quinta-feira, 17 de abril de 2014

Rosinha


Todos os dias, enquanto o marido dormia mais repousado, vinha fazer uma visita ao quarto 25. Chegava, saudava com palavras simples e sorridentes. “Então, Rosinha, está melhor?”

Rosinha olhava-a e tentava sorrir também, balbuciando, a custo, algumas palavras para retribuir a simpatia.

E ela dizia para a acompanhante de Rosinha: “Vou ficar cá até à próxima semana. O meu marido sente-se melhor assim. Chego-lhe mais vezes água e chamo a enfermeira quando é preciso”.

E virava-se para Rosinha e dizia: “Quando estiver boa, vem a minha casa tomar um chá. Afinal moramos perto”.

Ontem não veio. Nem no dia anterior tinha vindo. Perguntei.

Para esse quarto já tinha vindo outra pessoa.

Desafio com água e frutos


Mário Cláudio, na Comunidade de Leitores, em Serralves, sugeriu a escrita de um texto, em 10/15 minutos, convocando as frases/ideias seguintes, apresentadas por dois dos presentes:
- Pensar com os pés dentro de água.
- Apanhar frutos da árvore e saboreá-los no momento.

 O curso tinha o tema: “Os prazeres e os dias”.

O que escrevi:
Fui ao quintal ver se ainda havia laranjas. Tinham ficado duas no cimo da laranjeira. Não lhes chegava. Desdenhei-as, então, como a raposa fez com as uvas que pendiam da videira e que só o seu olhar alcançava.
Queria apanhar frutos da árvore e saboreá-los no momento e as únicas possibilidades estavam mais perto do céu do que das minhas mãos.
Desisti do intento. Entrei em casa e pus-me a pensar com os pés dentro de água. Não, pensar não é estar doente dos olhos, mas queria sentir os frutos em vez de simplesmente os olhar.
De madrugada chegarão os pássaros. A essas horas, a bacia de água, onde amacio os pés, ganhará a dimensão do mar. Ou não.
Porque também há sonhos que se sonham frios.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Veio da Livraria Poetria - no Porto


 Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa nasceu, segundo o próprio Pessoa, em 16/04/1889, faz hoje 125 anos e morreu em Maio de 1915


É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada. 

Alberto Caeiro





"TODOS OS DIAS NASCE E MORRE UM POETA,
E ÀS VEZES, É PRECISO QUE O POETA MORRA
PARA QUE A OBRA NASÇA."


Este é o texto que acompanha sempre o poema enviado pela Poetria, enquadrado nesta iniciativa: "Todos os dias nasce e morre um poeta".

Aparentemente simples, pode fazer com que outros poetas nasçam. E sobretudo leitores. 

Noite/dia




À meia-noite, as luzes do corredor apagaram-se. De um quarto ao lado, uma voz masculina chamava por Maria. De outros, vinha o pesado silêncio adormecido pelos medicamentos.

A campainha buzinava insistente na noite, confirmada pela nesga da janela que deixava ver uma árvore envolta em densa e cinzenta neblina.

Quase todos os doentes dormiam. No computador, registavam-se os cuidados.

Passaram duas auxiliares. Uma delas disse:

“O meu filho gosta muito da educadora. Perguntei-lhe: Porquê? E ele respondeu-me assim: Ó mãe, porque diz coisas felizes!"


O que a maresia de abril abriu!



Livro esgotado, livro encontrado?



Precisei de reler este conto que dá título à coletânea. Como me acontece muitas vezes (e, se calhar, não é só a mim), não encontrei o livro à primeira. Pude, ontem, folheá-lo. O meu nome  e a data (1976) estão escritos a lápis.
O conto "Davam grandes passeios aos Domingos", de José Régio, começa assim:
"O comboio parara finalmente na estação de Portalegre. De novo o cavalheiro amável se dirigiu a Rosa Maria:
- Chegou. Faça o favor de descer que eu passo-lhe as suas coisas".

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Voz



Soou a campainha e a enfermeira entrou no quarto. Aproximou-se da doente e perguntou com voz próxima e meiga: “Sente dores?”

Vamos ver, então. E mudou-a de posição e alisou os lençóis e deu-lhe a medicação e pôs-lhe a mão no braço e perguntou com atenção se estava melhor.

Sim, estava.

E não era ainda do medicamento. Da voz serena seria.

domingo, 13 de abril de 2014

Não, não é publicidade


Não falta nada no anúncio do restaurante à beira-mar: os dias de funcionamento, os pratos disponíveis, o preço do menu...


O horário de trabalho também lá está, mas o acento caiu para o lado contrário: agudo em vez de grave. 
 Deveria ser: "Das 10:00 às 24:00". Teria sido escrito em dia de ventania?

