segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Um conto de Natal

 

Partilho este conto que escrevi para a coletânea, cuja capa reproduzo em baixo, com desejos de um

 Feliz Tempo de Natal! 

Também com luzes de semáforos que vão piscando e chamando a atenção para o que à volta delas acontece.



Maria Dolores Garrido 

À Isaura

O velho do semáforo

Aquele semáforo fazia parte do meu trajeto quase diário. Passava lá, no mínimo, três ou quatro vezes por semana, entre as nove e as dez da manhã. A essa hora, o velho lá estava, no separador entre as duas vias, junto da fila de carros que parava ao sinal vermelho, quase a chegar ao Porto. Nesse lapso de tempo, o homem tentava aproximar-se do maior número possível de condutores, mas não conseguia abordar mais do que dois ou três, porque logo aparecia o sinal verde e todos arrancavam o mais depressa que podiam para evitar perdas de tempo, sempre escasso na ida para o trabalho.

Vezes sem conta o velho também se aproximou de mim, inclinando-se para a janela do meu carro, saudando com a mão e sempre mostrando um sorriso. O homem é simpático e terá, como qualquer ser humano, uma história de vida - pensava eu e interrogava-me por que razão nunca tinha aberto a janela para falar com ele, mesmo que fosse só para lhe dar os bons dias. E, lá com os meus botões, ia pensando que fechamos tantas vezes as janelas aos outros e gostamos tanto que para nós sejam abertas!

Nunca o vi de mau humor ou contra alguém que, como eu, nem abria a janela, embora lhe sorrisse. Às vezes até aproveitava a pequena pausa entre o vermelho e o verde do semáforo para me ver ao espelho ou espreitar o telemóvel. Ainda assim, tentava corresponder à simpatia do velho, acenando, mas não de forma explícita, confesso, porque o seu aspeto andrajoso e sujo retirava-me a vontade de comunicar sem o vidro da janela de permeio. As suas barbas abundavam crespas e incertas e o cabelo mal se via porque usava um gorro escuro e espesso. O outono já tudo arrefecia.

Numa manhã de novembro, fria mas luminosa, disse para mim que já era tempo de dirigir algumas palavras ao velho. Tantas vezes ali passava, tantas vezes era saudada, tantas vezes me dirigia palavras que tinha também de retribuir. Podia ser só para dizer bom dia ou até amanhã, mas tornava-se urgente fazê-lo, abrindo a janela. Na viagem seguinte, quando  cheguei ao semáforo, logo apareceu o sinal verde e tive de circular o mais rápido possível, para evitar buzinadelas nervosas e vozes destemperadas. Ficaria para o dia seguinte. Teria uma moeda à mão.

 Nessa manhã, fiquei logo à frente da fila, diante do implacável sinal  vermelho. O homem aproximou-se do meu carro, mas ainda não foi dessa que abri a janela. Tinha-me esquecido da máscara e não queria enfrentar aquele respirar direto, durante a saudação habitual, sempre com muitos acrescentos: bom dia para si e também para a família e muita saúde que é o melhor da vida e muita alegria que faz muito bem à alma, etc etc etc. Sorri e arranquei logo que pude. Seguiu-se uma semana de vento e chuva. Durante esses dias de tempestade, do velho nem sinal.

Os dias foram passando sem eu chegar à fala com o homem. Porém, sempre no mesmo lugar, o velho mantinha-se afável e transmitia uma ternura imensa que lhe escorria do rosto aberto em sorrisos e das mãos em acenos. Podia sentar-se à porta de uma igreja, de mão estendida em jeito de miserável sofredor, mas não, aguentava-se ali ao tempo, exceto quando chovia, mantendo-se de pé, distribuindo mais do que recebendo mimos, aceitando a má disposição de quem, àquela hora, ainda não tinha aberto a caixa dos sorrisos ou então a mantinha fechada à chave há muito perdida.

Eu não podia continuar a adiar uma pequena mas carinhosa troca de palavras com o velho. Como o Natal chegava, esse seria o momento. Sem hesitações, decidi dar-lhe um presente para compensar a pouca atenção. Comprei-lhe bombons macios e saborosos. Postos em caixinha bonita. Sem laço para ser mais fácil abrir e evitar também o desperdício. Como reagiria ele quando a recebesse? Sorrisos haveria com certeza, palavras carinhosas sem dúvida, brilho dos olhos não faltaria... E talvez surpresa. Não devia estar habituado a receber prendas, para além das moedas.

Nessa manhã, pus a caixinha dos bombons no banco da frente, junto à carteira. Quando chegasse ao semáforo, se fosse das primeiras pessoas da fila, poderia dar-lhe o presente um pouco mais devagar;  se o sinal vermelho já estivesse no final, teria a possibilidade de lhe entregar rapidamente os bombons com votos de bom Natal. Se sobrassem uns segundos, ainda lhe desejaria muita saúde e muita alegria, tal como ele dizia sempre a toda a gente, mesmo que não lhe abrissem a janela.

Quando cheguei ao semáforo, fiquei em segundo lugar na fila e peguei logo na caixinha que já tinha à mão. Oh! Não, não podia crer, quem eu queria que lá estivesse não estava. Não havia chuva a impedi-lo de vir que o céu estava bem azul e transparente. Estaria o velho doente? Alarguei o olhar nos poucos segundos que me restavam antes de avançar e deixar seguir os outros, confirmando que ele não estava mesmo lá.

