sexta-feira, 3 de julho de 2026

Afinal há inferno?

 

Quando eu era pequena, assustavam-nos com o inferno. Dizes asneiras, vais para o inferno; não obedeces, vais para o inferno…

Nos últimos anos, a mentalidade mudou e chegou-se à conclusão de que não havia inferno. Que alívio!

Mas, afinal, há! Muita gente o sente por estes dias: quem vive ou trabalha na rua ou ao sol, quem vive em casas pequenas e quentes, quem vive só e quase não vê ninguém, quem está a ser atingido por incêndios…

Tudo isto é inferno!

E fomos nós, humanidade, que fomos deitando achas para esta fogueira que cada vez controlamos menos: lixos atirados à toa, construção de casas em lugares errados, agentes poluidores à solta e tanta coisa mais que ‘vemos, ouvimos e lemos’!

Não nos falte água - que também vai escasseando - para nos hidratarmos e apagarmos os fogos que fomos ateando - uns bem mais do que outros. E que agora nos incendeiam o corpo e a alma.

Desculpe, mãe, muitas vezes lhe disse que não havia inferno, mas afinal há. É muito diferente do de antigamente, mas não deixa de ser inferno.


quinta-feira, 2 de julho de 2026

Calor, solidão …


Os dias tórridos que estamos a viver não são novidade para ninguém e dizer que está calor ainda aquece mais o ambiente, às vezes sufocante.

E, na noite passada, para além do calor, houve vento, muito vento. Perto de minha casa, há estufas e eu estava sempre a ver quando voava, com estrondo, alguma cobertura de zinco, como já aconteceu. 

Quase desfeito ficou,  porém, um guarda-sol que voou da casa vizinha. Ainda bem que a minha cadela não andava, naquele momento, em passeio de busca noturna. 

Pela hora do almoço, dois funcionários do Serviço do Ambiente tocaram-me à porta, para recolha de verdes. Enquanto faziam o trabalho, pediram-me água. A garrafa que tinham na carrinha estava vazia e torta pela exposição ao calor.

E isto são apenas uns ínfimos pontinhos de uma geografia afogueada e quase toda pintada a vermelho.

Bem mais angustiante será viver em casas pequenas e quentíssimas. E sem ninguém para falar, a quem se queixar, a quem dirigir um gesto e receber um abraço. Para abrir ou fechar uma janela para que o sol não atordoe mais, para que o ar seja mais suportável e alivie a solidão. Curiosamente, o tema da solidão foi abordado hoje no programa Sociedade Civil do canal 2. 

Ao longo dos 60 minutos, ficámos a conhecer muito trabalho solidário no sentido de ajudar pessoas a interagirem mais, irem ao encontro de quem vive só, não pode sair e precisa de comunicar para que a vida faça sentido. Cinco pessoas de cinco instituições - todas elas mulheres e ainda jovens - expuseram projetos de amor aos outros e de ligação afetiva às comunidades.

Houve calor humano, bem diferente do calor que nos está a assolar. Este era dispensável, o outro  - o calor humano - anda muito faltoso mas é cada vez mais urgente e necessário. 


sábado, 27 de junho de 2026

Uma das 'minhas' músicas!

 


Futebol

 

Futebol se joga no estádio?

Futebol se joga na praia,

futebol se joga na rua,

futebol se joga na alma.

A bola é a mesma: forma sacra

para craques e pernas de pau.

Mesma a volúpia de chutar

na delirante copa-mundo

ou no árido espaço do morro.

São voos de estátuas súbitas,

desenhos feéricos, bailados

de pés e troncos entrançados.

Instantes lúdicos: flutua

o jogador, gravado no ar

— afinal, o corpo triunfante

da triste lei da gravidade.

 

Carlos Drummond de Andrade, In Poesia errante

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Hoje


Ainda estão quentes as brasas

Da noite de S. João

Não nos falte a alegria 

Para lançar o balão!


segunda-feira, 22 de junho de 2026

É São João!


Ó meu rico São João

Vê se desces cá à Terra

Há tanta desunião

E é tão mortífera a guerra!


E o desconcerto do mundo

Vai crescendo em cada dia

Uns não saem da tristeza

Outros só veem alegria!


E não sei se também sentes

Os gritos de sofrimento

Ouvidos dentro de casa

Em vez de paz e alento!


Não te peço, S. João,

Que venhas lutar por nós

Cada um pode fazer muito

Mas sentimo-nos tão sós!


sexta-feira, 19 de junho de 2026

Com a bebida no balcão

 

Já se conheciam há muitos anos, tinham convivido durante muito tempo, mas raramente se encontravam. Raramente falavam. Raramente trocavam mensagens. Quase só pelo Natal e pelos anos dele. Dela, não, porque ele não sabia as datas dos aniversários e nunca perguntava. Era muito discreto. Sempre assim tinha sido.

Um dia, cruzaram-se, curiosamente, junto a um cruzamento. Ficaram felizes pelo encontro. Ela mais do que ele. Pelo menos parecia. E deram um abraço. Bastante rápido porque estavam na rua e, como eu já disse, ele era discreto. E ela também, embora fosse menos. Cada um pensava que tinha coisas a dizer um ao outro. Ficaram, porém, pelas palavras triviais de quem já não se vê há muito tempo: tudo bem, como vais, estás bem, como tens passado…

Um deles, já não sei bem qual, foi dizendo que a solidão ia pesando. E também já não sei se foi ele ou ela que teve  vontade de dar a mão - acho que foi ela -, sentar-se num banco e ficar a conversar, a conversar... Sem pressas e sem agruras.

Mas não havia banco e ele estava com pressa. Ela ainda teve tempo de dizer que era o seu aniversário. Ele deu-lhe os parabéns e desejou-lhe um dia feliz. E que em breve se encontrariam com mais tempo. E despediu-se.

Se fosse um filme, veríamos uma mulher parada, com ar hesitante, olhando um cruzamento e um homem a afastar-se.

Como se saísse de momentos de letargia, ela respirou fundo e seguiu até ao café mais próximo. Podia ser que encontrasse alguém conhecido com quem pudesse conversar um pouco. Nem que ficassem de pé, com a bebida descansando no balcão!


quarta-feira, 10 de junho de 2026

Impossível não me lembrar de Elza


Há uns anos, tive uma aluna - a Elza - que leu este soneto de Camões numa aula. Enquanto ela o dizia, fez-se um silêncio profundo. É que o tom de voz, a postura, o sentimento ... tudo fazia brilhar ainda mais a humana beleza triste do poema.

Não sei onde estará Elza a viver e a trabalhar. Talvez ainda saiba o soneto de cor. De uma coisa tenho quase a certeza: quem a ouviu ficou a gostar ainda mais de Luís de Camões.


Erros meus, má Fortuna, Amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a Fortuna sobejaram,
Que para mim bastava Amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que já as frequências suas me ensinaram
A desejos deixar de ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa a que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De Amor não vi senão breves enganos.
Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!


Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"