segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Coisas de verão - a mulher do pôr do sol

 

A cena repetia-se. Ao pôr do sol, quando o calor amainava e ficava mais espaço no areal para as gaivotas, ela chegava à praia com os seus óculos escuros e chapéu de abas largas. Sentava-se no muro em frente à esplanada, com meio corpo inclinado para o pôr do sol e balbuciava algumas palavras não muito percetíveis.

 Os habitués da esplanada, para o último fino do dia com tremoços e amendoins, já se tinham habituado à presença dela, sentada de lado, no muro baixo e em frente. Houve até quem a fotografasse à sorrelfa apenas porque dava uma boa foto a contra-luz.

Porém, uma das crianças, naturalmente curiosa, aproximou-se da mulher para perceber o que dizia e ouviu-a repetir: 

- Será que voltas amanhã? Será que voltas amanhã?

Logo que percebeu as palavras dela, veio, a correr, contar.

- Mãe, a senhora perguntou se voltava amanhã. Ela fala com o sol?

- Talvez, filho, ou dirigia-se a alguém.

- Mãe, mas eu não vi ninguém.

- Pois, filho, se calhar, é mesmo o sol que a senhora procura!


sábado, 15 de agosto de 2026

Coisas de verão - os palavrões

 

Fui cedo passear o cão ao passadiço. À hora em que pouca gente passa, a não ser os peregrinos. Ou pessoas que moram por ali e querem aproveitar as horas em que não chegam os banhistas com sacas e caixas de farnéis, com os guarda-sóis, tapa-ventos e muitos etecetras.

Ora, sentados, na beira do passadiço, estavam dois homens a conversar. Faziam-se ouvir e bem.  O outro ruído era o do mar e, comparando com as vozes deles, era bem mais brando.

Apeteceu-me abrandar para ouvir o que diziam, não fosse o cão puxar-me com toda a força. Mas deu para ouvir algumas coisas.

Falavam de futebol e de política, tudo misturado. E não havia frase nenhuma - todas muito curtas - em que não entrassem palavras começadas por cê, por pê, por efe…

E como o cão puxava com tanta força, até pensei: será que o cão não gosta de palavras a que não está habituado? E ainda deu para ouvir: F…

Ou fui eu que pensei???


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Coisas de verão - à semana, sim; ao fim de semana, não!

 

É caso para dizer: quem nunca foi ao Castro Sampaio, em Labruge, Vila do Conde, não deixe de ir, se e quando puder.

Pode-se ir pela praia, por exemplo, a partir de Mindelo, havendo passadiços em muito do percurso.

Ao longe, avista-se a capelinha num vasto terreiro, donde se desfruta o mar imenso. Faz lembrar as cantigas de amigo - quando o namorado partia mar fora para ir para as guerras, das quais nunca se sabia se e quando voltaria.

As praias pequenas, cercadas de altos rochedos chamam e acarinham.

E o restaurante, que mais parece bar comum de praia, serve peixe bom e bem cozinhado. Saboreá-lo ao fim da tarde será como dar a mão em momento relaxado e confiante de prazer.

Porém, diz quem sabe que ao fim de semana é horrível pelas enchentes.

Ir de carro é outro frete, porque os acessos são apertados.

Durante a semana? Belo e tranquilo.

Durante o fim de semana? O melhor é ficar em casa, ou escolher outro lugar.

É que há mar e mar; muito motivo para lá ir: mas, com confusão, pode perder-se a vontade de lá voltar!


Coisas de verão - e depois do adeus

  

Vi em casa o eclipse. Abri a janela, pus os óculos e vi o sol em forma de lua. O tempo escureceu, mas não tanto como eu pensava.

Senti uma brisa a entrar pela janela. Suave e boa. Os ramos da camélia agitaram-se. Mas pouco. Os carros na rua passaram a ser raros. Senti a calma força da natureza.

Perto de casa, já tinha visto muita gente, uns de pé, outros sentados, óculos na mão, à espera do eclipse.

Na televisão, falava quem fez muitos e muitos quilómetros para chegar ao sítio em que o sol mais se esconderia. Como em Bragança. Havia pessoas comovidas, outras repetiam lugares comuns que era o que saía no momento…

Um brasileiro, emocionado, também me comoveu. Para ele, o eclipse era um fenómeno democrático que unia toda a gente, sem distinção.

Realmente há maravilhas da natureza que revelam maravilhas dos seres humanos.

E que perduram, mesmo depois do adeus!

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Coisas deste verão - os óculos do eclipse e os desmancha-prazeres!


Hoje precisei de ir à farmácia aonde vou habitualmente. É uma farmácia pequena e fica numa rua fora do centro da vila, hoje cidade. 

