terça-feira, 19 de maio de 2020

COMPOTA DE AMEIXAS COM CHÁ E CHEIROS


 Já não é a primeira vez que partilho, aqui, esta "receita". 
Na verdade, nunca a fiz. Interessou-me mais pelo sabor da escrita do texto,
 apesar da sua simplicidade, do que a compota em si. 
Quando tiver ameixas no meu quintal, tentarei fazê-la.
Mas, claro, não a ofereço à vizinha. Se ela não gostar de ameixas.
 
Ingredientes:

500 g de ameixas frescas e maduras

Um bule de chá com açúcar

Quatro colheres, das de sopa, de rum

Algum tempo, muito afeto

Acessórios essenciais: uma cesta, ervas aromáticas, um bloco, uma caneta, luz do Sol

Se tiver quintal, percorra-o pela manhã. Lá pelo meio de uma manhã de Sol. Esqueça as ervas daninhas e tudo o que houver de mais rasteiro. Os olhos devem ser levantados para além da sua cabeça, junto das ameixoeiras. Use as duas mãos que ajudarão na procura de ameixas rijas e maduras. Não importa a tonalidade. Podem ser brancas, rosadas ou vermelhas. Tenha consigo uma cesta. No fundo, pode pôr hortelã-pimenta, alecrim, manjericão, lúcia-lima, erva cidreira… Colha os frutos ainda com algumas folhas. Utilize uma tesoura pequena de poda. Usada mas não enferrujada.
Se não tiver árvores de fruto, procure as ameixas num mercado tradicional. Se a vendedeira quiser aldrabar no preço, é por uma boa causa. Porém, não deixe de regatear. E de escolher os frutos bem frescos, perfumados, coloridos.
Chegando à cozinha, ponha a cesta – mesmo que vá ao mercado, prefira-a ao saco de plástico – sobre a mesa. Olhe com atençao as cores e os aromas. Pode até fotografar e registar, por escrito, as suas impressões, porque a memória muitas vezes é curta; as imagens amontoam-se, esbatem-se, apagam-se.
Utilize um bloco que tenha comprado numa viagem com momentos de luminosa descoberta. Ponha-o sobre a mesa e vá escrevendo frases soltas. Poderá reutilizá-las, recortando-as e colando-as no frasco. Evite tapar os frutos.
Não desligue o telefone nem o ponha em silêncio. Se alguém telefonar, partilhe o momento.
Lave depois as ameixas, já sem pé nem folhas. Faça-o numa vasilha grande, sem pressa, mexendo os frutos delicada e amorosamente.
Ao lado, tenha outra vasilha. Antiga de preferência. Que lhe traga boas recordações de alguém que gostava de si, que se preocupava consigo, que lhe mostrava sempre um sorriso e que também contava histórias doces.
Misture e ajeite bem as ameixas nessa vasilha. Sobre elas, deite devagar o chá. Use um bule que viu sobre a mesa em dias de festa ou em momentos felizes. Cubra todas as ameixas, independentemente da forma ou do conteúdo. Ponha a tigela num sítio fresco e tranquilo da cozinha. Dê-lhe espaço e visibilidade. Vá à arca e procure uma toalha de estopa ou de linho. Pode ser grossa e enrugada. Aconchegue-a sob a malga. Deixe repousar durante a tarde e a noite. Aproveite o silêncio aromatizado para escrever mais longamente.
No dia seguinte, levante-se cedo. Abra a janela. Espreguice-se, esquecendo que a vizinha é madrugadora e curiosa. 

Já na cozinha, escorra as ameixas e passe-as para uma compoteira transparente. O rum irá para o lume com um pouco de açúcar e a calda que ficou. Logo que tome ponto, deite-a sobre as ameixas, deixando macerar duas horas. Coloque a compoteira num sítio onde dê o Sol. Vá rodando o frasco para iluminar todos os frutos e poder observá-los melhor na sua unidade e diferença. Saboreie o momento. Guarde a cesta (não de esqueça de higienizar a superfície).
Por fim, ofereça ervas aromáticas à vizinha. Ela disse um dia que não gostava de ameixas.




Verduras, cheiros e flores!


segunda-feira, 18 de maio de 2020

Hoje é o recomeço de muitas das nossas vidas!


