sábado, 7 de maio de 2022

Número da porta: 39

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Um mês depois, voltei a Londres e retomei a rotina habitual em casa do meu filho: tratar da casa, fazer as compras, caminhar, ir buscar o bebé, ler e escrever pequenas coisas... Ora, eu costumava ir ao infantário pelas cinco da tarde. No regresso a casa, o bebé palrava, eu cantarolava canções que sabia serem do seu agrado, mas o momento difícil para mim era subir os degraus exteriores com o carrinho. Quando chegava ao pequeno portão, ainda no passeio, olhava à minha volta para ver se havia alguém que me pudesse ajudar. Nem sempre avistava quem quer que fosse porque a rua era muito sossegada e passavam muitos minutos sem passar ninguém.

Num desses fins de tarde, de fria e cinzenta humidade, tentei ver se avistava alguém, como habitualmente, enquanto o bebé ia batendo palminhas de contentamento por termos chegado a casa e, finalmente, poder em breve brincar com o panda e os outros brinquedos. A chuva ameaçava no céu carregado. Havia os degraus para subir e o melhor era não perder tempo, porque podia começar a chover. Foi quando, de repente, sem ter visto ninguém nem ouvido qualquer ruído, surgiu uma mulher junto de mim, perguntando, em voz muito baixa e muito meiga, se eu precisava de ajuda.

- Sim, obrigada, desculpe, não a tinha visto - fui dizendo de forma desajeitada, sem nunca deixar de segurar bem o carrinho do bebé, assustada com a repentina aparição. Ela segurou de um lado, eu do outro e, já no pequeno pátio, agradeci. Ainda sem abrir a porta, despediu-se quase em surdina e vi-a entrar, silenciosamente, no n.º 39. Esquisito - pensei eu. Julgava que nem vivia ninguém na casa ao lado e, de repente, surge aquela pessoa. Que, na verdade, me ajudou bastante.

Subi as escadas interiores e a casa encheu-se de repente com as brincadeiras, as histórias, o pratinho com o jantar... E até me esqueci do que se tinha passado quando estávamos os três à mesa e o bebé brincava no pequeno parque a que tínhamos dado o nome de quadradinho mágico. Depois, veio o banhinho do bebé, os emails para ler e responder, as notícias que iam chegando à net, a leitura de algumas páginas do livro que andava a ler e... boa-noite, descansem bem... até amanhã!

O dia seguinte não foi muito diferente dos anteriores. Porém, o céu estava desanuviado e a tarde parecia mais clara quando regressei do infantário, embora o relógio indicasse a mesma hora. De novo, a chegada à porta de casa, a travagem do carrinho no passeio, a olhadela para ver se passava alguém a quem eu pudesse pedir ajuda e, de repente, enquanto olhava para a esquerda, apareceu-me a mesma mulher vinda do lado direito. Quase estremeci de susto outra vez.

- Desculpe, assustei-me - disse eu com a mesma falta de jeito, como tinha acontecido no dia anterior, não deixando de segurar bem o carrinho do bebé.

- Eu é que peço desculpa, disse-me ela, no mesmo tom muito baixo e meigo de voz, mas evito sempre fazer ruído com as portas e o meu calçado também é silencioso. Tem de ser assim. 

 

6 comentários:

  1. Uma história interessante. Achei graça não haver nela, nem sequer subentendida, uma nora. E a vizinha misteriosa, que tem de caminhar sem ruído e sem fazer notada, que surge como que do chão, agita-nos a curiosidade.
    Esperemos, não é, Maria?

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  2. Olá, Bea. Realmente, falta a nora: distrações de escrevente!!
    Uso o 'nós', o 'eles'. Deve ser por não estar habituada à palavra, uma vez que só tenho genros!!!
    Vamos ver, então, se o desfecho tem razão de ser!!!
    Um bonito fim de tarde para si, Bea.

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  3. Interessante. Estou muito curiosa.
    Abraço, saúde e boa semana

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