiam e que era sagrado como Deus que adoravam e que estava presente em tudo o que faziam. Por elas e pelos outros.

E ela, uma das quatro irmãs, agora três, todas nascidas até aos anos cinquenta do século XX, mencionava a falta de ânimo atual e a solidão que via aumentar na casa e na família que chegaram a julgar eternas. No tempo em que todas as cadeiras da mesa estavam preenchidas e a palavra solidão ainda não tinha chegado. 

E alarguei a ideia da solidão - que, de uma forma ou outra, toca a todos - a tantos homens e mulheres que não têm ninguém para conversar, para desabafar, para contar as peripécias do dia a dia; para dizer o que dói, como dói, porque dói...

E tantas pessoas vivem em aldeias isoladas, e outras tantas isoladas em apartamentos de cidades que muitos degraus ou elevadores avariados separam da rua, dos pequenos prazeres de tomar um café servido quente à mesa em dia gelado, de dizer bom dia, de trocar sorrisos, de ter companhia, de ser-se notado... 

Tanta gente que não recebe um beijo, que não tem um abraço, que não ouve um elogio nem palavra carinhosa, que não vê um olhar meigo e calmo, que não sente outra mão na sua mão...

É tão mau quando isto acontece, quando tantos homens e mulheres vivem sós e são velhos. Alguns ficam sine die no hospital, apesar de terem alta, ou vivem num lar e as visitas são para os outros...

E, no entanto, têm sonhos, têm ideias, têm recordações, têm histórias para contar, veem-se ao espelho e a imagem  esconde muito do que ainda sentem; não gostam de ser tratados como coisas feias e desajeitadas e paradas no tempo; vão calando as palavras de que se esquecem cada vez mais, sabendo-se cada vez mais sós e tantas vezes em s.o.s.

Raisparta a solidão!

 



segunda-feira, 9 de março de 2026

Quando o político vem, o pobre desconfia!

 

Hoje, o presidente da República eleito vai tomar posse. Votei nele e vou tentar ver pela televisão as cerimónias. Oxalá o Chega não chegue para estragar a festa, como tantas vezes gosta de fazer com muito ruído e aparato.

O presidente cessante, o homem dos afetos, dos abraços, das imprevisibilidades, das selfies, das matreirices, das palavras ditas a qualquer hora e a propósito de quase tudo, das dissoluções da assembleia, do imbróglio no 'caso das gémeas', das hérnias, dos gelados comidos com prazer, das viagens, das aulas dadas sem papel, das gaffes e momentos aproveitados por humoristas, do calor humano depois do gelo de Cavaco... 

Tudo e mais alguma coisa, mas também o rei da empatia, da proximidade com os cidadãos, da prova de que os políticos não estão num pedestal, onde muitos se colocam, mesmo que a base estale de fragilidade e tenham sempre de se desviar para pôr os pés e não caírem.

Marcelo aparecia sempre sozinho, Seguro irá ter a companhia da mulher e dos filhos. E trocará muitos sorrisos. E será um homem feliz, porque os números não enganam: foi o presidente que teve mais votos. Mas, como homem consciente e sério que parece ser, também sabe que a vida no governo e no país não está fácil e a situação internacional está ainda mais difícil. Vai ter de dizer sim muitas vezes e não outras tantas. E sofrer as consequências das opções que tomar, sejam elas quais forem. Difícil, Tó Zé! Mas chegado aqui, há 'estrada para continuar'. Bora lá.

Dizem as notícias que a primeira visita oficial do novo presidente vai ser a uma aldeia do interior, onde mora uma dezena de pessoas e onde se instalou muita solidão e desamparo. Ontem, vi uma das habitantes dessa aldeia com um sorriso de sábia descrença nos políticos que a visitam, habituada a que está ao esquecimento ou a receber visitas e promessas de políticos apenas em campanhas eleitorais. Essa descrença é partilhada por muita gente, porque, infelizmente, são demasiados os casos de políticos que se servem em vez de servirem as pessoas e que falam, falam, falam, mas que, chegados ao podium do poder, se remetem ao silêncio.

