quarta-feira, 10 de abril de 2013

O passeio de Ian





A propósito do Dia Mundial 
 da Consciencialização do Autismo, dia 2 de abril:

Está um dia perfeito para ir ao parque dar de comer aos patos com a minha irmã mais velha, a Tara. Só que o meu irmão também quer ir connosco.
—Oh, Ian, porque é que não ficas aqui? — pergunto.
O Ian, porém, nem me responde, porque tem autismo. Mas bate com os dedos com força contra a rede da porta e começa a choramingar.
— Tudo bem, Ian. Ele pode vir connosco? — pergunto à minha mãe.
—Vais ter de o vigiar bem. Tens a certeza de que queres fazê-lo? — pergunta ela.
— Claro que sim — respondo.
A Tara também acena.
— Mas és tu que lhe vais dar a mão, Julie— diz-me.
O cérebro do meu irmão não funciona como o das outras pessoas.
O Ian vê as coisas de forma diferente...
Quando passamos pelo restaurante, ele entra para ver a ventoinha do teto a mover--se em círculos lentos, mas não olha para as empregadas, que passam, apressadas, transportando toda a espécie de sanduíches e gelados.
—Vamos tomar uma gasosa!— sugiro.


Mas o Ian mantém os olhos fixos na ventoinha até irmos embora.
O Ian ouve as coisas de uma outra forma...
Quando um camião dos bombeiros passa por nós, com a sirene aos gritos e a buzina a tocar, o meu irmão mal se dá conta. Mas abana a cabeça de um lado para o outro e parece estar a ouvir alguma coisa que não eu consigo ouvir.
— Despacha-te! — peço, puxando-lhe o braço.
O Ian cheira as coisas de um modo diferente...
Na loja de flores da Srª. Potter, pego num ramo de lilases de cheiro adocicado e aproximo-o do rosto dele. O Ian franze o nariz e afasta-se.
Mas quando nos aproximamos dos correios, põe o nariz contra os tijolos quentes e areados e cheira a parede.
—Para com isso!— digo. — Pareces um pateta!
E tiro-o dali, antes que alguém se aperceba. O Ian sente as coisas de maneira diferente...
No lago, apanho uma pena macia e faço-lhe cócegas debaixo de queixo. Ele guincha e afasta a pena. Mas, enquanto a Tara e eu atirámos cereais aos patos, o Ian deita-se no chão com as bochechas espalmadas contra as pedras duras.
— Levanta-te, Ian — digo, pegando-lhe na mão. — Alguém pode tropeçar em ti!
O Ian saboreia as coisas de modo diferente...
Quando passamos pelas barracas de comida, nem sequer olha para as pizas, os cachorros quentes ou os pretzels fofos. Mas procura no meu bolso o saco com os restos dos cereais.
— A Tara e eu não queremos comer cereais ao almoço — digo. — Vem connosco comprar uma piza.
Mas o Ian nem se mexe e mastiga ruidosamente os cereais, um a um. Às vezes, o meu irmão faz-me sentir zangada.
—Eu vou buscar a piza — diz a Tara. — Fica tu aqui com o Ian, Julie.


Sento-me no banco, à espera.
—Senta-te aqui ao meu lado, Ian — peço.
Mas ele bate palmas e não me presta qualquer atenção. Finalmente, a Tara regressa com duas fatias de piza.
—Onde está o Ian? — pergunta.
Olho para o lugar onde o Ian estava, mas ele desapareceu! O meu estômago dá uma reviravolta e, por um momento, não consigo sequer mexer-me.
A Tara corre até junto de uma senhora.
— Não viu um rapazinho de camisola azul? — pergunta.
A senhora abana a cabeça.
— Talvez ele esteja a ver o jogo de beisebol do outro lado do parque— sugere.
Mas o Ian não gosta de beisebol.
Passa um homem com uma menina às cavalitas.
—Não viram um rapaz com ar de perdido? — pergunto, com um nó na garganta.
— Não — diz o homem. — Vamos ouvir o contador de histórias e talvez ele lá esteja também.
Mas o Ian parece não apreciar muito as histórias... A Tara corre de um lado para o outro à procura do nosso irmão. Eu fecho os olhos e tento pensar como ele. O Ian gosta da barraca dos balões, onde uma máquina enorme assobia e faz esticar os balões até ficarem com formas coloridas e esvoaçantes. Gosta da fonte onde pode pôr a cara bem próximo da bica, e ver o fio de água a esguichar diante dos olhos. De repente, o velho sino no centro do parque começa a soar, e lembro-me de que o Ian gosta mais do sino do que qualquer outra coisa.
Corro a toda a velocidade em direção ao sino. E lá está o Ian! Deitado debaixo do sino, a mover o enorme badalo para trás e para a frente. Abraço-o com força, embora ele não queira saber de abraços. Vejo a Tara junto aos baloiços e chamo-a. Vem a correr e abraça-se a nós.
—Vamos para casa pelo caminho que escolheres! — digo ao Ian.
Parámos junto ao lago e deixámo-lo brincar com as pedras. Ele alinha-as numa fila certinha ao longo das margens do caminho. Eu fico de pé, diante dele, para evitar que lhe pisem os dedos. Passámos pela loja de flores da Srª Potter e parámos nos correios. O Ian cheira todos os tijolos que quer e não me importo que alguém o veja.
Quando o Ian para na esquina, e parece estar a ouvir algo que não consigo ouvir, parámos pacientemente e tentámos também ouvir.
No restaurante, observamos juntos a ventoinha até eu ficar tonta.
Quando finalmente chegámos a casa, digo:
— Demos um bom passeio, Ian.
E, por um breve instante, ele olha para mim e sorri.


