Entrei na carruagem do metro que ia cheia. Logo um jovem adulto se levantou para me dar o lugar. Tinha andado bastante e doíam-me as pernas, mas o motivo não era esse, com certeza, porque as dores dos outros pouco se veem e pouco se sentem. Era a imagem de quem nasceu há muitos anos e que o cabelo branco acentua. Deixei de pintar o cabelo há uns dois anos, por decisão minha, aceitando passar pela fase do cabelo de várias cores: o branco da raiz e a outra parte pintada. Nada bonito, de facto. Muitas vezes, ouvi: Mãe, pinta o cabelo e outras vozes também mo diziam.
Pois bem, a cor do cabelo também influencia muito o dar ou não dar o lugar. O meu como está grisalho, também me ajudou por certo a ter lugar naquela carruagem com muita gente de pé. E se foi bom poder sentar-me e aliviar o cansaço das pernas, também me fez pensar na passagem do tempo que não podemos contrariar. Faço e gosto de fazer yoga e pilates e vou ao ginásio, não sou é suficientemente disciplinada para andar mais a pé. Vou encontrando desculpas para andar de carro: é mais rápido, os sacos das compras são pesados, o supermercado é longe, o tempo é pouco para o que quero e preciso de fazer…
Mas, voltando à carruagem do metro londrino, gostei da atitude do rapaz que, quando nos viu entrar - a mim, à minha filha e à minha neta - logo me deu o lugar, com um sorriso de simpatia, mostrando atenção aos outros e às necessidades dos outros. Um bom sinal. Que também faz pensar. À época é de bastante incomunicação, de solidão, mesmo de jovens. Pensar que há rapazes e raparigas e talvez adultos que se refugiam em relações amorosas com figuras criadas pela inteligência artificial dá que pensar. Haver um jovem que dá o lugar, com um sorriso e não como um frete, a uma pessoa muito mais velha do que ele também faz pensar. Pela positiva. Com esperança.
Para além disso, sei que o tempo é irreversível e aceito-o (que remédio!), embora haja muitos momentos em que apetece dizer: ó tempo, volta pra trás…’
Também não sou nem nunca fui adepta de caminhadas; e um médico avisou-me "agora não se ponha por aí a caminhar que a sua anca volta a dar problemas". À época, foi ouro sobre azul.
ResponderEliminarEntretanto, por questões que se prendem com o esqueleto, deixei a ginástica e fui obrigada a deixar o yoga e mesmo a natação. A velhice dos cabelos brancos e de algumas pessoas me darem o lugar por eles e pelas rugas, agradeço-as; tempos houve em que me pareceu ir morrer jovem. No metro londrino tb me deram lugar. No português é cada dia mais raro ainda que os cabelos estejam mais brancos e haja nele muitos jovens. Por vezes pergunto-me se eu mesma não fui também assim (apesar de não termos telemóvel) - apenas recordo olhar os velhos que seguiam sentados e pensar que estava, de certeza, mais cansada que eles, proposição da qual duvido hoje. Há na juventude o não saber da velhice por a não ter experienciado. São dois mundos.
Um abraço