O Seguro trará segurança e confiança ao país? Deus queira que sim. E que seja capaz de trabalhar para que haja menos solidão e desamparo em tantos setores da nossa sociedade. 

A cerimónia já começou. Os trabalhos de Seguro também.

 

P.S. Senhor Professor Marcelo, apareça de vez em quando. O Tó Zé é fixe, mas o senhor também foi. Cada um à sua maneira, é claro. 




domingo, 8 de março de 2026

E se todas as mulheres pudessem dizer 'Gracias a la vida'?

 


Diferenças

 

No tempo em que muitas crianças deixavam a escola depois da quarta classe, muitos afazeres logo os esperavam, mesmo que bem gostassem de continuar a estudar. O abandono escolar acontecia por falta de dinheiro na família, por preconceito, para ajudar no trabalho dos pais...

Às meninas cabia sobretudo o trabalho doméstico: cuidar da casa, dos irmãos, dos avós… Muitas dessas meninas iam buscar água ao poço da aldeia, segurando vasilhas grandes nas suas mãos ainda pequeninas. Iam e vinham em grupo feminino de diferentes idades e seguiam conversas das mulheres que, tanto falavam alto, como baixavam a voz para segredarem o que sabiam ou o que lhes ia na alma, como discutiam, como davam gargalhadas, como insultavam, como ameaçavam…

Nas histórias que contavam, entrava com frequência a figura do marido: «O meu homem…», nomeado muitas vezes sem o eme final.

As meninas mais curiosas escutavam as conversas, mas sem compreender muita coisa. Porém, quando as mulheres se apercebiam que estavam a ser escutadas, desciam o olhar até elas – segurando com mãos firmes o caneco da água que transportavam à cabeça – e murmuravam, como se lançassem cartas para o futuro:

-  Vós pra lá ides!

Algumas das meninas entreolhavam-se, continuavam sem compreender, mudavam a vasilha da água para a outra mão e a calçada parecia mais comprida, misteriosa e íngreme. De repente, o pensamento recuava-lhes até ao seu tempo de escola, em que ocupavam as filas de trás, aonde chegavam palavras pequeninas, enquanto frases mais longas e com futuro se destinavam sobretudo às meninas das filas da frente.

Havia, contudo, professoras com o dom de descobrir nas crianças vontade e capacidade para continuar a estudar. Não queriam que as suas vidas fossem pela água abaixo. Porém, tais palavras eram muitas vezes levadas pelo vento.


Oh! Não me venham dizer que no tempo da outra senhora é que era bom!

In proximidades, Seda Edições, 2025 

 

sábado, 7 de março de 2026

Pedra


Na aldeia, as mulheres usavam o cabelo comprido. Quase sempre preso durante toda a vida, tal como se sentiam desde as horas cansadas e doloridas em que tomavam consciência de si.

Algumas – poucas – faziam tranças antes de o enrolarem e prenderem atrás. Talvez as mais românticas, as que liam livros e revistas com histórias de amor que as faziam suspirar. Ou as que ouviam palavras que lhes adoçavam a vida e lhes davam confiança.

Porém, as que se só ouviam falas bravias e agrestes penteavam-se como mais uma obrigação: como lavar a roupa, como limpar a casa, como fazer a comida à hora certa, como ouvir todas as culpas pelos males domésticos, como se abrir para o marido…

Um dia, uma dessas mulheres estava a chorar, enquanto se penteava, sentada numa pedra fora de casa. Gostava de cortar o cabelo, mas o marido não deixava, nem o pai o tinha nunca consentido. Se o conseguisse, seria também um modo de banir de si palavras repisadas e sem contraditório, como obediência e submissão.

 

Atualmente, a rua onde viveram essas mulheres-Sansão está em ruínas. Algumas dessas mulheres, ao longo da vida, viram as suas forças a decair, delas não ficando pedra sobre pedra. Outras, enfrentando dureza antiga e petrificada, não deixaram de partir pedra para evitar derrocadas.