Estive lá uns 15 minutos para comprar os medicamentos de que precisava. Durante esse tempo, vieram umas quatro pessoas à procura de óculos para ver o eclipse.

Quando a porta se abria e se a farmacêutica não conhecia as pessoas, logo dizia: desculpe, mas, se é para os óculos do eclipse, já não tenho!

E ia comentando: Estou farta de dizer a mesma coisa! Que passe depressa o eclipse e venha o dia de amanhã!

E acrescentou outra coisa que, com alguma razão, também poderia ser para mim, embora, neste caso, já tenha os meus óculos na carteira: as pessoas procuram as coisas mesmo na última!

Cá em casa já toda a gente tem óculos e está entusiasmada para assistir logo ao eclipse.

Porém, com ou sem ironia, já ouvi: Todos os dias, o dia dá lugar à noite e não é preciso tanta festa!

Quem o disse ouviu que era desmancha-prazeres.

Mas, cá pra mim, as nuvens ou o nevoeiro é que vão ser os maiores desmancha-prazeres.

Mesmo assim, que a Festa não se eclipse!


terça-feira, 11 de agosto de 2026

Coisas de verão - a senhora do vestido lilás!

 

Logo que nos sentámos no café Velasquez, reparei numa senhora, que, sozinha, ocupava uma das mesas rente ao vidro que separava o interior da esplanada.

As mangas curtas do vestido lilás realçavam-lhe a magreza dos braços. O cabelo, cortado a direito, pressentia-se liso pela laca. Alguém da mesa também reparou nela e perguntou:

- Em que rua morará aquela senhora?

Logo veio a resposta: 

- Numa das avenidas próximas, por certo.

Concordámos. Pela postura. Pela sobriedade. 

Porém, durante o tempo que estivemos no café, a senhora do vestido lilás não tirou os olhos do telemóvel. Nem as mãos.

Não sei se estava a receber mensagens! Não parecia porque a expressão era sempre igual.

Saímos. Sem saber quanto tempo iria ficar no café a senhora do vestido lilás. A senhora que parecia viver numa das casas bonitas das bonitas avenidas. Talvez numa casa com flores e largas janelas. 

Mas sem ouvir ninguém a tocar à campainha. Nem a ser chamada, amorosamente, pelo nome.


domingo, 9 de agosto de 2026

Coisas de verão - o bar da praia não anuncia só gelados


Já me tinham avisado do evento, porque sabem que gosto de livros.

Mas também gosto de gelados!

Num pequeno cartaz, na parede de um bar da praia, anunciava-se a apresentação de um livro de Inês Meneses e Tó Zé Brito, escrito por eles a quatro mãos.

Prometia. Sou fã do podcast Fala com ela, que IMM dinamiza há uns anos. Também gosto de muitas canções de TZB. 

Era ao fim da tarde. 

Fui com a minha neta. De vez em quando, eu traduzia-lhe algumas coisas que achava importantes.

A autora viveu em Mindelo dos 3 aos 21 anos, aonde vem com frequência com o companheiro, Tó Zé Brito.

O local da apresentação do livro era aprazível e dedicado a atividades culturais. Julgo que já foi escola primária. Quero conhecer melhor o espaço e o que nele se realiza.

A conversa entre os autores - o casal - foi serena e amorosa. Falaram do respeito mútuo, do prazer partilhado na escrita diária do livro, dos gostos comuns como a leitura e o cinema.

Gostei muito do que disseram, da calma com que o disseram e espero gostar do livro também:

Ao fim do dia/Memórias e confissões de um casal, Contraponto.

E gostei que a minha neta também tivesse apreciado, apesar da barreira da língua. Mesmo assim, espero ter-lhe proporcionado uma boa memória do momento.

A par dos gelados e bolas de Berlim que adora e come na praia!


sábado, 8 de agosto de 2026

Coisas de verão - o amolador de facas


criançada andava toda na brincadeira.

De repente, faz-se ouvir um apito que vinha do fundo da rua. 

- Olha, é o assobio do amolador das facas - disseram os mais velhos.

- Ainda me lembro de um que passava na rua da minha infância - disse outro ainda jovem, mas já não tão jovem assim.

É a primeira vez que oiço este som - disse um dos mais novos.

- E o amolador vinha também de carrinha e com altifalante? -  perguntou uma das crianças.

- Nem pensar! -  logo alguém respondeu. Vinha numa espécie de bicicleta adaptada onde cabia a ferramenta necessária ao afiar das facas. Tocava um apito para chamar os clientes.

A carrinha já próxima, a criançada quis experimentar o serviço. Os adultos foram buscar duas facas para afiar. 

O homem abriu a porta de trás da carrinha e ligou um rodízio moderno.

