Na aldeia, as mulheres
usavam o cabelo comprido. Quase sempre preso durante toda a vida, tal como se
sentiam desde as horas cansadas e doloridas em que tomavam consciência de si.
Algumas – poucas – faziam
tranças antes de o enrolarem e prenderem atrás. Talvez as mais românticas, as
que liam livros e revistas com histórias de amor que as faziam suspirar. Ou as
que ouviam palavras que lhes adoçavam a vida e lhes davam confiança.
Porém, as que se só ouviam
falas bravias e agrestes penteavam-se como mais uma obrigação: como lavar a
roupa, como limpar a casa, como fazer a comida à hora certa, como ouvir todas
as culpas pelos males domésticos, como se abrir para o marido…
Um dia, uma dessas
mulheres estava a chorar, enquanto se penteava, sentada numa pedra fora de casa.
Gostava de cortar o cabelo, mas o marido não deixava, nem o pai o tinha nunca consentido.
Se o conseguisse, seria também um modo de banir de si palavras repisadas e sem
contraditório, como obediência e submissão.
Atualmente, a rua onde
viveram essas mulheres-Sansão está em ruínas. Algumas dessas mulheres, ao longo
da vida, viram as suas forças a decair, delas não ficando pedra sobre pedra.
Outras, enfrentando dureza antiga e petrificada, não deixaram de partir pedra para
evitar derrocadas.
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