 In proximidades, Seda Edições, 2025


terça-feira, 3 de março de 2026

Sim, foi feliz o sábado passado!


Este foi o texto que a Cristina Pinto - a ilustradora - e eu - a autora da história - partilhámos no sábado passado.

Boa tarde a todos! Em primeiro lugar estou contente por revisitar a UNICEPE, aonde vinha com alguma frequência no meu tempo de faculdade. A partir de agora, posso voltar com mais vontade. Obrigada por esta oportunidade.

Agradeço também à Editora Novembro que a escolheu para apresentarmos a segunda edição deste nosso livro. Pela reedição e pelas palavras elogiosas ao livro, também o nosso agradecimento.

E obrigada, querida família, queridos amigos, por terem vindo, o que nem sempre é fácil conseguir nos dias que correm. Ou porque há outras coisas para fazer, ou porque o cansaço do dia a dia é grande e apetece não ter programa, não cumprir horários ou, então, ficar em casa ou a desfrutar do sol. Ou porque há compromissos agendados, ou se vive longe, como são as razões de não ter cá as minhas duas filhas e os meus dois netos. Tenho um deles e, tal como os primos que também estão cá, felizmente gostam de livros, o que é uma janela aberta para muitas coisas boas da vida e uma ajuda para acreditar no futuro.

Para mim, é um gosto muito grande ver-vos todos aqui para a apresentação desta segunda edição do livro As fadas do Bosque das Cores e das Estórias, história de que continuo a gostar muito, desculpem a imodéstia, e cujas ilustrações da Cristina Pinto, sempre achei maravilhosas pela alegria das cores, pelas personagens a que deu vida, pelos cenários que recriou…

E desculpem ser juíza em causa própria, mas alguns dos temas são cada vez mais importantes na nossa vida atual, como o facto de as fadas não quererem viver fechadas apenas na sua cor.

E para ti, Cristina, um obrigada muito especial pela tua amizade e pelo teu trabalho tão criterioso. Só por curiosidade, e espero não estar a ser intrometida, na mesa de trabalho da Cristina, juntamente com os materiais de desenho, de pintura, de recorte, etc estava sempre a cópia da história, para ir aferindo pormenores.

Quando apresentámos a primeira edição, ainda no tempo da pandemia, convidámos para a apresentação a Dra Idalina Ferreira, querida colega e amiga, com quem muito se aprende, e que, nessa altura, partilhou palavras sempre atentas, rigorosas, profundas e com graça, o que também é muito bom. Obrigada, Idalina, por teres aceitado de novo o nosso convite.


Quando pus o cartaz/convite no meu blogue, tive um comentário de alguém que me desejou um dia feliz para hoje. Uma ideia muito simples, mas que me fez pensar na importância de momentos como estes, em que, cada um à sua maneira, se aproxima da arte e da beleza, seja pela escrita, pela leitura, pelos desenhos, pela edição dos livros…

 Já tivemos o prazer de apresentar a 1ª edição do livro a algumas centenas de crianças do 1º ciclo, de agrupamentos de Escolas de Valbom e das Antas, com sessões dinâmicas de leitura de uma resenha da história, debate a propósito das ideias veiculadas no livro, seguido de uma oficina de criação de uma floresta para a qual as crianças fizeram personagens para a habitar, tendo, árvores e personagens, ficado a morar no teto das bibliotecas. Foi muito prazeroso verificar, no terreno, as potencialidades de trabalho que o livro proporciona junto dos alunos do 1º ciclo, do primeiro ano ao quarto ano. O entusiasmo que se conseguiu provocar nos meninos, a interação entre estes e nós durante o debate e, finalmente, a participação ativa deles na criação de habitantes para a floresta, ultrapassou as nossas melhores expectativas. Foram momentos muito bons, que nos encheram o coração, pela adesão, entusiasmo e alegria demonstrados.

 Só uma curiosidade! Entre os habitantes que as crianças desenharam e recortaram para habitar a floresta, havia animais e fadas, naturalmente. Um dia, um menino perguntou: posso desenhar um fadinho?

