segunda-feira, 22 de junho de 2026

É São João!


Ó meu rico São João

Vê se desces cá à Terra

Há tanta desunião

E é tão mortífera a guerra!


E o desconcerto do mundo

Vai crescendo em cada dia

Uns não saem da tristeza

Outros só veem alegria!


E não sei se também sentes

Os gritos de sofrimento

Ouvidos dentro de casa

Em vez de paz e alento!


Não te peço, S. João,

Que venhas lutar por nós

Cada um pode fazer muito

Mas sentimo-nos tão sós!


sexta-feira, 19 de junho de 2026

Com a bebida no balcão

 

Já se conheciam há muitos anos, tinham convivido durante muito tempo, mas raramente se encontravam. Raramente falavam. Raramente trocavam mensagens. Quase só pelo Natal e pelos anos dele. Dela, não, porque ele não sabia as datas dos aniversários e nunca perguntava. Era muito discreto. Sempre assim tinha sido.

Um dia, cruzaram-se, curiosamente, junto a um cruzamento. Ficaram felizes pelo encontro. Ela mais do que ele. Pelo menos parecia. E deram um abraço. Bastante rápido porque estavam na rua e, como eu já disse, ele era discreto. E ela também, embora fosse menos. Cada um pensava que tinha coisas a dizer um ao outro. Ficaram, porém, pelas palavras triviais de quem já não se vê há muito tempo: tudo bem, como vais, estás bem, como tens passado…

Um deles, já não sei bem qual, foi dizendo que a solidão ia pesando. E também já não sei se foi ele ou ela que teve  vontade de dar a mão - acho que foi ela -, sentar-se num banco e ficar a conversar, a conversar... Sem pressas e sem agruras.

Mas não havia banco e ele estava com pressa. Ela ainda teve tempo de dizer que era o seu aniversário. Ele deu-lhe os parabéns e desejou-lhe um dia feliz. E que em breve se encontrariam com mais tempo. E despediu-se.

Se fosse um filme, veríamos uma mulher parada, com ar hesitante, olhando um cruzamento e um homem a afastar-se.

Como se saísse de momentos de letargia, ela respirou fundo e seguiu até ao café mais próximo. Podia ser que encontrasse alguém conhecido com quem pudesse conversar um pouco. Nem que ficassem de pé, com a bebida descansando no balcão!


quarta-feira, 10 de junho de 2026

Impossível não me lembrar de Elza


Há uns anos, tive uma aluna - a Elza - que leu este soneto de Camões numa aula. Enquanto ela o dizia, fez-se um silêncio profundo. É que o tom de voz, a postura, o sentimento ... tudo fazia brilhar ainda mais a humana beleza triste do poema.

Não sei onde estará Elza a viver e a trabalhar. Talvez ainda saiba o soneto de cor. De uma coisa tenho quase a certeza: quem a ouviu ficou a gostar ainda mais de Luís de Camões.


Erros meus, má Fortuna, Amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a Fortuna sobejaram,
Que para mim bastava Amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que já as frequências suas me ensinaram
A desejos deixar de ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa a que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De Amor não vi senão breves enganos.
Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!


Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

O nome da rua


Vinha de longe e não conhecia aquela rua. Procurou-a no mapa, mas não a encontrou. Resolveu perguntar a um homem que passava passeando o cão. Não, não sabia o nome da rua, embora lá passasse muitas vezes. Também não tinha tempo para procurar alguma placa ou perguntar a alguém, porque o cão puxava a trela com toda a força. Se a largasse, teria de correr muito e já não tinha pernas para isso.

Mais adiante, perguntou a uma mulher que estava a colher flores do seu jardim. A mulher disse que não se lembrava porque ultimamente esquecia-se de tudo.

O homem continuou o seu caminho e avistou um café com um nome curioso: Café Oásis. Entrou, pediu um café e perguntou o nome da rua ao rapaz que o atendeu. Com sotaque brasileiro, ele respondeu que não sabia, mas que iria perguntar à patroa. E foi, mas ela estava a conversar com outra mulher - do outro lado do balcão - e não gostava de ser interrompida.