No dia seguinte, saí de casa convicta de reencontrar o velho no semáforo para, finalmente, abrir a janela e entregar-lhe o presente. Mas não, mais uma vez, ele não estava no seu posto habitual. Nos últimos segundos de sinal vermelho, vi passar uma mulher jovem com olhar sorridente, um telemóvel pequenino numa das mãos  e um saco de pão na outra. Devia morar perto. Ainda tive tempo de lhe perguntar pelo velho do semáforo. Morreu há dias, respondeu. Estava em casa e a casa incendiou-se, concluiu com ar pesaroso mas sem falso drama.

Ela devia ter sentido prático, porque, ao ver o sinal vermelho, nada mais acrescentou, afastando-se no seu passo pequeno mas ligeiro.

Eu é que não retomei logo a marcha ao sinal verde, o que me valeu uma grande buzinadela de um dos condutores atrás de mim. Assustei-me de tal modo que deixei cair a caixinha e os bombons espalharam-se todos pelo chão.

In Lugares e palavras de Natal, Editora Lugar da Palavra, 2021, p. 42/44

 


quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Carta fechada para o Pai Natal

 

A menina disse à mãe que tinha escrito uma carta ao Pai Natal. A mãe perguntou-lhe se podia ler a carta. A menina, olhando a mãe com ternura, disse que não. A mãe perguntou-lhe porquê. Para mais, todos os anos lhe dizia quais eram os presentes desejados. A menina respondeu, então:

- Este ano, quero que os presentes do Pai Natal sejam surpresa para vocês.

 

domingo, 28 de novembro de 2021

A beleza das pequenas coisas

 

São marcadores feitos pela Cristina Pinto - para juntar ao livro As fadas do bosque das cores e das estórias que tão bem ilustrou. Assim também se marcam os nossos dias. Felizmente.

 


quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Praia no outono

 

Quando olho para o mar, em dias de outono, vem-me à lembrança este poema de David Mourão Ferreira e cantado por Simone de Oliveira, Celeste Rodrigues, Aldina Duarte e por outras vozes talvez. Foi o que me aconteceu hoje em Mindelo, Vila do Conde. No momento, apenas um casal na praia. Que não se limitou, tal como eu, a olhar o mar a partir do passeio.

 



 

'Praia de outono

Praia de outono desfigurada
Pela mordaça das marés vivas
Praia de outono transfigurada
Pela ameaça de alguém partir

Aquele amor sob o furor do mar
Já começou a declinar
Tenho medo!
Nem eu sei de quê
A noite vem tão cedo
Praia de outono ninguém nos vê

Em ti a bruma
Em mim ciúme
Vão-nos velando
A nós como as marés

Não se vislumbra
Esperança nenhuma
De alguém saber
Quem sou nem quem tu és'

David Mourão Ferreira  (Lisboa 1927/Lisboa 1996)

 

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

domingo, 21 de novembro de 2021

E se as fadinhas começassem a voar?

 

Atenção - isto tem um cheirinho a publicidade! Mas não é enganosa!!!

Bom domingo!|





sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Se fizerem obras, convém espreitar os canos!!!

 


Há uns vinte anos, fizemos obras na casa e construímos uma casa de banho que tem tido pouco uso. Há bastante tempo que a banheira estava entupida e lá fui tentando tudo e mais alguma coisa, mas a pobre continuava sem engolir. Como se aproxima o Natal e seremos mais em casa - se os confinamentos não nos vierem entupir a vida -, toca a pôr mãos à obra e ir ao fundo da questão, para ver o que se passava com a dita banheira. Veio o picheleiro (por cá, não dizemos canalizador), nada; veio um desentupidor munido de equipamentos mais poderosos, nada. 

Ora, a solução era furar, furar, furar até chegar ao cano para detetar o obstáculo. E, depois de muita ruideira e de muita poeira, achou-se um verdadeiro achado!

O que fazia com que a água da banheira não escorresse era - eu nem queria crer - um ponteiro de ferro que havia ficado no cano!!! Agora, cheio de ferrugem, jaz, para que conste, em cima da tijoleira rebentada.

É caso para dizer também: e esta, hein?

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Desculpem, não é assunto para começar uma semana.

 

Não gosto muito de me queixar, mas deixem-me dizer que ando cansada.

Cansada de políticos com palavras e sorrisos dúbios, cá dentro e lá fora.

Cansada do barulho que o meu vizinho faz constantemente com as obras na casa que são intermináveis.

Cansada de ver pessoas a sofrer em fronteiras que podem ser as últimas das suas vidas.

Cansada de só saber usar algumas valências básicas do computador e tantas vezes precisar de saber mais.

Cansada de ouvir o pobre do Manel a vociferar pela rua fora com pacote de vinho na mão e feridas na cara desvairada e alcoólica.

Cansada de ver sempre as mesmas pessoas a ganhar prémios, como se a mesa só fosse posta para alguns.

Cansada de ter uma  banheira entupida quase sem remédio por seguir conselhos que não devia seguir como pôr soda cáustica no raro.

Cansada de não ver a minha filha nem a minha neta por causa da covid e de ver o sr. Boris sempre despenteado e ar de quem atrapalha tudo, mas que nunca se atrapalha.

Cansada de ouvir outro vizinho a consertar o motor da mota sempre ao fim de semana, enevoando tudo de ruído.

Cansada de não ter tempo livre, de não terminar a leitura do livro que comecei, de deixar sempre coisas em cima da mesa, etc. etc. 