 Também fizemos uma atividade, a propósito do livro, com um grupo de meninos, durante um dia, na Biblioteca Municipal de Gondomar, em que o resultado final foi a apresentação de um teatrinho de marionetas criadas por eles, apresentado às famílias e aos presentes na biblioteca.

 Vamos tentar continuar a dinamizar mais momentos deste género em mais algumas escolas, para estimularmos a leitura, a imaginação e a criatividade.

E agora, podemos ler uns pequenos excertos do nosso livro. Espero que gostem.

Muito obrigada, mais uma vez, por terem vindo e que continuemos a encontrar-nos! Também através dos livros. Um abraço para todos. 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Convite - Todos serão bem-vindos

 

No próximo sábado, apresentaremos a segunda edição do livro As Fadas do Bosque das cores e das estórias. É às 16 horas, na Unicepe, no Porto. Se puderem, apareçam. Serão muito bem-vindos.



Preparando a sessão do próximo sábado

 



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Ontem, houve coisas fixes e outras mesmo nada!

 

Hoje, o 'Expresso Curto' diz que o povo mostrou que Seguro também é fixe, retomando o slogan de Mário Soares há quarenta anos, e votando nele em peso. 

Ontem, dia de eleições presidenciais, o dia amanheceu sem chuva, sem vento, sem trovoada, sem granizo... Pelo menos aqui na minha zona nortenha. Oxalá tenha sido assim em todo o país. Foram umas tréguas muito boas quanto às tempestades e quanto às gritarias obsessivas de Ventura, que não se cansa de dizer, tipo Calimero, que todos se uniram para o tramar. Para além dos temas que repete até à exaustão.


Eu já tinha votado no domingo anterior e o dia foi normal,  com a diferença de esperar pelas projeções eleitorais às oito da noite. Dei a sopa ao meu neto e, à hora prevista, estava eu de comando na mão para conhecer as previsões nos diferentes canais. Respirei de alívio. Ganharia Seguro e Ventura ficaria muito atrás. Isso foi o mais fixe daquela hora e daquele dia. 

Nesses momentos, Ventura estava na missa, enquanto os jornalistas, fiéis às audiências, o esperavam bem junto à porta de madeira daquela 'casa de Deus' (como dizia a minha mãe) e onde estava o mediático ser humano - tantas vezes desumano - que separa pessoas, que cria ódios, que mente, que distorce a realidade, que engana... O que não é nada católico. E não me sai da cabeça esta contradição: exibir uma religião, como devotado seguidor, e praticar o contrário do que essa Igreja defende. Um espetáculo condenável, a meu ver, que também pode afastar ainda mais pessoas das igrejas - e muitas já estão quase vazias.

Muito positiva achei a mobilização de tanta gente para votar 'Pelo Seguro'. Poder-se-á dizer que muita gente votou não a favor de Seguro, mas contra Ventura. Se o fez, é porque viu mérito no homem que foi eleito Presidente da República. De facto, parece ser um homem decente, honesto, calmo, consciente dos problemas atuais... Dizem que não tem ideias. O melhor é ter poucas e boas do que ter muitas e não passarem do papel ou de promessas enganosas.

Tenho uma amiga que, ontem à noite, dizia 'Seguro é o meu Presidente'. Oxalá todos sintamos, com o tempo, que é o Presidente de todos os portugueses. E que fale o mais verdade possível. E que não desapareça quando a situação é grave, nem fale a toda a hora por tudo e por nada. E que não seja arrogante nem excessivamente vaidoso. E que peça desculpa quando necessário. E que não sirva sobretudo a si próprio e aos seus. E que não faça de conta que é super-homem que está acima dos demais. Isso seria muito fixe.


Ah, e quase na despedida,  um beijinho ao Professor Marcelo, que tantos beijinhos e abracinhos distribuiu. Apetece-me dedicar-lhe, carinhosamente, uma canção: 'Com açúcar e com afeto'. Nunca tirei nenhuma selfie com ele, nem nunca tive vontade, embora no início até achasse piada, mas virou cansativo e, por isso, nada fixe.