Como o café era pequeno e os clientes estavam todos atendidos, o empregado deixou-se ficar à espera de fazer a pergunta e, mesmo sem querer, ia ouvindo a conversa entre as duas mulheres. Uma delas dizia e repetia: Esta é a rua das mulheres sós. 

E logo foi dizer ao homem desconhecido que aquela rua era a rua das mulheres sós. O desconhecido acreditou porque se habituara a ver o mundo cada vez mais estranho. E saiu do café a pensar no nome da rua. 

Muito próxima do café, viu uma mulher a falar ao telefone. As palavras saíam-lhe entre sorrisos. Afastando-se, o homem olhou para trás; a mulher, sorridente, acenou-lhe e entrou no café. O desconhecido acenou também, pensando que era bom que o nome da rua estivesse errado.

 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Crianças: hoje é o seu Dia!

 

Retirei o excerto, em baixo, do ‘Expresso Curto’ de hoje.

 O número de crianças em Portugal vai diminuindo. Julgo que quase ninguém gostaria de voltar aos velhos tempos em que muitas famílias - a grande parte muito pobre - tinham muitos filhos; os mais novos eram criados pela irmãos mais velhos que não podiam fazer escolhas de vida por falta de tempo e de dinheiro.

Os dados mostram, então, que, atualmente, vivemos o oposto: muito poucas crianças e famílias pequenas. Será que a situação vai mudar? Tenhamos esperança. 

E o tempo que as crianças passam com a família também é reduzido, porque muitas horas são passadas na escola. 

Não estaremos também a aumentar o tempo de solidão de toda a família?


“Crianças Hoje é Dia Mundial da Criança. Um retrato da infância em Portugal mostra que há apenas uma criança para cada dez adultos no país. Portugal sofreu a segunda maior queda da população infantil na União Europeia, nos últimos 50 anos e as crianças em Portugal passam cada vez mais tempo na escola e vivem com famílias cada vez menores.”


domingo, 24 de maio de 2026

No calor sufocante de antigos maios

 

Uma noite destas, acordei com trovoada. O que para muitos é fascínio, a ponto de se porem à janela, para verem o céu a riscar-se de luz, para mim é susto e stresse. Não sei se por memórias antigas também.

Impossível não me lembrar de trovoadas da minha infância em que a família se juntava numa divisão da casa. A minha mãe acendia uma vela benzida junto do raminho de oliveira igualmente benzida e rezávamos, em voz alta e em tom de novena, a oração a santa Bárbara. E eram lembrados os pecados do mundo de que a trovoada era um aviso e pelos quais devíamos pedir perdão a Deus.

Eu e os meus irmãos acompanhávamos as orações da nossa fervorosa mãe. O meu pai ia sussurrando, sem grande convicção, as ladainhas que a minha mãe iniciava. E eram muitas. E todas bem proferidas, sem qualquer atropelo de sílabas ou de palavras. 

O meu avô, ai, o meu avô, não me lembro se ele acompanhava as palavras devotas da minha mãe. O que sei é que não as sabia de cor, mas a presença dele era um alívio na sala, apenas iluminada pela vela acesa, e onde quase nem entrava ar, porque a porta estava fechada à luz dos relâmpagos. Só no final da tempestade, é que notávamos como o calor da sala se tinha tornado sufocante.

E o meu avô, aquele homenzarrão, de sorriso maroto e que tantas vezes contava as mesmas histórias e sempre com graça, sabia quando voltava a bonança. O som dos trovões ia ditando as  suas palavras: a trovoada já está mais longe. Vai passar em cinco minutos. As suas palavras acalmavam e eram as mais felizes e esperadas previsões da meteorologia do momento. 

Quando tudo serenava, abríamos a porta da sala, e também a janela. A vela já apagada mantinha-se no lugar, o raminho de oliveira e seca permanecia, sagrada, na jarrinha de vidro. 

