terça-feira, 20 de outubro de 2026

Darem-me o lugar faz-me pensar

 

Entrei na carruagem do metro que ia cheia. Logo um jovem adulto se levantou para me dar o lugar. Tinha andado bastante e doíam-me as pernas, mas o motivo não era esse, com certeza, porque as dores dos outros pouco se veem e pouco se sentem. Era a imagem de quem nasceu há muitos anos e que o cabelo branco acentua. Deixei de pintar o cabelo há uns dois anos, por decisão minha, aceitando passar pela fase do cabelo de várias cores: o branco da raiz e a outra parte pintada. Nada bonito, de facto. Muitas vezes, ouvi: Mãe, pinta o cabelo e outras vozes também mo diziam.

Pois bem, a cor do cabelo também influencia muito o dar ou não dar o lugar. O meu como está grisalho, também me ajudou por certo a ter lugar naquela carruagem com muita gente de pé. E se foi bom poder sentar-me e aliviar o cansaço das pernas, também me fez pensar na passagem do tempo que não podemos contrariar. Faço e gosto de fazer yoga e pilates e vou ao ginásio, não sou é suficientemente disciplinada para andar mais a pé. Vou encontrando desculpas para andar de carro: é mais rápido, os sacos das compras são pesados, o supermercado é longe, o tempo é pouco para o que quero e preciso de fazer…

Mas, voltando à carruagem do metro londrino, gostei da atitude do rapaz que, quando nos viu entrar - a mim, à minha filha e à minha neta - logo me deu o lugar, com um sorriso de simpatia, mostrando atenção aos outros e às necessidades dos outros. Um bom sinal. Que também faz pensar. À época é de bastante incomunicação, de solidão, mesmo de jovens. Pensar que há rapazes e raparigas e talvez adultos que se refugiam em relações amorosas com figuras criadas pela inteligência artificial dá que pensar. Haver um jovem que dá o lugar, com um sorriso e não como um frete, a uma pessoa muito mais velha do que ele também faz pensar. Pela positiva. Com esperança.

Para além disso, sei que o tempo é irreversível e aceito-o (que remédio!), embora haja muitos momentos em que apetece dizer: ó tempo, volta pra trás…’


segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Um almoço de domingo em pub londrino

 

Um dia, em conversa, disse a alguém que gostava dos pubs de Londres, A pessoa não conhecia Londres e fez cara de espanto, porque associava pubs a cervejarias pouco recomendáveis. Nada disso, pelo menos pelos pubs que conheço.

A palavra pub vem de public houses. Existem por todo o lado e eram antigas estalagens onde os caminhantes comiam e também pernoitavam, assim como os animais que os transportavam podiam descansar. É secular a tradição.

Hoje são restaurantes bonitos, muitos com flores garridas e viçosas  em taças penduradas ou em canteiros, junto a mesas também no exterior. 

Se muitos jovens os procuram para convívio, sobretudo ao domingo, veem-se diferentes gerações da família sentadas à mesma mesa. Quanto mais fora do centro de Londres,  menos turistas se veem e são, aparentemente, residentes locais que os frequentam. 

Em qualquer estação do ano, os clientes, sobretudo à noite, sentam-se ou ficam de pé cá fora com o seu copo, quase sempre de cerveja, em conversa animada durante muito tempo. Se chover, não há problema, entram no pub ou abrigam-se como podem e a conversa continua.

Num dos últimos domingos que fui a um pub almoçar, ia observando as pessoas que lá estavam  (também havia dois cães) ou que entravam ou que saíam: famílias com crianças pequenas, mesas de amigos ou amigas… o ambiente era descontraído, de vozearia alta e de gargalhadas estridentes. Comentei até que em Portugal, não costumamos ser tão exuberantes. A família não concordou e houve logo exemplos de restaurantes do Porto, por exemplo, em que as pessoas se riem tão alto como falam. 

