Mariana
domingo, 3 de maio de 2026
sexta-feira, 1 de maio de 2026
Meu querido mês de Maio!
Hoje, é o teu primeiro Dia e, por isso, é feriado! Levantei-me cedo, como acontece regularmente. Talvez não fosse necessário, mas, para mim, é e é bom. Assim, o dia rende mais e posso fazer as boas e preguiçosas pausas da hora do almoço e do fim de tarde. Ai que prazer sentar-me no sofá, ver as notícias, pensar, ler, crochetar, não fazer nada...
Gosto de ti, mês de Maio. Vens, logo no teu primeiro Dia, ativo e reivindicativo para que os deveres e direitos de todos não sejam esquecidos. És festejado nas ruas, com muitas bandeiras, muitos slogans de alerta, muitas vozes que se querem fazer ouvir. Sabes, lembro-me muito bem do Primeiro Dia em que foste festejado em Portugal e em Liberdade. Ainda moram nos meus olhos as multidões em praças e ruas. A alegria e deslumbramento eram tão grandes!
Quando nasces, Maio, sobretudo nas aldeias, muitas vezes apercebes-te do perfume e das cores das maias em muitas portas e janelas. É bonito serem flores a proteger do mal, segundo a tradição. Porém, ontem não as pus, porque são difíceis de encontrar ou de apanhar. Escasseiam quando antigamente eram abundantes. E o ritual era engraçado: ir ao monte apanhar um raminho das giestas de flor amarela. Também cresciam e floriam à beira das ruas ou caminhos. Como agora são poucas, há quem as junte, criativamente, a outras flores. Como mostram estas fotos amigas que recebi.
Maio, o que nos trarás? São tantas as incertezas. São tantas as imprevisibilidades. São tantas as reviravoltas e ganâncias de quem governa o mundo que o mundo até entontece.
Quando eu era pequena, tinha medo de ti, Maio, por causa das trovoadas frequentes e previsíveis que te acompanhavam. Nesse tempo, o melhor boletim meteorológico era o meu avô. Olhava para o céu e acertava sempre. Hoje, já não seria bem assim, porque muitas tempestades chegam violentas e revolvem, de repente, os locais onde desabam. Tal como as guerras, atingem pessoas e espaços inocentes, sem dó nem piedade.
Meu querido mês de Maio, fico-me por aqui;
Vê se abrandas o sofrimento
que aumenta em cada momento.
Podemos confiar em ti?
quarta-feira, 29 de abril de 2026
Manhã
segunda-feira, 27 de abril de 2026
Na 'minha cidade com mar ao fundo'!
Ontem, fui à 'minha cidade com mar ao fundo' - Espinho. Cheguei pela hora da abertura das lojas. Depois de um cafezinho, estava na rua 19. Uma das primeiras lojas aonde entrei foi a bonita Bertrand. Eu tinha uns livros em mente e um vale ainda do Natal que queria descontar.
Entrei e parei a ver os livros mais em evidência, aqueles que à entrada estão dispostos de modo a chamar logo a atenção. Um deles era de um apresentador da tvi. E outros que devem vender bem. Muito bem. E veio-me à cabeça a frase que agora muita gente diz: 'Toda a gente escreve livros'. E, se são figuras mediáticas, os livros vendem-se. E muitos. E se as editoras têm dinheiro para a publicidade, ainda se vendem mais. Muito mais.
Se calhar, alguém diz a mesma frase quando, modestamente, publico os meus livros. Já agora, estou a trabalhar numa história para crianças que gostaria de publicar ainda este ano e que está a ser ilustrada. Só que, como tanta gente que gosta de escrever, sou desconhecida, anónima e as editoras, que aceitam publicar, têm poucos recursos e são pequenas. Só é grande o prazer de escrever, ver ilustrado e concluído um livro, feito honestamente, com amor, com criatividade, que, de uma forma ou outra, também anda por aí.
Pois bem, os livros que eu queria comprar eram da Capicua e cuja coleção, julgo, tem o titulo 'Mão Verde'. Ao balcão, estavam duas jovens, simpáticas e educadas, que me informaram que, pelo menos, um desses livros só estava à venda online. Perguntei por outros livros de Capicua, também para crianças. Para além de ser muito talentosa e escrever muito bem, ela aborda temas importantes do dia a dia, como de ligação à natureza. Também compõe músicas muito bonitas e motivadoras para as crianças.
Uma das jovens pesquisou livros da autora no computador e foi buscá-los a outro espaço que não estava acessível ao público. E pensei o óbvio: há autores e livros muito bons que não estão visíveis nas livrarias. E é pena. Muita pena. Os leitores ficavam a ganhar.
Portanto, o que está logo à frente dos olhos de quem entra nas livrarias são muitas vezes livros que rendem muito dinheiro: à livraria, aos editores, a quem os escreve.
