quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Manhã


Na idade em que a mãe ainda tinha o cabelo preto, a filha não reparava como o cabelo dela era tão belo, nem valorizava a cor e a beleza do seu. Só o reconhece agora ao ver fotografias antigas que marcam, a cores ou a preto e branco, a efemeridade e a irreversibilidade do tempo.

Nesse tempo já longínquo, via a mãe a pentear-se e surpreendia-a o comprimento do seu cabelo solto e pensava que nunca a tinha visto a secá-lo, feliz, ao sol.

Concentrada e com ar sério, a mãe retirava os cabelos presos nos dentes do velho pente de osso, enrolava o longo cabelo, prendia-o atrás com ganchos e, para o fixar melhor, colocava uma rede fininha com dedos de delicadeza. Finalmente, alisava o cabelo com as mãos alongadas, enquanto se via ao espelho, virando o rosto de um lado e do outro, para que não lhe escapassem fios em desalinho, enquanto a filha ficava a olhá-la em silêncio sossegado.

Distante estava ainda a noite despenteada dos desassossegos.

 In coletânea proximidades, Seda Publicações, 2025

  

sábado, 17 de janeiro de 2026

Mundo


Tal como na frase «Da minha língua, vê-se o mar», de Vergílio Ferreira, do meu mundo, vejo o Mundo. E o meu mundo é a minha casa.

Nele, busco a paz, mas são imparáveis as imagens e as notícias que me chegam de conflitos e guerras.

Olho os meus livros, sabendo que muitas histórias reais são de violência, discriminação, miséria, destruição, morte, atingindo muitas crianças e quem delas queria cuidar.

 Sei de velhos que ficam nos hospitais sem ninguém os ir buscar, porque já não fazem falta a ninguém e à família falta dinheiro, tempo, espaço, paciência.

Vejo pessoas de todas as idades que sofrem de solidão, porque não são ouvidas, nem olhadas, nem abraçadas, nem reconhecidas.

Oiço vozes de seres ditos humanos, que se consideram messiânicos, e que tecem a sua vida de mentira, de arrogância, de egocentrismo, de ganância, de cinismo, de ódio, de vingança.

Escolho palavras para os meus pequenos textos, buscando sentido, correção e beleza, enquanto multidões desesperadas procuram ajuda, comida, refúgio.

Sinto o cheiro queimado de terras incendiadas e ruídos revoltados de rios e mares maltratados.

 

Felizmente, existem muitas pessoas que, dentro ou fora do seu mundo, ajudam a melhorar muitas vidas, estejam elas próximas ou distantes.

 São inúmeros esses casos, tantas vezes desconhecidos, porque as televisões raramente os divulgam e não tik-tokam nas redes sociais.

 

Será possível dizer que todos veremos ainda um Mundo melhor?


 Texto publicado em proximidades, Seda Publicações, 2025


Coisas do meu quintal


Ontem, ao fim da tarde, estando eu com o meu neto:

- Avó, tens medo de cobras?

- Tenho, meu amor, e num dia muito quente de verão, vi uma enorme.

- Onde, avó?

- No quintal, ao fim da tarde, quando eu andava a regar.

- Ficaste assustada?

- Fiquei, claro,

- Falaste com ela?

- Não, meu amor, eu não sei a linguagem das cobras.

- Eu sei, avó.

- Sabes? Como é?

- Zzzzzzzzzzzz!


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

A planta renascida

 


Tenho este bonsai há cerca de uns trinta anos. Foi oferecido por uma amiga das minhas filhas num aniversário. Julgo que ainda mora no mesmo vasinho pequeno e, de mim, ao longo deste tempo, recebeu apenas  água, o corte de algum raminho seco, um olhar de vez em quando e pouco mais. 

Há tempos, por esquecimento ou por ausência mais prolongada, deparei com a planta a soltar tristemente as folhas amareladas e sem vida. A planta morreu, pensei eu. Porém, não a deitei fora. Quebrei um raminho com os dedos e não me pareceu seca; mudei-a para um lugar mais fresco, passava por ela e olhava-a com a quase certeza de que não resistiria, mas com alguma esperança que desse sinais de vida, apesar de o tempo de morte aparente já ir longo.

Como o meu neto gosta de plantas e de animais, ficou condoído e foi dizendo que a plantinha estava doente e perguntando se ia ficar boa.

Eu não podia alegrá-lo afirmando que ia voltar ao que era, porque seria iludi-lo. Eu estava convencida de que o bonsai nunca mais mostraria as suas folhinhas verdes e viçosas, talvez demasiado grandes porque eu nunca soube como podar a arvorezinha como deve ser. 

Pois bem, hoje olhei para ela e... vi folhinhas a aparecer. Fiquei contente. Ai se não fossem estas pequenas alegrias como estaria a nossa mente na confusão do mundo atual?

Em breve, o meu neto vem cá a casa e vou logo mostrar-lhe a nova vida do bonsai. Vai ficar feliz e chamar a mãe para ver. Vou-lhe pedir que conte as folhas para que as some daqui para a frente. Oxalá ele não perca a esperança nessa soma, porque estamos a perdê-la em muita coisa que se passa à nossa volta. Valha-nos uma pequena planta renascida! E o olhar limpo e feliz de uma criança.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Caminhando em Serralves



 O outono que vai ficando

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Que o ANO NOVO seja mais doce em Verdade e Humanidade!

 


FELIZ 2026!

 



terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Afinal, estou no instagram!



Eu dizia sempre que não tinha e nem precisava de redes sociais, que me fariam perder muito tempo, tempo que me faltava para o meu blogue, à falta, talvez, de mais organização dos meus dias.
Pois bem, a gente diz, rediz e, de repente, muda de opinião: entrei no instagram, depois de algumas explicações de uma das minhas filhas. E gostei de ver rostos e fotos de antigos colegas, de amigos, de algumas figuras conhecidas que aprecio, outras que nem tanto e que por elas passei mais a correr, etc.
Hoje já postei uma foto. Abri a porta da cozinha para ver o céu com cores do sol a pintar o céu. Deparei com muito nevoeiro, desenhando o mistério de cada manhã. Tal como as pessoas.

Bom dia para todos! Bom Ano Novo!