O típico Sunday roast (o assado de domingo): carne assada com batatas, vegetais de várias cores (cenoura, pastinaca, couve…) e o yorkshire pudding (uma espécie de pão) tudo com um sabor de subir aos céus estava em muitas  mesas, como é tradição ao domingo.

À noite, já em casa, estivemos a ver um episódio atrasado dos Traidores, uma série da BBC com enorme sucesso.

Com prazeres simples, como entrar num bonito pub londrino, nem nos lembramos de tantas traições que proliferam no mundo. Não convém esquecê-las, mas se lhes dermos um intervalo, para nós, comuns mortais, não será pior.


domingo, 18 de outubro de 2026

A rua também pode ser biblioteca

 

Quando fui a Londres da última vez, ao passar numa rua, logo reparei numa casinha de madeira, colocada num muro, e que servia de pequena biblioteca para permuta de livros, discos, etc

A ideia não é nova porque sei que existem semelhantes em vários sítios do nosso país, por exemplo, em Mindelo, em Espinho, etc., mas achei bonito e que dá dignidade aos locais públicos, como uma rua, onde toda a gente pode passar. Muitas vezes,  associamos a rua, sobretudo nas grandes cidades, ao desconhecido, ao perigo, ao possível vandalismo. Ou, nestes casos, em que a portinha estava aberta, a ver coisas que não eram para lá chamadas

Ora, ver uns objetos bonitos assim, em ótimas condições, num passeio público, com uma mensagem simples e clara, apelando à partilha generosa e à cultura dá sossego e alegra à alma, fazendo acreditar que o mundo não é só ruído e violência e que há pessoas que se preocupam com a beleza do mundo, com o bem-estar dos outros, através de gestos e ações simples.

Só tinha levado um livro para ler, estava quase no fim, mas tinha ficado de o emprestar a uma amiga. De outro modo, teria ido lá pô-lo. Podia ser que alguma pessoa portuguesa passasse e o levasse consigo para ler.  

E eu era capaz de pôr dentro uma mensagem, louvando o trabalho realizado neste país. Se fosse uma pessoa local ou de outra proveniência a levá-lo, não fazia mal porque a rua a está aberta a todos. Como uma biblioteca . Ainda que pequena.


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Quem pergunta quer resposta, mas nem sempre assim acontece





Quando vou a Londres passar uns dias, a minha filha pergunta-me sempre: Mãe, o que queres visitar? Da última vez, eu disse: gostava de ver a Tapeçaria de Bayeux, no  Museu Britânico, e logo ela me disse: Seria bom, mãe, mas está esgotadíssimo. Já marcámos a visita, mas só daqui a muitas semanas temos lugar.

Tive pena, porque seria uma oportunidade para ver aquela obra de arte medieval francesa na companhia da família. Mas, paciência, o que não tem remédio remediado está.

Porém, o que digo e o que penso habitualmente, quando a minha filha me faz esta pergunta, é que quero sobretudo conhecer o espírito do lugar: caminhar nas ruas próximas, ir ao supermercado, à padaria, à escola buscar a minha neta, entrar numa loja ou outra que me parece bonita e diferente, olhar os edifícios, ver as pessoas a passar, ou sentadas nas confeitarias ou cafés com o seu computador aberto…

Quando vemos as notícias, sobretudo nalguns canais de enormes audiências, parece que o mundo atual está pejado de crimes e violência, que existem, de facto, mas a grande parte das populações é pacífica e trabalha no dia a dia, fazendo o melhor que pode e sabe sem prejudicar ninguém. Assim pensassem e agissem os poderosos que nos  (des) governam e que tantos transtornos têm causado no mundo pela malvadez da sua ambição desmedida e desumana. 

Ora, isto veio a propósito da pergunta que me faz a minha filha sobre o que eu gostaria de ver em Londres. Eu ainda acrescentaria: estar em casa algum tempo durante o dia e desfrutar do ambiente calmo e luminoso para poder ler o livro que sempre levo e escrever textos pequenos como este, que também me alegram e aliviam.

