sexta-feira, 15 de abril de 2016

Conquista



Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Miguel Torga, in Cântico do Homem

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Poemas do Sr Ministro






Romance de Nós
Estou à beira do mar,
estou à beira de ti.
Ardem no meu olhar
os sonhos que não vi.
Tudo em nós foi naufrágio,
não quisemos saber:
fizemos nosso adágio
do que não pôde ser.
Que resta do amor
a quem é como nós?
Envergonha-me pôr
em verso: «somos sós;
sós como amanhecer
às avessas do mundo;
sós como podem ser
as areias no fundo;
somos sós e sabê-lo
é negar o pronome
que de nós fez novelo
e por nós se consome».

Luis Filipe Castro Mendes, in
"Modos de Música"

Das Palavras

As palavras mais simples
foram as que te dei;
o amor não sabe outras,
só estas fazem lei.
As palavras de uso
mais comum e vulgar
são as que amor conhece.
Com elas nos pensamos;
é nelas que tememos
desacertos, enganos;
se nelas triunfamos,
já delas nos perdemos.
Com palavras vulgares
se diz o mal de amor,
seu riso, seu espelho,
o que fica da dor.
E todos os mistérios
que se fazem promessa
e se perdem nos versos
e dos corpos nasceram
são aqui cerimónia
evidente e secreta
nas mais simples palavras
que conhece o poeta.

Luis Filipe Castro Mendes, in

"Os Amantes Obscuros"


domingo, 10 de abril de 2016

Marcelino Vespeira

 (1922-2002)
Aroma - amora 



"E se fosse eu?"


Carta a uma avó refugiada

Com certeza que esta carta não será lida pela principal destinatária, mas envio-ta, a ti, uma avó que abraça uma neta durante uma viagem de grande dureza e precariedade. Não sei se deva dizer viagem ou fuga; migração ou deportação.
Escolhi-te por seres uma mulher muçulmana, de roupas compridas, casaco de malha já gasto, lenço na cabeça a esconder-te os cabelos que imagino lisos e negros.
Desculpa tratar-te por tu, mas também sou avó. Não te  conheço bem, mas vi-te a sair de um barco com outros refugiados de diferentes idades. Pressinto-te corajosa porque arriscaste sair do teu país onde as armas amedrontam e o terror caótica se agudiza e desespera. Não receaste que te tomassem por família de terrorista e ousaste arriscar para que a vida dos que amas não continuasse eternamente por um fio.
Fixei a tua imagem ao lado da tua filha, segurando com forte ternura a tua neta para que  nada de mal lhe aconteça, para além de todos os males que vêm atingindo o teu povo nos últimos tempos. Tantas vezes por ganância e fanatismo dos poderosos.
A tua filha transportava um saco onde imagino haver roupa, alguma comida enlatada e medicamentos. Talvez haja alguma fotografia. Tudo essencial à vida, sem qualquer excesso ou desperdício.
Gostava de ter um pouco da tua coragem, procurar-te, levar-te água limpa e roupa lavada.  Poderia juntar um creme para amaciar o rosto bonito e meigo da tua neta. Ah, e levar-lhe-ia livros de histórias para que a realidade se tornasse mais amena e menos crua. E a imaginação não morresse como tantas pessoas que viajam nos mesmos barcos em que passaste, com custo e a alto preço,  o Mediterrâneo.  E também lápis de cor e um caderno para desenhar imagens felizes e não apenas de negrura do triste desalento.
Não sei o teu nome, nem tu conheces o meu, mas quero enviar-te o meu afeto e uma firme vontade de que a minha neta e a tua possam vir a viver num mundo de paz e liberdade.
Um abraço