sexta-feira, 28 de maio de 2021

Ontem vi uma gaivota

 

Ontem vi uma gaivota

numa rua a passear,

não parecia andar perdida

mas até mui divertida

em Espinho visitar.


Eu comia um croissant

quando vi a tal turista

no passeio a saltitar;

não pude fotografar

mas ficou-me aquela vista.


De repente, o que vejo?

A gaivotinha a parar.

E fiquei surpreendida:

estaria exaurida

a ponto de não voar?

 

Mas estava escorreita

e  saudável parecia;

não  havia então razão,

só se fosse de emoção

por tudo aquilo que via.

 

E foi quando concluí

por que ela pararia:

que frescura de verdade!

Viera em  liberdade

em busca da peixaria!

 


quinta-feira, 27 de maio de 2021

Maresias, batatas, cebolas, gavetas, escolinha...

 

Hoje de manhã fui a Espinho, uma cidade bonita, geométrica e com mar ao fundo.  Enquanto conduzia, iam-me surgindo ideias. Umas iam ficando nas bermas da estrada, outras foram saborosas, ainda que simples, enquanto duraram. Matéria para um post - pensava eu. E já não sei a que propósito, pensei nas minhas viagens a Londres que deixei de fazer com a pandemia.

Quando chegava à estação de comboio e via a minha filha e a minha neta à minha espera, era como se chegasse a uma casa que não era a minha, mas que era como se fosse a minha casa. Daí a umas horas, já tinha tomado nota de coisas a comprar para cozinhar. Para uma tuga como eu, era quase impossível ter só uma ou duas batatas ou apenas uma ou duas cebolas. E logo eu: filha, vou ao supermercado. E lá vinha eu carregadinha, a pé, é claro, porque a facilidade dos transportes dispensa-lhes o carro, com batatas, cebolas, alhos, mais fruta, etc.

 E quando me apanhava sozinha em casa - na época, não havia teletrabalho e a Clarinha ia para a escolinha cedo - punha-me a arrumar prateleiras e gavetas. Quando contava isto às minhas amigas, diziam-me: fazes isso porque ela é tua filha, se fosse nora, não fazias.

E às 15.30, lá estava eu diante da porta alta e resistente da escola primária. Estivesse sol ou a chover, esperávamos todos cá fora pela hora certa em que o portão se abria para irmos buscar as nossas crianças. Mais todas do que todos. De cores de pele diferentes, umas com o cabelo descoberto, muitas com ele escondido nos lenços que os prendiam. E, em breve, estava eu junto da sala, a espreitar para ver a minha boneca, já que os meninos esperavam que a professora, à porta, os chamasse. E lá vinha ela a correr até mim, porque aos 4/5 anos, raramente se caminha e quase sempre se corre.

E assim cheguei às ruas geométricas de Espinho com as suas obras que nunca mais acabam e afixam placas com imensos desvios. Para além da maresia, há bons espaços com cheiro a boa maré de livros: uma Bertrand com muita luz e simpatia; uma biblioteca onde queria ter ido hoje, mas não fui. Faltou-me tempo. Como faltavam as batatas e as cebolas  em Londres, sem faltar a vontade de lá voltar.


terça-feira, 25 de maio de 2021

Uma nova hera

A casa sempre havia sido uma paixão. Nela tinha nascido e vivido. Era de granito firme e  sossegado, tinha um frondoso jardim e um quintal que não era grande mas enorme em fertilidade. E o rio corria sempre ao alcance da sua vista.

Os pais, em tempos, quiseram casá-lo com uma rapariga que eles conheciam desde menina. E, apesar de já não ser nada menina, toda a gente a tratava desse modo. A menina isto, a menina aquilo. E a voz e o jeito de sorrir dela era mesmo de menina.

Para fazer a vontade aos pais e por estar em idade muito mais do que casadoira, ele começou a fazer-lhe a corte. Ela sorria-lhe, mas quando ele lhe queria fazer uns mimos diferentes daqueles a que ela estava habituada, adeus ou até logo. Tinha uma novena, tinha de preparar o retiro, tinha de ir à missa, era a hora do terço, tinha de preparar uma leitura ou um  peditório, etc.