Já libertos da trovoada, o meu irmão, o mais novo da família, ia brincar, a minha mãe e nós, as filhas, retomávamos os trabalhos domésticos, o meu pai ia para a oficina, preocupado com o trabalho. Quanto ao meu avô, resgatava uma das histórias antigas que sempre começavam assim: Uma ocasião...

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A menina que queria ser polícia!

 

Fiz parte do júri do concurso cujo cartaz mostrei no post anterior. Os concorrentes iam do primeiro ciclo ao ensino secundário e cada um já tinha sido vencedor no seu escalão e no seu agrupamento. Portanto, quem chegava à final das provas concelhias eram alunos muito bons. Uns com alguma timidez, outros com muita desenvoltura e à vontade, mas em todos se notava apoio da família e das professoras. Quando assim é, a 'obra nasce' com muito mais entusiasmo e convicção. 

Aos alunos era pedido que escolhessem um livro, que fotografassem objetos ligados à obra para serem apresentados ao público e, a partir deles, tecessem a sua argumentação. E um excerto, também à escolha de cada um, teria de ser lido. 

Muitas crianças encantaram, chovendo aplausos. Sobretudo os alunos do primeiro ciclo levaram os objetos que também fotografaram. E, antes da prova, algumas professoras ajudavam-nos a transportá-los, cheios de cor, bem desenhados e bem colados. Bonita e importante interação.

A propósito de A bicicleta que tinha bigodes, de Ondjaki, lá subiu ao palco um menino com um rádio vistoso, uma escola tipo casinha acolhedora...

Era um gosto ver os meninos e meninas com o seu livrinho na mão e a carinha muito próxima do microfone para que todas as palavras que diziam se ouvissem e se ouvissem bem.

A seguir, veio o segundo ciclo, depois o terceiro e, finalmente, o secundário. 

E a uma jovem do 12º ano, foi dito, no final da sua apresentação, que era uma belíssima contadora de histórias e que sobretudo muitas crianças gostariam  de a ouvir - pela dicção, pela expressividade, pelo amor com que contava... Ficou feliz com o elogio, disse que gostaria muito de fazer essa experiência, e que, no futuro, queria ser polícia! Foi surpreendente essa vontade expressa com um largo sorriso.

Quando ela descia do palco, surgiu-me o título para uma história: A menina que queria ser polícia!


domingo, 17 de maio de 2026

Ler para querer mais!

 


terça-feira, 5 de maio de 2026

Não é por ser meu neto!...

 

- Agora, meu amor, como acabámos o jogo, vamos contar as pecinhas. Pode ser?

- Sim, avó: uma, duas, três, quatro, cinco, sete…

- Achas que é sete? Depois do cinco é sete?

- Vou contar outra vez: cinco, seis, sete, oito, nove, dez!

- Muito bem! Esta peça foi a primeira, esta foi a segunda... Queres continuar?

- Quero, avó.

-  Terceira, quarta, quinta…

- Muito bem, meu amor. Continua.

- Avó, não sei mais. 

- Eu ajudo-te, vá lá!

- Quarta, quinta, sexta…

- Ótimo! E depois de sexta?

- Não me lembro, avó.

- Pensa bem! Quarta, quinta, sexta...

- Já sei, avó.

- Então, qual é?

- Sábado!!!!

domingo, 3 de maio de 2026

Mãe

 
A minha Mãe era Rosa



Feliz Dia da Mãe!


sexta-feira, 1 de maio de 2026

Meu querido mês de Maio!

 

Hoje, é o teu primeiro Dia e, por isso, é feriado! Levantei-me cedo, como acontece regularmente. Talvez não fosse necessário, mas, para mim, é e é bom. Assim, o dia rende mais e posso fazer as boas e preguiçosas pausas da hora do almoço e do fim de tarde. Ai que prazer sentar-me no sofá, ver as notícias, pensar, ler, crochetar, não fazer nada... 