Cansada de não ser mais organizada, mais sensata, mais paciente, mais sábia, mais tolerante, mais criativa, mais magra, mais segura, de ter dores nos joelhos, de não andar mais a pé, de não ter a palavra certa no momento certo, de não agir com eficácia, de... de...

Cansada de achar que o que faço e o que digo ficam muito aquém do que gostava de fazer e de dizer.

Ando cansada, pronto, ando cansada. Desculpem. Isto não é assunto que se traga em início de semana.

'Erros meus, má fortuna...'

Mas a todos desejo uma Boa Semana.


sábado, 13 de novembro de 2021

Passeando por Londres - com os olhos e o coração!


 


Criticar ou não os outros, eis uma questão.

 

Muitas pessoas fazem críticas - umas mais camufladas, outras mais explícitas - quando falam de outrem. É aquela malícia ou maldizer que se abre muitas vezes para julgar de imediato as ações dos outros, ainda que sem má intenção.

Perante o que se sabe ou ouviu, vem um comentário, um juízo de valor, uma crítica, uma dúvida... E às vezes sem palavras, para além das interjeições, mas com olhares, trejeitos de boca... 

Isto vem a propósito de uma comparação entre duas famílias. Se uma julgava com alguma frequência o que outros diziam ou faziam, a outra limitava-se a conhecer modos diferentes de viver a vida - ainda que não concordasse com eles - sem nada perguntar, sem nada retorquir, sem nada julgar.

E, desta troca de impressões, emergiu uma conclusão: quem o faz é má pessoa.

Só não percebi a que família a afirmação se dirigia.

 

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Entre cartões e recibos, também pode haver poesia!

 

Abri o porta moedas e, entre cartões e recibos, encontrei este pedacito de jornal. Já não sei donde o retirei, mas sei que gosto muito da poesia de Adélia Prado - muito ligada ao quotidiano (ainda que só dizer isto seja redutor) e a reflexões que ele nos traz. Quando puder, vou estudar um bocadinho para poder dizer coisas mais sustentadas sobre esta grande poeta, nascida em 1935, em Minas Gerais, Brasil. 


 

Depois, foi só procurar um poema na net que me pareceu vir a propósito (tenho um livro de Adélia Prado e hei de relê-lo).

 Momento

Enquanto eu fiquei alegre,
permaneceram um bule azul com um descascado no bico,
uma garrafa de pimenta pelo meio,
um latido e um céu limpidíssimo
com recém-feitas estrelas.
Resistiram nos seu lugares, em seus ofícios,
constituindo o mundo pra mim, anteparo
para o que foi um acometimento:
súbito é bom ter um corpo pra rir
e sacudir a cabeça. A vida é mais tempo
alegre do que triste. Melhor é ser.

Adélia Prado

 

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

terça-feira, 9 de novembro de 2021

De mãos dadas

 

Confesso que gosto de ver casais de mãos dadas, no seu outono da vida. E se se pressentir empatia, ainda acho mais bonito. E sorrisos sinceros também. E palavras carinhosas olhadas e escutadas e respondidas, então o momento é ainda mais belo.

É um tema que me ocorre com frequência. Talvez por isso, hoje, quando fui à  'minha cidade com mar ao fundo', deparei com dois ou três casais de mão dada. 

Estava um calorzinho ameno, o mar cintilava e esses casais, cada um no seu tempo e no seu espaço, passavam passeando tranquilos numa rua perpendicular ao mar.

Imaginei cada um desses casais à noite a dormitar no sofá - imagem não tão romântica assim. Mas talvez ainda procurassem as mãos um do outro antes de a noite ser noite.


sábado, 6 de novembro de 2021

A abóbora em poesia - ninguém diria!

 

 Num comentário - obrigada, Bea - foi referida a abóbora porqueira.  Talvez pelos sons semelhantes, logo me lembrei da 'abóbora carneira' que aparece no poema de Cesário Verde, 'Num bairro moderno'. Como é bastante longo, mas vale a pena lê-lo todo, partilho só um excerto.

No poema, surge uma vendedora de fruta numa rua da grande cidade. Sobressai a atenção aos pormenores e sensações do real, não faltando o olhar social e humano face à dureza de alguns trabalhos. E outras coisas, é claro, porque a cada leitor a sua leitura.

 

Vi há pouco o comentário do Vítor Oliveira com a partilha de um post da sua Carruagem 23. Obrigada, Vítor. Vejam, se puderem. Vale a pena. Está em: 

https://carruagem23.blogspot.com/2011/02/cesario-verde-tanta-poesia-para-tao.html

Nota: Janita, assim poderá ver e ouvir o poema na íntegra.

Um domingo com boas sensações para todos.

 

'Num bairro moderno'

'(...) 

O Sol dourava o céu. E a regateira,
Como vendera a sua fresca alface
E dera o ramo de hortelã que cheira,
Voltando-se, gritou-me, prazenteira:
"Não passa mais ninguém!... Se me ajudasse?!..."

Eu acerquei-me dela, sem desprezo;
E, pelas duas asas a quebrar,
Nós levantamos todo aquele peso
Que ao chão de pedra resistia preso,
Com um enorme esforço muscular.

"Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!"
E recebi, naquela despedida,
As forças, a alegria, a plenitude,
Que brotam dum excesso de virtude
Ou duma digestão desconhecida.

