terça-feira, 20 de outubro de 2026

Darem-me o lugar faz-me pensar

 

Entrei na carruagem do metro que ia cheia. Logo um jovem adulto se levantou para me dar o lugar. Tinha andado bastante e doíam-me as pernas, mas o motivo não era esse, com certeza, porque as dores dos outros pouco se veem e pouco se sentem. Era a imagem de quem nasceu há muitos anos e que o cabelo branco acentua. Deixei de pintar o cabelo há uns dois anos, por decisão minha, aceitando passar pela fase do cabelo de várias cores: o branco da raiz e a outra parte pintada. Nada bonito, de facto. Muitas vezes, ouvi: Mãe, pinta o cabelo e outras vozes também mo diziam.

Pois bem, a cor do cabelo também influencia muito o dar ou não dar o lugar. O meu como está grisalho, também me ajudou por certo a ter lugar naquela carruagem com muita gente de pé. E se foi bom poder sentar-me e aliviar o cansaço das pernas, também me fez pensar na passagem do tempo que não podemos contrariar. Faço e gosto de fazer yoga e pilates e vou ao ginásio, não sou é suficientemente disciplinada para andar mais a pé. Vou encontrando desculpas para andar de carro: é mais rápido, os sacos das compras são pesados, o supermercado é longe, o tempo é pouco para o que quero e preciso de fazer…

Mas, voltando à carruagem do metro londrino, gostei da atitude do rapaz que, quando nos viu entrar - a mim, à minha filha e à minha neta - logo me deu o lugar, com um sorriso de simpatia, mostrando atenção aos outros e às necessidades dos outros. Um bom sinal. Que também faz pensar. À época é de bastante incomunicação, de solidão, mesmo de jovens. Pensar que há rapazes e raparigas e talvez adultos que se refugiam em relações amorosas com figuras criadas pela inteligência artificial dá que pensar. Haver um jovem que dá o lugar, com um sorriso e não como um frete, a uma pessoa muito mais velha do que ele também faz pensar. Pela positiva. Com esperança.

Para além disso, sei que o tempo é irreversível e aceito-o (que remédio!), embora haja muitos momentos em que apetece dizer: ó tempo, volta pra trás…’


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