Depois da escola, durante mais de uma semana, fui com a minha neta lanchar sempre ao mesmo sítio em Londres: uma pequena confeitaria com bolos tipo caseiro e sumos naturais. Como fechava às quatro e meia, éramos quase sempre as últimas clientes a entrar e as funcionárias já nos conheciam, sobretudo a minha neta que escolhia sempre o mesmo bolo e o mesmo sumo.
Como ela domina a língua inglesa e eu sei apenas um bocadinho, acabava por preguiçar um pouco: exprimia os meus desejos em português porque tinha logo tradutora. Numa tarde, uma das funcionárias - talvez a mais curiosa - perguntou que língua eu falava.
- Portuguese - dissemos nós, quase ao mesmo tempo.
E eu logo acrescentei com aquele orgulho quentinho de avó: como não domino a língua inglesa, ela é a minha tradutora.
Com ar simpático, a funcionária sorriu, mostrando conhecimento pelo menos do nome do nosso país e disse:
- Sou turca e quando a minha mãe vem cá, o meu filho também serve muitas vezes de tradutor para a avó.
E como me soube bem o sumo de maçã que eu também pedia habitualmente. Enquanto bebia, fui dizendo como era bom os avós terem netos que os sabem ajudar.
Não sei muito bem o que a minha neta respondeu, mas o sorriso abriu-se e também os bracitos para um abracinho que, esse, dispensa traduções.
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