E enquanto sigo para o lado oposto,
E ao longe rodam umas carruagens,
A pobre, afasta-se, ao calor de agosto,
Descolorida nas maçãs do rosto,
E sem quadris na saia de ramagens.

Um pequerrucho rega a trepadeira
Duma janela azul; e, com o ralo
Do regador, parece que joeira
Ou que borrifa estrelas; e a poeira
Que eleva nuvens alvas a incensá-lo.

Chegam do gigo emanações sadias,
Ouço um canário - que infantil chilrada!
Lidam ménages entre as gelosias,
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja destilada.

E pitoresca e audaz, na sua chita,
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
Duma desgraça alegre que me incita,
Ela apregoa, magra, enfezadita,
As suas couves repolhudas, largas.

E, como as grossas pernas dum gigante,
Sem tronco, mas atléticas, inteiras,
Carregam sobre a pobre caminhante,
Sobre a verdura rústica, abundante,
Duas frugais abóboras carneiras.'

Cesário Verde, in O Livro de Cesário Verde

 

Cesário Verde  nasceu em Lisboa em 25 de fevereiro de 1855. Morreu na mesma cidade em 19 de julho de 1886, apenas com 31 anos.

Foi um dos primeiros poetas portugueses do realismo. A sua obra - curta mas muito importante - está compilada em O livro de Cesário Verde.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Bons sabores de outono!

 

Deram-me esta abóbora. Bem bonita, por sinal. Obrigada, Rosa.

Resolvi fazer doce com uma boa parte. Alguns frasquinhos poderão ser presentes de Natal. Espero que fique com bom sabor. Para que os rótulos bonitos que irei pôr por fora fiquem a condizer com o conteúdo!

Deixo aqui algumas fotos que fui tirando enquanto preparava esta doçura que, neste momento, ainda está quentinha.

Espero que gostem. 

A mãe de toda esta compota

A abóbora com o açúcar e paus de canela

A abóbora já cozida

Amêndoa moída para juntar à panela 




A abóbora com a amêndoa

Da panela para os frascos

Arrefecendo e criando vacuum (para não criar bolor)

 

Pus o resto da abóbora em saquinhos e congelei. Para sopa, por exemplo.

Bons sabores de outono! 

 

 

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

A cada um(a) os seus botões

 

Com os seus botões - figura sentada 1

Tanta gente aqui no hospital à espera de vez. Não conheço ninguém, mas deve haver muitos professores, a maior parte reformados. É bom haver convenções. Que bom eu ir à consulta e saber que o problema não é grave. Já tomei um café e soube-me bem. Passo a maior parte do meu tempo em casa. Só saio para a minha pequena caminhada. Tenho medo de cair. Hoje estou feliz porque saí e, se cair, tenho quem me ajude. Há muito tempo não vestia este fato. Os sapatos apertam-me um bocado, mas trazem-me boas recordações e a caixa pode arejar. Sempre gostei de me arranjar. Em casa, como estou só, uso demasiado o roupão, mas, pensando bem, não é a melhor indumentária para vestir o meu dia.

Agora reparo, aquela fulana está sempre a olhar para mim. Será pelas minhas rugas? Será que estou despenteada? Mas ontem fui à cabeleireira e quando saí não havia vento. Para além disso, a laca que a cabeleireira me põe é à prova de furacão. Já lhe disse que faz mal ao ambiente, mas ela é teimosa. Diz que me fica muito bem. Traz-me o espelho para me mirar de vários ângulos. Nem quando eu era secretária de direção, usava o cabelo assim. Também não precisava porque era jovem e bonita. E sempre gostei da minha liberdade. Até no cabelo. Agora deixo-me levar pelos mimos.

Os olhos dela fixos em mim parece que me estão a tirar uma radiografia. Fogo, como diz agora toda a gente. Se demorar a chegar ao meu número, levanto-me e vou perguntar-lhe se me conhece. Não tem cara de quem esteja a tramar seja o que for, mas é tramado o modo atento como olha. Se me levantar para falar com ela, é da maneira que alivio os meus pés e falo com alguém, sem ser só com a funcionária do guichet e com o médico.

 

Com os seus botões - figura sentada 2

Ui, ainda faltam trinta números para chegar à minha vez. O que vale é que neste hospital não faltam funcionários nem pontos de atendimento e os números rolam a bom ritmo no ecrã. Devem estar aqui muitos professores, porque a instituição tem convenção com a ADSE. Atrás de mim, uma jovem diz que já passa das onze e meia, que vai dar aulas à uma hora em Aveiro e ainda não fez o exame médico.

Todo o tempo do mundo terá aquela senhora tão bem posta, como dizia a minha mãe. Está sentada do lado oposto. Há tanto tempo que não via alguém vestido assim. Um fato chanel, como antigamente nas revistas chiques de moda. A blusa com um grande laço e até os sapatos são a condizer.

Qual teria sido a sua profissão? Se a teve, foi professora quase de certeza. Daquelas rígidas que nunca deixavam o programa por cumprir, sem tempo para outros diálogos. Para quem a liberdade era palavra desnecessária e pejorativa.  Devo estar a fixá-la bastante, creio. Mas a figura dela ficou no guarda-fatos de muitas das memórias de quem também viveu esse tempo, como eu. Quando chegar a minha vez, se passar por ela, vou sorrir-lhe. Falar-lhe talvez não, porque de certeza que não quer ser incomodada e em casa não lhe faltará com quem falar.


terça-feira, 2 de novembro de 2021

'O QUINTO IMPÉRIO'

 

A propósito do título do último livro de Manuel Maria, partilho aqui o poema 'O Quinto Império' da MENSAGEM, de Fernando Pessoa, e que foi também referido por Vítor Oliveira, na apresentação do romance.


