sábado, 22 de agosto de 2026

Coisas de verão - casa amada!


Hoje, 22 de agosto, a minha mãe faria 100 anos. Partiu aos 96. A família pensava - e julgo que ela também - que a vida lhe permitiria festejar o centenário. As maleitas não eram de monta, apesar de algumas persistirem.

Hoje dei comigo a pensar em coisas que ficaram da vida da minha mãe: o gosto pelas flores, pela vida calma, pelas palavras poéticas, pelos sabores da comida que tão bem confecionava … 

E o amor por tudo que entendia ser criado por Deus.

E o amor pela casa - o seu reino e o seu paraíso. 

A casa era o lugar das pequenas coisas que só lá encontrava e lhe davam a feliz tranquilidade de que precisava: as linhas e lãs, a máquina de costura; os livros sobre santos e os jornais que lembravam diferentes santidades; os versos que fazia e tantos outros que sabia de cor;  as plantas que lhe mostravam a sua sede e as suas necessidades…

Tanto a minha mãe amava a casa que a família repete a expressão que também ela repetia inúmeras vezes: minha casinha meu lar!


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Coisas de verão - o antes e o depois


Quando tenho qualquer festa em casa, como aniversários, fico bastante stressada, embora tente disfarçar. Alguma coisa pode correr mal, a comida pode não estar como eu gostaria, pode faltar alguma coisa, pode haver algum esquecimento…

Ah! Se alguém não vier, penso que houve desinteresse; se vierem em grande número, sinto desconforto!

Valha-me Deus!


Vem o dia. Vêm as pessoas: a família é grande. Alguns amigos. Uns de perto, outros de longe.

Tudo se vai abrindo como pequena nuvem que dá lugar a mais luz do sol.

Desta vez, no aniversário da Clarinha, como em tantas casas portuguesas nesta altura do ano, falaram-se várias línguas, e uma delas foi o italiano. 

Todos à mesa, vieram à baila canções italianas na memória de muitos, títulos de filmes, expressões conhecidas…

Apesar do trabalho que as festinhas em casa dão sempre, como foi bom ver as solidariedades, as linguagens e boa disposição partilhadas. 

Afinal, o mundo é uma bola em que todos cabemos e na qual entramos com forças e fragilidades.

E, com a leveza possível dos dias, tudo se torna mais querido, neste ‘querido mês de agosto’. 


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Coisas de verão - a mulher do pôr do sol

 

A cena repetia-se. Ao pôr do sol, quando o calor amainava e ficava mais espaço no areal para as gaivotas, ela chegava à praia com os seus óculos escuros e chapéu de abas largas. Sentava-se no muro em frente à esplanada, com meio corpo inclinado para o pôr do sol e balbuciava algumas palavras não muito percetíveis.

 Os habitués da esplanada, para o último fino do dia com tremoços e amendoins, já se tinham habituado à presença dela, sentada de lado, no muro baixo e em frente. Houve até quem a fotografasse à sorrelfa apenas porque dava uma boa foto a contra-luz.

Porém, uma das crianças, naturalmente curiosa, aproximou-se da mulher para perceber o que dizia e ouviu-a repetir: 

- Será que voltas amanhã? Será que voltas amanhã?

Logo que percebeu as palavras dela, veio, a correr, contar.

- Mãe, a senhora perguntou se voltava amanhã. Ela fala com o sol?

- Talvez, filho, ou dirigia-se a alguém.

- Mãe, mas eu não vi ninguém.

- Pois, filho, se calhar, é mesmo o sol que a senhora procura!


sábado, 15 de agosto de 2026

Coisas de verão - os palavrões

 

Fui cedo passear o cão ao passadiço. À hora em que pouca gente passa, a não ser os peregrinos. Ou pessoas que moram por ali e querem aproveitar as horas em que não chegam os banhistas com sacas e caixas de farnéis, com os guarda-sóis, tapa-ventos e muitos etecetras.

Ora, sentados, na beira do passadiço, estavam dois homens a conversar. Faziam-se ouvir e bem.  O outro ruído era o do mar e, comparando com as vozes deles, era bem mais brando.

Apeteceu-me abrandar para ouvir o que diziam, não fosse o cão puxar-me com toda a força. Mas deu para ouvir algumas coisas.

Falavam de futebol e de política, tudo misturado. E não havia frase nenhuma - todas muito curtas - em que não entrassem palavras começadas por cê, por pê, por efe…

E como o cão puxava com tanta força, até pensei: será que o cão não gosta de palavras a que não está habituado? E ainda deu para ouvir: F…

Ou fui eu que pensei???


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Coisas de verão - à semana, sim; ao fim de semana, não!

