Uma noite destas, acordei com trovoada. O que para muitos é fascínio, a ponto de se porem à janela, para verem o céu a riscar-se de luz, para mim é susto e stresse. Não sei se por memórias antigas também.
Impossível não me lembrar de trovoadas da minha infância em que a família se juntava numa divisão da casa. A minha mãe acendia uma vela benzida junto do raminho de oliveira igualmente benzida e rezávamos, em voz alta e em tom de novena, a oração a santa Bárbara. E eram lembrados os pecados do mundo de que a trovoada era um aviso e pelos quais devíamos pedir perdão a Deus.
Eu e os meus irmãos acompanhávamos as orações da nossa fervorosa mãe. O meu pai ia sussurrando, sem grande convicção, as ladainhas que a minha mãe iniciava. E eram muitas. E todas bem proferidas, sem qualquer atropelo de sílabas ou de palavras.
O meu avô, ai, o meu avô, não me lembro se ele acompanhava as palavras devotas da minha mãe. O que sei é que não as sabia de cor, mas a presença dele era um alívio na sala, apenas iluminada pela vela acesa, e onde quase nem entrava ar, porque a porta estava fechada à luz dos relâmpagos. Só no final da tempestade, é que notávamos como o calor da sala se tinha tornado sufocante.
E o meu avô, aquele homenzarrão, de sorriso maroto e que tantas vezes contava as mesmas histórias e sempre com graça, sabia quando voltava a bonança. O som dos trovões ia ditando as suas palavras: a trovoada já está mais longe. Vai passar em cinco minutos. As suas palavras acalmavam e eram as mais felizes e esperadas previsões da meteorologia do momento.
Quando tudo serenava, abríamos a porta da sala, e também a janela. A vela já apagada mantinha-se no lugar, o raminho de oliveira e seca permanecia, sagrada, na jarrinha de vidro.
Já libertos da trovoada, o meu irmão, o mais novo da família, ia brincar, a minha mãe e nós, as filhas, retomávamos os trabalhos domésticos, o meu pai ia para a oficina, preocupado com o trabalho. Quanto ao meu avô, resgatava uma das histórias antigas que sempre começavam assim: Uma ocasião...