E quem escreveu resolveu dar descanso ao s, substituindo-o por ç onde não devia.
 Viria do cansaço a confusão?  Bom descanso, então!

sábado, 12 de abril de 2014

"Se à entrada não pedissem a poesia".


BENGALEIRO OU HORACIANAS

Físico o tractor quente arremessou
Contra as colheitas de ouro o breu de corvos
Trazendo a noite em ondas de onde andou
De foice afoita, a luz sugando a sorvos.
Modorrento, o vapor da chaminé,
Máquina de fazer nuvens, levando
Ondinas ao empíreo mar, rapé
Da paz entre titãs que ordenhando
Alheias colinas se houvessem mais
Desavindo. Van Gogh ou Fabergé:
Ovos de palha, gemas siderais
Chocados em estrelado canapé.
Entrar nesta pintura eu queria
Se à entrada não pedissem a poesia.


Daniel Jonas, in Sonótono, Cotovia, 2007


A propósito de um comentário, procurei alguma informação
sobre este poeta que nasceu no Porto, em 1973.
Partilho agora este poema.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Manhã




Guarda a manhã

Tudo o mais se pode tresmalhar

Porque tu és o meio da manhã

O ponto mais alto da luz

Em explosão

                                                                  Daniel Faria 


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Em casa



Este será o último livro abordado no Ateliê de Leitura e de Escrita, dinamizado por Mário Cláudio, em Serralves, com o tema: Os prazeres e os dias.

Tomei nota do título e da autora. Como de outros também escolhidos:


Poemas de Safo
Vozes no Escuro de Rui Vieira
Balada do Mar Salgado de Hugo Pratt
Roma de António Mega Ferreira
O Cozinheiro do rei D. João VI de Hélio Loureiro
Trinfo do Amor Português de Mário Cláudio

E procuerei este livro: A Casa e o Cheiro dos Livros de Maria do Rosário Pedreira
 Resposta das várias livrarias: “É um livro da Gótica. Está esgotado”.

Hoje de manhã, julgando que não pensava no assunto, lembrei-me de ter lido poemas sobre uma casa e sobre livros desta poeta e também editora. Fui à estante e, passados uns minutos, encontrei o livro que julgava não possuir.

Foi uma coisa simples e boa. Assim se vão encontrando alguns dos 
prazeres dos dias.



 Um poema do livro de Maria do Rosário Pedreira:

Nada entre nós tem o nome da pressa.
Conhecemo-nos assim, devagar, o cuidado
traçou os seus próprios labirintos. Sobre a pele
é sempre a primeira vez que os gestos acontecem. Porém,

se se abrir uma porta para o verão, vemos as mesmas coisas –
o que fica para além da planície e da falésia; a ilha,
um rebanho, um barco à espera de partir, uma palavra
que nunca escreveremos. Entre nós

o tempo desenha-se assim, devagar.
Daríamos sempre pelo mais pequeno engano.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Podia ser um diário


Ela pensou na doença do pai, problema que afeta muitos homens e ainda mais quando a idade é muita. E como a idade é muita, muitos amigos já partiram, as forças não são muitas e tudo parece ser pouco como o futuro. A não ser os desgostos, chatices e preocupações que se espessam, tornando-se muitos muitos.
Ela respirou fundo antes de entrar no quarto onde a irmã estava presa a uma cama. Presa, mas sem correntes, é claro. As correntes estavam no corpo doente que não obedecia a qualquer ordem ou vontade. Apenas aos gestos dos outros para o voltarem e dele cuidarem.
Ela reviu um conto sobre o Porto, depois de uma amiga ter sugerido cortes necessários e certeiros. E sentiu prazer nas sucessivas leituras. Com uma história simples, o tempo de escrita e leitura permitia que entrasse num domínio sereno de felizes afetos.
Ela recebeu um convite amigo para ir ao Teatro Nacional de S. João no Porto, onde se representa uma peça com base na obra de Fernando Pessoa. Disse que não, mas como gostava de dizer que sim, soou a talvez, mas será não, com certeza.
Ela pegou no livro O cozinheiro do rei D. João VI, de Hélio Loureiro, e que será abordado no Ateliê de Escrita e de Leitura, em Serralves, dinamizado pelo escritor Mário Cláudio, e pensou que, pelo menos, algumas páginas queria ler.
Ela chegou à reunião de direção de turma sem ter tido tempo para organizar todos os papéis. E repetiu-se, na presença dos interessados: é necessário, sim, mais estudo, mais atenção nas aulas, menos brincadeira, mais maturidade, mais consciência das exigências do Ensino Secundário…
E, no fim, todos desejaram bom descanso. Já nem todos dizem “Boa Páscoa”. Existem outras liberdades, felizmente. Todos esperam, porém, uma vida nova.