quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
Afinal, estou no instagram!
segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
Proximidades - uma obra de autores de Gondomar
Em finais de novembro, foi apresentada a coletânea Promidades, com textos escritos por 29 autores de Gondomar. Eu, que nasci e sempre vivi em Gondomar, desconhecia que tantas pessoas gostavam de escrever e que tinham obras publicadas. Como o tempo está frio, escolhi este pequeno texto para partilhar, ao qual dei o titulo 'Neve'.
Neve
O menino, com alegre e real
vivacidade,
falava de neve como se
nela tivesse caminhado com os seus próprios pezinhos;
lembrava bonecos de neve,
feitos com o macio e frio material;
desenhava uma janela donde
se viam flocos de neve a cair, cobrindo o pequeno jardim de ondulada brancura;
contava jogos com bolas
de neve e fazia gestos redondos para os explicar;
repetia - «‘Adoio’ a neve»,
com os olhitos a brilhar. Como não sabia pronunciar os erres, substituía-os pelo
i, suave letra que cria palavras como infância, imaginação…
Quando um dia mais tarde
contaram ao menino, que já não era menino, este bocadinho da sua infância, ele sorriu
e recordou, nitidamente, paisagens de neve de que então falava e que causavam estranheza
a quem o ouvia. Sabia que existiam em
livros de histórias e em muitos dos seus sonhos.
domingo, 28 de dezembro de 2025
O Natal está onde o homem e a mulher quiserem. E puderem, é claro!
Com o Natal ainda tão próximo, partilho a história que escrevi para os Lugares e Palavras de Natal, da editora Lugar da Palavra.
Que esta quadra natalícia traga, para todos, saúde, bons lugares, boas palavras... E assim continue!
'Ao
entardecer e no regresso a casa, escuta
a
canção do rouxinol e depois com o olhar
segue
o caminho de uma pequena nuvem'
John Keats
O guia japonês e o
rouxinol ou um belo presente de Natal
Quando me preparava para
sair do pequeno museu, a minha autoestima parecia aparada rente como a relva do
jardim circundante. O que valeu foi a rececionista que, simpaticamente, me fez esquecer o que me desagradara na
visita guiada. Enquanto eu pagava uns postais, perguntou-me, gentilmente, de
que país eu era natural. Quando referi Portugal, abriu um sorriso e falou-me dos
vinhedos do Douro e da praia da Nazaré, lugares que ela já tinha visitado. Do
Douro, recordou os laboriosos socalcos e da Nazaré, a vastidão alta do mar e as
saias pujantes das Nazarenas. Realçou também sabores do vinho e do peixe fresco.
Mas voltemos ao início da
minha história.
Durante umas férias de Natal
em Londres, resolvi ir a Hampstead, para visitar a casa-museu de John Keats, o famoso
poeta romântico do século XIX, celebrizado por poemas como «Ode a um Rouxinol».
À chegada, apreciei a
arquitetura da casa, sóbria e integrada na verdejante região. Para além do imóvel,
queria conhecer um pouco da vida e obra do poeta inglês, de quem tinha lido apenas
um ou outro poema.
Quando entrei, fui
informada que haveria em breve uma visita guiada e logo me inscrevi. Como tinha
tempo, deambulei pelas poucas divisões da casa, percorrendo os espaços devagar,
parando em retratos do poeta, da mulher amada, dos amigos, e em objetos de
Medicina - área em que ele havia trabalhado antes de se dedicar inteiramente à
poesia. Detive-me também em frases do poeta, dispersas pela casa, que celebravam
a vida e os sentidos:
«Dê-me
livros, vinho francês, fruta, bom tempo e um pouco de música ao ar livre...»
A visita guiada
prometia. Seria um presente de Natal que me dava a mim
própria.
Um pouco antes do início
da visita, perto de mim e também à espera, já estavam dois homens e uma mulher,
todos de aparência nórdica: muito altos e muito brancos. A um canto da loja,
integrada na sala de entrada, estava sentado um jovem magro e de baixa estatura,
camisa branca, cabelo preto espetado, ar tímido, e rosto com traços orientais.
À hora certa, levantou-se, aproximou-se, cumprimentou-nos, e disse ser o nosso
guia. A visita ia começar.
Vi logo que nós, os quatro
visitantes, deveríamos ter idades similares, que os três nórdicos se expressavam
muito bem em língua inglesa e que conheciam bem a época do Romantismo, assim
como a vida e obra de Keats, sobretudo o casal. O outro homem era bastante reservado,
talvez menos conhecedor daquelas matérias, preferindo receber a informação de
forma menos ativa. Tal como eu.
