sexta-feira, 12 de junho de 2020

Ó meu rico Santo António!


Comprei uma saia de roda
Para ir ao arraial
Mas tudo foi cancelado
Pela distância social
 
Ai que triste pandemia
Como chuva ou orvalhada
Levou o fogo e as brasas
Da bela sardinha assada

As bandeiras e os balões
Alegram-me o pensamento
Não o tapa esta máscara
Do nosso confinamento

Ó meu rico santo António
Vê se encontras maneira
De eu poder rir e chorar
Sem ter na cara a viseira


Já usei sabão e gel
Pra tudo desinfetar
Fica então sossegadinho
Sem sair do teu altar

Mas para o ano que vem
Vou pôr a saia rodada
Pode ser que a vacina
Já tenha sido inventada!



quinta-feira, 11 de junho de 2020

O vídeo com histórias dentro


 Fazia voluntariado num hospital. Os destinatários eram idosos em cuidados continuados.
Veio a pandemia que fechou muitas portas e abriu algumas janelas.
Um vídeo substituiria as presenças mensais.
E nele entraram poemas, provérbios... 
Textos curtos com um pouco de verão. 
E também duas pequenas histórias. Também sem esquecer que há verão.

A árvore de todos
Era uma vez uma janela por onde entrava a luz do dia logo que o sol se levantava. Perto da janela, costumava sentar-se uma senhora sempre que podia. Via tantas coisas bonitas lá fora. Via árvores, a rua, as pessoas a passar, às vezes devagar outras vezes a correr... Era muito divertido.
Um dia, reparou que a árvore mais próxima tinha muitos pássaros que não paravam de cantar. E começou a recordar o tempo em que era menina e as andorinhas faziam ninhos nos beirais.
Como era verão, a árvore tinha os ramos muito verdes e muitos abundantes. Para se lembrar da árvore assim bonita, resolveu fazer um desenho e os amigos ajudaram com entusiasmo, porque também gostavam de desenhar. A árvore passou então a ser a árvore de todos e a  parede da sala de convívio ficou ainda mais bonita.
Ao ver o resultado, um dos senhores sugeriu que desenhassem a janela. Felizmente, os dias de verão eram mais longos.

A senhora que gostava de ler para os outros
Era uma vez uma senhora que tinha um sorriso muito bonito e uns olhos que brilhavam com alegria de viver. Aproveitava sempre os bons momentos para partilhar o gosto por ler histórias, poemas, textos pequeninos mas bonitos.
Um dia, chegou-lhe às mãos uma pequena cartolina com a história da cigarra e da formiga. Ficou muito contente porque já tinha contado muitas vezes aquela história de que gostava muito e onde sempre encontrava coisas diferentes.
E começou a lembrar-se de algumas situações felizes em que tinha ouvido ou contado a história.
Antes de adormecer, como a noite era de verão, começou a ouvir cantar as cigarras. Que coincidência tão boa. E adormeceu mais tranquila.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Tanta coisa que arde sem se ver

Andava com aquela ideia na cabeça há muito tempo. Ia-se tornando obsessão. Tinha de arrumar armários, gavetas e desfazer-se de algumas coisas porque não queria dar trabalho aos filhos quando morresse. Muito que fazer já tinham eles. Como tinham casa montada, quase de certeza que não queriam aqueles móveis. E muito menos o recheio. Por eles, até podia ser, mas elas, as noras, tinham gostos bem diferentes e já lhes adivinhava a reação.
Um dia, quis dar-lhes umas toalhas e colchas de renda que tinha feito em muitos muitos serões e muitas tardes mais livres. Elas disseram logo que as toalhas aceitavam, mas que as colchas nem pensar. Eram pesadas e frias.
Lembrou-se que poderia oferecê-las quando houvesse festas ou feiras da paróquia. Não, o melhor seria não esperar tanto tempo, porque o teimoso vírus anda por aí e por isso não haverá festas tão cedo. 
Se calhar, o melhor era não ter feito tanta coisa e ter feito outras coisas, concluía agora.
Se caísse numa cama, seria logo criticada pela acumulação de coisas. E pela  desarrumação, o que tornaria também mais difícil a venda da casa no futuro.
Ninguém lhe tirava aquela ideia da cabeça, embora não a comunicasse a ninguém.
Tinha de pôr mãos à obra quanto antes. 
Começou pelo armário da sala. Tirou tudo lá de dentro e encontrou, lá no fundo, a vela vermelha que guardava há muitos anos. 
E se a acendesse? Tinha tão boas recordações daquela vela que iluminara vários jantarinhos sossegados e íntimos. Voltou a pô-la em cima da mesa e acendeu-a com os fósforos que foi buscar à cozinha, antes de a vizinha a ter chamado.
E foi a vizinha que, de repente, sentiu o cheiro a queimado. 
A vela tinha tombado e chegado o fogo aos panos e toalhas de renda saídos do armário.
Ela, inconsolável, só dizia, enquanto despejava nervosamente a água sobre a mesa: se ao menos fossem as colchas!