'Triste de quem vive em casa,

Contente com o seu lar,

Sem que um sonho, no erguer de asa,

Faça até mais rubra a brasa

Da lareira a abandonar!

 

Triste de quem é feliz!

Vive porque a vida dura.

Nada na alma lhe diz

Mais que a lição da raiz —

Ter por vida a sepultura.

 

Eras sobre eras se somem

No tempo que em eras vem.

Ser descontente é ser homem.

Que as forças cegas se domem

Pela visão que a alma tem!

 

E assim, passados os quatro

Tempos do ser que sonhou,

A terra será teatro

Do dia claro, que no atro

Da erma noite começou.

 

Grécia, Roma, Cristandade,

Europa — os quatro se vão

Para onde vai toda idade.

Quem vem viver a verdade

Que morreu D. Sebastião?

21-2-1933

Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).

 

domingo, 31 de outubro de 2021

Uma boa tarde de sábado - como se previa

 


Ontem, sábado, dia 30 de outubro, foi lançado o romance Quinto Império - Profecia de Perdição, de Manuel Maria, publicado pela Editora Lugar da Palavra, conforme convite há muito divulgado.

A capa, muito elogiada, de Ana Bessa.

João Carlos Brito (Editor); Vítor Oliveira (Apresentador); Manuel Maria (Autor) e o representante da Junta de Freguesia de Paranhos, aqui nas suas palavras de boas-vindas.


Vítor Oliveira, professor, formador, blogger (tem o blogue Carruagem 23), na apresentação do livro e da sua leitura do romance. Atendendo ao interesse e profundidade da sua comunicação, foi sugerido que fosse publicada.

 

O autor - homem de palavras e de palavra, como referiu o Editor -, comunicando as várias dimensões do seu trabalho para a realização desta obra que teve o apoio do Ministério da Cultura e que agora chegava aos leitores.


A fila de pessoas para os autógrafos foi longa e demorada. Havia amigos que se reencontravam, abraçavam, recordavam tempos passados, falavam de projetos, da família a aumentar, etc. O autor tinha sempre palavras gentis para cada pessoa que se aproximava para ter o livro autografado.


 
 
Manuel Maria sempre com grande atenção aos outros, afeto, alegria, gosto pelas palavras ditas, lidas e escritas, gerando um ambiente amistoso em que os livros sobressaem como objetos artísticos realizados com rigor, seriedade, amor, atenção aos pormenores, para que os leitores possam desfrutar deles o melhor possível.

Digam lá se não houve bons motivos para uma boa tarde de sábado.  Quem conhece o autor já o previa.

Boa sorte, Manuel Maria.

Boas leituras.


O solitário da rua - os dias mais pequenos

 

Os dias pequenos talvez não sejam muito propícios aos solitários, como eu, o solitário da rua. As noites chegam cedo, fico mais tempo dentro de casa e com a luz acesa. Gosto de chegar da repartição e ir tratar das coisas do quintal ainda com a luz do dia. As ervas daninhas não me dão tréguas. Já apanhei as abóboras manteiga e protegi-as da chuva, embora me tenha habituado a ver abóboras ao sol e à chuva na casa dos meus avós.

Os dias pequenos talvez não sejam muito propícios aos solitários como eu, o solitário da rua, apesar de gostar do som da chuva a cair quando estou em casa. E em domingo caseiro ainda me sabe melhor, mas hoje a chuva é muita, a noite vai chegar mais cedo, desliguei a televisão para não ouvir falar mais uma vez de partidos políticos com muitas guerras dentro. Chove tanto nestes dias de finados que muitos mortos não serão visitados, ainda que as visitas devessem acontecer sobretudo em vida. Também eu, o solitário da rua, não fiz as visitas que poderia ter feito.

Os dias pequenos talvez não sejam muito propícios aos solitários como eu, o solitário da rua, porque fica-se mais ensimesmado, mais reflexivo e a vitamina da luz natural faz algum dano. Não sei por que razão às vezes penso que se fosse mais novo preferia viver num país do norte da Europa, daqueles em que, quando o sol aparece, as pessoas enchem as ruas como se fosse uma festa.

Os dias pequenos talvez não sejam muito propícios aos solitários como eu, o solitário da rua. E os dias grandes sê-lo-ão sempre, interrogo-me. Vou pensar nisso porque, como a noite vem mais cedo, tenho mais tempo. Mas, como amanhã se prevê sol, o melhor será não o desperdiçar.


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sábado, 30 de outubro de 2021

Três dias no 818

 

Ir passar três dias fora descansava-lhe a mente. E seria completamente diferente desta vez.  Provavelmente não sairia do hotel. Chegara até ali não para visitar a cidade, mas para ser babysitter do seu menino mais pequenino.

Quando chegaram, souberam o número do quarto: 818. 

Era grande, com vista, ao longe, para uma infinitude de automóveis em movimento em estradas e redondas encruzilhadas, para um mar de bairros e para um casario imenso de todos os tamanhos e alturas, porque Braga é uma cidade em grande expansão. Felizmente via-se muito, mas não se ouvia quase nada.

Depois de comer, o bebé adormeceu. Ela fechou um pouco mais a cortina e ficou a olhá-lo. Dormiria, com certeza, um  soninho tranquilo até a mamã voltar.

