Gostava de lhes ter
perguntado o segredo do arroz que faziam quando era criança e que, para ela, era
o melhor arroz do mundo. Porém, as tias já cá não estão para lho revelarem. Os
móveis da cozinha estarão noutros lugares e as paredes já terão novos cheiros
impregnados. As cebolas e os alhos virão de longe e não da horta que elas
cultivavam em tempo certo.
Ora, a criança brincava
muitas vezes junto ao pequeno jardim ou no quintal. Perto do meio-dia, se sentia
uma flecha de cheiros e sabores do arroz a atravessar o muro que separava as
duas casas, ia logo a correr à espera de ouvir:
- Queres comer aqui?
Com a pressa, muitas
vezes até se esquecia de pedir à mãe. Quase a chegar, abrandava a correria,
passava pelo lavatório, que tinha sempre sabonete Patti, entrava na cozinha
devagar, depois de pedir licença, e aproximava-se timidamente da mesa já posta,
à espera da pergunta habitual.
Depois de o relógio bater
doze austeras badaladas, rezavam a oração de ação de graças, sentavam-se à mesa
e comiam quase em silêncio, sem ninguém partilhar o feliz deleite do almoço –
jantar, como era comum dizer-se. Cada uma guardava este e outros prazeres só para
si, não fosse parecer luxúria tal confissão.
Ficou-lhe por dizer às tias como gostava do
arroz que faziam e cujo cheirinho a fazia voar ao seu encontro. Também elas
nunca lhe falaram sobre o assunto. Porém, talvez adivinhassem esse gosto, porque,
de vez em quando, punham mais um prato na mesa.
Sem comentários:
Enviar um comentário