Não é pedir muito, acho eu, e, felizmente, posso fazê-lo, mas sei que em Londres ou em qualquer lugar do mundo muitas pessoas não o podem fazer.

E, por mais perguntas que façam, são poucas as respostas que encontram.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Os pequenos tradutores


Depois da escola, durante mais de uma semana, fui com a minha neta lanchar sempre ao mesmo sítio em Londres: uma pequena confeitaria com bolos tipo caseiro e sumos naturais. Como fechava às quatro e meia, éramos quase sempre as últimas clientes a entrar e as funcionárias já nos conheciam, sobretudo a minha neta que escolhia sempre o mesmo bolo e o mesmo sumo.

Como ela domina a língua inglesa e eu sei apenas um bocadinho, acabava por preguiçar um pouco: exprimia os meus desejos em português porque tinha logo tradutora. Numa tarde, uma das funcionárias - talvez a mais curiosa - perguntou que língua eu falava. 

- Portuguese - dissemos nós, quase ao mesmo tempo.

E eu logo acrescentei com aquele orgulho quentinho de avó: como não domino a língua inglesa, ela é a minha tradutora.

Com ar simpático, a funcionária sorriu, mostrando conhecimento pelo menos do nome do nosso país e disse:

- Sou turca e quando a minha mãe vem cá, o meu filho também serve muitas vezes de tradutor para a avó.

E como me soube bem o sumo de maçã que eu também pedia habitualmente. Enquanto bebia, fui dizendo como era bom os avós terem netos que os sabem ajudar.

 Não sei muito bem o que a minha neta respondeu, mas o sorriso abriu-se e também os bracitos para um abracinho que, esse, dispensa traduções.


terça-feira, 22 de setembro de 2026

PALMA(S)!

 




sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Duas amigas

 

Quando eu era pequena, tinha uma vizinha cujo pai lhe batia. Antes de lhe bater, dizia que lhe custava muito, mas que tinha de o fazer porque não tinha outra solução. A miúda sofria as agressões e nem sabia qual dor era a maior: se a física, se a dor de saber que não tinha ninguém que a ouvisse, que gostasse dela, que lhe fizesse crer que não estava sozinha no mundo.

Lembrei-me desta história a propósito dos discursos em que o governo diz compreender todas as dificuldades dos portugueses, mas, por exemplo, baixar o preço dos combustíveis, isso é que não. 

Um pouco na senda de que o povo ‘aguenta’, como afirmava um banqueiro há uns anos.

Voltando à vizinha da minha infância, reencontrei-a há uns tempos. Pareceu-me que fazia de conta que era feliz, talvez para fugir a mais pancadas que nunca mais esquecera. Combinámos um café, com dia e hora marcados para não ficar no ar, como tantas vezes acontece.

E falámos. E falámos. Dos filhos. Dos netos. Das solidões que tantas vezes começam na infância e que, ao longo da vida, se vão acumulando. E lembrámos o tempo em que jogávamos à macaca com uma  pedrita a servir de patela  ou com uma latinha de Nívea cheia de areia. E de novo vieram à baila as solidões. Aumentadas por governantes que agridem de diferentes formas e desamparam o mundo. Como se não houvesse outra forma de governar. Como se não houvesse outra solução.

Despedimo-nos com um sorriso de velhas meninas amigas. E fomos cada uma para o seu lado. 

Gostei do reencontro mas nessa noite mal dormi. E era capaz de afirmar que ela também não.


sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Setembro

 O relógio

Como habitualmente, o telefone toca. Oito menos dez. A filha está a chegar ao trabalho. Atende ainda um pouco ensonada. Sim, está tudo bem. E tu? Pois, acho bem que arranjes tempo para ir ao ginásio. Para te manteres bem como estás. Sim, imagino que te soubesse bem uma folga. Deixa lá, amanhã já é fim de semana.