Gosto de ti, mês de Maio. Vens, logo no teu primeiro Dia, ativo e reivindicativo para que os deveres e direitos de todos não sejam esquecidos. És festejado nas ruas, com muitas bandeiras, muitos slogans de alerta, muitas vozes que se querem fazer ouvir. Sabes, lembro-me muito bem do Primeiro Dia em que foste festejado em Portugal e em Liberdade. Ainda moram nos meus olhos as multidões em praças e ruas. A alegria e deslumbramento eram tão grandes!

Quando nasces, Maio, sobretudo nas aldeias, muitas vezes apercebes-te do perfume e das cores das maias em muitas portas e janelas. É bonito serem flores a proteger do mal, segundo a tradição. Porém, ontem não as pus, porque são difíceis de encontrar ou de apanhar. Escasseiam quando antigamente eram abundantes. E o ritual era engraçado: ir ao monte apanhar um raminho das giestas de flor amarela. Também cresciam e floriam à beira das ruas ou caminhos. Como agora são poucas, há quem as junte, criativamente, a outras flores. Como mostram estas fotos amigas que recebi.



Maio, o que nos trarás? São tantas as incertezas. São tantas as imprevisibilidades. São tantas as reviravoltas e ganâncias de quem governa o mundo que o mundo até entontece.

Quando eu era pequena, tinha medo de ti, Maio, por causa das trovoadas frequentes e previsíveis que te acompanhavam. Nesse tempo, o melhor boletim meteorológico era o meu avô. Olhava para o céu e acertava sempre. Hoje, já não seria bem assim, porque muitas tempestades chegam violentas e revolvem, de repente, os locais onde desabam. Tal como as guerras, atingem pessoas e espaços inocentes, sem dó nem piedade.

Meu querido mês de Maio, fico-me por aqui;

Vê se abrandas o sofrimento

que aumenta em cada momento.

Podemos confiar em ti?


quarta-feira, 29 de abril de 2026

Manhã


Hoje está a chover!

Uma chuva macia e serena

Que me fez logo lembrar

Dias de quando eu era pequena!


Eu e a minha irmã


segunda-feira, 27 de abril de 2026

Na 'minha cidade com mar ao fundo'!

 

Ontem, fui à 'minha cidade com mar ao fundo' - Espinho. Cheguei pela hora da abertura das lojas. Depois de um cafezinho,  estava na rua 19. Uma das primeiras lojas aonde entrei foi a bonita Bertrand. Eu tinha uns livros em mente e um vale ainda do Natal que queria descontar.

Entrei e parei a ver os livros mais em evidência, aqueles que à entrada estão dispostos de modo a chamar logo a atenção. Um deles era de um apresentador da tvi. E outros que devem vender bem. Muito bem. E veio-me à cabeça a frase que agora muita gente diz: 'Toda a gente escreve livros'. E, se são figuras mediáticas, os livros vendem-se. E muitos. E se as editoras têm dinheiro para a publicidade, ainda se vendem mais. Muito mais.

Se calhar, alguém diz a mesma frase quando, modestamente, publico os meus livros. Já agora, estou a trabalhar numa história para crianças que gostaria de publicar ainda este ano e que está a ser ilustrada. Só que, como tanta gente que gosta de escrever, sou desconhecida, anónima e as editoras, que aceitam publicar, têm poucos recursos e são pequenas. Só é grande o prazer de escrever, ver ilustrado e concluído um livro, feito honestamente, com amor, com criatividade, que, de uma forma ou outra, também anda por aí.  

Pois bem, os livros que eu queria comprar eram da Capicua e cuja coleção, julgo, tem o titulo 'Mão Verde'. Ao balcão, estavam duas jovens, simpáticas e educadas, que me informaram que, pelo menos, um desses livros só estava à venda online. Perguntei por outros livros de Capicua, também para crianças. Para além de ser muito talentosa e escrever muito bem, ela aborda temas importantes do dia a dia, como de ligação à natureza. Também compõe músicas muito bonitas e motivadoras para as crianças. 