A visita foi-se
desenrolando e fui dando conta de pormenores que me tinham escapado na deambulação
anterior, o que me agradava porque me acrescentava saberes. Porém, o meu
conhecimento da língua inglesa não me permitia captar todas as palavras ditas
ao ritmo normal de um falante inglês, o que se refletiria nos meus olhos. Ora,
o guia, nas suas explicações, olhava sobremaneira para o casal mais interventivo
e para o outro homem quando este se manifestava. A mim, porém, nunca dirigia o
olhar, talvez por eu não intervir com questões ou achegas. É que quase tudo
para mim era novo e estava ali essencialmente para ouvir e aprender.
O facto de nunca ser
olhada lembrou-me a existência de tanta gente anónima por quem se passa sem
olhar, como se não estivesse ali uma vida, uma história, um rosto. Tornei-me
assim um pontinho nessa multidão tão próxima, mas que julgamos tão diferente e distante.
Eu seguia o pequeno grupo,
ao longo das poucas salas e corredores, mas sentia-me uma frágil medusa entre
seres enormes e invencíveis.
Eu era um peixe que podia
nadar dentro ou fora da água, com ou sem ruído, mas que ninguém tentaria pescar,
porque era impercetível.
Eu era um aluno nunca olhado
na sala de aula e cujo nome é ignorado ou confundido.
Eu era alguém que espera
a sua vez numa fila qualquer, vendo pessoas mais seguras a passarem-lhe à
frente e logo atendidas.
Eu era o menino pequeno e
moreno que quer jogar, mas a quem não passam a bola porque tem menos treino.
Eu era o velho de quem
desviam a atenção e o olhar, porque não está a perceber.
Eu era a criança que se
distrai porque se sente esquecida.
A visita continuava e a
minha imaginação ia voando como o rouxinol do poema de Keats ou da pintura de Joseph
Severn, que vi na sala grande que dava para o jardim.
E, nestas divagações, imaginei
o guia em criança, de rosto redondo e calças muito largas, a caminhar com o pai,
lado a lado e em silêncio, debaixo de cerejeiras floridas, dando passos lestos
e miúdos. O rapazinho precisava de um olhar, mas como o pai não o ouvia, não
alterava o rumo dos passos nem dos olhos.
Talvez o jovem repetisse agora o que vira
fazer durante muito tempo.
Ainda lhe faltariam
muitos Natais para inovar?
Apenas na despedida da
visita guiada, vi o seu olhar distribuído por todos os elementos do grupo,
bastando esse pequeno gesto para se acenderem luzes na árvore da humanidade.
À minha saída, a amável
rececionista perguntou-me se eu tinha gostado da visita. Respondi-lhe que sim, apesar
de não ter compreendido muitas coisas. Ela, talvez pela experiente empatia, elogiou
a minha expressão em língua inglesa. Sorrindo, agradeci e desejamo-nos um Feliz
Natal.
Bem perto dela, estava o
jovem guia de novo sentado na cadeira do canto à espera de novos visitantes.
Com a luz a incidir-lhe na cabeça negra, ele parecia uma figura mística de
olhos voltados para a janela alta e larga.
Pudesse ele estar a olhar
os diferentes pássaros que por lá se cruzavam, sem buscar apenas o rouxinol.
Se tal
acontecesse, seria também um belo presente de Natal.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2025
Dia 10 de dezembro
Ontem
Quando a minha filha mais nova era adolescente, leu quase todos os livros que Clara Pinto Correia ia publicando. A professora, cientista, escritora, jornalista era um ídolo para ela. Ontem dei-lhe a notícia da sua morte. E acrescentei coisas que li e conclusões pessoais a que cheguei: era genial, produziu tanto desde tão nova, teve aplausos e reconhecimento de toda a parte, nem beleza física lhe faltava, amou e foi amada…
Porém, as asas foram perdendo fulgor e a queda foi abrupta quando foi acusada de plágio por artigos enviados para a revista Visão. Parece que morreu só e com ordem de despejo da casa onde vivia.
Hoje, várias capas de jornais mostram o seu belo e expressivo rosto. Num dos títulos, aparece a palavra Princesa. É que o ‘viveram felizes para sempre’ é final em que já ninguém acredita.
Hoje
- Mãe, o dia 10 de dezembro também calhou numa quarta-feira, não foi?
- Sim, filha.
. …
- Tínhamos estado os dois de mãos dadas no hospital, desejosos de voltar para casa.
