sexta-feira, 19 de junho de 2026

Com a bebida no balcão

 

Já se conheciam há muitos anos, tinham convivido durante muito tempo, mas raramente se encontravam. Raramente falavam. Raramente trocavam mensagens. Quase só pelo Natal e pelos anos dele. Dela, não, porque ele não sabia as datas dos aniversários e nunca perguntava. Era muito discreto. Sempre assim tinha sido.

Um dia, cruzaram-se, curiosamente, junto a um cruzamento. Ficaram felizes pelo encontro. Ela mais do que ele. Pelo menos parecia. E deram um abraço. Bastante rápido porque estavam na rua e, como eu já disse, ele era discreto. E ela também, embora fosse menos. Cada um pensava que tinha coisas a dizer um ao outro. Ficaram, porém, pelas palavras triviais de quem já não se vê há muito tempo: tudo bem, como vais, estás bem, como tens passado…

Um deles, já não sei bem qual, foi dizendo que a solidão ia pesando. E também já não sei se foi ele ou ela que teve  vontade de dar a mão - acho que foi ela -, sentar-se num banco e ficar a conversar, a conversar... Sem pressas e sem agruras.

Mas não havia banco e ele estava com pressa. Ela ainda teve tempo de dizer que era o seu aniversário. Ele deu-lhe os parabéns e desejou-lhe um dia feliz. E que em breve se encontrariam com mais tempo. E despediu-se.

Se fosse um filme, veríamos uma mulher parada, com ar hesitante, olhando um cruzamento e um homem a afastar-se.

Como se saísse de momentos de letargia, ela respirou fundo e seguiu até ao café mais próximo. Podia ser que encontrasse alguém conhecido com quem pudesse conversar um pouco. Nem que ficassem de pé, com a bebida descansando no balcão!


quarta-feira, 10 de junho de 2026

Impossível não me lembrar de Elza


Há uns anos, tive uma aluna - a Elza - que leu este soneto de Camões numa aula. Enquanto ela o dizia, fez-se um silêncio profundo. É que o tom de voz, a postura, o sentimento ... tudo fazia brilhar ainda mais a humana beleza triste do poema.

Não sei onde estará Elza a viver e a trabalhar. Talvez ainda saiba o soneto de cor. De uma coisa tenho quase a certeza: quem a ouviu ficou a gostar ainda mais de Luís de Camões.


Erros meus, má Fortuna, Amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a Fortuna sobejaram,
Que para mim bastava Amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que já as frequências suas me ensinaram
A desejos deixar de ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa a que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De Amor não vi senão breves enganos.
Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!


Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

O nome da rua


Vinha de longe e não conhecia aquela rua. Procurou-a no mapa, mas não a encontrou. Resolveu perguntar a um homem que passava passeando o cão. Não, não sabia o nome da rua, embora lá passasse muitas vezes. Também não tinha tempo para procurar alguma placa ou perguntar a alguém, porque o cão puxava a trela com toda a força. Se a largasse, teria de correr muito e já não tinha pernas para isso.

Mais adiante, perguntou a uma mulher que estava a colher flores do seu jardim. A mulher disse que não se lembrava porque ultimamente esquecia-se de tudo.

O homem continuou o seu caminho e avistou um café com um nome curioso: Café Oásis. Entrou, pediu um café e perguntou o nome da rua ao rapaz que o atendeu. Com sotaque brasileiro, ele respondeu que não sabia, mas que iria perguntar à patroa. E foi, mas ela estava a conversar com outra mulher - do outro lado do balcão - e não gostava de ser interrompida.

Como o café era pequeno e os clientes estavam todos atendidos, o empregado deixou-se ficar à espera de fazer a pergunta e, mesmo sem querer, ia ouvindo a conversa entre as duas mulheres. Uma delas dizia e repetia: Esta é a rua das mulheres sós. 

E logo foi dizer ao homem desconhecido que aquela rua era a rua das mulheres sós. O desconhecido acreditou porque se habituara a ver o mundo cada vez mais estranho. E saiu do café a pensar no nome da rua. 

Muito próxima do café, viu uma mulher a falar ao telefone. As palavras saíam-lhe entre sorrisos. Afastando-se, o homem olhou para trás; a mulher, sorridente, acenou-lhe e entrou no café. O desconhecido acenou também, pensando que era bom que o nome da rua estivesse errado.

 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Crianças: hoje é o seu Dia!

 

Retirei o excerto, em baixo, do ‘Expresso Curto’ de hoje.

 O número de crianças em Portugal vai diminuindo. Julgo que quase ninguém gostaria de voltar aos velhos tempos em que muitas famílias - a grande parte muito pobre - tinham muitos filhos; os mais novos eram criados pela irmãos mais velhos que não podiam fazer escolhas de vida por falta de tempo e de dinheiro.

Os dados mostram, então, que, atualmente, vivemos o oposto: muito poucas crianças e famílias pequenas. Será que a situação vai mudar? Tenhamos esperança. 

E o tempo que as crianças passam com a família também é reduzido, porque muitas horas são passadas na escola. 

Não estaremos também a aumentar o tempo de solidão de toda a família?


“Crianças Hoje é Dia Mundial da Criança. Um retrato da infância em Portugal mostra que há apenas uma criança para cada dez adultos no país. Portugal sofreu a segunda maior queda da população infantil na União Europeia, nos últimos 50 anos e as crianças em Portugal passam cada vez mais tempo na escola e vivem com famílias cada vez menores.”