Hoje reabrem muitos serviços como escolas, museus, cafés, restaurantes e muitos mais.
Ontem, num grupo de amigos, também de Whatsapp, repetia-se: bom recomeço! Neste caso, de aulas do ensino secundário, após longo tempo de aulas à distância, nem sempre fáceis devido a falhas técnicas e ao afastamento do(s) interlocutor(es).
De facto, muitos professores e alunos vão reencontrar-se hoje, assim como muitos outros trabalhadores vão rever muitos clientes e amigos. A máscara usada por todos não impedirá um brilhozinho nos olhos em muitos momentos.
Vai haver histórias bonitas e outras menos bonitas para contar, porque, infelizmente, em muitos setores, houve pessoas que não resistiram ao Covid 19.
Hoje é o recomeço de muitas das nossas vidas: desde os mais pequeninos aos idosos que estão em lares, podendo já receber visitas, ainda que com as obrigatórias restrições.
Dezoito de maio de 2020: dia de recomeço de muitas atividades que preenchem e enriquecem a nossa vida.
Porém, cada dia que passa, em casa ou fora dela, não é ele sempre um recomeço?

domingo, 17 de maio de 2020

Um filme real e humano à Nanni Moretti

Já vi e gostei.
Está disponível no site Medeia filmes quarentena cinéfila até às 12 h da próxima 3a f, dia 19 de maio.

Bom filme!

'Margherita é uma realizadora em plena rodagem de um filme cujo protagonista é um famoso actor americano. Às questões artísticas que enfrenta juntam-se angústias de ordem pessoal: a sua mãe encontra-se no hospital e a sua filha em plena crise adolescente. O seu irmão, por sua vez mantém-se como uma constante na sua vida. Conseguirá Margherita estar à altura de todos os problemas familiares e artísticos que enfrenta?'

“Um filme tremendamente inteligente e encantador.”
Peter Bradshaw, The Guardian

“Simples e sensível, sem deslizes.”
Jacques Morice, Télérama




sexta-feira, 15 de maio de 2020

Já vi e gostei


O resumo que se pode ler na apresentação do filme que está disponível na Medeia filmes quarentena cinéfila até às 12 h de amanhã, sábado:

'Após a morte da mãe adoptiva, Hortense, uma jovem negra de 27 anos, decide encontrar a sua mãe biológica. Quando finalmente se encontram, Hortense fica espantada ao descobrir que a mãe, Cynthia, é branca e tem uma filha de 20 anos. No início, Cynthia fica perturbada ao ver a filha que havia esquecido há muito tempo. Contudo, mais tarde, decide desenvolver um relacionamento profundo (...).'



'Dans une famille...'

Postal enviado pelo Clube das Histórias 

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Quem...

Quem maltrata as crianças
Quem as humilha
Quem lhes rouba a confiança
Quem as culpabiliza sempre
Quem lhes fecha os sorrisos
Quem as agride
Quem lhes provoca medo
Quem as insulta
Quem as impede de brincar
Quem não as protege
Quem não as ouve
Quem não as acarinha
Quem não as quer compreender
Quem não cria expectativas
Quem sobre elas descarrega as suas fúrias ...
   Vai escurecendo o dia claro
          que brilhava na inocência das primeiras fotografias!
   Vai cavando uma tenebrosa linha vermelha
          com o sarcasmo  cobarde dos assassinos de sonhos!


Era uma vez...

Era uma vez um conto de fadas. Estávamos
na terra do sonho; o castelo tinha torres
que chegavam à luz; e a noite quente do verão
entrava pelas janelas e tapava-nos num aconchego de mãe.
Neste sonho, não havia
nem ogres nem lobos maus; e um barco
branco esperava por nós, no porto da cidade
para nos levar para o oriente onde o sol
nunca se põe. Nenhum de nós queria acordar
para nunca se esquecer deste sonho; e mesmo que
acordássemos, não iríamos abrir os olhos,
para não ver o que nos esperava, ao sair
do casulo dos sonhos. Mas se acordássemos,
e abríssemos os olhos, e víssemos que tínhamos
saído da noite para entrar no dia, que já não é
um conto de fadas, podíamos dizer
uns aos outros: “Este é o sonho de onde temos de acordar,
para voltar ao conto de fadas
onde a noite nunca se põe.”
Nuno Júdice



terça-feira, 12 de maio de 2020

A caixa mágica ou avó à distância!

Uma avó a viver em Portugal.
Uma neta de quase cinco anos a viver em Londres.
Um pai e uma mãe com muito teletrabalho.
Uma pandemia que impede viagens e aproximações.
Muitas saudades.
Um pedido-sugestão: 
- Mãe, não queres entreter a Clarinha pelo skype? Ela ficava contente, tu também e nós podíamos trabalhar um bocadinho.

