quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Manhã


Na idade em que a mãe ainda tinha o cabelo preto, a filha não reparava como o cabelo dela era tão belo, nem valorizava a cor e a beleza do seu. Só o reconhece agora ao ver fotografias antigas que marcam, a cores ou a preto e branco, a efemeridade e a irreversibilidade do tempo.

Nesse tempo já longínquo, via a mãe a pentear-se e surpreendia-a o comprimento do seu cabelo solto e pensava que nunca a tinha visto a secá-lo, feliz, ao sol.

Concentrada e com ar sério, a mãe retirava os cabelos presos nos dentes do velho pente de osso, enrolava o longo cabelo, prendia-o atrás com ganchos e, para o fixar melhor, colocava uma rede fininha com dedos de delicadeza. Finalmente, alisava o cabelo com as mãos alongadas, enquanto se via ao espelho, virando o rosto de um lado e do outro, para que não lhe escapassem fios em desalinho, enquanto a filha ficava a olhá-la em silêncio sossegado.

Distante estava ainda a noite despenteada dos desassossegos.

 In coletânea proximidades, Seda Publicações, 2025

  

2 comentários:

  1. Que lindo texto.
    "Essa" mãe podia muito bem ser a minha!...
    Todas as manhãs tinha este ritual que muitas vezes eu contemplava. Felizmente ainda a posso contemplar ainda que o longo cabelo já não exista!
    Um abraço.
    https://rabiscosdestorias.blogspot.com

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  2. Obrigada. Sim, «esta» mãe era a minha; podia ser a sua porque nós, os seres humanos, vivemos muitas experiências comuns.
    Um bom dia para si e para a sua mãe.

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