- …
- E voltámos só nós.
terça-feira, 9 de dezembro de 2025
Flashes com um feriado dentro
Manhã de domingo
Enquadrada na Feirinha de Natal, estive na pequena tenda da APEG - dos autores de Gondomar, no Parque Urbano. Julgo que foi a primeira vez que fui 'livreira' e gostei da experiência. Na banca, estavam livros escritos por autores que residem ou estão ligados a Gondomar. Muito perto, havia uma barraquinha de doces. Boa e gostosa vizinhança. Curiosas são as reações das pessoas que passam: umas aproximam-se e olham, mesmo que nada comprem; outras aceleram o passo dando a entender que livros não interessam; outras dizem às crianças para escolherem um livro... E as pequenas conversas ali geradas foram bonitas, mas muito mais ainda era ver crianças risonhas, na companhia dos pais, com o seu livrinho na mão.
Tarde de domingo
Fui ao Teatro Nacional de S. João com amigas ver a peça Branca de Neve e Outros Dramalhetes, de Robert Walser, encenada por Nuno Carinhas. Apesar de 'o Porto aqui tão perto', há bastante tempo que não passava nas imediações do Teatro. Como chegámos mais cedo, deu para entrar no cinema Batalha, agora de cara bem fresca e lavada, com grandes cartazes das Meninas Exemplares, filme de João Botelho, que mostra pinturas de Paula Rego e que lembra as histórias da Condessa de Ségur. Impossível não recordar os tempos há muito já idos em que corríamos para ir buscar livros à biblioteca itinerante da Gulbenkian, que passava em dias certos e felizes.
Manhã de feriado
Será que a mesa da sala iria ficar com menos tralha? Ou, melhor dizendo, sem os sacos de papel, as fitas, as prendinhas para começar a organizar o Natal? Fiz o pequeno almoço. Para tomar devagar. Liguei o rádio na cozinha - um velho rádio que tenho há uns quarenta anos e que, de vez em quando, começa a falhar. De repente, perde o pio. Ao lado, a pequena televisão que também perdeu a voz e o rosto. Digo para mim: Substituo-a? Com o rádio, aprendo mais. Café, torradas, um ovo mexido - tudo tomado quentinho, vou para a sala. Dali a um par de horas, a mesa está mais desanuviada, mas ainda com jornais e revistas. Ah, e o medidor da tensão para registar os números na folhinha. Fica para a tarde. Não me apetece tirar o casaco.
Tarde de feriado
Depois de almoço, tomo o café no sofá. Em caneca, não em chávena pequena. Gosto de sentir o calor prolongado nas mãos. Dou uma vista de olhos a Expressos das últimas semanas, trazidos pela minha filha, mas que tinham ficado por ler. Separo o que me interessa mesmo e que não gosto de perder, como o caderno 'Ideias', onde está a crónica de Isabela Figueiredo que leio sempre. Recebo um telefonema de uma amiga muito talentosa que produz peças bonitas e originais. Passará por cá, porque preciso ainda de algumas coisas e gosto sempre de falar com ela. Separo os jornais já lidos. Costumavam ir para reciclar, agora vão para uso de um mecânico que mora perto. Queixa-se de que não encontra jornais para limpar os carros! Pode ser que, pelo menos, leia alguns títulos.
Na próxima semana, não haverá feriados. Que sejam bons todos os dias!
sexta-feira, 5 de dezembro de 2025
Ajudas a escrever a carta? Perguntou ela!
Mãe, ajudas o menino a escrever a carta?
Claro, respondi eu.
Precisava era de saber que tipo de carta tinha de ajudar a escrever e para quem. Estava tudo na mensagem enviada pela educadora. Li. Que bonito, pensei. E tão necessário. E tão diferente do que se fala nos tempos que correm. Ainda bem que a educadora, jovem, motivada e alegre, fala destes assuntos com os meninos. Tinha havido um sorteio e cada menino ficou a saber a quem deveria endereçar a sua carta. Uma carta de bondade.
Ora, já no carro, e de regresso a casa, perguntei-lhe sobre a carta, para irmos já falando sobre o que iria ficar escrito. Eu queria que as ideias fossem dele e não minhas, porque era ele que conhecia o amiguinho, de cujas qualidades queria falar.
Então, meu amor, o que vamos escrever na carta? Fui perguntando e ouvindo respostas.
Ele aceita as minhas desculpas, mas às vezes não aceita de outros meninos.
Como era uma carta de bondade, achei melhor realçar o que era positivo e disse:
- Talvez seja melhor só dizeres que aceita as tuas desculpas. Até pode ser que passe a desculpar mais.
Concordou.
E foi acrescentando:
- E ajuda-me quando é preciso.