Uma das jovens pesquisou livros da autora no computador e foi buscá-los a outro espaço que não estava acessível ao público. E pensei o óbvio: há autores e livros muito bons que não estão visíveis nas livrarias. E é pena. Muita pena. Os leitores ficavam a ganhar. 

Portanto, o que está logo à frente dos olhos de quem entra nas livrarias são muitas vezes livros que rendem muito dinheiro: à livraria, aos editores, a quem os escreve.

Não costumo interessar-me por esses livros e acho que o farei cada vez menos. 


sábado, 25 de abril de 2026

25 de Abril!



 

Deram-me cravos vermelhos

Com carinho e amizade

Tinham um belo perfume

Deve ser da LIBERDADE!



sexta-feira, 24 de abril de 2026

Outras coisas de que me lembro

 

Na Faculdade, sobretudo no primeiro ano, naquelas aulas em que o discurso do professor era difícil de entender, eu sentia que gostava de saber muito mais. E, já que estou a abrir a caixa das fragilidades, eu sentia a falta de não ter ido estudar logo a seguir à escola primária. E a principal razão de não ter ido foi ser menina, ter de aprender a fazer tudo o que era próprio de meninas, como trabalhos domésticos, família, coser, bordar... O resto era conversa ociosa ou coisas de ricos.

Eram comuns outros casos semelhantes. E, muito pior ainda, eram as crianças que, pelos dez anos, começavam a trabalhar no duro para ajudar a família. E eram imensas. E andavam muitas vezes com fome e descalças.

Na altura da quarta classe, a minha professora insistiu, até onde pôde, para eu continuar a estudar, mas não foi bem sucedida. Talvez essa atitude da professora  tenha sido um dos principais motores para eu retomar os estudos na adolescência, vendo, na prática, que o esforço e as energias despendidas eram bem maiores do que se tudo fosse feito no tempo certo.

O ensino obrigatório para todos é das melhores conquistas de Abril. Pesem ainda as dificuldades de muitos alunos na conclusão do secundário, no acesso e na continuação no ensino universitário.

Ora, na Faculdade, quando eu podia, passava algum tempo a ler ou a estudar na biblioteca. E via, com alguma frequência, entrar, de repente, alguns alunos como se viessem a fugir, sentarem-se de repente em lugares vagos e dispersos, fingindo de imediato que estavam a estudar. Tudo isto era feito em clima de silêncio e de medo.

Sem demora, entravam uns sujeitos corpulentos e, sem alarde, dirigiam-se aos alunos recém-chegados. Em surdina prepotente, saíam com eles para serem interrogados pela pide, que não suportava opiniões nem palavras, nem gestos contra o regime. 

Também em intervalos das aulas, ou quando havia mais alunos a circular pelos corredores, misturavam-se os ‘bufos’, também corpulentos e de olhos que apontavam em todas as direções. Ouviam as conversas para poderem acusar os mais subversivos, que tinham a coragem de agir ou falar em prol da Liberdade.

Por estas e por outras, faz doer ouvir o partido que, na Assembleia da República e não só,  mente, engana, manipula, insulta,  discrimina, desrespeita, diz tudo o que lhe dá jeito ou lhe ocorre no momento,  dizer que antigamente é que era bom. Coitados, falam, falam, mas não sabem do que falam. 

E o dirigente desse partido chama os jornalistas para o verem na missa, a comungar, a ajoelhar-se, a benzer-se ... E diz-se ungido por Deus!

Até (me) faz bufar. De raiva!


quinta-feira, 23 de abril de 2026

Coisas de que me lembro!

 

Imagem publicada hoje no Expresso Curto

No Dia 25 de Abril de 1974, eu estava no primeiro ano da faculdade de Letras do Porto, no curso de Românicas. A turma era grande e quase toda no feminino. Encantavam-me algumas aulas e noutras sentia-me como um peixinho muito pequeno e desajeitado fora de água. 

Lembro-me de uma professora ainda jovem que levava as aulas muito estruturadas, quase ditava os apontamentos, num misto de aluna e professora, mas que motivava para o estudo atento e para a leitura. 

Uma outra professora dava as aulas de pé, encostava-se muitas vezes ao quadro e fumava cigarro atrás de cigarro. Na aula havia silêncio e o que ela ensinava tornava-se encantatório.

Recordo outro professor que levou aulas e aulas com a análise das primeiras linhas de um livro do século XVI, estabelecendo relações infindáveis com outras obras e saberes da época. Havia quem quase adormecesse naquela aula em que o professor falava sempre olhando os papéis e quase nunca os alunos.

Outro professor, muito jovem e de barbas, comunicava bem melhor e parecia divertido com alguns conteúdos que transmitia.

Impossível esquecer também um outro professor, em início de carreira, que usava uma linguagem tão hermética que a grande parte de nós não entendia nada. Ele expunha os seus saberes, sem, aparentemente, a preocupação de se fazer entender. De vez em quando, circulavam papelinhos secretos, contra o modo fechado como o professor conduzia a aula. Ninguém tinha coragem de reagir em volta aita.

Era de História de Portugal um outro professor também muito jovem. Esse ia respondendo a questões. Durante o diálogo que estabelecia com os alunos, olhava de vez em quando para a porta, parecendo receoso de estar a cometer uma infração, respondendo a dúvidas. E um dia, num desses momentos de interação, a porta abre-se, entra o reitor, o professor fica corado, cessam as questões e a aula fica mais triste.


Se tiverem tempo e paciência, amanhã continuo, porque há outras coisas de que me lembro.


terça-feira, 21 de abril de 2026

Dai-nos, Senhor, palavras bonitas em cada dia!

 

Ontem já tinha falado do prazer de ouvir (e também tecer) um elogio - que não soe a falso nem a interesseiro, é claro. 

Hoje volto ao assunto, porque cada vez mais vejo a importância de dizer e ouvir boas palavras, como  um elogio, um agradecimento... 

Pode ser também um olhar, um sorriso,  um aceno,  um obrigada,  um momento de atenção, uma palavra dita com carinho...

Muitas vezes, vamos a conduzir, damos passagem, e o outro condutor passa indiferente como se nada se tivesse passado. 

Também abrir a porta a alguém para deixar passar ou segurar uns momentos na porta fica muitas vezes sem um obrigado. Quem o faz parece que nem repara na outra pessoa. Como se andássemos demasiado esquecidos ou distraídos. Ou sós no mundo.

Por isso, aqui juntei algumas palavras, em jeito de pequena oração (e que maltratada anda a católica religião!):


Dai-nos, Senhor, palavras boas em cada dia

Porque sem elas não há alegria.

Podem ser de elogio, de agradecimento,

ou de simples e humano reconhecimento.

Ou então em forma de sorriso;

o mundo anda triste e violento

fazendo pensar que não há siso.

 

Quando se vê algo bonito e bom

que nos aquece o coração,

Por que não elogiar?

E 'se Deus nos deu voz' 

por que não boas palavras usar?


Dêmos e recebamos, Senhor, boas palavras em cada dia

que para a alma são alimento,

como para o corpo o pão é sustento.

Precisamos de muita força para dizer não à tirania!


domingo, 19 de abril de 2026

Domingo com ramos de árvore floridos e com bola também

 

Há muitos anos, tive uma amiga que me disse uma coisa que não esqueci: 'Escreve, enquanto as árvores estão floridas'. 

Há dias, um amigo incentivou-me a escrever, dizendo gostar do que escrevo.

Não sei se é problema de geração, mas fico sem jeito perante os elogios, embora me saibam bem. A quem não sabem? Quem não gosta de mimos que julga serem verdadeiros? E as palavras são dos mimos melhores que existem.

Porém, a moda atual não é elogiar os outros, mas enaltecer o ego, evidenciando virtudes próprias e marcando defeitos dos outros.


Hoje é domingo, estou em casa e está bom tempo. Olhei as rosas amarelas dos canteiros, fui ao quintal com a velha Castanha ao meu lado e voltei para dentro com vontade de abrir o computador. 

É que ver árvores floridas no meu quintal e saber que alguém pode gostar das minhas palavras são um bom estímulo para me sentar a escrever.

Mas devo dizer uma coisa: também o faço por algum egoísmo. É que se não escrevesse, por pouco que seja, teria menos alegria ao ver as árvores floridas e ao ouvir palavras bonitas que dão prazer. Apetece-me dizer: 'Escrever faz (-me) bem!


Bom fim de tarde deste domingo de sol!

E, como hoje jogam os grandes da bola, desejo que a vossa vitória vos saiba bem.

Para mim, vitória vitória terá/teria de ser azul. Será?


quarta-feira, 15 de abril de 2026

Tocar piano sem falar francês!


Ontem fui à Casa da Música, no Porto, assistir a um concerto de piano. Durou 2 h, com intervalo. A primeira parte foi preenchida com o 'Requiem' de Mozart; a segunda, com a 'Sinfonia Fantástica' de Berlioz.

Nos dias que correm, podemos interrogar-nos sobre se dá prazer ouvir um pianista em palco - no qual apenas existe um piano - durante duas longas horas

Pois bem, apesar de nada versada em piano, gostei. Gostei muito. E gostei também do ambiente durante o espetáculo: do silêncio por parte do público, de não se ouvir nenhum telemóvel, de nenhuma foto ser tirada, de quase não existirem tosses...

Fiquei com vontade de lá voltar em breve, sobretudo em concertos de fim de tarde, porque cada vez sou menos notívaga. Da beleza tranquila e inspiradora gosto cada vez mais.

O pianista era Vadym Kholodenko, um músico muito premiado e ainda jovem da Ucrânia.

Durante o concerto, iam-me passando coisas pela cabeça, como conversas que vou tendo com a minha neta. Ela aprende piano, mas sem paixão. Eu digo-lhe às vezes: 'Quem me dera tocar piano'. Ela, então, responde na sua graciosa inocência: 'Avó, se quiseres, eu ensino-te'. Pois, tal como a grande maioria das pessoas da minha geração, não tive a possibilidade de 'tocar piano e falar francês'. Fiquei-me pela língua, o que foi muito bom. 

O mundo atual está globalizado. Ontem, viam-se muitos estrangeiros na Casa da Música. Todos unidos e atraídos pela linguagem universal da Música. E nos rostos havia sossego e alegria, o que também (me) tocou.


quarta-feira, 8 de abril de 2026

O café

 

Talvez por ainda ter na boca o gostinho bom do café do pequeno almoço, lembrei-me de algumas situações em que tomar café entra em ação.

É que 'tomar café' pode dar para tudo e mais alguma coisa. Por exemplo, dizer 'vamos tomar café' pode ser conversar, conviver, estar com alguém, sem sequer o café vir para a mesa.

Também  o convite 'anda tomar café comigo em minha casa' pode significar uma boa e partilhada amizade ou até mais intimidade.

Mas o que desarma qualquer um é quando surge o convite 'Vamos tomar café' e a resposta é: 'Eu não tomo café'. É como se a mesa ficasse vazia ou aquecêssemos as mãos em chávena quentinha de café e, de repente, ficasse gelada.

Esta semana, fui ao cinema com amigas. Depois, fomos 'tomar café', sem vir sequer café para a mesa, apesar de sermos todas - acho eu - apreciadoras.

E eu ia pensando como é bom ter pessoas amigas com quem 'tomar café', em dias em que o tempo tantas vezes escasseia para os outros, em dias em que não nos saem da cabeça governantes que maltratam o mundo, que passam a vida a vangloriar-se a si próprios, a culpabilizar e a responsabilizar apenas os outros...

O que vale é que o prazer de coisas boas e simples como 'tomar café' em casa ou com pessoas amigas ninguém nos pode tirar. 

Muitas pessoas já não o podem fazer.