A mesa

Um cheirinho bom a café acabado de fazer. A compota de figo e maçã, os ovos mexidos acabadinhos de saltar para o prato. O pão que teve a noite para descongelar e parecer fresco.

A manhã com tempo

Toma o pequeno almoço nas calmas. Sem obrigações nem pressas. À frente, a televisão sem som. Com títulos a passar rápidos: as trapalhadas do Neves, as meias palavras do Montenegro, as habilidades do Ventura, as trumpalhadas do Sr América que quer pôr em tudo o nome da América! E outras.

 Continua a saborear o seu querido pequeno almoço neste início de setembro porque já lá vai o querido mês de agosto. Do sol e do dia do seu eclipse, da praia e de muitas maresias, de alegrias pelas alegrias da criançada da família, de muitos pratos na mesa perto do churrasco, de aniversários com músicas de ídolos dos pré-adolescentes, de preocupações para que nada falte e tudo esteja a contento de todos!

É setembro. Com calor, depois de uma semana de chuva. As hidrângeas amadureceram. Os dióspiros também vão mudando de cor. Continua à mesa. Degustando memórias recentes. Também de alguns cansaços.  Olha pela janela. O sol tem brilhos de final de verão. Levanta-se. Põe a loiça na banca e deixa-a por lavar. A máquina está avariada. Crente que não vai ficar assim o novo dia.




quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Dolly Parton


Li hoje que Dolly Parton nasceu no estado de Tennessee, numa família pobre e foi a quarta de doze irmãos. O pai era analfabeto. A família soube alimentar-lhe o sonho de cantar. E ela soube multiplicar e partilhar muitos sonhos. Chegou a rainha do country. Mas não só. Contribuiu para causas sociais muito importantes, como a vacinação contra a covid-19 e alfabetização infantil. Morreu ontem aos oitenta anos. Tencionava continuar a cantar. Muita gente continuará a cantar por e para ela. 



segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Coisas de final de verão?

 Perante tanta chuva, hoje dei comigo a pensar no Natal!

Por cá, costumamos dizer: vem a festa do Rosário (em outubro), os Fiéis (em novembro) e logo estamos no Natal.

Ontem e hoje, aqui no Norte, a chuva é tanta que parece outono. Daí eu pensar nos presentes para o Natal - presentes que posso fazer ou comprar sem ser em lojas. Não estarei a contribuir para a economia, mas será um estímulo para quem tem talentos, habilidades, podendo, assim, ganhar algum dinheiro e ver o seu trabalho manual reconhecido.

Mas esta semana, em que se prevê intempérie, terá vindo estragar planos de quem contava com um tempo tranquilo de quase final de verão. 

Felizmente temos a capacidade de nos adaptarmos às situações. E há muitas ofertas, porque, mesmo vilas ou cidades pequenas vão preservando e embelezando o seu património.

Ontem, eu estava com a família na bela festa da Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, mas a chuva era tanta pela manhã, que fomos parar Ponte de Lima. As crianças andaram felizes no museu do brinquedo e nós, adultos, pudemos recordar brinquedos que tivemos ou que muito gostaríamos de ter tido na nossa infância.

Portugal é pequeno mas bonito e variado. Que também não escapa a intempéries de vária ordem.

Que haja, pelo menos, boas alternativas!

Continuação de bom verão! Seja ele seco ou molhado!


sábado, 22 de agosto de 2026

Coisas de verão - casa amada!


Hoje, 22 de agosto, a minha mãe faria 100 anos. Partiu aos 96. A família pensava - e julgo que ela também - que a vida lhe permitiria festejar o centenário. As maleitas não eram de monta, apesar de algumas persistirem.

Hoje dei comigo a pensar em coisas que ficaram da vida da minha mãe: o gosto pelas flores, pela vida calma, pelas palavras poéticas, pelos sabores da comida que tão bem confecionava … 

E o amor por tudo que entendia ser criado por Deus.