E também o ajudas? - Perguntei eu.
- Também.
Ótimo, disse eu.
Então, podemos dizer que gostas de brincar com ele, que ficas contente quando ele te ajuda e que também gostas de o ajudar.
- Ó avó, ele fala línguas diferentes, acrescentou.
Que bom, disse eu.
Na cartinha que escrevemos, quando chegámos a casa, ficou também: Gosto de te ouvir a falar línguas diferentes. É muito fixe.
E, já agora, abordar estes temas (não quero dizer valores, porque é palavra que serve para tudo e mais alguma coisa) na escola e na família é ainda mais fixe, senão, daqui a pouco, as crianças nem sabem o que é bondade, respeito... porque os adultos vão-nos apagando a uma velocidade atroz.
Felizmente (ainda) há Esperança!
quinta-feira, 4 de dezembro de 2025
Chama-se Maria?
Há dias, fui a uma farmácia aonde não costumo ir e que fica num Centro Comercial do Porto. Quando entreguei a receita à farmacéutica, bastante jovem, ela fez-me uma pergunta: Chama-se Maria?
Eu disse que sim, estranhando momentaneamente a questão. Ora, a razão da pergunta seria a de facilitar as perguntas seguintes que me iria fazer:
- A Maria quer genérico?
- A Maria tem cremes hidratantes em casa?
- A Maria quer número de contribuinte?
...
Não deixei de achar graça à forma de tratamento, porque não é usual, sobretudo antecedida pela pergunta do primeiro nome e sendo eu de uma geração muito mais antiga. Seria mais comum dizer 'a senhora' e ainda bem mais habitual, na região, dizer 'você', palavra que sempre começamos por bê e que nem sempre cai bem. E não é só pela troca do vê pelo bê, mas porque o 'você' implica outra proximidade.
Ah, para além da forma de tratamento que usou e que fixei, também não esqueci o conselho que me deu e que tenho posto em prática e com sucesso:
- Se a Maria tem creme Nivea em casa, use-o para hidratar as mãos.
Para a próxima, volto lá.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2025
segunda-feira, 24 de novembro de 2025
Sentimento matinal
Se eu não lesse
Treslia
Se não escrevesse
Sentiria mais desordem
Em mim
No mundo
À minha volta
Se não tivesse flores no jardim
O oásis estava mais distante
Se não tivesse familia e amigos
Os temporais
Eram desabrigo
Se não houvesse beleza
A chuva que agora cai
Era servida mais fria!
domingo, 23 de novembro de 2025
Convite - Proximidades
Convite - Histórias da avó
Para além das histórias, escritas pela avó, os desenhos são das netas - alguns a preto e branco para os leitores poderem ilustrar.
Ronaldo, diz-me com quem andas...
Já não é novidade para ninguém a viagem que Cristiano Ronaldo fez há dias à Casa Branca. Já não lhe basta ser o melhor jogador do mundo, possuir imensa fortuna, ser o campeão de seguidores nas redes sociais, o ídolo de diferentes gerações e mais e mais e mais.
Há pouco, numa entrevista televisiva, Cristiano Ronaldo exprimiu a sua grande admiração por Trump, apelidando-o de grande executor e mostrando vontade de o conhecer pessoalmente.
Ora, esta pretensão (por certo, já combinada) interessava a Trump, que gosta de ser bajulado e que vai tendo muita oposição mesmo junto dos republicanos, e agradava igualmente ao príncipe herdeiro da Arábia Saudita, país do Al-Nassr, clube onde joga Cristiano. O governante havia sido convidado para ir à Casa Branca, onde foi recebido com enormíssima pompa e circunstância, e na comitiva do poderoso príncipe das Arábias lá foram o CR7 e a bela Gio ao encontro do homem mais poderoso e imprevisível do planeta.
Não é por acaso que o próximo campeonato mundial de futebol vai decorrer também nos EUA e que o príncipe da Arábia Saudita, para além dos negócios, aceitará ajudas poderosas para se ‘limpar’ do assassinato de um jornalista americano, de que é acusado, o que reitera a falta de liberdades no seu país, nomeadamente de expressão, religiosa e de direitos sobretudo das mulheres.
E o Cristiano Ronaldo, que representa a seleção portuguesa e, como tal, também Portugal, prestou-se a esse papel que lhe atribuíram de rico tira-nódoas.
Nesse jantar de luxo tão mediatizado, muitos negócios terão sido feitos, muito dinheiro deve ter circulado e também Ronaldo terá tido janelas de oportunidade para aumentar a sua fortuna.
