Emel Mathlouthi - tunisina - Uma voz da "Primavera Árabe"
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Espanha é grande
por
Sofia Gandarias
Pintora
(País Basco)
Bem sei que não há nada de
Novo sob o céu,
Que antes outros pensaram
As cousas que ora eu penso.
Bem, para que escrevo?
Bem, porque somos assim:
Relógios que repetem
Eternamente o mesmo.
Rosalia de Castro
domingo, 24 de junho de 2012
"Noite de silêncio"
Numa curta viagem de carro, com o rádio ligado, oiço Ana Moura. A fadista canta "Noite de silêncio", com a sua voz quente e rouca.
Em casa, telefono a uma amiga: não responde. Silêncio.
Telefono a uma filha: não atende. Silêncio.
Enquanto janto, vejo e oiço, na TVI, o comentário semanal de MRS. Muitas vezes discordo dele, mas neste assunto não:
Parece ter havido fraude nos exames de 12º ano de Português (alguns alunos terão tido acesso à prova, antes do dia em que foi realizada). E houve e há um grande silêncio sobre o assunto.
E haverá, com certeza, também quando for anunciado - como tantas vezes acontece - que nada se provou.
E haverá, com certeza, também quando for anunciado - como tantas vezes acontece - que nada se provou.
E o país continua no(s) seu(s) silêncio(s). E as pessoas guardam o seu(s) silêncio(s).
E eu também.
Felizmente há janelas abertas
Com tanto trabalho, nem tinha reparado que o ibisco estava florido. Vi-o, por acaso, da janela.
O trabalho não devia impedir que se olhassem as flores.
Mesmo assim, as flores desabrocham. Com o tempo e no tempo certos.
E nunca ninguém disse que eram sábias as flores.
sábado, 23 de junho de 2012
Sardinhas, carvão, cerveja; desculpe, estou à frente...
Manhã de sábado - véspera de S. João. Muita gente às compras numa grande superfície Filas grandes.
Uma menina obesa tem a mesma expressão carregada da mãe.
Uma mulher diz ao homem que ponha a cerveja preta no balcão da caixa.
Um menino chora e a mãe fala mais alto. O menino grita. A mãe diz que não dá o ovo Kinder.
Uma menina obesa tem a mesma expressão carregada da mãe.
Uma mulher diz ao homem que ponha a cerveja preta no balcão da caixa.
Um menino chora e a mãe fala mais alto. O menino grita. A mãe diz que não dá o ovo Kinder.
Uma outra mulher aproveita um espaço livre e mete-se na fila. Outra mulher diz que tem de esperar pela vez dela. A primeira fica a criticar a segunda. A segunda explica que não tinha reparado e que a primeira deve andar chateada por causa da crise.
O rapaz da caixa abre os sacos de plástico com gestos rápidos. Não se esquece de dizer bom dia a cada cliente. Mostra boa cara, porque pode haver queixas e ainda fica com a festa estragada.
Nos carrinhos, passeiam batatas, pimentos, tomates. E sardinhas. E febras. E broa. E vinho. E carvão. Se calhar menos quantidade do que no ano passado. E ao preço a que está a sardinha. Já viste(s)?
Ontem liguei-te não sei quantas vezes. Fogo! Nunca ouves. beijinhos. 'Ta tudo bem? Xau. beijinhos pra todos. Xau...
Chego ao carro. Abro a mala. Que cheirinho a manjerico. É S. João, pois então!
HISTÓRIA DO SR. MAR
Turner
Deixa contar...
Era uma vez
O senhor Mar
Com uma onda...
Com muita onda...
E depois?
E depois...
Ondinha vai...
Ondinha vem...
Ondinha vai...
Ondinha vem...
E depois...
E depois...
Ondinha vai...
Ondinha vem...
Ondinha vai...
Ondinha vem...
E depois...
A menina adormeceu
Nos braços da sua Mãe...
Nos braços da sua Mãe...
Matilde Rosa Araújo,
O Livro da Tila
Renoir
sexta-feira, 22 de junho de 2012
quinta-feira, 21 de junho de 2012
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Um homem sem cabeça
Conto argelino
Esta
é a aventura do famoso Jouha. Na Argélia chamam-lhe Jha, ou então, Ben
Sakrane. Mais a leste, conhecem-no como Nasredin Hodja. Na realidade,
trata-se de Tyl Eulenspiegel ou de Jean le Sot: o louco que vende a sua
sabedoria, aquele que zurra como um burro para ser ouvido, e que às
vezes é dono de uma esperteza imbatível.
Um dia, Jha encontrou alguns amigos prontos para combater. Tinham escudos, lanças, arcos e aljavas cheias de setas.
— Onde vão nesses preparos? — perguntou-lhes.
— Não sabes que somos soldados profissionais? Vamos tomar parte numa batalha, que promete ser dura!
— Ótimo,
eis uma oportunidade para ver o que acontece nessas coisas de que ouvi
falar mas que nunca vi com os meus próprios olhos. Deixem-me ir
convosco, só desta vez!
— Está bem! És bem-vindo!
E lá foi ele com o pelotão que se ia juntar ao exército no campo de batalha.
A
primeira seta acertou-lhe em cheio na testa! Depressa! Um cirurgião! O
médico chegou, examinou o ferido, meneou a cabeça e declarou:
— A ferida é profunda. Vai ser fácil remover a seta. Mas, se tiver a mais ínfima parte de cérebro agarrada, está perdido!
O ferido pegou na mão do médico e beijou-a, exprimindo a sua “profunda gratidão para com o Mestre”, e declarou:
— Doutor, pode remover a seta sem medo; não vai encontrar a mais ínfima parte de cérebro nela.
— Esteja calado! — disse o médico. — Deixe os especialistas tratarem de si! Como sabe que a seta não atingiu o seu cérebro?
— Sei-o bem demais — disse Jha. — Se eu tivesse a mais pequena partícula de cérebro, nunca teria vindo com os meus amigos.
Margaret Read MacDonald
Peace Tales
Arkansas, August House Publishers, Inc., 2005
(Tradução e adaptação)
terça-feira, 19 de junho de 2012
As ameixas
As ameixas são amargas
Pois verdes verdes ainda estão
Mas quando doces e amarelinhas
Logo querem beijar o chão
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Nevoeiro
Carlos Alberto Santos
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!
Fernando Pessoa
Nota:
Lembrei-me deste poema da Mensagem de Fernando Pessoa por várias razões.
Uma mais profunda: a situação portuguesa atual tem semelhanças com a descrita.
Outra mais imediata: pelo que julgo saber, no exame de 12º ano de Português, realizado hoje, não saiu nenhuma questão sobre Fernando Pessoa - ortónimo ou heterónimos - apesar de o seu estudo ocupar uma boa parte do ano letivo.
domingo, 17 de junho de 2012
Alguns erres em tempo atual
Quando o trabalho abranda, apetece-me arrumar armários e gavetas. Deve ser psicológico (com o que de vago a expressão significa).
Separar coisas que uso, outras que não (que chatice! Há coisas que não me servem!)
E há muita gente que precisa do pouco ou muito que a muitos sobra. A Cruz vermelha (e tantas tantas Instituições), em diferentes regiões, apoia(m) famílias carenciadas. Precisam de brinquedos, roupas, toalhas de rosto e de banho e de tudo que seja útil para viver com dignidade (soube, por exemplo, de um Centro da CV em Guimarães).
Também há reciclagem das roupas em muito mau estado - servirão para fazer cobertores.
Pode ser moda falar destas coisas, mas é uma criação à medida humana. Em tempo de tanta crise, há pessoas que vivem de forma desumana.
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