Ele começou a cansar-se de não lhe poder dar os mimos desejados nem dela receber os mimos esperados. E os mimos acabaram, mesmo sem terem começado. Era da maneira que podia passar os domingos como queria: ir correr pelos montes ou pelos passadiços junto ao mar. 

Quando os pais morreram, ele ficou a morar sozinho na casa. Como já estava reformado, todos os dias tinha flores para plantar, ervas para arrancar, relva para cortar, ramos para podar, etc. A casa estava sempre num brinco e, para a aprimorar ainda mais, mandou fazer um grande azulejo com a sua fotografia, de todas a melhor e mais bonita. Achava um primor vê-la na parede com mais sol.

Um dia, nesses passeios de domingo, que manteve porque a vida tinha de continuar, conheceu um amor, um grande amor, o seu maior amor. Era como se já se conhecessem desde o tempo em que o amor é amor. E o cupido acertou de tal maneira que foi ficando na casa de seu amor para do amor estar mais próximo. Fica só hoje. Só mais esta noite. Amanhã é domingo e podemos correr juntos, etc etc etc. E os dias foram passando, as semanas e até os meses.

Mas a lembrança da casa que fora o seu berço não o abandonava. Como estará tudo? Deve estar uma selva. Parece que a casa é mais importante do que eu - dizia o seu amor. Claro que não - respondia com amor. E tinha pena de o seu amor não conhecer a casa. Muitas vezes o seu amor prometera ir ver a casa, mas, chegando o dia, sugeria nova corrida ou um petisco como ele nunca provara. Ainda bem que o seu amor, quando se dispunha a falar dela, o aconselhava a nunca vender a casa.

Um dia, mesmo sem querer contrariar o seu amor, trocou-lhe as voltas e, sem nada lhe dizer, foi em corrida até à sua casa. Já não podia mais. Tinha de ver como estava. Quando chegou, nem queria acreditar, as ervas daninhas cresciam por toda a parte e em plena liberdade. E que desgosto ver uma hera que havia trepado pela parede e já lhe cobria parte do retrato. Nem teve coragem de entrar. Pôs-se a caminho da casa do seu amor. Ia desnorteado, meio zonzo e nem ouviu a buzina do carro que o atropelou. Morreu poucas horas depois.

Na mesma semana, o amor, que fora o seu amor, veio conhecer a casa. E foi amor à primeira vista. Tinha era de cortar a erva. E plantar uma nova hera para cobrir todo o retrato. Sempre ficava mais barato do que mandar tirá-lo da parede.

 

segunda-feira, 24 de maio de 2021

domingo, 23 de maio de 2021

Hoje tomei a primeira dose da vacina. 'Voilà'

 
Pelo telefone, avisaram-me da minha vez para tomar a vacina: Multiusos de Gondomar, às 11.30 deste domingo.
Aceita?
Claro que aceito. Posso saber qual é a vacina?
Isso não sei.
Ok, muito obrigada.
 
Cheguei ao Multiusos à espera de uma grande 'turma ex-covid', porque, entretanto, soube de outros casos de pessoas que foram infetadas, como eu, e também chamadas. E assim aconteceu, mas tudo calmo, apesar de haver muita gente. Tinha vestido uma blusa sem manga para tornar mais fácil o ato e desejando que a seringa entrasse rápido e não em perfuração lenta, como às vezes parece na televisão.
 
E tudo decorreu como gosto: espaço para o necessário distanciamento, boa organização, simpatia, pouco tempo de espera. 'Uma boa linha de montagem', como disse um amigo que lá encontrei.
 
Tomei a Astrazeneca que não era, de modo algum, a minha preferida, mas a que hoje estava destinada aos maiores de sessenta. E só uma toma. Indaguei. O motivo era eu já ter tido covid.
 
Hoje vou estar com o meu neto, um novo amor que nasceu há dois meses. Não deve ser nada científico, mas não é que já me sinto um pouco mais segura para me aproximar um pouco mais dele?!
E como vi ontem à noite Barbara Pravi no festival da canção, apetece-me repetir: voilà! 
 
