sábado, 31 de janeiro de 2026
Notre innocence, où es-tu?
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
Há empadão e empadão!!!
Gosto muito de empadão, de carne ou de legumes, ou de carne e legumes ou só de legumes (como vou fazer hoje para o almoço). Há dias, no Expresso Curto, o jornalista dava uma receita de empadão, assunto que não é nada habitual naquela publicação. Achei graça e aproveitei para rever os ingredientes: cebola, alho, louro, carne, tomate...
O empadão veio a lume por ter sido palavra usada por Seguro, e dirigida como crítica a Ventura, no debate de terça-feira para as presidenciais. De facto, perante qualquer pergunta sobre um determinado assunto mais quente - por exemplo, Trump - Ventura tira o tacho do lume, para não se queimar, e enumera, em alta voz, todos os outros ingredientes que estão no seu receituário e que repete até à exaustão. Faz, no entanto, adaptações consoante o momento e o público, pondo mais ou menos pimenta, fogo mais vivo ou mais brandinho, de modo a agradar aos clientes que lhe oferecem votos e lhe aumentam o poder.
Por isso, a imagem do empadão que Seguro utilizou foi feliz e real. Eu, pessoalmente, prefiro empadão feito com mais calma, sensatez, humanidade e com ingredientes honestos e verdadeiros, que unam todas as pessoas que estão à mesa e não as excluam nem dividam por causa da origem, da cor ... E que o empadão não leve água benta, que se vai buscar ruidosa e hipocritamente para se ser notado, ignorando os valores de respeito humano, defendidos pela Igreja Católica, da qual se quer dar a ideia que se comunga.
Deste empadão, com miscelânea de ingredientes para confundir, enganar e atordoar não gosto. Causam grande tristeza, desconfiança e... uma enorme azia.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
Desconfiança? Sim, Ia!
Os professores, os editores, etc. têm a vida cada vez mais difícil pela dificuldade em distinguir um texto original de um texto reproduzido pela inteligência artificial. Não queria estar na pele deles.
Enquanto era professora, recebi vários trabalhos que eram cópias do que se encontrava na net sobre o assunto. Ainda não havia IA. Na altura, era relativamente fácil detetar que eram cópia, porque bastava transcrever um excerto do texto no computador para que aparecesse na íntegra. Também a língua usada era com frequência o português do Brasil, o que ajudava a identificar quase logo a origem enganosa do texto.
Ora, nos tempos que correm, se um texto for produzido pela IA, julgo que é difícil, senão impossível, ver que não é original e apenas transcrito. Isto causa uma desconfiança imensa e pode acontecer num simples comentário, numa composição, num texto argumentativo, etc. Ainda bem que já não tenho de avaliar textos pretensamente produzidos por alunos.
Pelo pouquíssimo que sei da IA, julgo ser uma ferramenta de consulta fantástica para obter informações nas mais diferentes áreas, mas ser usada e assinada como sendo produção original é que me custa a aceitar. Essas práticas ocorrem até no meio universitário e em diferentes países.
Se isto assim continuar, desconfiamos cada vez do que ouvimos e lemos e, o que é pior, desconfiamos cada vez mais uns dos outros. E quem é sério e honesto nos trabalhos escritos que realiza também não fica excluído da desconfiança, que se vai generalizando. Ou então é olhado como um totó ingénuo que tem a mania que, sozinho, vai mudar o mundo!
domingo, 25 de janeiro de 2026
O companheiro de todas as horas
Li há pouco uma notícia que me impressionou: muitos filhos já limitam o uso do telemóvel pelos pais idosos.
À primeira vista, causou-me impressão porque lembrei-me de pessoas que vivem sós, de mobilidade reduzida e que precisam de alguma coisa para lhes alegrar os dias, para além de programas de televisão da manhã ou da tarde e que tantas vezes contam coisas tão tristes que mais tristes tornam os dias. Só espero é que os filhos que retiram o telemóvel aos pais ou que lhes limitam o seu uso o façam 'com carinho' - expressão de que gosto e que a minha professora de yoga tantas vezes repete também com carinho. E que lhes ofereçam alternativas. E que os visitem. E que falem com eles. E que não os desvalorizem por serem velhos.
