sábado, 24 de janeiro de 2026

Prato

 

Gostava de lhes ter perguntado o segredo do arroz que faziam quando era criança e que, para ela, era o melhor arroz do mundo. Porém, as tias já cá não estão para lho revelarem. Os móveis da cozinha estarão noutros lugares e as paredes já terão novos cheiros impregnados. As cebolas e os alhos virão de longe e não da horta que elas cultivavam em tempo certo.

Ora, a criança brincava muitas vezes junto ao pequeno jardim ou no quintal. Perto do meio-dia, se sentia uma flecha de cheiros e sabores do arroz a atravessar o muro que separava as duas casas, ia logo a correr à espera de ouvir:

- Queres comer aqui?

Com a pressa, muitas vezes até se esquecia de pedir à mãe. Quase a chegar, abrandava a correria, passava pelo lavatório, que tinha sempre sabonete Patti, entrava na cozinha devagar, depois de pedir licença, e aproximava-se timidamente da mesa já posta, à espera da pergunta habitual.

Depois de o relógio bater doze austeras badaladas, rezavam a oração de ação de graças, sentavam-se à mesa e comiam quase em silêncio, sem ninguém partilhar o feliz deleite do almoço – jantar, como era comum dizer-se. Cada uma guardava este e outros prazeres só para si, não fosse parecer luxúria tal confissão.

 

 Ficou-lhe por dizer às tias como gostava do arroz que faziam e cujo cheirinho a fazia voar ao seu encontro. Também elas nunca lhe falaram sobre o assunto. Porém, talvez adivinhassem esse gosto, porque, de vez em quando, punham mais um prato na mesa.

 In coletânea proximidades, Seda Publicações, 2025

 

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