Ela ia-se apercebendo do evoluir da tarde pela cor do céu que se ia carregando.

Pegou no telemóvel e esboçou um post. Viria a apagá-lo no dia seguinte. Era lamechas para o seu gosto. Acontecia-lhe muito. Começava a escrever e as palavras escorriam com fartura. No dia seguinte, era mais o que modificava ou apagava do que o que aproveitava. E ainda bem, pensava. Salvo as devidas distâncias, se Marcelo não agisse enquanto pensa, às vezes seria bem melhor.

E assim passaram três dias. Diferentes e bons. À volta de fraldas, papinhas, brinquedos e sorrisos e mimos. 

Quando a filha chegava, feliz, podiam conversar e fazer o ponto de situação. Mãe, para ti é seca? Sei que gostas de ter o teu tempo. Claro que não, respondia ela, com sinceridade. Gostava de ser útil e podia estar todo o tempo com o seu menino.

E um dia, quando vieram almoçar, o átrio do hotel estava cheio de luz e ainda sem ninguém. Ela pensou que podia ser cenário para uma história, mas não sabia se iria concretizar. Talvez por incapacidade imaginativa, preferia as histórias vividas ou conhecidas.

O que sabia era que estava a gostar daqueles três dias num hotel, a maior parte do tempo passado no quarto. Daí três dias no 818.


 

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Desculpem!

 

Ela vivia a pedir desculpa. Pedia desculpa por se atrasar um bocadinho, por estar a interromper ou a ser chata, pelo trabalho não ter ficado perfeito, pelas palavras usadas não serem as mais adequadas, por ter-se calado quando devia ter falado, por ter falado quando o melhor era o silêncio…
Até nas idas ao cemitério pedia sempre desculpa aos seus mortos pelas falhas tidas com eles ao longo da vida.
Aos filhos pedia desculpa insistindo na ideia de não ter sido a mãe que teria desejado ser. Os filhos já se cansavam da repetição.
As vozes mais amigas diziam-na bonita, no seu corpo alto e de rebelde cabelo escuro, mas que tinha de acreditar mais em si e não estar sempre a menosprezar-se e a pedir desculpa.
Um dia, demorou um bocadinho mais a ver-se ao espelho. Viu-se a envelhecer e ficou a olhar o passado vazio de elogios. Não os ouvira nem de si própria.
Apesar de todas as lacunas, como o tempo era voraz, tinha mesmo de deixar de pedir desculpa tantas vezes. Exagerava, tinha consciência disso. Fazia-o com sinceridade, mas mais parecia um vício de alguém que se desvaloriza constantemente causando até  constrangimentos.
Saiu. Já na rua, encontrou uma amiga. Foram tomar um café. Na conversa veio à baila a obsessão do pai da amiga pelos cânones da religião que professava. As ideias que defendia eram as aprendidas no catecismo há muitas décadas. Sem nada tirar e sem nada pôr. Qualquer questionamento ou desvio de práticas logo ele considerava heresia e por isso punha ponto final ao diálogo, mesmo com os filhos que, com o tempo, foram deixando de ser praticantes.  Diziam precisar de outras águas e não viver só de água benta.
À noite, à mesa, ela contou a conversa tida com a amiga. Um dos filhos disse, convicto: compreendo. Às vezes também sinto vontade de nem sequer pedir desculpa a ninguém.
A mãe ouviu e não pediu desculpa.


terça-feira, 26 de outubro de 2021

Conversa com crianças dentro

 

- Tive uma reunião no hospital.

- E correu bem?

- Sim, mas ao passar pelas crianças na sala de espera tive um sentimento diferente.

- Talvez por não ires trabalhar há uns meses.

- Olhei para elas e sentia-as de forma diferente também. 

- E sabes porquê?

- Porquê?

- Porque agora és mãe.

 

sábado, 23 de outubro de 2021

A força de tardes assim

 

Oiço pouco trânsito na rua. Na casa ao lado, de vez em quando ouvem-se crianças a brincar. Junto de mim, sobre a mesa da cozinha, está uma caixa com folhas de papel que, desde que aqui estou, fui recortando de revistas antigas (em breve, direi para quê).

A meio da tarde, liguei o rádio na antena 2 à hora em que falam de língua portuguesa e de literatura. Nada melhor para uma tarde de um sábado tranquilo em casa. Para mim, é claro.

Depois, na rubrica 'A força das coisas' de Luís Caetano, houve uma longa entrevista com Isabel Lucas que trabalha no Público e escreveu novo livro sobre viagens. Agora o espaço visado é o Brasil e alguns dos seus autores,  como Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e outros.

Foi uma longa e interessante conversa sobre os diferentes lugares que a autora visitou para construir o seu livro, sobre as pessoas com quem conviveu,  sobre as muitas histórias ligadas a essa viagem de trabalho e de encantamento.

Uma conversa calma cheia de emoção, em que os livros e os seus autores são bons companheiros para o prazer da leitura e para ajudar a conhecer as pessoas, as terras, os hábitos, a cultura. E, realço, o diálogo foi sempre claro, amistoso, culto, vivo, mas sem pressas. Tão raro, meu Deus!

O programa acabou e a noite já escureceu a janela. Vou fechar a caixa dos recortes das folhas, que ainda vai a menos de meio. Sinto vontade de ler um bocadinho. Com a força que vem de coisas assim.

