sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Quem pergunta quer resposta, mas nem sempre assim acontece





Quando vou a Londres passar uns dias, a minha filha pergunta-me sempre: Mãe, o que queres visitar? Da última vez, eu disse: gostava de ver a Tapeçaria de Bayeux, no  Museu Britânico, e logo ela me disse: Seria bom, mãe, mas está esgotadíssimo. Já marcámos a visita, mas só daqui a muitas semanas temos lugar.

Tive pena, porque seria uma oportunidade para ver aquela obra de arte medieval francesa na companhia da família. Mas, paciência, o que não tem remédio remediado está.

Porém, o que digo e o que penso habitualmente, quando a minha filha me faz esta pergunta, é que quero sobretudo conhecer o espírito do lugar: caminhar nas ruas próximas, ir ao supermercado, à padaria, à escola buscar a minha neta, entrar numa loja ou outra que me parece bonita e diferente, olhar os edifícios, ver as pessoas a passar, ou sentadas nas confeitarias ou cafés com o seu computador aberto…

Quando vemos as notícias, sobretudo nalguns canais de enormes audiências, parece que o mundo atual está pejado de crimes e violência, que existem, de facto, mas a grande parte das populações é pacífica e trabalha no dia a dia, fazendo o melhor que pode e sabe sem prejudicar ninguém. Assim pensassem e agissem os poderosos que nos  (des) governam e que tantos transtornos têm causado no mundo pela malvadez da sua ambição desmedida e desumana. 

Ora, isto veio a propósito da pergunta que me faz a minha filha sobre o que eu gostaria de ver em Londres. Eu ainda acrescentaria: estar em casa algum tempo durante o dia e desfrutar do ambiente calmo e luminoso para poder ler o livro que sempre levo e escrever textos pequenos como este, que também me alegram e aliviam.

Não é pedir muito, acho eu, e, felizmente, posso fazê-lo, mas sei que em Londres ou em qualquer lugar do mundo muitas pessoas não o podem fazer.

E, por mais perguntas que façam, são poucas as respostas que encontram.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Os pequenos tradutores


Depois da escola, durante mais de uma semana, fui com a minha neta lanchar sempre ao mesmo sítio em Londres: uma pequena confeitaria com bolos tipo caseiro e sumos naturais. Como fechava às quatro e meia, éramos quase sempre as últimas clientes a entrar e as funcionárias já nos conheciam, sobretudo a minha neta que escolhia sempre o mesmo bolo e o mesmo sumo.

Como ela domina a língua inglesa e eu sei apenas um bocadinho, acabava por preguiçar um pouco: exprimia os meus desejos em português porque tinha logo tradutora. Numa tarde, uma das funcionárias - talvez a mais curiosa - perguntou que língua eu falava. 

- Portuguese - dissemos nós, quase ao mesmo tempo.

E eu logo acrescentei com aquele orgulho quentinho de avó: como não domino a língua inglesa, ela é a minha tradutora.

Com ar simpático, a funcionária sorriu, mostrando conhecimento pelo menos do nome do nosso país e disse:

- Sou turca e quando a minha mãe vem cá, o meu filho também serve muitas vezes de tradutor para a avó.

E como me soube bem o sumo de maçã que eu também pedia habitualmente. Enquanto bebia, fui dizendo como era bom os avós terem netos que os sabem ajudar.

 Não sei muito bem o que a minha neta respondeu, mas o sorriso abriu-se e também os bracitos para um abracinho que, esse, dispensa traduções.