Quando devolveu as facas afiadas, recebeu cinco euros de cada uma. 

O mais velho dos mais novos logo disse:

- Com este dinheiro, mais valia comprar facas novas.

Valeu pela memória antiga do assobio - pensei eu, enquanto a carrinha se afastava com o apito eletrónico e a peripécia terminava por ali. 

Como uma onda diferente que se mistura, lentamente, no oceano da memória.


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Coisas de verão - passando no passadiço


0 passadiço aproxima-me os olhos da vegetação e flores das dunas, do mar a vibrar de espuma, de corpos sossegados ao sol, de crianças reconstruindo castelos de areia…

Bem perto, passam peregrinos rumo ao norte. 

Um casal cruza-se comigo.

Sorrimo-nos. 

Olho as conchas de Santiago das mochilas. Lembram o apagar da sede em pequenas fontes que dão força, seja qual for a viagem.

Sorrisos partilhados também.


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Coisas de verão - maré vaza


São incontáveis as cores das pequenas pedras que vejo na areia molhada enquanto caminho durante a maré vaza.

Também inúmeras são as suas formas. Difícil dizer quais as mais bonitas ou mais perfeitas.

Se não fossem tão diferentes, não seriam tão belas nem cativariam o olhar.

Há uns anos, apanhava algumas e levava-as para casa; agora, prefiro vê-las na praia, onde moram.

Amanhã, já não estarão no mesmo lugar. Imensos são os sítios para onde podem ir, levadas pelo mar.



terça-feira, 4 de agosto de 2026

Coisas de verão - uma pergunta e um beijo

 

A pergunta

- Avó, que tempo é?

- Que tempo, meu amor? Se vai chover? Queres saber se vem mais calor?

- Não, avó, que tempo é agora?

- Não entendo.  Diz então em inglês.

- What time is it?

- Ah! São 12,20, meu amor.

- Obrigada, avó! Ainda temos tempo.


O beijo

Caminho na praia. Na areia firme e molhada. Ondas pequenas vêm até mim. Frias, sabem-me bem e refrescam-me os pés. Continuo. 

Em sentido contrário, e também pela água, vem um casal. Ladeado por um cão. Aproximam-se os três.

Param, de repente. O casal enlaça as mãos, sorrindo. O cão começa a saltitar. Dão um beijo. No cão!


domingo, 2 de agosto de 2026

Coisas de verão - um café


Chego ao aeroporto e aproximo-me do setor das chegadas. Muita gente. Não admira: é verão e início de agosto. Umas pessoas olham com atenção o placard informativo das partidas e chegadas; outros parecem procurar alguém;  taxistas fora de regras arriscam a  cativar clientes: Táxi. Precisa de táxi?

 Um vai-vém de pessoas para cá e para lá com a sua mala de férias a correr sob rodinhas; crianças a esticar os braços para quem as espera com um sorriso de saudades interrompidas.

Em breve, também abraçarei a minha neta. Nem tomei café depois de almoço para não perder tempo. Quero estar na porta do desembarque para a ver sair e vê-la a correr para mim.

Olho de novo o placard. O avião que eu espero, e que vem de Londres, tem um atraso de 10 m. Será mais, com certeza, contando com a recolha das malas do porão que o ronceiro tapete rolante vai devolver, mais o tempo de controle de fronteira!

Ainda vai demorar um bocadinho o abraço que quero dar e receber logo que a minha neta transponha a porta de desembarque, desatando a correr até desaguar nos meus braços!

Olho de novo para o placard! Faço as contas entre o Landed e os minutos que todas as formalidades demoram!

Ainda tenho tempo de tomar o café, de que sinto falta, antes de chegar à porta de desembarque. 

Vou ao café em frente. 

Uma fila grande. Chega à minha vez na caixa:  Um café, por favor. Pago.

Pode pedir à minha colega aqui ao lado. Olho o relógio. E também as pilhas de copos de papel - uns pequenos, outros grandes. Não resisto e pergunto: costumam reciclar os copos?

A funcionária, com doce sotaque brasileiro, diz que não sabe, mas que todos os copos são ‘jogados’ nos contentores do papel e cartão.

Bebo o café em poucos goles. Com prazer mas com pressa. Pouso o copo no balcão. Volto-me para quase correr até à porta do desembarque para ver a minha neta sair. 

Já não é preciso. A sua voz sorridente está mesmo rente a mim: Avó!

E abraçamo-nos, enquanto vou dizendo: minha estrela, meu sol!

Gostava de lho ter dito à saída da porta do desembarque! 

Mas era tão bom vê-la chegar para passar as férias em Portugal que não valia a pena lamentar o café já tomado!