Porém, por estas e por outras, ele pode ficar ainda mais rico, mas também se arrisca a ficar … mais pobre de espírito!
sábado, 15 de novembro de 2025
Vai embora, Cláudia!
Conheço várias Cláudias
Mas como esta é que não
Ataca de dia e de noite
E não tem contemplação!
E com ela vem a chuva
E a temida trovoada
Faz crescer rios e ribeiros
Torna a terra encharcada!
E enfuna-se de vento
Que despeja enraivecida
Derruba muros e telhados
E às árvores tira vida
Mas o que é bem pior
É haver mortos e feridos
E custa ver tantos bens
Tão depressa destruídos
Ó Cláudia, vai-te embora
Com teus repentes enigmáticos
E uma coisa já sabemos
Que combater todos temos
Os maus efeitos climáticos!
quinta-feira, 13 de novembro de 2025
Ele estava contente. E tinha razão!
Como combinado, hoje de manhã, ele tocou-me à porta. Vinha receber de uns pequenos trabalhos de trolha. Trazia um boné e vestia um casaco que usa nas corridas e maratonas. Quando lhe abri a porta, tirou o boné, coisa que já vai saindo de uso, mas não da cabeça.
Está quase nos setenta, mas que ninguém lhe tire as corridas de longo curso. Diz que a mulher também o acompanha, embora corra menos por causa das dores nos joelhos, que vão melhorando porque ela também faz Pilatos (não é só ele que fala do segundo nome de Pôncio, dos Evangelhos, em vez de Pilates).
Falar com ele é engraçado, mas demora tempo. Gagueja, faz muitos gestos e não deixa para trás nenhum pormenor. Explica e justifica todos os trabalhos que faz. Quase que já aprendi como se fazem pequenos serviços de trolha. Isto na teoria, é claro.
Ele hoje estava contente porque me via contente com o trabalho que terminou. E disse-me, mais uma vez, que fica contente quando vê o trabalho bem feito e as pessoas também ficam contentes com o trabalho dele. E que, quando eu precisasse, ele vinha, porque agora só faz pequenos trabalhos. E que a mulher também o ajuda de vez em quando e que, assim, ela sai de casa e conversa, porque gosta muito de conversar.
- E agora, vou buscá-la ao Pilatos, disse ele. Só espero é que a senhora tenha ficado contente com o meu trabalho.
- Fiquei, obrigada. Ficou tudo muito bem. Realmente, ter as coisas a funcionar em casa dá mais qualidade de vida.
- Com as coisas bem feitas, todos ficamos contentes, disse ele com um sorriso de satisfação.
E dei-lhe razão. E logo me veio à cabeça o título de um podcast de que gosto muito. «A beleza das pequenas coisas».
domingo, 9 de novembro de 2025
terça-feira, 4 de novembro de 2025
Encontrei hoje numa pasta qualquer
O silêncio da casa
Deixo coisas por fazer
para que a casa continue assim
em silêncio
não sei se exala passado
ou sobretudo o agora
mas o momento é sereno
e não quero desperdiçar nada
do silêncio da casa de hoje
a cama está por fazer
a cozinha por arrumar
a roupa por passar a ferro
mas nada disso importa
não posso perturbar
o silêncio da casa
olho a tua fotografia
e não te digo nada
volto a olhar
volto a nada dizer
não é preciso
conheces o meu amor
pelo silêncio
- Mas com arrumação!
pressinto que vás acrescentar.
15.09.2020
sexta-feira, 31 de outubro de 2025
Andamos nervosos ou é de mim?
Conheço um casal de brasileiros que vive em Portugal há uns anos. Ela diz que só soube o que era andar na rua sem medo aqui em Portugal. Com um brilhozinho nos olhos, fala da segurança que agora sente e, apesar de ter saudades do Brasil, diz que não quer voltar. Só se for para visitar a família e os amigos. Estão legalizados, trabalham, pagam impostos e têm um filho.
Quando ela me fala da maravilha que é andar fora de casa e a qualquer hora sem medo, eu lembro-lhe que aqui também há assaltos, roubos, etc. Ela sorri e diz: Nada a ver!
Para além desta grande dose de paz e segurança, que muitos querem contrariar, sinto que muitos portugueses andam tristes. Para além da tristeza, existe solidão e descrença em políticos e em instituições. Não se sabe se o que dizem é verdade, meia verdade, mentira ou jogo político só para caçar votos e continuar no poder. Por isso, desconfia-se cada vez mais de tudo e de todos.