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Às vezes ri, às vezes chora...

Elas eram três. Três irmãs. Tinham tido muitos irmãos. Que se foram ausentando. Que se foram aproximando. Que foram morrendo. 
A velha casa, onde todos nasceram e cresceram, foi enfraquecendo como qualquer ser humano que vai precisando de ajuda.
Por isso, a casa foi sendo cuidada e reparada e protegida...
E ainda mais quando só ficaram as três irmãs. Muito mais novas do que a casa, mas que na casa foram envelhecendo.
E como a vida na terra não é eterna, ficaram duas. E pelo mesmo motivo, ficou só uma. A que era mais forte, apesar do corpo frágil. E que passou a não ter força para se pôr de pé sozinha. E que passou a precisar de ajuda quando era ela que sempre ajudava. Para que nada faltasse à casa e a quem nela vivia.
A cama, junto a uma janela, conserva a mesma cortina de linho. Da janela vê o céu. E os campos. E as outras casas antigas da aldeia que foi ficando cada vez mais só, triste e abandonada. E as casas altas da vila lá ao longe.
Não se queixa de nada, dizem que é resiliente ou que tem momentos de demência.
Âs vezes, levanta a cabeça que o corpo não ajuda a segurar. Às vezes ri, às vezes chora...
Ainda tem tanta coisa para recordar!

sábado, 6 de junho de 2020

Afinal, havia outra coisa!

Hoje levantei-me cedo. Como já tenho dito, vamo-nos tornando como as nossas mães. A minha sempre se levantava cedo e muitas vezes era para fazer o que quero fazer agora de manhã e pela fresca (gosto muito desta expressão): regar as plantas.
Pois, as plantas precisam de água. Tal como nós quando temos sede.
Abri a janela. Senti o ar frio. Gosto do ar frio logo pela manhã.
Posso regar um bocadinho mais tarde, pensei.
Bem perto, estava o tablet. Vou só escrever umas notas. Breves.
E aqui estou.
Na rua, passa um carro só de vez em quando. E quem passa a pé deve passar sozinho porque não oiço vozes.
E sabe-me bem o momento.
Bem, tenho de ir regar as plantas.
Ao meu lado, está um livro de contos que ando a ler.
E se lesse apenas um?
Não, fica para depois. As plantas estão à espera.
No seu silêncio, como o desta hora da manhã.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Boas maresias!

Postal enviado pelo Clube das Histórias

'Todo jardim...'

Postal enviado pelo Clube das Histórias

'Todo jardim começa com uma história de amor, antes que qualquer árvore seja plantada ou um lago construído é preciso que eles tenham nascido dentro da alma. Quem não planta jardim por dentro não planta jardins por fora e nem passeia por eles…'

Ruben Alves

quinta-feira, 4 de junho de 2020

'Lágrima da Preta'

Manuel Freire:

'Lágrima de preta'

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

               António Gedeão

Precisamos todos de respirar

Os Estados Unidos estão a ferro e fogo. A pandemia abriu uma crise social imensa. A morte de George Floyd, sufocado pelo joelho de um polícia, desencadeou um mar de protestos e de violência que foi alastrando a diferentes cidades. O presidente do país, por sua vez, não faz mais que dividir para reinar.
Chovem os apelos, incluindo do Papa Francisco, contra o racismo  Este existe  nos Estados Unidos mas também na Europa e Portugal  não é exceção.
O discurso prepotente e de ódio vai-se instalando em muitos países e em muitos dirigentes políticos. E em muitas outras áreas.
O poder político e económico pode ser muito, mas, apesar disso, cada homem e cada mulher são mortais. E ao ver pessoas, como Trump, sem qualquer empatia face aos problemas dos outros, e com a arrogante e obsessiva ganância do poder, parece que o direito a respirar só a alguns pertence.
'Não posso respirar' repetia George Floyd durante os minutos em que o joelho do polícia carregava sobre o seu pescoço.
George Floyd era negro e o polícia era branco. E os polícias presentes, também brancos, também nada fizeram para que o homem, negro, pudesse respirar. Em poucos minutos, Floyd morreu sufocado, porque, se não puder respirar, qualquer pessoa morre. 
E muitos mais casos idênticos parece já ter havido.
Desta vez, o crime foi filmado.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Lugares comuns