Pois bem, por que não? 
E a primeira ideia para a primeira sessão de avó à distância foi juntar alguns objetos numa caixa. A tal caixa mágica.

A avó à distância contará em breve como foi.





sexta-feira, 8 de maio de 2020

Um livro fascinante


Hoje acabei de ler este livro de Javier Marías, autor nascido em Madrid em 1951.
Nos dias que correm, mesmo em tempo de pandemia, não é fácil ter vontade de ler um romance de quase quinhentas páginas. Porém, Berta Isla, publicado em 2018, tem um ritmo de escrita e de enredo que não deixa arrumar o livro à espera de melhores dias. Não falta mistério, equívocos a seu tempo desvendados, reflexões sobre a vida, sobre  as relações amorosas e muitos outros temas que se encadeiam de forma magistral e com grande vivacidade de linguagem e de situações, que surpreendem o leitor.
Conta-se a história de um homem e de uma mulher, nascidos em Madrid, que se amam desde muito novos. Casam e têm dois filhos. Ela é professora de Literatura, ele é agente secreto, vivendo este uma vida dupla e de longas ausências, nunca explicadas a ninguém, nem mesmo a Berta. Também é secreta a razão de ter começado a função de infiltrado.
Berta tem o seu trabalho, tem os filhos e tem constantes dúvidas sobre se e quando o marido vai regressar, assim como sobre as ações  a que está ligado e que têm base no Reino Unido.
A história inicia-se nos finais dos anos sessenta e vem até aos nossos dias. 
Javier Marías leva-nos, a nós leitores, através da narrativa, por acontecimentos marcantes do século: Franquismo,  Queda do muro de Berlim, Guerra das Malvinas...
As duas personagens principais, Berta e Tomás, são extraordinárias. Ela, porque é inteligente, culta,  alegre, decidida; ele, por razões mais obscuras: é misterioso, opaco, multifacetado, 'sempre a passar por quem não era'.
O que acabo de dizer é apenas uma grão de areia do mundo que o autor construiu neste livro. Só o consegue um escritor que tem a força e arte de narrar como Javier Marías.
Já tinha prometido a mim própria não comprar mais livros sem ler os que estão em espera.
Contudo, se vir algum de Javier Marías, não vou resistir. Mais do que ser um autor premiadíssimo em Espanha, logo me lembrarei de Berta Isla, um livro fascinante.

Obrigada, Idalina, por me teres permitido conhecer 
este autor através desta obra.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Sem ele não posso viver

Às vezes, apercebo-me de pessoas que vivem em permanente ruído. O toque do telemóvel é constante e estridente. Ou por chamadas, ou por mensagens, ou por avisos...
Em casa, a televisão fala alto enquanto todos falam ao mesmo tempo sem se ouvirem, embora falem alto, e sem ouvirem a televisão que ainda fala mais alto e quase grita com a publicidade.
O cão de estimação reage ao ruído ladrando e aumentando o ruído.
Às vezes, penso como é difícil os alunos estudarem em ambiente barulhento e que os que o conseguem são verdadeiros heróis. 
E como é normal que só se ame o que se conhece, muitas vezes, a vida vai decorrendo neste frenesim sem pausas mais calmas.
E como seria bom se se parasse um bocadinho durante o dia sem gritar nem ouvir gritaria.
Nem que fosse por uns minutos apenas. A seguir, poderia haver vontade de baixar um pouco o som do telemóvel e talvez da televisão e muitos decibéis podiam ir sendo reduzidos.
E o significado da palavra silêncio podia ser explicado e entendido, não como tristeza ou proibição, mas  como necessidade para descansar, para pensar, para comunicar melhor,  para produzir mais sustentadamente...
E podíamos ser até mais felizes, dizendo convictamente: sem ele, não posso viver.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Em dia de celebração da Língua Portuguesa


'Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor,
como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do
deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação.'
Vergílio Ferreira

Como noutra rua qualquer

Não sei quantas são, mas são bastantes as avós daquela rua. Durante o dia, varrem, arranjam as plantas da varanda, fazem a comida...
Mas não conversam com as vizinhas como conversavam. Não recebem os netos em casa como acontecia antes da pandemia. Não vão tomar o cafezinho à hora certa como dantes faziam. Não vão às compras como iam, sabendo sempre novidades sobre aquilo que viam e sobre as pessoas que encontravam. Não vão ao Centro de Saúde onde podiam contar coisas à médica, enquanto ela fazia o relatório...
Mas o que lhes custa mais é não estarem com os netos. Só os veem a acenar do carro e só de vez em quando.
Há pouco, uma dessas avós disse, da sua varanda para a vizinha que estava na outra varanda próxima, que chora todos os dias com saudades dos netos. 
Ela ouviu-a por uns segundos, mas logo  fechou a porta da varanda e quase sem se despedir.
A vizinha não estava com máscara e parecia que ia dar um espirro.
Ficou na varanda a olhar a rua à espera de ver passar alguém.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Diálogo em boa quarentena - ou talvez não.

