domingo, 2 de março de 2014

O rapaz sem asas


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Imagine-se uma loja grande dos Chineses. Ao fundo, dois provadores: os dois ocupados e com as cortinas fechadas. Num deles, uma jovem a vestir um vestido de joaninha: saia vermelha com pintas pretas e bandolete com laço a condizer.
Entretanto, a mãe da elegante joaninha, que estava da parte de fora, entreabriu a cortina para dar a sua opinião sobre o comprimento, a largura do vestido e os etecetras do gosto maternal. Que bonito. Fica-te tão bem. Pareces uma menina. Lembras-te de um vestido...
De repente, a cortina ao lado abriu-se, saindo de lá uma mão que foi bater-lhe no ombro. Que susto.
Apercebendo-se do que se passava, logo se tranquilizou. Era um jovem que provava também um fato, mas não sabia como pôr as asas.
- Pode ajudar-me? Desculpe, não sei pôr isto.
- Deixe ver. Tem de puxar o elástico e enfiar um braço de cada vez.
Obrigado, disse ele, olhando-se ao espelho e vendo um corpo enorme, quase coberto pelo fato de joaninha macho e com asas bem abertas. O sorriso foi de meninos.
E a joaninha macho ainda perguntou:
- Acha que me fica bem?
- Sim, o fato é muito engraçado.
Já na caixa, voltaram a sorrir, desejando bom carnaval. E de novo o sorriso parecia de meninos.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

E este é (também) o nosso ofício. Felizmente!


Esta semana, numa turma do 10º ano, os alunos começaram
 as apresentações do “Contrato de Leitura”, 
tendo por base narrativas curtas.
Aos contos podiam ligar-se outros textos.
Uma aluna, a Ana Rita, trabalhou três histórias de Sophia de Mello Breyner: 
“Homero”, “Praia” e “O Homem” da coletânea Contos exemplares.

Sophia

Escolheu também este poema de Sophia:

A Forma Justa
 
Sei que seria possível construir o mundo justo  
As cidades poderiam ser claras e lavadas  
Pelo canto dos espaços e das fontes  
O céu o mar e a terra estão prontos  
A saciar a nossa fome do terrestre  
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia  
Cada dia a cada um a liberdade e o reino — 
Na concha na flor no homem e no fruto  
Se nada adoecer a própria forma é justa  
E no todo se integra como palavra em verso  
Sei que seria possível construir a forma justa  
De uma cidade humana que fosse  
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco  
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
                                                  Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"


E escreveu o seu próprio texto poético:
Terra, és única

Olha em teu redor.
O que vês?
Talvez tudo, talvez nada,
Um mundo repleto de sombras,
A terra completamente banalizada.

Bem, olha agora com mais atenção.
Pensa com o coração.
Não vês o reflexo do sonho?
Não vês que tudo tem a sua intenção?

Intenção de nos apaixonar,
De nos fazer pensar,
De nos tornar sonhadores
Ver o mundo de todas as cores.

Afinal as sombras não existem,
Afinal o que parecia nada é tudo.
Terra é única,
Única e apaixonante,
Como o sol de uma manhã brilhante.

Ana Rita Carvalho 


E assim se vivem "manhãs brilhantes". 
Graças também à escrita e à leitura.
E a quem tão bem as partilha.
Felizmente, também esta é uma parte do nosso ofício.





Narciso(s)


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Um comentário (ainda) atual!


Recebi um comentário de A.V. ao post "Ei-los que (também) partem".
Pela atualidade, transcrevo-o aqui .
De facto, os escritores estão, muitas vezes, 
à frente do seu tempo.
 Muitos governantes, porém, vão apenas atrás do seu tempo, 
não havendo, por isso, as mudanças necessárias.

Encontrei, hoje, este comentário a uma notícia sobre o actual clima económico em Portugal, bem a propósito da sempre actual situação do país e da "sangria" demográfica que lhe tem andado associada. É incrível a actualidade do nosso Eça de Queiroz.

«Querido Leitor: nunca penses em servir o teu país com a tua inteligência, e para isso em estudar, em trabalhar, em pensar! Não creias na inteligência, crê na intriga! Não estudes, corrompe! Não sejas digno, sê hábil! E sobretudo nunca faças um concurso: ou quando o fizeres em lugar de pôr no papel que está diante de ti o resultado de um ano de trabalho, de estudo, escreve simplesmente: sou influente no círculo tal e não mo façam repetir duas vezes!»

«É estranho – que haja quem estranhe a emigração. Nós estamos num estado comparável à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma decadência de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país caótico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa da Europa – citam-se a par da Grécia e Portugal.
…Ora na Grécia, o facto permanente é a emigração. E nós emigramos, pelo mesmo motivo que o grego emigra – a necessidade de procurar longe o pão que a pátria não dá.
… Que querem os senhores que se faça num país destes? Sair, fugir, abandoná-lo. O país é belo sim, de deliciosa paisagem. Mas a politica, a administração, tornaram aqui a vida intolerável. Seria doce gozá-lo, não tendo a honra de lhe pertencer. Só se pode ser português, sendo-se inglês!
… Mas enfim é tomar o caminho – é implicitamente confessar que a vida é extremamente difícil em Portugal – e que a acção natural que todo o cidadão português deve ao seu país – é abandoná-lo».
Eça de Queiroz – As Farpas - Novembro de 1871

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

A palavra...



 " A palavra tem sido usada para alertar, mobilizar, consciencializar, convencer..."
Assim começava a instrução do texto argumentativo da prova intermédia de hoje, realizada pelos alunos do 12º ano.
E logo me vieram à cabeça palavras de poetas.
As Palavras
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade
 
Carolina Celas
Há Palavras que Nos Beijam


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill