quinta-feira, 23 de abril de 2026

Coisas de que me lembro!

 

Imagem publicada hoje no Expresso Curto

No Dia 25 de Abril de 1974, eu estava no primeiro ano da faculdade de Letras do Porto, no curso de Românicas. A turma era grande e quase toda no feminino. Encantavam-me algumas aulas e noutras sentia-me como um peixinho muito pequeno e desajeitado fora de água. 

Lembro-me de uma professora ainda jovem que levava as aulas muito estruturadas, quase ditava os apontamentos, num misto de aluna e professora, mas que motivava para o estudo atento e para a leitura. 

Uma outra professora dava as aulas de pé, encostava-se muitas vezes ao quadro e fumava cigarro atrás de cigarro. Na aula havia silêncio e o que ela ensinava tornava-se encantatório.

Recordo outro professor que levou aulas e aulas com a análise das primeiras linhas de um livro do século XVI, estabelecendo relações infindáveis com outras obras e saberes da época. Havia quem quase adormecesse naquela aula em que o professor falava sempre olhando os papéis e quase nunca os alunos.

Outro professor, muito jovem e de barbas, comunicava bem melhor e parecia divertido com alguns conteúdos que transmitia.

Impossível esquecer também um outro professor, em início de carreira, que usava uma linguagem tão hermética que a grande parte de nós não entendia nada. Ele expunha os seus saberes, sem, aparentemente, a preocupação de se fazer entender. De vez em quando, circulavam papelinhos secretos, contra o modo fechado como o professor conduzia a aula. Ninguém tinha coragem de reagir em volta aita.

Era de História de Portugal um outro professor também muito jovem. Esse ia respondendo a questões. Durante o diálogo que estabelecia com os alunos, olhava de vez em quando para a porta, parecendo receoso de estar a cometer uma infração, respondendo a dúvidas. E um dia, num desses momentos de interação, a porta abre-se, entra o reitor, o professor fica corado, cessam as questões e a aula fica mais triste.


Se tiverem tempo e paciência, amanhã continuo, porque há outras coisas de que me lembro.


2 comentários:

  1. Bom dia
    Por muita culpa minha fiquei apenas pelo 2º ano geral de administração e comércio ou seja o antigo 8º ano, mas tenho muitas boas recordações desses tempos nomeadamente de um professor de Francês que tinha por norma dizer :
    (Ne parlez pá portuguê ici téte li not) o que traduzido era mais ou menos isto.
    Não fale português aqui cabeça de alo chocho.

    JR

    ResponderEliminar
  2. Olá, mais uma vez. As pessoas não se medem só pelos estudos que têm, mas também pelo que são e pelo que aprendem ao longo da vida.
    Antigamente, seguir estudos era muito difícil porque as oportunidades eram bem menores. Felizmente para os jovens de hoje é mais fácil.
    Achei muito piada à peripécia na aula de francês! Coitado do professor! Nunca deve ter conseguido que a turma fosse ‘francesa!’
    Boa quinta-feira, com boas histórias!

    ResponderEliminar