 

Cores de outono em Londres

 





quinta-feira, 21 de outubro de 2021

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Os barcos e as gaivotas

 

São muitos os barcos de recreio que circulam no rio Douro, entre o Cais de Gaia e a Afurada. Silenciosos ou com mais ruído vão passando para lá e para cá, num vai-vem colorido de turistas e de publicidade a marcas de vinho do Porto. Isto de passear no rio, nem que seja só por uns minutos, pode animar o corpo e a alma já que a alegria de brincar às viagens curtas num longo rio é para todas as idades. E quem vê corpos não vê corações, embora se pressinta o seu pulsar se o observador não for uma canoa demasiado pequenina.

Em pleno outubro, estes barcos turísticos, uns mais vagarosos outros mais aventureiros, navegam como se fosse verão, apesar de todos os elementos mostrarem sinais de outono, sobretudo ao início e ao final do dia. 

E as gaivotas, nos intervalos em que o rio não é riscado por rastos de espuma de barcos mais velozes, valsam com leveza na água ou aproximam-se, sem medo, dos pacientes pescadores à linha, pousando nas grades do passadiço ou sobrevoando os telhados. Ou abrem as asas e voam bem alto. Não sei se para verem a serra do Pilar ou a ponte Luís I mais de perto. Ou outras belezas das duas margens que não cansam o olhar. Ah, e o olhar humano é também um bom modo de voo.





segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Às vezes sentia vergonha

 

A Câmara do concelho onde vivo teve como presidente, durante largos anos, um homem que era muito conhecido sobretudo por más razões da sua governança. Ele eram os berros, ele eram os amiguismos, ele eram os eletrodomésticas para conquistar votos, ele eram as gaffes, ele eram os populismos, etc.

Nas diversas conversas quotidianas, as pessoas diziam que essas e outras verdades existiam, assim como havia negócios em que ele ficaria sempre a ganhar, mas que havia obra feita. Pensada e arquitetada durante o seu mandato ou não, várias obras apareceram, de facto, nessa altura. 

Porém, era fácil surgirem, porque os novos tempos assim o exigiam a qualquer um e no concelho, até então, havia muito pouco. Portanto, tudo o que se fazia era visível.

Nesse tempo - e ainda agora - seja onde for que vá, se disser donde venho, logo vem à baila o nome da criatura que, felizmente, deixou o cargo há bastantes anos. Às vezes eu sentia vergonha de dizer, porque parecia logo ouvir: diz-me donde vens, digo-te já quem és. 

Não seria necessário justificar fosse o que fosse, mas depressa fazia saber que nunca tinha votado nele.

Talvez me tenha lembrado disto hoje porque aparecem demasiadas figuras públicas que deveriam dar exemplos de honestidade à comunidade que as elegeu ou que as colocou em determinado lugar, mas olham só para si e para os seus desejos ou para o seu próprio proveito ou para o poder que querem garantir. E isto acontece na política, na banca, na igreja, etc. 

Como se o mundo que existe fosse apenas o seu mundo. E sem precisar sequer de dar justificações.

 

sábado, 16 de outubro de 2021

Não te reformes, disse ela.

 

Há uns anos, em dias de mais cansaço, pensava na reforma e, em conversas de intervalo para café, comunicava-o às vezes a colegas. Eram minutos em que, embora um bocadinho a correr, se falava das nossas vidas como gostos e desejos, estados da saúde (sem muitos pormenores, senão lá ia o intervalo todo), idas aqui ou ali, coisas de etc.

Num dia em que falei do assunto, uma colega, de quem sou amiga, disse-me: 'enquanto puderes, não te reformes. Dizem logo que temos todo o tempo do mundo e pedem-nos tudo e mais alguma coisa'.

Apesar de já ter passado bastante tempo, lembro-me bem da conversa e, em muitos casos, sei que é assim, mas não devia ser, na minha opinião. Quem se reforma, depois de longos anos de trabalho, tem toda a legitimidade de ter tempo para se dedicar a coisas que lhe dão prazer, como passear, ler, ir ao cinema, jardinar, aprender outras coisas, dedicar-se a outras causas, etc. sem nunca ouvir: 'podes porque não tens nada para fazer'.

Isto faz-me lembrar uma peripécia contada por uma das minhas tias, que sempre viveram numa casa de lavoura: um dia, um homem que lá trabalhava estava na hora do descanso, a seguir ao almoço, já depois de ter trabalhado longas horas. Um outro homem, que  descarregava um carro de bois, voltou-se para ele e disse-lhe: enquanto descansas, anda-me ajudar!

Ora, não ponho em dúvida a ajuda a família, o que, para mim, é inquestionável. E às vezes a gestão não é fácil porque muitos de nós, que já não estão no ativo, temos filhos, netos e pais. Daí chamarem-nos a geração sanduíche. 

Se às vezes é difícil gerir tudo, também é um privilégio sentir que ajudamos e aliviamos um bocadinho aqueles que amamos. Gosto muito de o fazer, mas também gosto muito de ter algum tempo por minha conta. E tenho-o, felizmente. Oxalá todos e todas pudessem dizer a mesma coisa. Com alegria e sem culpabilidade.

 

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

'Não tenho nada que fazer, estou reformado'

 

Conheço-o desde que se casou. Um homem alto, simpático, com as suas camisas aos quadradinhos, calças de bombazine e pulover. Foi serralheiro durante muitos anos e trabalhava por turnos. Às vezes, penso que teria tido capacidade e inteligência para uma profissão, por exemplo, ligada à saúde. 

