Na idade em que a mãe ainda
tinha o cabelo preto, a filha não reparava como o cabelo dela era tão belo, nem
valorizava a cor e a beleza do seu. Só o reconhece agora ao ver fotografias
antigas que marcam, a cores ou a preto e branco, a efemeridade e a
irreversibilidade do tempo.
Nesse tempo já longínquo,
via a mãe a pentear-se e surpreendia-a o comprimento do seu cabelo solto e
pensava que nunca a tinha visto a secá-lo, feliz, ao sol.
Concentrada e com ar
sério, a mãe retirava os cabelos presos nos dentes do velho pente de osso, enrolava
o longo cabelo, prendia-o atrás com ganchos e, para o fixar melhor, colocava uma
rede fininha com dedos de delicadeza. Finalmente, alisava o cabelo com as mãos alongadas,
enquanto se via ao espelho, virando o rosto de um lado e do outro, para que não
lhe escapassem fios em desalinho, enquanto a filha ficava a olhá-la em silêncio
sossegado.
Distante estava ainda a noite
despenteada dos desassossegos.
In coletânea proximidades, Seda Publicações, 2025