E o amor pela casa - o seu reino e o seu paraíso. 

A casa era o lugar das pequenas coisas que só lá encontrava e lhe davam a feliz tranquilidade de que precisava: as linhas e lãs, a máquina de costura; os livros sobre santos e os jornais que lembravam diferentes santidades; os versos que fazia e tantos outros que sabia de cor;  as plantas que lhe mostravam a sua sede e as suas necessidades…

Tanto a minha mãe amava a casa que a família repete a expressão que também ela repetia inúmeras vezes: minha casinha meu lar!


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Coisas de verão - o antes e o depois


Quando tenho qualquer festa em casa, como aniversários, fico bastante stressada, embora tente disfarçar. Alguma coisa pode correr mal, a comida pode não estar como eu gostaria, pode faltar alguma coisa, pode haver algum esquecimento…

Ah! Se alguém não vier, penso que houve desinteresse; se vierem em grande número, sinto desconforto!

Valha-me Deus!


Vem o dia. Vêm as pessoas: a família é grande. Alguns amigos. Uns de perto, outros de longe.

Tudo se vai abrindo como pequena nuvem que dá lugar a mais luz do sol.

Desta vez, no aniversário da Clarinha, como em tantas casas portuguesas nesta altura do ano, falaram-se várias línguas, e uma delas foi o italiano. 

Todos à mesa, vieram à baila canções italianas na memória de muitos, títulos de filmes, expressões conhecidas…

Apesar do trabalho que as festinhas em casa dão sempre, como foi bom ver as solidariedades, as linguagens e boa disposição partilhadas. 

Afinal, o mundo é uma bola em que todos cabemos e na qual entramos com forças e fragilidades.

E, com a leveza possível dos dias, tudo se torna mais querido, neste ‘querido mês de agosto’. 


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Coisas de verão - a mulher do pôr do sol

 

A cena repetia-se. Ao pôr do sol, quando o calor amainava e ficava mais espaço no areal para as gaivotas, ela chegava à praia com os seus óculos escuros e chapéu de abas largas. Sentava-se no muro em frente à esplanada, com meio corpo inclinado para o pôr do sol e balbuciava algumas palavras não muito percetíveis.

 Os habitués da esplanada, para o último fino do dia com tremoços e amendoins, já se tinham habituado à presença dela, sentada de lado, no muro baixo e em frente. Houve até quem a fotografasse à sorrelfa apenas porque dava uma boa foto a contra-luz.

Porém, uma das crianças, naturalmente curiosa, aproximou-se da mulher para perceber o que dizia e ouviu-a repetir: 

- Será que voltas amanhã? Será que voltas amanhã?

Logo que percebeu as palavras dela, veio, a correr, contar.

- Mãe, a senhora perguntou se voltava amanhã. Ela fala com o sol?

- Talvez, filho, ou dirigia-se a alguém.

- Mãe, mas eu não vi ninguém.

- Pois, filho, se calhar, é mesmo o sol que a senhora procura!


sábado, 15 de agosto de 2026

Coisas de verão - os palavrões

 

Fui cedo passear o cão ao passadiço. À hora em que pouca gente passa, a não ser os peregrinos. Ou pessoas que moram por ali e querem aproveitar as horas em que não chegam os banhistas com sacas e caixas de farnéis, com os guarda-sóis, tapa-ventos e muitos etecetras.

Ora, sentados, na beira do passadiço, estavam dois homens a conversar. Faziam-se ouvir e bem.  O outro ruído era o do mar e, comparando com as vozes deles, era bem mais brando.

Apeteceu-me abrandar para ouvir o que diziam, não fosse o cão puxar-me com toda a força. Mas deu para ouvir algumas coisas.

