sexta-feira, 19 de junho de 2026

Com a bebida no balcão

 

Já se conheciam há muitos anos, tinham convivido durante muito tempo, mas raramente se encontravam. Raramente falavam. Raramente trocavam mensagens. Quase só pelo Natal e pelos anos dele. Dela, não, porque ele não sabia as datas dos aniversários e nunca perguntava. Era muito discreto. Sempre assim tinha sido.

Um dia, cruzaram-se, curiosamente, junto a um cruzamento. Ficaram felizes pelo encontro. Ela mais do que ele. Pelo menos parecia. E deram um abraço. Bastante rápido porque estavam na rua e, como eu já disse, ele era discreto. E ela também, embora fosse menos. Cada um pensava que tinha coisas a dizer um ao outro. Ficaram, porém, pelas palavras triviais de quem já não se vê há muito tempo: tudo bem, como vais, estás bem, como tens passado…

Um deles, já não sei bem qual, foi dizendo que a solidão ia pesando. E também já não sei se foi ele ou ela que teve  vontade de dar a mão - acho que foi ela -, sentar-se num banco e ficar a conversar, a conversar... Sem pressas e sem agruras.

Mas não havia banco e ele estava com pressa. Ela ainda teve tempo de dizer que era o seu aniversário. Ele deu-lhe os parabéns e desejou-lhe um dia feliz. E que em breve se encontrariam com mais tempo. E despediu-se.

Se fosse um filme, veríamos uma mulher parada, com ar hesitante, olhando um cruzamento e um homem a afastar-se.

Como se saísse de momentos de letargia, ela respirou fundo e seguiu até ao café mais próximo. Podia ser que encontrasse alguém conhecido com quem pudesse conversar um pouco. Nem que ficassem de pé, com a bebida descansando no balcão!


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