quarta-feira, 30 de julho de 2014

DOMINGOS MIRA FLOR


2 – Na varanda - com a porta aberta de par em par



Domingos andava radiante. Encontrava-se com Flor todos os dias. Alguns estendiam-se até à passagem para um outro. Não queria, porém, sair de casa de Flor mais tarde do que a meia-noite, porque poderia haver pessoas a espreitar à janela para espantar solitária insónia. Estenderiam demasiado o olhar e as congeminações. A vida era sua até esta maravilha ter ponto final.
Domingos estava apaixonado por Mira Flor. Numa das últimas tardes, sentaram-se junto à varanda. Abriram a porta de par em par, voltando-se para a luz errante do rio. Domingos perguntou a Flor se podia pôr uma música de Rui Veloso. “Claro, Domingos, sabes que gosto muito das músicas dele e das letras de Carlos Tê”. “Pode ser Porto sentido, Flor?” Sim, que melhor escolha poderia haver num fim de tarde sentidamente calmo e tranquilo?
Antes de ouvirem a música, Domingos levantou-se e foi à cozinha. Chegou com dois copos de vinho branco bem fresco. “Bonitos copos”, disse Flor. “Vêm do casamento da minha mãe”, respondeu Domingos, com um sorriso meigo de quem aprendeu a acarinhar pessoas e coisas simples mas importantes da vida.
Brindaram. Domingos, aproximando-se ainda mais de Flor, exclamou: “Sou tão feliz, Flor”. Ela respondeu com um sorriso e com um beijo. Há muitos anos que não faziam tal confissão.
O gato, esse tinha desaparecido durante toda a tarde e, à noite, ainda não tinha regressado.

(Continua, possivelmente noutro lugar, mas sempre com Domingos e Flor por perto. Não sei se o gato também).

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