Gostei de ouvir esta música francesa (sempre tive um fraquinho pela música em língua francesa), se calhar, por ser mais sóbria e não com aquele aparato histriónico de quase todos os grupos. Se calhar, por me fazer lembrar a pequena mas gigante Edith Piaf ou o imenso Jacques Brel. Se calhar, pela cantora ter um sorriso cheio de expressividade e de encantamento. Sei lá. Os portugueses também estiveram bem. E é sempre bom falar de amor. 'Voilà'.

sábado, 22 de maio de 2021

Isto de se ser amadora tem destas coisas!

 

Peço desculpa aos meus amigos bloggers, mas, por um erro de reformatação, perdi o endereço de alguns blogues e são todos muito importantes para mim.

Se repararem nas faltas, foi apenas por falta minha. Coisas de amadora. Ao querer aprimorar, acabei por estragar.

Logo que possa, vou recuperá-los e reformular a lista. Fiquei triste e a todos peço imensa desculpa.

Já agora, obrigada pelas vossas visitas e comentários amigos. 

É muito bom estarmos juntos.

Um abraço e bom fim de semana.


sexta-feira, 21 de maio de 2021

Jardins abertos.com, bancos de jardim, etc etc etc


Ouvi hoje que vai decorrer o Festival dos jardins abertos. Abri o endereço e uma das imagens que de lá retirei foi a que a seguir partilho, muito antiga mas que achei curiosa:

https://www.jardinsabertos.com/ 

Armando Serôdio
Jardim da Parada
1959
 
Na imagem, só vejo homens sentados e em idade ativa. Não há mulheres. Se elas se sentassem em bancos públicos, seria contrário à decência e aos bons costumes da época, com certeza. E daria também uma ideia de ociosidade, igualmente pecaminosa. Apesar de tantas mudanças necessárias, e por incrível que pareça, atualmente ainda surge a mesma questão, sobretudo se a mulher estiver sozinha a desfrutar do descanso e da contemplação.

Também na foto não há só pessoas velhas a tentar descansar de tantas e aflitivas solidões, como se vê em muitos jardins públicos.

Acho que os bancos de jardim deviam ser reabilitados, onde todos e de todas as idades se pudessem sentar para repousar o corpo e engrandecer a alma.

Vi um dia num parque de Londres, uma sucessão de bancos de jardim num lugar donde se tinha uma vista deslumbrante para o resto do parque e da cidade. Cada banco tinha nomes de pessoas que os tinham frequentado muitas vezes e onde, naturalmente, se tinham sentido bem e retemperado as diferentes forças de que tanto precisamos.

Os bancos de jardim deviam ser preservados, limpos para que as pessoas que os utilizam se sentissem mais felizes. E não houvesse garrafas abandonadas, restos de embalagens gordurosas, etc.

E como achei uma bela ideia a da abertura de jardins ao público, fui ao google à procura de mais jardins. Encontrei lá esta reportagem da revista Visão com belos jardins portugueses que se podem visitar. É esta a porta de entrada:

 https://visao.sapo.pt/visaose7e/sair/2021-03-19-11-parques-e-jardins-para-passear-ao-ar-livre-agora-que-comeca-a-primavera/

Puxei a brasa à minha sardinha, isto é, às minhas proximidades, e escolhi esta imagem da Quinta de Bonjóia, no Porto, que, julgo, não é muito conhecida: 

Foto: Filipe Paiva

E se chover no fim de semana, como hoje por cá acontece, há sempre um jardim à nossa espera, nem que seja pequeno. Pode ser o nosso, o canteiro da varanda, o de uma costumeira rotunda, o do vizinho que vemos pela janela, as cores e flores das árvores da rua...

Ah, e há rosas trepadeiras em muros onde menos se espera. Tantos e sempre abertos ao nosso olhar.

 Um fim de semana feliz e florido.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

A rapariga e a caturra

 

Fui comprar pão. Só entram duas pessoas de cada vez. Quem chega vai esperando cá fora. À minha frente, estava uma jovem. De repente, uma ave espavorida esvoaça-lhe no ombro. Assustei-me, apesar de estar a uns dois metros de distância. 