Mas também é muito mau ver pessoas de todas as idades a usar constantemente o telemóvel, mostrando que lhe prestam mais atenção do que ao que se está a passar à sua volta. Triste é ver famílias à mesa, cada um com o seu telefone ou ipad - como se não houvesse assunto para conversar. Ou em encontros familiares ou de amigos em que o que se está a passar passa para segundo plano porque o écran do telemóvel, sempre embalado pela mão e percorrido pelos dedos, ocupa o primeiro.
Nos dias que correm, o telemóvel é essencial às diferentes dimensões da nossa vida. Habituámo-nos a ele e faz-nos falta. E é um alvoroço de alma quando o perdemos ou não sabemos onde o deixámos! Mas, se quisermos, há tempo para tudo, mas que o telefone nos comande a vida e façamos dele o companheiro principal de todas as horas, isso não. Para saúde mental - de que tanto se fala - do próprio e de quem está à sua volta.
sábado, 24 de janeiro de 2026
Prato
Gostava de lhes ter
perguntado o segredo do arroz que faziam quando era criança e que, para ela, era
o melhor arroz do mundo. Porém, as tias já cá não estão para lho revelarem. Os
móveis da cozinha estarão noutros lugares e as paredes já terão novos cheiros
impregnados. As cebolas e os alhos virão de longe e não da horta que elas
cultivavam em tempo certo.
Ora, a criança brincava
muitas vezes junto ao pequeno jardim ou no quintal. Perto do meio-dia, se sentia
uma flecha de cheiros e sabores do arroz a atravessar o muro que separava as
duas casas, ia logo a correr à espera de ouvir:
- Queres comer aqui?
Com a pressa, muitas
vezes até se esquecia de pedir à mãe. Quase a chegar, abrandava a correria,
passava pelo lavatório, que tinha sempre sabonete Patti, entrava na cozinha
devagar, depois de pedir licença, e aproximava-se timidamente da mesa já posta,
à espera da pergunta habitual.
Depois de o relógio bater
doze austeras badaladas, rezavam a oração de ação de graças, sentavam-se à mesa
e comiam quase em silêncio, sem ninguém partilhar o feliz deleite do almoço –
jantar, como era comum dizer-se. Cada uma guardava este e outros prazeres só para
si, não fosse parecer luxúria tal confissão.
Ficou-lhe por dizer às tias como gostava do
arroz que faziam e cujo cheirinho a fazia voar ao seu encontro. Também elas
nunca lhe falaram sobre o assunto. Porém, talvez adivinhassem esse gosto, porque,
de vez em quando, punham mais um prato na mesa.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
Avó, és cozinheira?
O meu neto gosta que eu lhe conte histórias - muitas delas inventadas na hora - e sabe que já publiquei algumas. E que fui professora durante muitos anos. Quando passo com ele pela escola onde trabalhei muito tempo, reconhece-a, porque já lhe disse qual era.
Tem quatro anos e também reconhece os livros da avó, na estante que tem no seu quarto. Mas não me vê a sair para o trabalho nem a regressar. Também raramente me vê a escrever, porque faço-o quando a casa está mais silenciosa e não é uma atividade de todos os meus dias.
Quando está comigo, vê-me muitas vezes sobretudo a cozinhar para ele e para a família. Daí a pergunta: avó, és cozinheira?
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
Depois do treino
- Quando vejo fotografias antigas, vejo como era bonita.
- Eu também e não sabia.
- Não sabias?
- Não, ninguém mo dizia.
- Mas eras.
- Muitas vezes não damos valor à beleza que temos.
- Na flor da idade, parece que nem temos tempo para nos olharmos como devia ser. Há tanta coisa para fazer.
- O tempo continua a fugir.
- E de que maneira.
- Mas sabes que até me custa ver fotografias antigas?!
- Porquê? Tens saudades?
- Não, não sou muito saudosa.
- Então?
- Acho que o tempo passa demasiado depressa e muitas vezes não se vive o que podia ser vivido de forma mais completa.
- Agora, o melhor é viver quanto e enquanto se pode.
- É verdade.
- No próximo treino, levo eu o carro.
- Ok, até amanhã.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
Manhã
Na idade em que a mãe ainda
tinha o cabelo preto, a filha não reparava como o cabelo dela era tão belo, nem
valorizava a cor e a beleza do seu. Só o reconhece agora ao ver fotografias
antigas que marcam, a cores ou a preto e branco, a efemeridade e a
irreversibilidade do tempo.
