terça-feira, 22 de setembro de 2026
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
Duas amigas
Quando eu era pequena, tinha uma vizinha cujo pai lhe batia. Antes de lhe bater, dizia que lhe custava muito, mas que tinha de o fazer porque não tinha outra solução. A miúda sofria as agressões e nem sabia qual dor era a maior: se a física, se a dor de saber que não tinha ninguém que a ouvisse, que gostasse dela, que lhe fizesse crer que não estava sozinha no mundo.
Lembrei-me desta história a propósito dos discursos em que o governo diz compreender todas as dificuldades dos portugueses, mas, por exemplo, baixar o preço dos combustíveis, isso é que não.
Um pouco na senda de que o povo ‘aguenta’, como afirmava um banqueiro há uns anos.
Voltando à vizinha da minha infância, reencontrei-a há uns tempos. Pareceu-me que fazia de conta que era feliz, talvez para fugir a mais pancadas que nunca mais esquecera. Combinámos um café, com dia e hora marcados para não ficar no ar, como tantas vezes acontece.
E falámos. E falámos. Dos filhos. Dos netos. Das solidões que tantas vezes começam na infância e que, ao longo da vida, se vão acumulando. E lembrámos o tempo em que jogávamos à macaca com uma pedrita a servir de patela ou com uma latinha de Nívea cheia de areia. E de novo vieram à baila as solidões. Aumentadas por governantes que agridem de diferentes formas e desamparam o mundo. Como se não houvesse outra forma de governar. Como se não houvesse outra solução.
Despedimo-nos com um sorriso de velhas meninas amigas. E fomos cada uma para o seu lado.
Gostei do reencontro mas nessa noite mal dormi. E era capaz de afirmar que ela também não.
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
Setembro
O relógio
Como habitualmente, o telefone toca. Oito menos dez. A filha está a chegar ao trabalho. Atende ainda um pouco ensonada. Sim, está tudo bem. E tu? Pois, acho bem que arranjes tempo para ir ao ginásio. Para te manteres bem como estás. Sim, imagino que te soubesse bem uma folga. Deixa lá, amanhã já é fim de semana.
A mesa
Um cheirinho bom a café acabado de fazer. A compota de figo e maçã, os ovos mexidos acabadinhos de saltar para o prato. O pão que teve a noite para descongelar e parecer fresco.
A manhã com tempo
Toma o pequeno almoço nas calmas. Sem obrigações nem pressas. À frente, a televisão sem som. Com títulos a passar rápidos: as trapalhadas do Neves, as meias palavras do Montenegro, as habilidades do Ventura, as trumpalhadas do Sr América que quer pôr em tudo o nome da América! E outras.
Continua a saborear o seu querido pequeno almoço neste início de setembro porque já lá vai o querido mês de agosto. Do sol e do dia do seu eclipse, da praia e de muitas maresias, de alegrias pelas alegrias da criançada da família, de muitos pratos na mesa perto do churrasco, de aniversários com músicas de ídolos dos pré-adolescentes, de preocupações para que nada falte e tudo esteja a contento de todos!
É setembro. Com calor, depois de uma semana de chuva. As hidrângeas amadureceram. Os dióspiros também vão mudando de cor. Continua à mesa. Degustando memórias recentes. Também de alguns cansaços. Olha pela janela. O sol tem brilhos de final de verão. Levanta-se. Põe a loiça na banca e deixa-a por lavar. A máquina está avariada. Crente que não vai ficar assim o novo dia.