No tempo em que muitas
crianças deixavam a escola depois da quarta classe, muitos afazeres logo os
esperavam, mesmo que bem gostassem de continuar a estudar. O abandono escolar
acontecia por falta de dinheiro na família, por preconceito, para ajudar no
trabalho dos pais...
Às meninas cabia sobretudo
o trabalho doméstico: cuidar da casa, dos irmãos, dos avós… Muitas dessas meninas
iam buscar água ao poço da aldeia, segurando vasilhas grandes nas suas mãos ainda
pequeninas. Iam e vinham em grupo feminino de diferentes idades e seguiam
conversas das mulheres que, tanto falavam alto, como baixavam a voz para segredarem
o que sabiam ou o que lhes ia na alma, como discutiam, como davam gargalhadas,
como insultavam, como ameaçavam…
Nas histórias que contavam,
entrava com frequência a figura do marido: «O meu homem…», nomeado muitas vezes
sem o eme final.
As meninas mais curiosas escutavam
as conversas, mas sem compreender muita coisa. Porém, quando as mulheres se
apercebiam que estavam a ser escutadas, desciam o olhar até elas – segurando com
mãos firmes o caneco da água que transportavam à cabeça – e murmuravam, como se
lançassem cartas para o futuro:
- Vós pra lá ides!
Algumas das meninas entreolhavam-se,
continuavam sem compreender, mudavam a vasilha da água para a outra mão e a
calçada parecia mais comprida, misteriosa e íngreme. De repente, o pensamento
recuava-lhes até ao seu tempo de escola, em que ocupavam as filas de trás, aonde
chegavam palavras pequeninas, enquanto frases mais longas e com futuro se
destinavam sobretudo às meninas das filas da frente.
Havia, contudo,
professoras com o dom de descobrir nas crianças vontade e capacidade para
continuar a estudar. Não queriam que as suas vidas fossem pela água abaixo.
Porém, tais palavras eram muitas vezes levadas pelo vento.
Oh! Não me venham dizer
que no tempo da outra senhora é que era bom!
Sem comentários:
Enviar um comentário