Vi depois que o pássaro estava preso por um cadeado fininho e atado por um gancho ao ombro da sua dona, presumo. Achei graça ao exotismo da imagem. Perguntei qual era a ave.

Uma caturra - disse a rapariga.

Reparei que a pousante no ombro era bonita e de crista bem recortadinha.

Que sorte andar a passear - disse eu.

Ela gosta - disse a rapariga do ombro transportador.

Ela gosta? Como se sabe? - interroguei-me eu.

Mas não perguntei mais nada porque era a vez de a rapariga entrar na padaria e eu não sabia se ela era caturra.

 

terça-feira, 18 de maio de 2021

Nos museus também se pode ser feliz

 

Julgo que hoje é celebrado o Dia dos Museus e lembrei-me que já não vou a um museu desde que começou a pandemia. E como eu muita gente, de certeza. E logo me lembrei do museu de Serralves, no Porto. Para além das exposições e atividades dentro de portas, também o exterior do museu e da Casa são locais onde apetece ficar sempre um bocadinho mais pelo que se vê,  se sente, se cheira, se aprende, se desfruta. 

Já lá participei de vários ateliês de escrita dinamizados pelo escritor Mário Cláudio, de escrita portentosa e saber enciclopédico, onde cabe também o que se passa no tempo atual. Ao longo das sessões, dava-nos tarefas de escrita. Quando um diálogo não estava de acordo com o que as personagens diriam, ele reagia, dizendo que estava pouco real. Por isso, uma das participantes enquadrou uns palavrões num texto, como seria natural no ambiente da história. Porém, ao lê-los, quase tropeçava nas palavras que dizia em voz mais baixa, porque, disse, não estava habituada a dizer palavrões. Houve risota, obviamente.

Também um outro ateliê de escrita, com outro belíssimo escritor, Richard Zimler, me ficou na memória. Chegava sempre com um chapéu largo e de cor garrida. Quando entrava em funções, tirava os sapatos de forma muito discreta e ficava em meias, aproximando-se atentamente e simpaticamente de todos os participantes, nas suas tarefas de escrita, na bela e luminosa biblioteca com as mesas em U, no sentido de os ajudar.

Vou ver se consigo ir lá em breve e num dia de sol. Sem deixar de tomar um café na cafetaria exterior, com esplanada sob velhas glicínias, creio. Por onde não faltam pássaros em cantares livres e festivos.

 

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Um bom livro sem gorduras


 

Este fim de semana, acabei de ler o livro A Gorda de Isabela Figueiredo. O romance, de 285 páginas, conta, na primeira pessoa e numa linguagem de grande vivacidade, despojamento e realismo, a história de Maria Luísa, que vive tormentos, ao longo da sua vida, a nível familiar, escolar, amoroso, etc, pelo facto de ser gorda e, por isso, diferente de outras pessoas. O seu peso pesava muito sobretudo em idade mais jovem. 

Tendo ela retornado com os pais de Moçambique, no pós 25 de Abril 1974, também são referidos acontecimentos e modos de viver dos anos 70 até aos dias de hoje, em que Maria Luísa vive as suas solidões de mulher adulta, atravessadas por amizades que a marcaram e por um amor que também lhe trouxe - e traz - entusiasmos e deceções.

Para além da história, há muitas reflexões fulcrais sobre a vida humana: o amor, a morte dos que nos são próximos, a solidão, as perdas...

Porém, é um livro que respira força, vontade alegre de viver, de não desistência a meio do caminho...

 

Partilho aqui um excerto da obra, embora haja muitos mais que sublinhei com o lápis que me acompanha sempre quando gosto da leitura. Escolhi esta passagem sobretudo por aquilo que Maria Luísa diz ser muito importante na sua vida.

A escrita será mesmo salvífica?


 

sábado, 15 de maio de 2021

Eles e elas e era uma vez...


Maria Keil (Silves, 1914 / Lisboa, 2012)

Não vejo a vida sem elas, porque contam, evocam, recordam, estabelecem ligações,  alertam, fazem pensar,  ajudam a sorrir,  ensinam, transformam...

São as histórias de encantar que o Era uma vez... tantas vezes inicia, o abracadabra de um mundo inventado mas também humano e sustentado.

