A cena repetia-se. Ao pôr do sol, quando o calor amainava e ficava mais espaço no areal para as gaivotas, ela chegava à praia com os seus óculos escuros e chapéu de abas largas. Sentava-se no muro em frente à esplanada, com meio corpo inclinado para o pôr do sol e balbuciava algumas palavras não muito percetíveis.
Os habitués da esplanada, para o último fino do dia com tremoços e amendoins, já se tinham habituado à presença dela, sentada de lado, no muro baixo e em frente. Houve até quem a fotografasse à sorrelfa apenas porque dava uma boa foto a contra-luz.
Porém, uma das crianças, naturalmente curiosa, aproximou-se da mulher para perceber o que dizia e ouviu-a repetir:
- Será que voltas amanhã? Será que voltas amanhã?
Logo que percebeu as palavras dela, veio, a correr, contar.
- Mãe, a senhora perguntou se voltava amanhã. Ela fala com o sol?
- Talvez, filho, ou dirigia-se a alguém.
- Mãe, mas eu não vi ninguém.
- Pois, filho, se calhar, é mesmo o sol que a senhora procura!
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