Laurie Lears
Ian’s walk
Illinois, Albert Whitmann, 1998
(Tradução e adaptação)



Elegância


terça-feira, 9 de abril de 2013

Monólogo da rececionista e o pão da princesa

1º momento
8 h da manhã. Percorro um longo corredor que leva a salas de consulta, numa instituição hospitalar.
A porta está ainda fechada. Há umas quatro pessoas à espera. Olham-se com um sorriso de simpatia e não pressa. Chega a funcionária. Em silêncio continuado. Abre a porta larga de par em par. Faz um gesto para as pessoas entrarem. Sobe as cortinas das janelas. Liga a televisão. Tira-lhe o som. Senta-se à secretaria. Suspira. Continua sem olhar para ninguém. Desfaz um montinho de folhas, separando-as.  Retira o letreiro "encerrado" e, voltado para baixo, põe-no em cima do armário. Pega numas capas e põe-nas nas prateleiras. Liga o computador. O silêncio continua, ou melhor, é (inter)rompido:                 
 - Ai não queres abrir? 'Tas cá com uma vontade. É!! Foi do trabalho de fim de semana. Qualquer dia, temos mesmo de vir trabalhar ao sábado. Isto está a ficar bonito. E a ganhar o mesmo, é claro. Mas os funcionários públicos são as ovelhas ranhosas. Não queres mesmo abrir? 'Ta-se mesmo a ver. Então, está bem. Eu espero. Ganho o mesmo. Ou melhor, cada vez ganho menos. Bom dia. Quem chegou primeiro? Foi o senhor? Nome... Eusébio? Sr Eusébio, pode aguardar.
 

2º momento
10 h. da manhã. Entro numa padaria. De lado de dentro do balcão, dizem-me:
- E nós, princesa?
- Quatro pães de cereais, por favor.
- E é só, princesa?
- Sim, obrigada.
- Quer fatura com número de contribuinte, princesa? Não tem mais pequeno, princesa?


3º momento (o de agora)
Eu, também funcionária pública, pego no computador e recordo o começo da manhã de 2ª f. E digam(-me) lá se não foi uma maneira de começar bem a semana. 
Nem sempre se começa de forma tão real!!


sábado, 6 de abril de 2013

Era uma vez nos Clérigos

Imagem da net

O casal chegou aos Clérigos. Em breve, os dois jovens poderiam subir até ao cimo da Torre dos Clérigos. Era um desejo comum. Alguém já lhes tinha dito que valia a pena transpor tantas dezenas de degraus. O dia de verem o Porto, do alto, tinha chegado.

Depois da autorização do porteiro, lá foram eles torre acima. 

Subiam, subiam, às vezes respiravam mais fundo, outros iam mais devagar... Estava quase. 

Ei-los finalmente no topo. Os olhares fixavam-se nos telhados, nos azulejos tantas vezes de cor azul, nas árvores do jardim da Cordoaria, nas ruas estreitas, nas grades das varandas, nas pessoas que pareciam pontos pequenos em movimento...

Tiraram  muitas fotografias. Reviam algumas, bem juntos. De rostos unidos, também se fotografavam. E clicavam para ver se a luz do fim da tarde não lhes tinha obscurecido o rosto. Estavam sós e beijavam-se, felizes. Nessa mesma noite, algumas fotografias seguiriam para os familiares na Turquia. Todos gostariam de ver mais sobre a cidade onde os dois estavam a fazer  Erasmus.

Olhavam à sua volta. Apetecia ficar mais um pouco na cúpula de silêncio e quase penumbra. Já não havia turistas à volta. A cidade serenava-se à luz crepuscular. Abraçaram-se de novo e começaram a descer.

Sabiam que a hora de fechar era às sete. Ainda tinham tempo, mas queriam cumprir o horário. Fá-lo-iam com certeza. 

Enquanto desciam, iam falando da experiência. Descidos os imensos degraus, chegaram à porta.

Ele - A porta está fechada e ainda não são sete horas!
Ela - E agora, o que vamos fazer? 
Ele - Não chores, tem calma, vamos conseguir sair.
Ela - Mas como, se não há ninguém e está tudo trancado?
Ele- Vamos subir de novo e gritar por ajuda.
Ela - Subir de novo? Estou cansada. Não sei se consigo.
Ele - Fica então aqui que vou eu.
Ela - Não fico aqui sozinha que tenho medo.
Ele - Vamos estão subir os dois e depressa.
Ela - Como é que nos ouvem se a torre é tão alta?
Ele - Vamos lá, o melhor é não perdermos tempo.

Chegando ao pátio superior, começaram a acenar, a chamar, a gesticular... e um vigilante do Centro Comercial apercebeu-se e, a partir daí, tudo foi mais fácil. De telefonerma em telefonema, chegou-se ao Chaveiro dos Clérigos. Do seu molho de chaves, escolheu logo a que serviu para abrir a porta da Torre. Poder-se-ia até dizer que se abriram as portas do Céu que, neste caso, era a cidade. Já libertos, os dois partiram, abraçando a cidade.

Na Turquia ou em Portugal, a Torre dos Clérigos seria sempre motivo para mais um pormenor da história que parecia de Era uma vez...

Nota - Contaram-me, hoje de manhã, que dois jovens tinham ficado fechados nos Clérigos. Foi o Chaveiro que lhes veio abrir a porta.
Gostei da história e imaginei alguns pormenores. Quem conta um conto, é claro, acrescenta um ponto!