Não, não existem sem eles e sem elas, que as inventam, que as escrevem, que as contam, que as desenham, que as pintam, que as imprimem...

São os autores e as autoras que dão vida às histórias, reescrevendo a História.

Não vejo, igualmente, a vida sem o conhecimento delas, que guiam, que orientam... Sem elas, as personagens tropeçam, os espaços amontoam-se, os tempos confundem-se, a ação turva-se...

Elas são as regras da língua materna que é preciso amar e entender para serem utilizadas ou, criativamente, transgredidas.

Assim, eles e elas podem sorrir às histórias, sempre à espera de serem ouvidas, lidas e reinventadas.

E eles e elas,  meninos e meninas, precisam cada vez mais de Era uma vez... 

 

                         Este meu texto foi publicado     

in Livro Aberto 2021, Rádio Voz de Alenquer, p.139

 

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Peço muita desculpa pelo lapso

 

Peço muita desculpa porque não citei o autor do desenho que partilhei no post anterior. O seu a seu dono; neste caso: o desenho ao autor do desenho, que julgo ser de Isa Silva e a quem também peço desculpa. 

Felizmente, houve comentários amigos que me despertaram para o lapso.

Como o desenho vinha na sequência da citação com aspas, partilhei-o assim, o que foi um lapso, que não gosto de cometer. Para além disso, não sei desenhar nada.

Aqui vai todo o post de  http://urbansketchers-portugal.blogspot.com/, do passado dia 12 de maio, tal qual está publicado:

'Museu Bordalo Pinheiro - Vamos Desenhar Com - Jorge Vila-Nova

O desafio era inspirarmo-nos no universo da banda desenhada e usarmos apenas 2 cores. E foi desta que desenhei as andorinhas e o caracol :-)


quarta-feira, 12 de maio de 2021

A rapariga do desenho e os outros

Um dia fui a um pequenino restaurante bio da rua de Cedofeita, no Porto. Não me recordo do nome, mas lembro-me que vi lá uma jovem a desenhar num pequeno caderno. Não queria ser indiscreta, mas reparei que tinha uma caixinha aberta sobre a mesa com diferentes lápis e o traço era fino. Achei bonita a atenção que dedicava ao desenho. Talvez olhasse e desenhasse o que via pela janela, ou qualquer ponto da pequena sala.

Fixei a imagem e julgo que, se voltar lá, vou-me lembrar desse momento e não só das iguarias.

Vem isto a propósito  do programa 'Sociedade Civil', que começa às 2 da tarde, no canal 2, hoje dedicado aos tempos livres. Numa das peças mostradas, falava-se de um grupo que promove atividades ao ar livre, para todas as idades. O objetivo é desenhar a partir do que se observa. Têm o blogue

http://urbansketchers-portugal.blogspot.com/

em que mostram os trabalhos que os participantes vão realizando. Eu, que não tenho jeito nenhum para desenhar, achei muito boa a ideia. Julgo que o núcleo é em Lisboa. Não sei se há noutros sítios, mas é caso para dizer que, se não há, devia haver.

Fui ver o blogue e, no primeiro post de hoje, mostram uma proposta de desenho e um dos trabalhos:

'O desafio era inspirarmo-nos no universo da banda desenhada e usarmos apenas 2 cores. E foi desta que desenhei as andorinhas e o caracol :-)'

E lembrei-me de novo da rapariga do desenho no pequeno restaurante bio do Porto. Muito melhor do que ver a imagem repetida, em tudo que é lugar, do telemóvel a ser dedilhado.

 

terça-feira, 11 de maio de 2021

'Não deites fora as cartas de amor'


'Elas não te abandonarão. 
Passará o tempo, apagar-se-á o desejo
 - essa flecha de sombra - 
e os rostos sensuais, inteligentes, belíssimos 
ocultar-se-ão em ti, no fundo do espelho. 
Cairão os anos. Cansar-te-ão os livros. 
Decairás ainda mais 
e perderás até a poesia. 
O ruído frio da cidade nos vidros
 acabará por ser a tua única música, 
e as cartas de amor que tiveres guardado
 serão a tua última literatura'. 



