Quando eu era pequena, tinha uma vizinha cujo pai lhe batia. Antes de lhe bater, dizia que lhe custava muito, mas que tinha de o fazer porque não tinha outra solução. A miúda sofria as agressões e nem sabia qual dor era a maior: se a física, se a dor de saber que não tinha ninguém que a ouvisse, que gostasse dela, que lhe fizesse crer que não estava sozinha no mundo.
Lembrei-me desta história a propósito dos discursos em que o governo diz compreender todas as dificuldades dos portugueses, mas, por exemplo, baixar o preço dos combustíveis, isso é que não.
Um pouco na senda de que o povo ‘aguenta’, como afirmava um banqueiro há uns anos.
Voltando à vizinha da minha infância, reencontrei-a há uns tempos. Pareceu-me que fazia de conta que era feliz, talvez para fugir a mais pancadas que nunca mais esquecera. Combinámos um café, com dia e hora marcados para não ficar no ar, como tantas vezes acontece.
E falámos. E falámos. Dos filhos. Dos netos. Das solidões que tantas vezes começam na infância e que, ao longo da vida, se vão acumulando. E lembrámos o tempo em que jogávamos à macaca com uma pedrita a servir de patela ou com uma latinha de Nívea cheia de areia. E de novo vieram à baila as solidões. Aumentadas por governantes que agridem de diferentes formas e desamparam o mundo. Como se não houvesse outra forma de governar. Como se não houvesse outra solução.
Despedimo-nos com um sorriso de velhas meninas amigas. E fomos cada uma para o seu lado.
Gostei do reencontro mas nessa noite mal dormi. E era capaz de afirmar que ela também não.
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