Quando chegava ou partia de madrugada, tentava não acordar ninguém, sobretudo a mulher, a quem sempre chamou pelo petit nom e que sempre foi o amor da vida dele. Continua a sorrir com as histórias de namoro que ela sempre conta. Fica alegre com a sua alegria, apoia-a na sua tristeza, poupa-lhe os desgostos que pode e, mesmo sem pensar em promessas feitas, sempre esteve presente 'na saúde e na doença, na alegria e na tristeza...' 

Pois bem, depois de muitos anos de trabalho dedicado, veio a reforma. E as doenças dos familiares com quem viviam. E os seus cuidados diários. E as sua mortes. E as preocupações e ajudas mais variadas de pai. E as chamadas de vizinhos que viviam sós e precisavam de alguém...

Sempre o vi em atividade e quase esquecido de si próprio. Para ele, os outros, sobretudo a família mais próxima, sempre contaram mais.  Uma vida inteira de disponibilidade e generosidade, sem má cara, sem más palavras, sem qualquer queixa, sem azedume, sem cobrar nada.

Como a idade não perdoa, apesar de ter saúde, ouve muito mal, mas continua sempre a ajudar a família. Tal como durante toda a sua vida, pouco tempo lhe sobra para ele, a não ser a leitura do seu JN e os jogos do seu FCP. No entanto, não deixa de dizer, como sempre ouvi: se precisares de alguma, diz, não tenho nada que fazer, estou reformado. 

 

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Conversa na bomba de gasolina com mano dentro

 

- Arranjas-me um bidão de gasolina? 

- Ó mano, combustível só no carro.

- Tenho o carro parado. Preciso de gasolina.

- Se eu pudesse, mano, vendia, mas não posso.

- O bidão é pequeno. Ninguém precisa de saber.

- Ó mano, já tive stress por causa disso. 

- Fogo, custava-te alguma coisa?

- Ó mano, vai à Galp. Pode ser que te arranjem. Não quero ter mais stress, mano.

 

Quando saí da bomba de gasolina, o meu telefone tocou. Era o meu mano.



domingo, 10 de outubro de 2021

Perfeição vs imperfeição

 

De há uns anos a esta parte, a flor da foto - julgo que é da família das proteias e que me foi oferecida - abre-se, por esta altura, com todo o seu esplendor e perfeição no jardim da minha casa. Um assombro harmonioso de forma e de cor. Não ocupa muito espaço, mas é impossível não se reparar nela pela bela sofisticação.

 

Porém, dou comigo a pensar que prefiro flores menos perfeitas. Acontece-me o mesmo com certas rosas. As suas linhas são tão bem tecidas e desenhadas que deixam de parecer naturais, ostentando algum exibicionismo que me desagrada.

Sim, prefiro, de longe, flores mais simples e imperfeitas, nas quais encontro mais completas perfeições. 

 

  

sábado, 9 de outubro de 2021

Há viajar e viajar...

 

Obrigada, Idalina, pela partilha de mais uma leitura. Com este excerto, fiquei com vontade de ler o seu autor - Leonardo Padura. Gosto quando os escritores falam dos lugares onde vivem, por onde passam ou já passaram. É como se lá fôssemos ou lá voltássemos. Ler também pode ser uma boa viagem. Como parece ter sido esta viagem a Paris.



 

“Paris é um mundo, e as recordações de cada pessoa que lá viveu são diferentes das recordações de qualquer outra… E isso é bem verdade, embora tenha sido Hemingway a dizê-lo, ele que foi o escritor mais ególatra e narcisista do século. A minha recordação de Paris é como uma nostalgia azul da qual, em vinte anos, não fui capaz de me libertar. Porque, quando cheguei a Paris, naquele mês de abril de 1969, já tinha despontado uma primavera tão bela que doía e dava vontade de fazer alguma coisa para ser mais feliz, se é que a felicidade existe, para ser mais inteligente e abarcar tudo, conhecer tudo, ou para ser mais livre, se é que isso também existia, existiria ou existiu alguma vez. E lembro-me de que senti a magia de um sol carinhoso, de veludo, banhando os Campos Elísios, os grandes palácios napoleónicos, a frivolidade dos cafés, e compreendi melhor o que acontecera um ano antes. Ainda sinto como uma carícia na pele a luz da tarde contra a rosácea frontal de Notre Dame, o rumor histórico e escuro do Sena por alturas da Cité, e oiço aquele tocador de realejo diante do Louvre, fazendo dançar o seu macaquinho africano ao som de uma valsa vienense. Também me lembro daquele concerto dos Rolling Stones, quando pretendiam ser mais rebeldes do que os Beatles, e onde os pude ver a duzentos metros de distância, sob o céu frio da primavera de Paris, entre os gritos de adoração daquelas loirinhas francesas, livres, filhas abortadas e mães recém-paridas de uma revolução que poderia ter sido e não foi, embora depois daquele maio o mundo nunca mais tenha sido o mesmo, porque afinal se tinha feito a revolução: a revolução dos costumes e da moral, a revolução permanente do século vinte que Liev Davidovitch Bronstein, aliás, Leon Trotsky, jamais imaginara.”

Leonardo Padura, Quarteto de Havana, p. 44

 

Leonardo Padura Fuentes – Wikipédia, a enciclopédia livre
Leonardo Padura nasceu em Cuba em 1955