sábado, 28 de novembro de 2020

Desculpem! Vou falar da minha mãe

 

Nos encontros ou festinhas familiares, há sempre o 'momento de poesia', em que a minha mãe é a protagonista, porque, da família, é a única que sabe muitos versos de cor. E o que é mais curioso é que os aprendeu há mais de oitenta anos na escola primária. Com a D. Berta, 'a minha professora', como gosta de frisar. 

Antes de começar a recitar os versos, acedendo ao nosso pedido, refere sempre que são simples, que já são muito antigos e outras modéstias, mas logo se concentra e diz o poema que escolhe ou que lhe sugerimos, pronunciando muito bem todas as palavras, todas as rimas, todas as sílabas.

A minha mãe não é dada a falar de prazeres, mas, quando está a dizer versos, vemos que é prazer o que está a sentir.

Quando termina um poema, todos aplaudem e pedem mais. Ela enumera outras modéstias, como não ter  estudos, mas logo se lembra de outro poema. Pode ser 'A balada da neve', um poema sobre o monte Crasto, outro sobre o fabrico do linho, outro sobre as regiões de Portugal... O rol é muito extenso e sempre fiel às tradições.

Todos nós, de cada vez que a ouvimos, nos extasiamos com os inúmeros poemas que guarda tão bem na caixinha da memória.

O meu pai, que não era muito dado a elogios caseiros, ouvia-a sempre embevecido, o que também era muito bonito.

Há um poema, cujo autor desconheço, que, nessas ocasiões, ouvimos da minha mãe, dando entoação aos pontos bem humorados, mas sem nunca perder o fio à meada das palavras, como em todos os outros que aprendeu há mais de oitenta anos e que nunca esqueceu.


"Os velhos

Numa aldeia distante,

isto em tempos já passados,

viviam alegremente

dois velhinhos bem casados.

 

A mulher e o companheiro

diziam, juntos, os dois:

Se tu morreres primeiro,

morrerei logo depois!

 

Nisto, uma pancada forte

na porta se fez ouvir.

- Quem é? Perguntam.

- É a morte.

Quero entrar; venham abrir.

 

- Diacho, diz o marido,

como há de isto agora ser?

Tenho aqui um pé dorido;

vai lá tu abrir, mulher.

 

Mas ela logo se queixa:

-Valha-me Nosso Senhor,

este flato não me deixa;

Vai lá tu, fazes favor.

 

Nisto, a morte enfadada

Investiu pelo postigo

E, entrando na pousada,

Levou os velhos consigo!"

 

 (Encontrei esta narrativa, com algumas diferenças, em

http://www.ffam.pt/docs.asp?id_menu=135

Dizem ser uma 'fábula polaca').

2 comentários:

  1. Bonito o que conta.
    A poesia é engraçada!

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  2. Sim, Isabel, o que conto é verdadeiro e também acho bonito. A família é grande e, quando nos juntamos todos, há sempre muitas vozes e ruídos, mas, quando pedimos à minha mãe para dizer os versos, faz-se silêncio!!!
    Um beijinho e uma tarde feliz
    M.

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