  Joan Margarit (1938/2021) - Espanha
 
 


No sábado passado, no programa 'Fala com ela', pelas 13 h, 

na antena 1, com Inês Maria Menezes,

ouvi este poema de que gostei muito e que quero partilhar. 

O programa é muito bom e é muito bom ouvir pessoas com tantas coisas boas para dizer.

É como se escrevessem uma carta de amor. À vida.



Quase como os da avó!

 

A minha mãe chamava-lhes rolinhos. Eram um pitéu. De sabor e de aspeto bem redondo e douradinho. Há muitos anos, tentei fazê-los, mas escangalharam-se todos a fritar. Em conversas de família sobre os petiscos da minha mãe (que a idade já impede de fazer), lá vêm os rolinhos que eram únicos.

Ontem, tentei fazê-los. Concluí que houve evolução porque saíram ilesos da frigideira ou sertã, como por cá dizemos.

Levei-os para a minha filha. Ela comeu e disse.

- Estão muito bons, mãe, quase como os da avó! 

 

Como fiz:

Cozi batatas e passei-as pelo passevite.

Cozi um pouco de bacalhau. Depois de cozido, esmaguei-o grosseiramente com um garfo.

Fiz um refogado (dizemos estrugido) com cebola picadinha, alho, louro e piripiri (gosto de picante) e juntei o bacalhau.

Amassei um pouco de batata na palma da mão, pus no meio uma colher do refogado com o bacalhau e salsa picadinha. Moldei com a mão os pequenos rolos.

Passei-os por farinha e ovo. Fritei-os rolando com a ajuda de uma colher para não perderem a forma.

Espero voltar a fazê-los em breve. Pode ser que se pareçam um bocadinho mais com os rolinhos da minha mãe. 

 

domingo, 9 de maio de 2021

Resposta a um comentário

 

Caro Luiz Henrique, os postais que por vezes partilho são enviados pelo Clube das Histórias. 

Pode contactar estes endereços:

https://contadoresdestorias.wordpress.com/

 
clubecontadores@gmail.com 

O Clube das Histórias faz um trabalho notável de partilha de histórias em que prevalecem os valores humanos. Essas histórias chegam regularmente a diferentes continentes, por via eletrónica. Pode consultar os endereços e, se o pretender, dar o seu email para lhe enviarem diferentes histórias.

A equipa de trabalho - que não é grande mas de grande generosidade - seleciona histórias do mundo inteiro, procedendo à sua tradução e adaptação. As histórias podem ser em português, francês, inglês, alemão e espanhol.

A principal impulsionadora é Maria do Rosário Pontes, formadora e ex-professora na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Partilho um dos últimos postais recebidos:

 


 
Uma abraço e volte sempre

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Vi agora no blogue 'Pensamentos e Devaneios poéticos' que hoje é Dia das Mães também no Brasil. 

Partilho então alguns postais que o Clube das Histórias enviou em finais de abril, porque aqui, em Portugal, o Dia da Mãe é celebrado no primeiro domingo de maio, ou em qualquer momento, claro.



sexta-feira, 7 de maio de 2021

O prazer da escrita solidária

 

 A publicação da coletânea de texto poético e tema livre, Livro aberto, tem fins solidários - apoio ao desporto adaptado. A organização e produção editorial são de Ana Coelho, da Rádio Voz de Alenquer. 

Enviei dois textos para possível publicação. Um deles foi o que agora partilho.

 

Capa de Sara Santos - no prefácio, a autora justifica-a.

 

Carta de amor aos livros do meu pai

Desculpem, livros do meu pai, se sou ridícula, mas Fernando Pessoa, pela voz de Álvaro de Campos, também escreveu cartas de amor ridículas.

Se eu pudesse, queridos livros, plantaria, numa única estante, os autores da vida do meu pai.

Mais visíveis a todos os olhares, ficariam os livros de Camilo Castelo Branco, que o meu pai começou a ler enquanto belo jovem sonhador. Não sei bem o que o atraía: se a ousadia louca do autor, se as incontáveis paixões vividas e contadas, se a luz que dele vinha ainda que a visão lhe fosse sendo escurecida...