Tinha prometido a mim própria  que o    
tempo livre seria para continuar a  ler  Berta Isla ,
um livro fantástico de  Javier Marías.
Porém ,  promessas, muitas vezes, não pagam escritas
quando se para, escuta, olha...



- Nunca pensei que a quarentena fosse tão boa pra mim.
- Como assim?
- Faço teletrabalho e assim estou longe da minha colega do lado.
- Não gosta dela?
- Como posso gostar? Ela é horrível.
- Não deve ser fácil trabalhar lado a lado com alguém de quem não se gosta.
- A quarentena veio mesmo a calhar. Já não a suportava mais.
- Então, boa quarentena.
- Por amor de Deus, deseje-me outra coisa. Estou farta de estar em casa.
- !!

domingo, 3 de maio de 2020

A casa de minha mãe


A casa de minha mãe tem muitas rosas, violetas e muitas mais flores a que me habituei, embora não  conheça todos os nomes.
Os vasos de hortelã e de manjericão cheiram a canja de festas de antigamente Ou à terra perfumada depois da chuva. Os goivos têm cores de domingo de Ramos.
A velha capoeira alberga galinhas a cacarejar e a querer escapar-se para se espolinharem na terra e petiscarem insetos e ervas. E muitas vezes de lá irrompe um vigoroso cantar de galo a acordar as manhãs.
As coisas velhas amontoam-se aqui e ali à espera de nova utilidade porque 'guarda o que não presta e terás o que te é preciso'.
E multiplicam-se as sacas com novelos de linhas e lãs, perto da velha máquina Singer que continua a coser bem, mas onde o bicho da madeira vai deixando picadas marcas.
Alguns versos fervorosos de minha mãe estão pendurados em paredes. Os pequenos e devotos jornais são guardados em cestos e gavetas porque as mensagens devem ser duradoiras de tão belas.
A aletria da casa de minha mãe é doce e única, em travessas ou pratinhos enfeitados com canela. Incomparável é também o guisado de carne com batatas de sabor apurado a cominhos. Os rolinhos de batata recheados de bacalhau não se comem em mais lado nenhum. E o arroz de polvo faz crescer água na boca pela lenta e refogada cozedura.
Os livros de Camilo, tão amados pelo meu pai, estão sempre presentes, ainda que lá já não estejam.
Na casa, está uma boa parte da vida dos meus pais, minha e dos meus irmãos. Não só pelas fotos mas pelo tempo que lá vivemos todos.
A casa de minha mãe tem flores cujo nome desconheço.
Mas basta-me dizer que são as flores da  casa da minha mãe.

sábado, 2 de maio de 2020

Um belo filme


Vi este filme no cinema, quando passou no Porto, e vou revê-lo agora em casa. A Medeia filmes quarentena cinéfila disponibiliza-o das 12 h de hoje às 12 h da próxima quinta-feira.
Alguns dos temas abordados são muito atuais e tratados com muita delicadeza e ternura. Para além da doçura, é claro.
Vejam, se puderem.

Poderá não ser o filme da nossa vida, mas poderá ser um bom filme na nossa vida.

Pode ler-se na apresenração deste filme de 2016:
'Sentaro gere uma pequena pastelaria de dorayakis – uma especialidade japonesa que consiste em duas panquecas recheadas com doce de feijão (“an”, no original). Quando Tokue, uma senhora com cerca de 70 anos, se oferece para trabalhar na pastelaria de Sentaro, ele aceita com relutância. No entanto, Tokue rapidamente prova que a sua receita de “an” é mágica. Graças à sua receita secreta, o negócio de Sentaro floresce rapidamente… Com o tempo, Sentaro e Tokue abrem os seus corações, e desenvolvem uma relação de amizade que vai revelando também algumas feridas do passado.'

