quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Laranjeira


Junto à casa da minha infância, havia uma laranjeira antiga. Era muito alta e os ramos, exuberantes, alargavam-se, dando fresca sombra em dias de sol. Vestindo as batinhas que a nossa mãe costurava na sua máquina Singer, a minha irmã e eu ficávamos a brincar longas horas debaixo da laranjeira. Era uma árvore tão alta que, se se olhasse para cima, apenas se viam pássaros a esvoaçar de galho em galho. Estes, de tão densos, nem deixavam ver o céu. As folhas secas iam caindo e eram engolidas pela terra que abundava debaixo da laranjeira.

Ora, nessa altura, eu tinha uma boneca de papelão – a minha preferida, se se pode dizer assim de um único objeto que se tem. Era a minha boneca. Tinha as faces coradinhas e os olhos azul escuro que não abriam nem fechavam, mas que pareciam olhar sempre para mim. Só os bracinhos e as pernitas mexiam.

Um dia, enquanto brincava sozinha debaixo da laranjeira, levantou-se um vento repentino, um relâmpago fez garatujas no céu; logo a seguir um trovão rebentou e a chuva começou a cair. Rápida e inesperada, era uma tempestade a faiscar e a estoirar no fim de tarde que logo se fechou em noite.

Com medo, corri para dentro de casa, deixando os brinquedos debaixo da laranjeira. Talvez ela os protegesse e a minha mãe já estava a chamar.

Logo que acordei no dia seguinte, fui a correr ver a minha boneca.  Incrédula, em vez de a reencontrar redondinha e inteira, deparei com pedaços de papelão desbotados, amolecidos e quase desfeitos na lama. Descrente e desolada, olhei para cima para ver se a densidade dos ramos e das folhas podia ou não ter sido uma barreira protetora. No alto, como a bonança tinha voltado, os pássaros esvoaçavam alegremente, como se nada tivesse acontecido. E que triste fiquei por ver que não comungavam da minha dor ao deparar com a minha boneca já sem vida.

 

Tal como eu até àquele dia, talvez os pássaros ainda não tivessem sentido o desgosto da primeira grande perda.

 In proximidades, Seda Publicações, 2025

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