 

É caso para dizer: quem nunca foi ao Castro Sampaio, em Labruge, Vila do Conde, não deixe de ir, se e quando puder.

Pode-se ir pela praia, por exemplo, a partir de Mindelo, havendo passadiços em muito do percurso.

Ao longe, avista-se a capelinha num vasto terreiro, donde se desfruta o mar imenso. Faz lembrar as cantigas de amigo - quando o namorado partia mar fora para ir para as guerras, das quais nunca se sabia se e quando voltaria.

As praias pequenas, cercadas de altos rochedos chamam e acarinham.

E o restaurante, que mais parece bar comum de praia, serve peixe bom e bem cozinhado. Saboreá-lo ao fim da tarde será como dar a mão em momento relaxado e confiante de prazer.

Porém, diz quem sabe que ao fim de semana é horrível pelas enchentes.

Ir de carro é outro frete, porque os acessos são apertados.

Durante a semana? Belo e tranquilo.

Durante o fim de semana? O melhor é ficar em casa, ou escolher outro lugar.

É que há mar e mar; muito motivo para lá ir: mas, com confusão, pode perder-se a vontade de lá voltar!


Coisas de verão - e depois do adeus

  

Vi em casa o eclipse. Abri a janela, pus os óculos e vi o sol em forma de lua. O tempo escureceu, mas não tanto como eu pensava.

Senti uma brisa a entrar pela janela. Suave e boa. Os ramos da camélia agitaram-se. Mas pouco. Os carros na rua passaram a ser raros. Senti a calma força da natureza.

Perto de casa, já tinha visto muita gente, uns de pé, outros sentados, óculos na mão, à espera do eclipse.

Na televisão, falava quem fez muitos e muitos quilómetros para chegar ao sítio em que o sol mais se esconderia. Como em Bragança. Havia pessoas comovidas, outras repetiam lugares comuns que era o que saía no momento…

Um brasileiro, emocionado, também me comoveu. Para ele, o eclipse era um fenómeno democrático que unia toda a gente, sem distinção.

Realmente há maravilhas da natureza que revelam maravilhas dos seres humanos.

E que perduram, mesmo depois do adeus!

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Coisas deste verão - os óculos do eclipse e os desmancha-prazeres!


Hoje precisei de ir à farmácia aonde vou habitualmente. É uma farmácia pequena e fica numa rua fora do centro da vila, hoje cidade. 

Estive lá uns 15 minutos para comprar os medicamentos de que precisava. Durante esse tempo, vieram umas quatro pessoas à procura de óculos para ver o eclipse.

Quando a porta se abria e se a farmacêutica não conhecia as pessoas, logo dizia: desculpe, mas, se é para os óculos do eclipse, já não tenho!

E ia comentando: Estou farta de dizer a mesma coisa! Que passe depressa o eclipse e venha o dia de amanhã!

E acrescentou outra coisa que, com alguma razão, também poderia ser para mim, embora, neste caso, já tenha os meus óculos na carteira: as pessoas procuram as coisas mesmo na última!

Cá em casa já toda a gente tem óculos e está entusiasmada para assistir logo ao eclipse.

Porém, com ou sem ironia, já ouvi: Todos os dias, o dia dá lugar à noite e não é preciso tanta festa!

Quem o disse ouviu que era desmancha-prazeres.

Mas, cá pra mim, as nuvens ou o nevoeiro é que vão ser os maiores desmancha-prazeres.

Mesmo assim, que a Festa não se eclipse!


terça-feira, 11 de agosto de 2026

Coisas de verão - a senhora do vestido lilás!

 

Logo que nos sentámos no café Velasquez, reparei numa senhora, que, sozinha, ocupava uma das mesas rente ao vidro que separava o interior da esplanada.

As mangas curtas do vestido lilás realçavam-lhe a magreza dos braços. O cabelo, cortado a direito, pressentia-se liso pela laca. Alguém da mesa também reparou nela e perguntou:

- Em que rua morará aquela senhora?

Logo veio a resposta: 

- Numa das avenidas próximas, por certo.

Concordámos. Pela postura. Pela sobriedade. 

Porém, durante o tempo que estivemos no café, a senhora do vestido lilás não tirou os olhos do telemóvel. Nem as mãos.

Não sei se estava a receber mensagens! Não parecia porque a expressão era sempre igual.

Saímos. Sem saber quanto tempo iria ficar no café a senhora do vestido lilás. A senhora que parecia viver numa das casas bonitas das bonitas avenidas. Talvez numa casa com flores e largas janelas. 

Mas sem ouvir ninguém a tocar à campainha. Nem a ser chamada, amorosamente, pelo nome.