Não costumo interessar-me por esses livros e acho que o farei cada vez menos.
sábado, 25 de abril de 2026
sexta-feira, 24 de abril de 2026
Outras coisas de que me lembro
Na Faculdade, sobretudo no primeiro ano, naquelas aulas em que o discurso do professor era difícil de entender, eu sentia que gostava de saber muito mais. E, já que estou a abrir a caixa das fragilidades, eu sentia a falta de não ter ido estudar logo a seguir à escola primária. E a principal razão de não ter ido foi ser menina, ter de aprender a fazer tudo o que era próprio de meninas, como trabalhos domésticos, família, coser, bordar... O resto era conversa ociosa ou coisas de ricos.
Eram comuns outros casos semelhantes. E, muito pior ainda, eram as crianças que, pelos dez anos, começavam a trabalhar no duro para ajudar a família. E eram imensas. E andavam muitas vezes com fome e descalças.
Na altura da quarta classe, a minha professora insistiu, até onde pôde, para eu continuar a estudar, mas não foi bem sucedida. Talvez essa atitude da professora tenha sido um dos principais motores para eu retomar os estudos na adolescência, vendo, na prática, que o esforço e as energias despendidas eram bem maiores do que se tudo fosse feito no tempo certo.
O ensino obrigatório para todos é das melhores conquistas de Abril. Pesem ainda as dificuldades de muitos alunos na conclusão do secundário, no acesso e na continuação no ensino universitário.
Ora, na Faculdade, quando eu podia, passava algum tempo a ler ou a estudar na biblioteca. E via, com alguma frequência, entrar, de repente, alguns alunos como se viessem a fugir, sentarem-se de repente em lugares vagos e dispersos, fingindo de imediato que estavam a estudar. Tudo isto era feito em clima de silêncio e de medo.
Sem demora, entravam uns sujeitos corpulentos e, sem alarde, dirigiam-se aos alunos recém-chegados. Em surdina prepotente, saíam com eles para serem interrogados pela pide, que não suportava opiniões nem palavras, nem gestos contra o regime.
Também em intervalos das aulas, ou quando havia mais alunos a circular pelos corredores, misturavam-se os ‘bufos’, também corpulentos e de olhos que apontavam em todas as direções. Ouviam as conversas para poderem acusar os mais subversivos, que tinham a coragem de agir ou falar em prol da Liberdade.
Por estas e por outras, faz doer ouvir o partido que, na Assembleia da República e não só, mente, engana, manipula, insulta, discrimina, desrespeita, diz tudo o que lhe dá jeito ou lhe ocorre no momento, dizer que antigamente é que era bom. Coitados, falam, falam, mas não sabem do que falam.
E o dirigente desse partido chama os jornalistas para o verem na missa, a comungar, a ajoelhar-se, a benzer-se ... E diz-se ungido por Deus!
Até (me) faz bufar. De raiva!
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Coisas de que me lembro!
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| Imagem publicada hoje no Expresso Curto |
No Dia 25 de Abril de 1974, eu estava no primeiro ano da faculdade de Letras do Porto, no curso de Românicas. A turma era grande e quase toda no feminino. Encantavam-me algumas aulas e noutras sentia-me como um peixinho muito pequeno e desajeitado fora de água.
Lembro-me de uma professora ainda jovem que levava as aulas muito estruturadas, quase ditava os apontamentos, num misto de aluna e professora, mas que motivava para o estudo atento e para a leitura.
Uma outra professora dava as aulas de pé, encostava-se muitas vezes ao quadro e fumava cigarro atrás de cigarro. Na aula havia silêncio e o que ela ensinava tornava-se encantatório.
Recordo outro professor que levou aulas e aulas com a análise das primeiras linhas de um livro do século XVI, estabelecendo relações infindáveis com outras obras e saberes da época. Havia quem quase adormecesse naquela aula em que o professor falava sempre olhando os papéis e quase nunca os alunos.
Outro professor, muito jovem e de barbas, comunicava bem melhor e parecia divertido com alguns conteúdos que transmitia.
Impossível esquecer também um outro professor, em início de carreira, que usava uma linguagem tão hermética que a grande parte de nós não entendia nada. Ele expunha os seus saberes, sem, aparentemente, a preocupação de se fazer entender. De vez em quando, circulavam papelinhos secretos, contra o modo fechado como o professor conduzia a aula. Ninguém tinha coragem de reagir em volta aita.
Era de História de Portugal um outro professor também muito jovem. Esse ia respondendo a questões. Durante o diálogo que estabelecia com os alunos, olhava de vez em quando para a porta, parecendo receoso de estar a cometer uma infração, respondendo a dúvidas. E um dia, num desses momentos de interação, a porta abre-se, entra o reitor, o professor fica corado, cessam as questões e a aula fica mais triste.
Se tiverem tempo e paciência, amanhã continuo, porque há outras coisas de que me lembro.