Assistir, por exemplo, a uma sessão na Assembleia da República revolta, dececiona e cria um grande vazio. Todo aquele barulho, o ver quem arrasa mais o outro, o riso de escárnio, o insulto, as palavras indecentes, o desrespeito, as falácias, fazem com que o comum dos mortais se sinta confuso e cada vez mais só.
Andamos nervosos. E desconfiados. E desiludidos. E acabrunhados. Se for só de mim, é melhor.
Para muitos imigrantes somos, de facto, um oásis. Não pelas mentiras que os extremistas inventam, como a história dos subsídios a torto e a direito, mas pelo que encontram que é bem melhor do que a realidade dos seus países.
Também muitos portugueses emigram em busca de uma vida melhor e de mais reconhecimento. Nos países que os acolhem, trabalham, pagam impostos, constituem família e não querem voltar.
Mas disto não se fala porque não dá jeito.
quarta-feira, 29 de outubro de 2025
Bom dia! O que li hoje no EXPRESSO curto, com texto de Isabel Leiria
«Os primeiros cartazes do Chega a apoiar a campanha de André Ventura para as presidenciais foram colocados em concelhos da margem Sul com mensagens que os procuradores do Ministério Público (MP) deverão avaliar se configuram algum tipo de crime ou um mero exercício de liberdade de expressão, como advoga o próprio candidato a Presidente da República.
“Isto não é o Bangladesh”, lê-se num deles, “Os ciganos têm de cumprir a lei”, escreveram noutro e os “Imigrantes não podem viver de subsídios”, num terceiro. Se a ideia do primeiro é insinuar que Portugal foi ‘invadido’ por hordas de imigrantes oriundos daquele país, nada como apresentar os números para mostrar como se afastam da realidade vivida no país. Dos 1.543.697 cidadãos estrangeiros que residiam em Portugal a 31 de dezembro de 2024, pouco mais de 55 mil são originários do Bangladesh. É a sétima nacionalidade mais representada, muito longe dos 485 mil cidadãos brasileiros, que estão no topo da lista. A mensagem, a fazer lembrar slogans racistas e xenófobos do passado (e, lamentavelmente, do presente) mereceu já o repúdio de várias dirigentes. “Este racismo não existia em Portugal. Os portugueses não são assim”, declarava há dias o porta-voz da comunidade do Bangladesh em Portugal, Rana Taslim Uddin.
Sobre os ciganos terem de cumprir a lei, não se percebe outro alcance da mensagem que não a estigmatização gratuita de um grupo. Pessoas de outras origens étnicas, raciais ou culturais, tal como os militantes do Chega a braços com a Justiça, não têm de cumprir a lei? Um grupo de associações ciganas já disse que ia apresentar queixa junto do MP.»
sexta-feira, 24 de outubro de 2025
As histórias que faziam mal ao cérebro
Quando a Clarinha era mais pequena, gostava muito de histórias de princesas, de brinquedos de princesas, jogos de princesas, adereços de princesas, de vídeos de princesas...
Lá por casa, não faltavam princesas em papel, em cartão, em livros, em adereços de princesa como tiaras, etc,
Quando havia qualquer data festiva, lá vinha a pergunta:
- Clarinha, o que queres para presente?
E a resposta não se fazia esperar:
- Um vestido de princesa! Ou um livro de histórias de princesas. Ou um livro de princesas para colorir...
Um dia, perante tanta princesa por todo o lado, o pai disse a Clarinha:
- Tantas histórias de princesas fazem mal ao cérebro!
A Clarinha ficou a olhar para ele muito séria, mas que ninguém lhe tirasse o mundo mágico das suas princesas.
Ou por aquilo que lhe disse o pai ou porque o tempo também vai dizendo muita coisa, ao amor pelo mundo das princesas seguiu-se o amor pelo Panda e depois o grande amor pelo Harry Potter. Que ainda continua.
Daqui a algum tempo, não sei o que virá. Mas todas estas diferenças de gosto só podem fazer... bem ao cérebro.
quinta-feira, 23 de outubro de 2025
'O lado oculto'
Tem passado na RTP, canal 2, pelas 20.40 da noite, uns documentários muito interessantes, na minha opinião. O nome da série é 'O lado oculto'. Karina Marceau, canadiana do Québec e principal dinamizadora do programa, fala de práticas culturais, sociais e económicas não muito conhecidas em diferentes países.
Num dos últimos programas, mostrou como a gastronomia do Peru é uma grande riqueza crescente, sem deixar de referir a violência que existe nalgumas cidades. Muitos chefes de cozinha utilizam elementos cada vez mais naturais para dar sabor e beleza aos seus pratos.