Nesse tempo já longínquo,
via a mãe a pentear-se e surpreendia-a o comprimento do seu cabelo solto e
pensava que nunca a tinha visto a secá-lo, feliz, ao sol.
Concentrada e com ar
sério, a mãe retirava os cabelos presos nos dentes do velho pente de osso, enrolava
o longo cabelo, prendia-o atrás com ganchos e, para o fixar melhor, colocava uma
rede fininha com dedos de delicadeza. Finalmente, alisava o cabelo com as mãos alongadas,
enquanto se via ao espelho, virando o rosto de um lado e do outro, para que não
lhe escapassem fios em desalinho, enquanto a filha ficava a olhá-la em silêncio
sossegado.
Distante estava ainda a noite
despenteada dos desassossegos.
In coletânea proximidades, Seda Publicações, 2025
sábado, 17 de janeiro de 2026
Mundo
Tal como na frase «Da
minha língua, vê-se o mar», de Vergílio Ferreira, do meu mundo, vejo o Mundo. E
o meu mundo é a minha casa.
Nele, busco a paz, mas são
imparáveis as imagens e as notícias que me chegam de conflitos e guerras.
Olho os meus livros, sabendo
que muitas histórias reais são de violência, discriminação, miséria, destruição,
morte, atingindo muitas crianças e quem delas queria cuidar.
Sei de velhos que ficam nos hospitais sem
ninguém os ir buscar, porque já não fazem falta a ninguém e à família falta
dinheiro, tempo, espaço, paciência.
Vejo pessoas de todas as
idades que sofrem de solidão, porque não são ouvidas, nem olhadas, nem
abraçadas, nem reconhecidas.
Oiço vozes de seres ditos
humanos, que se consideram messiânicos, e que tecem a sua vida de mentira, de arrogância,
de egocentrismo, de ganância, de cinismo, de ódio, de vingança.
Escolho palavras para os
meus pequenos textos, buscando sentido, correção e beleza, enquanto multidões desesperadas
procuram ajuda, comida, refúgio.
Sinto o cheiro queimado
de terras incendiadas e ruídos revoltados de rios e mares maltratados.
Felizmente, existem muitas
pessoas que, dentro ou fora do seu mundo, ajudam a melhorar muitas vidas, estejam
elas próximas ou distantes.
São inúmeros esses casos, tantas vezes desconhecidos,
porque as televisões raramente os divulgam e não tik-tokam nas redes
sociais.
Será possível dizer que todos
veremos ainda um Mundo melhor?
Coisas do meu quintal
Ontem, ao fim da tarde, estando eu com o meu neto:
- Avó, tens medo de cobras?
- Tenho, meu amor, e num dia muito quente de verão, vi uma enorme.
- Onde, avó?
- No quintal, ao fim da tarde, quando eu andava a regar.
- Ficaste assustada?
- Fiquei, claro,
- Falaste com ela?
- Não, meu amor, eu não sei a linguagem das cobras.
- Eu sei, avó.
- Sabes? Como é?
- Zzzzzzzzzzzz!
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
A planta renascida
Tenho este bonsai há cerca de uns trinta anos. Foi oferecido por uma amiga das minhas filhas num aniversário. Julgo que ainda mora no mesmo vasinho pequeno e, de mim, ao longo deste tempo, recebeu apenas água, o corte de algum raminho seco, um olhar de vez em quando e pouco mais.
Há tempos, por esquecimento ou por ausência mais prolongada, deparei com a planta a soltar tristemente as folhas amareladas e sem vida. A planta morreu, pensei eu. Porém, não a deitei fora. Quebrei um raminho com os dedos e não me pareceu seca; mudei-a para um lugar mais fresco, passava por ela e olhava-a com a quase certeza de que não resistiria, mas com alguma esperança que desse sinais de vida, apesar de o tempo de morte aparente já ir longo.
Como o meu neto gosta de plantas e de animais, ficou condoído e foi dizendo que a plantinha estava doente e perguntando se ia ficar boa.
Eu não podia alegrá-lo afirmando que ia voltar ao que era, porque seria iludi-lo. Eu estava convencida de que o bonsai nunca mais mostraria as suas folhinhas verdes e viçosas, talvez demasiado grandes porque eu nunca soube como podar a arvorezinha como deve ser.