Saquinhos de quarentena



sexta-feira, 1 de maio de 2020

Vi e gostei



'Pamela é uma jovem portuguesa da segunda geração, nascida em França. No emaranhado das suas contradições, dos seus insucessos e do amor absoluto pela sua família, sente-se perdida e parece estar incapacitada de imaginar como poderia viver a sua vida... Sobretudo porque só gosta de tocar piano e patinar no gelo. Vai, contudo, desbravar o seu próprio caminho entre França e Portugal.'


Gostei deste filme de 2017, dirigido por Laurence Ferreira Barbosa, e que a Medeia Filmes Quarentena Cinéfila, disponibiliza até às 12 h de amanhã, sábado.
É uma história com contornos muito reais vividos por diferentes gerações de emigrantes portugueses.
A protagonista, uma jovem nascida em França, fez-me lembrar os versos de Álvaro de Campos:

'Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso,
Tenho em mim todos os sonhos do mundo.'

Mas talvez a jovem concretize alguns desses sonhos, pela determinação revelada em muitas situações.
Venham mais filmes como este.
Bons filmes!

No Primeiro de Maio

Foto do Expresso publicada em 2019



Éramos muito jovens e julgo que felizes.  O 25 de Abril de 1974 tinha acabado de acontecer.
No primeiro 1 de Maio em Liberdade, fomos festejá-lo na avenida dos Aliados, no Porto.
Nessa tarde e nessa praça, para mim a mais bonita da cidade, juntava-se uma multidão que, em poucos dias, tinha aprendido a sorrir mais porque se tinha libertado de muito medo. 
E havia canções revolucionárias que, até então, eram silenciadas e clandestinas; havia muitos cravos,  havia muitas bandeiras, muitas delas até esse dia escondidas; muitas manifestações de alegria, como se a multidão saísse de uma prisão coletiva na qual a maioria tinha vivido durante quase cinco décadas, sem quase nada se poder questionar.
Éramos muito jovens, tudo era novo e belo e festivo.
Hoje, o Porto  como tantas outras cidades, estará quase deserto,  por imposição da pandemia.
Hoje, 1 de maio de 2020, cada um pode mais facilmente gerir a sua liberdade, sem nunca se esquecer de si nem da saúde e bem-estar dos que o rodeiam.
Será um modo feliz de a festejarmos. Mesmo sem bandeiras. Mesmo sem flores frescas dentro de casa. Mas com sorrisos sinceros.
 Se se puderem vencer os entraves do momento.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Elida Almeida - Nhu Santiagu (live)



A sugestão vem hoje no Expresso Curto.
Como diz o jornalista, 'sabe bem ouvir'.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

'Mãe' - Matilde Rosa Araújo

Luzia Lage

Mãe!
Que verdade linda
O nascer encerra:
Eu nasci de ti,
Como a flor da terra

Matilde Rosa Araújo




Postei este pequeno poema há muito tempo.
Hoje, volto a partilhá-lo porque tem tido várias visualizações.
Que os dias tenham também Poesia!

Como o poema é muito fácil de decorar, disse-o hoje à minha mãe. 
Ouviu com atenção e sorriu de contentamento.


terça-feira, 28 de abril de 2020

O detergente e o sabão

Não, não vou falar da proposta patética do sr Trump de se resolver o problema do coronavírus com a injeção de desinfetante. Já se tem falado muito desse disparate que originou muitas piadas, mas o pior é que já houve quem pusesse em prática a sugestão, pondo em risco a sua vida.
Não, o meu assunto é menos bizarro e tem outra limpeza.
Em minha casa, sempre houve detergentes qb. Conheço pessoas que compram logo o novo detergente que aparece  no mercado ou é ruidosamente publicitado. Mas também conheço quem sempre tenha usado o antigo sabão, o velho Tide, o poeirento Vim e pouco mais, como a minha mãe.
Ora, numa das últimas vezes que fui ao supermercado - ainda sem filas à entrada e sem máscara - percorri o corredor dos detergentes e toca a comprar para a casa de banho, para a cozinha, para o chão, lixívia  com cheiro a isto ou àquilo, cápsulas para a máquina de lavar... O meu carrinho de compras era bem diferente do carrinho de compras habitual.
Pois bem, o que é certo é que a maior parte desses detergentes já se foi porque nunca fiz tanto uso dos ditos. Lavo aqui, desinfeto acolá, tiro e lavo tapetes, as toalhas nunca param depois de usadas...
E, pelos vistos, não é só comigo que tal acontece. Os produtores de detergentes devem esfregar os bolsos de contentes porque a crise geral não é a sua crise. 
Mas, apesar deste uso mais abundante de detergentes, cá em casa o sabão azul está sempre nas nossas mãos.
Mãe, tinha razão, mesmo quando a moda do sabão deixou de ser moda.
Um dia destes, vou comprar Tide, para recordar a minha avó focada no folhetim que passava na rádio todas as tardes. Nessa altura, havia sabão amarelo que deixava a mesma cor nas mãos. Se o sr Trump o descobrisse, recomendava-o para o banho. Assim, ficavam todos da sua cor.