Comecei a arrumar os livros da estante. Tantos que ainda não li! Ainda os lerei? É difícil saber mas que gostava gostava. Vou pô-los de maneira a olhar para eles com mais frequência. 
Como a estante tem duas filas, atrás vou pôr os que já li ou que não tenho vontade de ler.
Os livros são objetos que não dispenso, embora não os guarde todos. Uma casa sem livros é como uma despensa vazia. Ou um jardim sem flores nem verdura. Mas os livros por si só não chegam. Têm de assistir a boas histórias quotidianas e não só guardá-las nas suas páginas.

Quando faço arrumações, apetece-me sempre despachar coisas. Gosto cada vez mais de ver espaços onde se possa estar e circular. Umas coisas ofereço, outras reutilizo ou ponho-as para reciclar.
Por que é que, ao longo da nossa vida, juntamos tantas coisas que não fazem falta?

Há muito muito tempo, conheci um casal que tinha inúmeros pequenos adornos em casa. Não havia móvel algum que não estivesse repleto. Todos os objetos tinham uma história que contavam com grande apego e ternura.
Ao longo de muitos anos, foram acumulando bibelôs, e, à falta de espaço, muitos estavam guardados em caixas.
Não sei se as caixas ainda lá estarão. O mais certo é não haver tempo para tantas histórias nem espaço para tanto adorno. Para não falar da impossibilidade de limpar tanto pó.

terça-feira, 2 de junho de 2020

A mesma flor para diferentes cores e nomes

Podemos chamar-lhes hidrângeas, hortênsias, hidranjas...





A escolha dos nomes


 
Que bom não nos chamarmos Procópia! 

Havia um pai que era amante de poesia com rimas. Antes do nascimento da terceira filha foi pensando no nome que rimasse com o das irmãs. Como tinha de rimar, pensou em Rosa, mas era muito curto e, confrontado com o das manas, podia parecer demasiado breve e gerador de conflitos ou ciúmes.
Na Maternidade, logo que a menina nasceu, o pai foi com as duas filhas – Generosa e Formosa – visitá-la e à mãe que já não sabia o que fazer porque a bebé chorava, chorava com a boquinha muito aberta e as maçãzinhas do rosto muito vermelhas. As meninas estavam muito caladas, sem saberem o que fazer ou dizer. Foi então que Generosa se aproximou da irmã, esfregando o dedinho indicador no polegar, como sempre fazia antes de tocar na pele macia e delicada de um bebé. Disse-lhe a mãe: “Podes fazer festas à maninha, querida. Pode ser que deixe até de chorar tanto”. E a pequena Generosa assim fez. Não sei se por cansaço ou pelo carinho acrescido, a recém-nascida sossegou. E foi então que Formosa, que gostava de imitar as palavras da mãe, exclamou: “Que mimosa!”. E logo o pai disse: “Encontrei o nome!” E Mimosa  ficou porque rimava com o das irmãs.
Mas a menina mais velha chamar-se Generosa também tem a sua história.
A madrinha chamava-se Procópia e queria à viva força que a afilhada tivesse o seu nome.
Os pais pediram muita desculpa, mas não podiam aceitar. Gostavam muito de D. Procópia, mas tinha de compreender que não era nome de bebé.
 “Pronto, tudo bem, a menina não se chama Procópia como eu, mas, então, tem de se chamar Generosa, porque é o que sou ao aceitar que não fique com o meu nome". E assim a menina ficou Generosa, nome pronunciado bem alto pela robusta madrinha junto da pia do batismo.
A segunda menina, até nascer, não tinha nome. Na tarde em que a menina viu a luz do dia, a médica obstetra pegou nela, voltou-a para a claridade da janela e exclamou: “Que formosa que ela é”. Pronto, estava encontrado o nome: Formosa. E rimava com o da irmã.
E que mais posso dizer eu? Apenas que as meninas cresceram generosas, formosas e mimosas. 
Todos os professores diziam que eram atentas, simpáticas e gostavam de aprender. Porém, as três manifestavam uma reação estranha: recusavam-se a decorar rimas e esquemas rimáticos!!!