Pois bem, hoje olhei para ela e... vi folhinhas a aparecer. Fiquei contente. Ai se não fossem estas pequenas alegrias como estaria a nossa mente na confusão do mundo atual?
Em breve, o meu neto vem cá a casa e vou logo mostrar-lhe a nova vida do bonsai. Vai ficar feliz e chamar a mãe para ver. Vou-lhe pedir que conte as folhas para que as some daqui para a frente. Oxalá ele não perca a esperança nessa soma, porque estamos a perdê-la em muita coisa que se passa à nossa volta. Valha-nos uma pequena planta renascida! E o olhar limpo e feliz de uma criança.
sábado, 3 de janeiro de 2026
sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
Afinal, estou no instagram!
segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
Proximidades - uma obra de autores de Gondomar
Em finais de novembro, foi apresentada a coletânea Promidades, com textos escritos por 29 autores de Gondomar. Eu, que nasci e sempre vivi em Gondomar, desconhecia que tantas pessoas gostavam de escrever e que tinham obras publicadas. Como o tempo está frio, escolhi este pequeno texto para partilhar, ao qual dei o titulo 'Neve'.
Neve
O menino, com alegre e real
vivacidade,
falava de neve como se
nela tivesse caminhado com os seus próprios pezinhos;
lembrava bonecos de neve,
feitos com o macio e frio material;
desenhava uma janela donde
se viam flocos de neve a cair, cobrindo o pequeno jardim de ondulada brancura;
contava jogos com bolas
de neve e fazia gestos redondos para os explicar;
repetia - «‘Adoio’ a neve»,
com os olhitos a brilhar. Como não sabia pronunciar os erres, substituía-os pelo
i, suave letra que cria palavras como infância, imaginação…
Quando um dia mais tarde
contaram ao menino, que já não era menino, este bocadinho da sua infância, ele sorriu
e recordou, nitidamente, paisagens de neve de que então falava e que causavam estranheza
a quem o ouvia. Sabia que existiam em
livros de histórias e em muitos dos seus sonhos.
domingo, 28 de dezembro de 2025
O Natal está onde o homem e a mulher quiserem. E puderem, é claro!
Com o Natal ainda tão próximo, partilho a história que escrevi para os Lugares e Palavras de Natal, da editora Lugar da Palavra.
Que esta quadra natalícia traga, para todos, saúde, bons lugares, boas palavras... E assim continue!
'Ao
entardecer e no regresso a casa, escuta
a
canção do rouxinol e depois com o olhar
segue
o caminho de uma pequena nuvem'
John Keats
O guia japonês e o
rouxinol ou um belo presente de Natal
Quando me preparava para
sair do pequeno museu, a minha autoestima parecia aparada rente como a relva do
jardim circundante. O que valeu foi a rececionista que, simpaticamente, me fez esquecer o que me desagradara na
visita guiada. Enquanto eu pagava uns postais, perguntou-me, gentilmente, de
que país eu era natural. Quando referi Portugal, abriu um sorriso e falou-me dos
vinhedos do Douro e da praia da Nazaré, lugares que ela já tinha visitado. Do
Douro, recordou os laboriosos socalcos e da Nazaré, a vastidão alta do mar e as
saias pujantes das Nazarenas. Realçou também sabores do vinho e do peixe fresco.
Mas voltemos ao início da
minha história.
Durante umas férias de Natal
em Londres, resolvi ir a Hampstead, para visitar a casa-museu de John Keats, o famoso
poeta romântico do século XIX, celebrizado por poemas como «Ode a um Rouxinol».
À chegada, apreciei a
arquitetura da casa, sóbria e integrada na verdejante região. Para além do imóvel,
queria conhecer um pouco da vida e obra do poeta inglês, de quem tinha lido apenas
um ou outro poema.
Quando entrei, fui
informada que haveria em breve uma visita guiada e logo me inscrevi. Como tinha
tempo, deambulei pelas poucas divisões da casa, percorrendo os espaços devagar,
parando em retratos do poeta, da mulher amada, dos amigos, e em objetos de
Medicina - área em que ele havia trabalhado antes de se dedicar inteiramente à
poesia. Detive-me também em frases do poeta, dispersas pela casa, que celebravam
a vida e os sentidos:
«Dê-me
livros, vinho francês, fruta, bom tempo e um pouco de música ao ar livre...»