sábado, 25 de abril de 2020

Liberdade

Hoje, 25 de Abril de 2020,  Liberdade também seria poder passear na rua. Se possível, ao sol e junto ao mar.
Ou numa praça qualquer, por pequenina que fosse, e poder sorrir e abraçar e tomar um café com o rosto próximo de amados rostos.
Liberdade seria percorrer as ruas e tocar nas coisas que podem ser acarinhadas. Sem medo dos vírus que podem vaguear nas superfícies e que os humanos podem transportar na pele, nas mãos, na boca, no nariz...
Liberdade seria passear de mãos dadas por cidades abertas a sorrir.
Liberdade seria não ter medo. Não o medo antigo da ditadura, mas o medo atual  que também traz proibições e forte vigilância, e que, desta vez, são justificadas e compreendidas.
Liberdade seria poder fazer parte, ou não, de ajuntamentos, conforme a vontade ou livre decisão de cada um. Não por provável conspiração, mas por improvável infeção.
Liberdade seria poder ter um diálogo próximo no intervalo do teatro e do cinema. Ou noutro qualquer sítio de arte. Ou em qualquer lugar com um banco e espaços floridos.

Mas, apesar de todas as necessárias limitações impostas pela pandemia, Liberdade é também o poder ilimitado e criativo de a celebrar. Nem que seja na varanda ou à janela ou dentro de casa.
E dentro de nós.




quinta-feira, 23 de abril de 2020

Sobre o último livro de Manuel Maria e sugestão de viagem

Publiquei o pequeno texto, que abaixo transcrevo, no dia 9 de março deste ano, a propósito da apresentação do último livro de Manuel Maria: Cinco Palavras de Antonio Vieira.
Apesar de termos trocado algumas mensagens, antes e depois da publicação do romance, ontem recebi um comentário do autor que logo publiquei. Como depois desse texto já postei bastantes, volto a publicá-lo agora para a sua visibilidade e do comentário.
Faço-o não pelo facto de ser para mim elogioso, mas por duas razões fundamentais:
- Quando Manuel Maria comunica, fá-lo de forma inteira e com convicção, tal como vive a amizade e pratica valores como o reconhecimento, etc., o que é de realçar.
- O romance agradará aos mais variados leitores que apreciam uma bela história e belíssima escrita.

Mais uma vez, Manuel Maria, o meu trabalho foi simples pelo prazer que a leitura me deu e por tudo que pude rever e aprender com a obra. E por todas as viagens que a leitura da obra proporciona.

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Sábado passado foi apresentado - por Dulce Raquel Neves, na Escola Secundária de Gondomar, onde o escritor trabalhou durante duas décadas - o novo romance de Manuel Maria: CINCO PALAVRAS de António Vieira, da Editora Lugar da Palavra.
Curiosamente, o título é formado por cinco palavras, tal como aconteceu na maioria das obras anteriores do autor.
Tive o privilégio de ler o livro antes de ser publicado e logo me apercebi do longo e aturado trabalho de investigação que foi necessário realizar para que a ficção funcionasse de forma séria e rigorosa. 
Para além da sedução das histórias que são contadas, situadas no século XVII, em contexto de missões, descobertas, viagens, intercâmbios..., o exercício de escrita é também uma homenagem ao grande orador português. 
Vale a pena ler e dar a ler a obra aos alunos que estudam o Sermão de Santo António aos Peixes e a todos que querem saber mais sobre o pregador, a sua época e que gostam também de boas histórias com a nossa História dentro. E de cruzarem problemas e sentimentos que continuam a fazer parte da nossa vida e da nossa atualidade.

Sobre o encontro de sábado passado e sobre o livro, sugiro a entrada na Carruagem 23 de Vítor Oliveira http://carruagem23.blogspot.com/
Vão gostar da viagem. Melhor era impossível.


Rosas, que vos quero bem!