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Um bom desafio neste(s) dia(s)!


'O Dia da Criança'


É um dia em que cabem
todos os dias do ano
e as coisas mais bonitas
que não podem causar dano:
os sonhos e os brinquedos,
as festas, as guloseimas,
a sombra de alguns medos,
a casmurrice das teimas
e também, com fartura,
o afecto e o carinho
com que se faz a ternura,
para mostrar ao mundo
que a guerra é uma loucura 
e que o gosto de ser menino
é o nosso eterno destino.

José Jorge Letria in O Livro dos Dias

Branca Flor - uma história hoje recontada em vídeo


 Branca Flor foi publicado em 2013 por Clementina Sousa - uma excelente contadora de histórias.
Hoje, Dia Mundial da Criança, vai contá-la, em direto e por vídeo, para crianças de escolas de Gondomar.
Vão ser momentos mágicos para muitas crianças.
Oxalá possam elas também contar boas histórias para que a história do mundo melhore.


 Estas foram algumas palavras que proferi na apresentação do livro,
 na Biblioteca Municipal de Gondomar:
(...)Apesar de eu não ter conhecido Diamantino, que deu origem à divulgação deste conto, quase o imagino a contar a história de Branca Flor, enquanto Clementina, ainda menina, a escutava com interesse e atenção.
A referência a esse homem, de pouca instrução, pode ser também uma homenagem a muitos contadores de histórias que vivem de forma anónima, mas que vão deixando boas sementes pelos caminhos por onde passam.
 Crianças que ouviram a estória de Branca Flor estão cá hoje. Alguns já não são meninos e histórias como estas ajudaram, com certeza, a formar a sua personalidade.
As boas histórias, contadas oralmente ou por escrito, também aproximam as pessoas e convocam humanos sentimentos.
A vida uniu Manuel e Branca Flor e a sua história reuniu todos os que aqui estamos.
Para escrever o seu texto, a Clementina teve de escolher e cuidar das palavras, mantendo, no entanto, a vivacidade e o ritmo da tradição oral. As belas ilustrações completaram a obra de arte à qual agora todos temos acesso.

Parabéns à Clementina pela escrita de Branca Flor; a Aurélio Mesquita pela ilustração; ao João Carlos Brito, da Editora Lugar da Palavra, pela publicação.
(...)

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Ainda está quentinha!


'Dis-moi'

Postal enviado pelo Clube das Histórias

Vamo-nos tornando como as nossas mães

Hoje levantei-me bastante cedo para regar a horta e o jardim. Como tem estado muito calor, as plantas estavam cheias de sede - como a minha mãe continua a dizer. Por isso, levantei-me pela fresca, tal como ela sempre disse e a vi fazer.
Felizmente - para mim - quando abri a porta, senti um ar mais fresco. 
Ontem estive junto ao mar e nem mesmo a maresia impedia o calor intenso. Quando corria uma brisa, apetecia fechar os olhos, respirar fundo e aproveitar bem o momento.
Não gosto mesmo quando há muito calor - como sempre ouvi dizer à minha mãe.
Com o tempo, vamo-nos tornando como as nossas mães. Em tanta coisa. Nos gestos, nas palavras, em muitos gostos.
Talvez seja por isso que as minhas filhas gostam tanto das buganvílias no verão.


quinta-feira, 28 de maio de 2020

Conversa no passadiço com o mar ao lado

- Mãe, põe a máscara. Há mais gente no passadiço.
- É tão bom respirar a maresia!
- Mãe, temos de ter cuidado. Como é possível ninguém aqui usar máscara?!
- Está muito calor e andamos ao ar livre.
- Mas não estamos livres de apanhar o vírus.
- Que não vemos nem ouvimos nem tocamos!
- Mãe, põe a máscara, pela tua saúde.
- Quando não houver ninguém, virei de novo  aqui para sentir o mar, como se não conhecesse qualquer máscara.