A visita guiada
prometia. Seria um presente de Natal que me dava a mim
própria.
Um pouco antes do início
da visita, perto de mim e também à espera, já estavam dois homens e uma mulher,
todos de aparência nórdica: muito altos e muito brancos. A um canto da loja,
integrada na sala de entrada, estava sentado um jovem magro e de baixa estatura,
camisa branca, cabelo preto espetado, ar tímido, e rosto com traços orientais.
À hora certa, levantou-se, aproximou-se, cumprimentou-nos, e disse ser o nosso
guia. A visita ia começar.
Vi logo que nós, os quatro
visitantes, deveríamos ter idades similares, que os três nórdicos se expressavam
muito bem em língua inglesa e que conheciam bem a época do Romantismo, assim
como a vida e obra de Keats, sobretudo o casal. O outro homem era bastante reservado,
talvez menos conhecedor daquelas matérias, preferindo receber a informação de
forma menos ativa. Tal como eu.
A visita foi-se
desenrolando e fui dando conta de pormenores que me tinham escapado na deambulação
anterior, o que me agradava porque me acrescentava saberes. Porém, o meu
conhecimento da língua inglesa não me permitia captar todas as palavras ditas
ao ritmo normal de um falante inglês, o que se refletiria nos meus olhos. Ora,
o guia, nas suas explicações, olhava sobremaneira para o casal mais interventivo
e para o outro homem quando este se manifestava. A mim, porém, nunca dirigia o
olhar, talvez por eu não intervir com questões ou achegas. É que quase tudo
para mim era novo e estava ali essencialmente para ouvir e aprender.
O facto de nunca ser
olhada lembrou-me a existência de tanta gente anónima por quem se passa sem
olhar, como se não estivesse ali uma vida, uma história, um rosto. Tornei-me
assim um pontinho nessa multidão tão próxima, mas que julgamos tão diferente e distante.
Eu seguia o pequeno grupo,
ao longo das poucas salas e corredores, mas sentia-me uma frágil medusa entre
seres enormes e invencíveis.
Eu era um peixe que podia
nadar dentro ou fora da água, com ou sem ruído, mas que ninguém tentaria pescar,
porque era impercetível.
Eu era um aluno nunca olhado
na sala de aula e cujo nome é ignorado ou confundido.
Eu era alguém que espera
a sua vez numa fila qualquer, vendo pessoas mais seguras a passarem-lhe à
frente e logo atendidas.
Eu era o menino pequeno e
moreno que quer jogar, mas a quem não passam a bola porque tem menos treino.
Eu era o velho de quem
desviam a atenção e o olhar, porque não está a perceber.
Eu era a criança que se
distrai porque se sente esquecida.
A visita continuava e a
minha imaginação ia voando como o rouxinol do poema de Keats ou da pintura de Joseph
Severn, que vi na sala grande que dava para o jardim.
E, nestas divagações, imaginei
o guia em criança, de rosto redondo e calças muito largas, a caminhar com o pai,
lado a lado e em silêncio, debaixo de cerejeiras floridas, dando passos lestos
e miúdos. O rapazinho precisava de um olhar, mas como o pai não o ouvia, não
alterava o rumo dos passos nem dos olhos.
Talvez o jovem repetisse agora o que vira
fazer durante muito tempo.
Ainda lhe faltariam
muitos Natais para inovar?
Apenas na despedida da
visita guiada, vi o seu olhar distribuído por todos os elementos do grupo,
bastando esse pequeno gesto para se acenderem luzes na árvore da humanidade.
À minha saída, a amável
rececionista perguntou-me se eu tinha gostado da visita. Respondi-lhe que sim, apesar
de não ter compreendido muitas coisas. Ela, talvez pela experiente empatia, elogiou
a minha expressão em língua inglesa. Sorrindo, agradeci e desejamo-nos um Feliz
Natal.
Bem perto dela, estava o
jovem guia de novo sentado na cadeira do canto à espera de novos visitantes.
Com a luz a incidir-lhe na cabeça negra, ele parecia uma figura mística de
olhos voltados para a janela alta e larga.
Pudesse ele estar a olhar
os diferentes pássaros que por lá se cruzavam, sem buscar apenas o rouxinol.
Se tal
acontecesse, seria também um belo presente de Natal.