Falavam de futebol e de política, tudo misturado. E não havia frase nenhuma - todas muito curtas - em que não entrassem palavras começadas por cê, por pê, por efe…

E como o cão puxava com tanta força, até pensei: será que o cão não gosta de palavras a que não está habituado? E ainda deu para ouvir: F…

Ou fui eu que pensei???


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Coisas de verão - à semana, sim; ao fim de semana, não!

 

É caso para dizer: quem nunca foi ao Castro Sampaio, em Labruge, Vila do Conde, não deixe de ir, se e quando puder.

Pode-se ir pela praia, por exemplo, a partir de Mindelo, havendo passadiços em muito do percurso.

Ao longe, avista-se a capelinha num vasto terreiro, donde se desfruta o mar imenso. Faz lembrar as cantigas de amigo - quando o namorado partia mar fora para ir para as guerras, das quais nunca se sabia se e quando voltaria.

As praias pequenas, cercadas de altos rochedos chamam e acarinham.

E o restaurante, que mais parece bar comum de praia, serve peixe bom e bem cozinhado. Saboreá-lo ao fim da tarde será como dar a mão em momento relaxado e confiante de prazer.

Porém, diz quem sabe que ao fim de semana é horrível pelas enchentes.

Ir de carro é outro frete, porque os acessos são apertados.

Durante a semana? Belo e tranquilo.

Durante o fim de semana? O melhor é ficar em casa, ou escolher outro lugar.

É que há mar e mar; muito motivo para lá ir: mas, com confusão, pode perder-se a vontade de lá voltar!


Coisas de verão - e depois do adeus

  

Vi em casa o eclipse. Abri a janela, pus os óculos e vi o sol em forma de lua. O tempo escureceu, mas não tanto como eu pensava.

Senti uma brisa a entrar pela janela. Suave e boa. Os ramos da camélia agitaram-se. Mas pouco. Os carros na rua passaram a ser raros. Senti a calma força da natureza.

Perto de casa, já tinha visto muita gente, uns de pé, outros sentados, óculos na mão, à espera do eclipse.

Na televisão, falava quem fez muitos e muitos quilómetros para chegar ao sítio em que o sol mais se esconderia. Como em Bragança. Havia pessoas comovidas, outras repetiam lugares comuns que era o que saía no momento…

Um brasileiro, emocionado, também me comoveu. Para ele, o eclipse era um fenómeno democrático que unia toda a gente, sem distinção.

Realmente há maravilhas da natureza que revelam maravilhas dos seres humanos.

E que perduram, mesmo depois do adeus!

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Coisas deste verão - os óculos do eclipse e os desmancha-prazeres!


Hoje precisei de ir à farmácia aonde vou habitualmente. É uma farmácia pequena e fica numa rua fora do centro da vila, hoje cidade. 

Estive lá uns 15 minutos para comprar os medicamentos de que precisava. Durante esse tempo, vieram umas quatro pessoas à procura de óculos para ver o eclipse.

Quando a porta se abria e se a farmacêutica não conhecia as pessoas, logo dizia: desculpe, mas, se é para os óculos do eclipse, já não tenho!

E ia comentando: Estou farta de dizer a mesma coisa! Que passe depressa o eclipse e venha o dia de amanhã!

E acrescentou outra coisa que, com alguma razão, também poderia ser para mim, embora, neste caso, já tenha os meus óculos na carteira: as pessoas procuram as coisas mesmo na última!

Cá em casa já toda a gente tem óculos e está entusiasmada para assistir logo ao eclipse.

Porém, com ou sem ironia, já ouvi: Todos os dias, o dia dá lugar à noite e não é preciso tanta festa!

Quem o disse ouviu que era desmancha-prazeres.

Mas, cá pra mim, as nuvens ou o nevoeiro é que vão ser os maiores desmancha-prazeres.

Mesmo assim, que a Festa não se eclipse!


terça-feira, 11 de agosto de 2026

Coisas de verão - a senhora do vestido lilás!