Hoje, julgo que o país apresentado é a Etiópia e estou com curiosidade sobre os aspetos que vão ser revelados, porque, habitualmente, esse país africano é mencionado pela sua pobreza. Ora, de certeza que outros lados serão mostrados. Não para fazer esquecer realidades mais duras, mas evidenciando aspetos também relevantes e que são muitas vezes esquecidos.
Quem ainda não viu o programa, se puder, veja. Vale a pena. E também o dinamismo da apresentadora e os diálogos empáticos que estabelece com as diferentes pessoas dos mais diversos lugares.
segunda-feira, 20 de outubro de 2025
'Fui namorar (para) o Porto!'
Tenho uma amiga que é muito criativa e leva a sério coisas boas da vida, vivendo-as sempre que pode. Ora, este fim de semana, mandou-me esta mensagem, que puxei para título, e que achei deliciosa. Tinha ido com o marido a lugares bonitos do Porto, cidade onde, há muitos anos, tinham começado e continuado a namorar.
E revi, em pensamento, o nosso Porto, tão belo e importante, mas atualmente com muitas ruas e lojas que se vão descaracterizando para que o turista coma o pastel de nata e o bolinho de bacalhau com recheio de queijo da serra e compre o souvenir que é igual em muitas lojas também iguais.
Há tempos, procurei uma retrosaria porque precisava de fitas de cores variadas. Depois de muito procurar e perguntar, lá as encontrei quase escondidas numa loja de tecidos. Várias pequenas lojas, com donos ou empregados já muito antigos, onde se consertava tudo e mais alguma coisa, vão fechando, para darem lugar ao negócio de alojar os turistas, que é bem mais próspero.
Porém, quando critico muitos pedaços do Porto que crescem para turista ver, para turista comer, para turista comprar, não deixo de me lembrar que nós, portugueses, também visitamos cidades de outros países e os comportamentos não são muito diferentes, nem o que se pretende no imediato difere muito.
Mesmo assim, apesar de os novos tempos trazerem naturais diferenças, oxalá que a identidade, por exemplo, de alguns cafés seja preservada. Para se poder continuar a dizer com um brilhozinho nos olhos: 'Fui namorar (para) o Porto'.
domingo, 19 de outubro de 2025
'Bom sol em Spinum'
Ontem fui à 'minha' cidade com mar ao fundo. Disse a uma amiga que ia lá passar o dia. Ela, com graça, desejou-me bom sol em Spinum e pensei para mim: o raio da spinumviva salta logo à ideia quando se fala de Espinho, o que não tem graça nenhuma. Também há anos o Valentim Loureiro vinha logo à baila quando se falava de Gondomar, como se toda a gente recebesse eletrodomésticos do ruidoso major.
Pois bem, soube-me bem o dia calmo e despreocupado de ontem, sem ter nada marcado nem nada de especial para fazer. Tomei um café devagar, vi o mar, embora de longe (sou preguiçosa tantas vezes!) e, depois de almoço, passei no jardim junto à biblioteca. Num banco, havia uma mulher ao sol; mais à frente, um jovem casal chamava pela filha pequenina que corria atrás dos pombos que entravam na brincadeira e corriam ainda mais. Ou então fugiam do perigo. Entrei na Biblioteca. Um homem lia o jornal e uma mulher usava um computador. Li os anúncios, os titulos dos jornais, a biografia da autora do mês e saí.
O casal e a criança já não estavam no jardim, a mulher continuava sentada ao sol. Na rua também já não se ouviam as vozes das peixeiras a apregoar o peixe miúdo. Algumas lojas tinham fechado por ser fim de semana e as espalanadas iam-se enchendo, com muita gente a desfrutar do sol e das horas livres.
Para hoje prevê-se chuva aqui no Norte. Por mim, será bem-vinda, tal como foi ontem o sol em Spinum. As confusões da Spinumviva é que nunca o serão. Livra!
domingo, 5 de outubro de 2025
Por cá, também os livros entram na Festa!
Por estes dias, Gondomar está em Festa. É a Senhora do Rosário. Também conhecida pela Festa das Nozes, Festa do Rosário, ou, simplesmente, Rosário.
Pois bem, o tempo está de um outono quente e de céu azul e lá estão as agitadas e bem sonoras diversões e as barraquinhas de brinquedos, onde me vejo ainda criança a receber tachinhos e panelinhas das mãos da minha mãe. E, sendo já eu a mãe, a comprar um brinquedo para as minhas filhas e, agora como avó, para os meus netos.
