sábado, 7 de março de 2026

Pedra


Na aldeia, as mulheres usavam o cabelo comprido. Quase sempre preso durante toda a vida, tal como se sentiam desde as horas cansadas e doloridas em que tomavam consciência de si.

Algumas – poucas – faziam tranças antes de o enrolarem e prenderem atrás. Talvez as mais românticas, as que liam livros e revistas com histórias de amor que as faziam suspirar. Ou as que ouviam palavras que lhes adoçavam a vida e lhes davam confiança.

Porém, as que se só ouviam falas bravias e agrestes penteavam-se como mais uma obrigação: como lavar a roupa, como limpar a casa, como fazer a comida à hora certa, como ouvir todas as culpas pelos males domésticos, como se abrir para o marido…

Um dia, uma dessas mulheres estava a chorar, enquanto se penteava, sentada numa pedra fora de casa. Gostava de cortar o cabelo, mas o marido não deixava, nem o pai o tinha nunca consentido. Se o conseguisse, seria também um modo de banir de si palavras repisadas e sem contraditório, como obediência e submissão.

 

Atualmente, a rua onde viveram essas mulheres-Sansão está em ruínas. Algumas dessas mulheres, ao longo da vida, viram as suas forças a decair, delas não ficando pedra sobre pedra. Outras, enfrentando dureza antiga e petrificada, não deixaram de partir pedra para evitar derrocadas.

 In Proximidades, Seda Edições, 2025


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