 

Logo que nos sentámos no café Velasquez, reparei numa senhora, que, sozinha, ocupava uma das mesas rente ao vidro que separava o interior da esplanada.

As mangas curtas do vestido lilás realçavam-lhe a magreza dos braços. O cabelo, cortado a direito, pressentia-se liso pela laca. Alguém da mesa também reparou nela e perguntou:

- Em que rua morará aquela senhora?

Logo veio a resposta: 

- Numa das avenidas próximas, por certo.

Concordámos. Pela postura. Pela sobriedade. 

Porém, durante o tempo que estivemos no café, a senhora do vestido lilás não tirou os olhos do telemóvel. Nem as mãos.

Não sei se estava a receber mensagens! Não parecia porque a expressão era sempre igual.

Saímos. Sem saber quanto tempo iria ficar no café a senhora do vestido lilás. A senhora que parecia viver numa das casas bonitas das bonitas avenidas. Talvez numa casa com flores e largas janelas. 

Mas sem ouvir ninguém a tocar à campainha. Nem a ser chamada, amorosamente, pelo nome.


domingo, 9 de agosto de 2026

Coisas de verão - o bar da praia não anuncia só gelados


Já me tinham avisado do evento, porque sabem que gosto de livros.

Mas também gosto de gelados!

Num pequeno cartaz, na parede de um bar da praia, anunciava-se a apresentação de um livro de Inês Meneses e Tó Zé Brito, escrito por eles a quatro mãos.

Prometia. Sou fã do podcast Fala com ela, que IMM dinamiza há uns anos. Também gosto de muitas canções de TZB. 

Era ao fim da tarde. 

Fui com a minha neta. De vez em quando, eu traduzia-lhe algumas coisas que achava importantes.

A autora viveu em Mindelo dos 3 aos 21 anos, aonde vem com frequência com o companheiro, Tó Zé Brito.

O local da apresentação do livro era aprazível e dedicado a atividades culturais. Julgo que já foi escola primária. Quero conhecer melhor o espaço e o que nele se realiza.

A conversa entre os autores - o casal - foi serena e amorosa. Falaram do respeito mútuo, do prazer partilhado na escrita diária do livro, dos gostos comuns como a leitura e o cinema.

Gostei muito do que disseram, da calma com que o disseram e espero gostar do livro também:

Ao fim do dia/Memórias e confissões de um casal, Contraponto.

E gostei que a minha neta também tivesse apreciado, apesar da barreira da língua. Mesmo assim, espero ter-lhe proporcionado uma boa memória do momento.

A par dos gelados e bolas de Berlim que adora e come na praia!


sábado, 8 de agosto de 2026

Coisas de verão - o amolador de facas


A criançada andava toda na brincadeira.

De repente, faz-se ouvir um apito que vinha do fundo da rua. 

- Olha, é o assobio do amolador das facas - disseram os mais velhos.

- Ainda me lembro de um que passava na rua da minha infância - disse outro ainda jovem, mas já não tão jovem assim.

É a primeira vez que oiço este som - disse um dos mais novos.

- E o amolador vinha também de carrinha e com altifalante? -  perguntou uma das crianças.

- Nem pensar! -  logo alguém respondeu. Vinha numa espécie de bicicleta adaptada onde cabia a ferramenta necessária ao afiar das facas. Tocava um apito para chamar os clientes.

A carrinha já próxima, a criançada quis experimentar o serviço. Os adultos foram buscar duas facas para afiar. 

O homem abriu a porta de trás da carrinha e ligou um rodízio moderno.

Quando devolveu as facas afiadas, recebeu cinco euros de cada uma. 

O mais velho dos mais novos logo disse:

- Com este dinheiro, mais valia comprar facas novas.

Valeu pela memória antiga do assobio - pensei eu, enquanto a carrinha se afastava com o apito eletrónico e a peripécia terminava por ali. 

Como uma onda diferente que se mistura, lentamente, no oceano da memória.