E como me recordo dos Robertos, no largo do Souto, bonecos que se moviam num palcozinho pequeno e nos faziam rir às gargalhadas. Há muito que partiram, mas não as barracas das nozes, das castanhas, dos bolinhos de amor, dos figos secos... E dos nabos e do vinho doce e de tantas coisas boas que também o outono traz. Ah, e também não costumam faltar os vendedores ambulantes, com microfone preso ao peito, a apregoar o pague um, mas não leva só um nem dois, nem três... e ainda leva isto e mais aquilo...
Mas entremos agora nas tasquinhas, onde a esta hora, já haverá pessoas a saborear o caldo de nabos, as papas, as inúmeras iguarias tradicionais, cozinhadas e apresentadas por coletividades de Gondomar. É uma Festa para os sentidos.
Mas a Festa com palavras é ainda mais Festa! Por isso, junto às saborosas tasquinhas, há também uma bonita e bem disposta barraquinha com venda de livros, de temas muitos variados, e cujos autores estão ligados a Gondomar. Tal acontece graças à colaboração e entusiasmo de muitos desses autores que estão presentes, dando vida a esta e outras iniciativas de divulgação de obras que se vão produzindo.
Em breve, haverá uma bela e bem cuidada coletânea de textos escritos por autores de Gondomar e que nasceu de uma conversa feliz de um pequeno grupo, que não só teve a ideia, mas passou à sua concretização, através de um trabalho que se foi alargando e que é de louvar e de reconhecer. A seu tempo, darei conta dessa publicação coletiva. De facto, a Festa é mais Festa com união e com livros.
Boas leituras e bom domingo! E que haja sempre uma festa a celebrar!
quinta-feira, 2 de outubro de 2025
A ameixoeira que não gostava de estar só
Era uma vez uma ameixoeira
que morava num quintal muito acolhedor. A vizinhança era muito variada: duas
macieiras, três pés de abóbora, um limoeiro, margaridas, camélias, azáleas,
arruda, erva-cidreira, manjericão, lúcia-lima, hipericão…
A ameixoeira dava frutos
escurinhos e aveludados. A família gostava de os colher e saborear junto à
árvore-mãe.
Um dia, as folhas da
ameixoeira começaram a secar. De princípio, era uma aqui, outra ali, mas, em
pouco tempo, ficaram todas murchas e sem vida. Bastava uma pequena brisa para
as fazer cair ao chão. Qualquer aragem as desprendia e atirava-as para terra.
No ano seguinte, o mais certo
era não haver compota de ameixa.
Ora, junto da ameixoeira,
vivia uma buganvília de cor bem vermelha.
Enquanto a ameixoeira secava, a buganvília
crescia viçosa em várias direções, às vezes um bocadinho intrometida porque
espreitava e saltava o muro.
E, vá-se lá saber como ou porquê, um ramo da buganvília foi ao encontro da
ameixoeira fraquinha e o outro encostou-se ao tronco, amparando-o.
Apesar de parecerem abraços,
os ramos da buganvília nunca taparam a ameixoeira, para que ela pudesse
respirar à vontade e ter o seu espaço.
Porém, o tempo foi correndo e
quem passava por lá só tinha olhos para a buganvília, porque a ameixoeira
mal se via. Ainda.
Um dia, a dona da casa foi ao
quintal apanhar couves para a sopa. Se estivesse com pressa ou a pensar em mil
coisas ao mesmo tempo, nem teria reparado no que lhe saltou logo aos olhos. A
ameixoeira, que parecia estar a desaparecer, tinha novas folhinhas verdes.
Olhou várias vezes
com atenção, afastou uns raminhos da buganvília e viu que as folhinhas
renascidas eram mesmo da ameixoeira. Até o tronco estava mais forte.
Foi então que ela logo chamou
o neto para ver a ameixoeira renascida.
O menino olhou para a avó e
disse:
- Ó avó, se calhar a buganvília não gostava de estar só!
A avó sorriu-lhe e imaginou a
compota de ameixas que faria no ano seguinte. E, na mesa, não faltaria um raminho de buganvília
ao lado da compota.
segunda-feira, 29 de setembro de 2025
Vem aí o Natal
Já chegou o convite para participação na nova coletânea de Natal, da Editora Lugar da Palavra. É uma oportunidade de partilharmos o que escrevemos e ir deixando uma marca - por pequena que seja - no mundo em que vivemos. Já escrevi o meu conto. Apesar de o ter lido, relido, corrigido muitas vezes, ainda está a marinar. Há tempo para o envio: final de outubro.
Boa participação e boas escritas!
LUGARES E PALAVRAS DE NATAL – VOLUME XIV





