Amo-vos, livros do meu pai, porque, percorrendo as vossas páginas, encontrei vida humana e meandros complexos do amor, às vezes às escondidas, porque o tempo era de escassez mas fértil em proibições. Também lá estavam O crime do Padre Amaro e Os Maias, de Eça de Queirós, que li de ouvido à escuta, para que não visse interrompidos os momentos de paixão mais exaltada que eu não queria perder.

Livros do meu pai, vós sois pedras seguras que edificaram o meu amor pelos autores, pelos livros, pelas histórias, pelo conhecimento aberto do mundo.

Amo-vos, livros do meu pai, porque foram os pais do meu amor pelos livros.

A todos abraço, já sem receio de ser ridícula, mas com a alegria de todos poder ver e percorrer. Ainda que com laivos de tristeza de já não ter tempo para todos poder ler.

 


 

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Os ecrãs na minha cozinha

 

Hoje levantei-me cedo mas não tão cedo como me costumo levantar. Ao acordar, pensei no que tinha para fazer e descansei porque os afazeres não eram tantos como nos últimos dias. E assim pude tomar o pequeno almoço devagar, embora o do costume: café com leite (muito mais café do que leite), pão escuro com manteiga e (a minha) compota, desta vez de abóbora, maçã e amêndoa.

Liguei o rádio porque sou fã das crónicas diárias de Francisco Sena Santos, pelas 8.40, na antena 1. Falava das eleições de hoje no Reino Unido e do desejo de independência da Escócia. E senti vontade (deve ser o meu lado mau a manifestar-se) de que esse desejo fosse concretizado: assim o fazes, aqui o tens.

Em cima da mesa, o meu fiel (nem sempre, porque às vezes não me responde nem me fala!) computador para me abrir a um dos prazeres da manhã: ver os blogues amigos, não sem antes parar aqui um bocadinho. 

Ao lume, já pus feijão a cozer para fazer sopa e congelar o resto. Na televisão, que tenho sem som, mostra-se bola: verde, quase a saltar vitória; da azul, a tentar marcar; da vermelha (por estes sítios não se diz encarnado) para tentar voar mais alto.

E tanta coisa tão mais grave a acontecer no mundo. E eu aqui na minha cozinha, no meu pequeno mundo, embora me permita ir conhecendo o que se passa no grande mundo. Quase sempre o que se passa de mal, embora seja preciso sabê-lo também. E, curioso, levanto os olhos do pequenino ecrã e vejo na TVI uma conversa com um homem que, aos 62 anos, resolveu viajar através da Gap Year Portugal, uma ONG. E falava desse gosto com verdadeiro gosto. Quanto aos gastos não sei, porque só ouvi uma parte.

E outro ecrã ainda mais pequenino iluminou-se. Chegava uma mensagem do meu irmão, em semana de trabalho mais reduzida devido à pandemia. Pelo whatsapp, mandava este vídeo que partilho agora. Oxalá gostem, como eu gostei, apesar de a canção ser antiga. A tradução é de português do Brasil. E um bom dia, com ou sem ecrãs. Na cozinha ou em qualquer outro sítio. 

Será que é mesmo verdade que se estivermos bem, quem está próximo de nós também pode estar?

 

 

quarta-feira, 5 de maio de 2021

As composições


Sempre gostei de escrever e de fazer composições. E, talvez devido a algumas inseguranças, ficava muito feliz quando os professores elogiavam os meus textos. Como também não escrevia muitos, para mim, era um estímulo ouvi-los e faziam-me bem ao ego.

Isto acontecia sobretudo em língua materna e em língua francesa. Contudo, um dia tive de fazer uma composição em francês sobre um dia de inverno numa casa de aldeia. Já não me recordo bem do que escrevi, mas lembro-me de que falei sobre uma lareira cujo 'fumo íntimo' saía pela chaminé.

 A professora achou o adjetivo 'íntimo' muito estranho, escreveu na folha a vermelho que o fumo nunca foi íntimo e repetiu-o em voz alta quando ma entregou. E não é que, passados tantos anos, sempre que vejo  fumo a sair de uma chaminé, em dia frio e de recolhimento, me interrogo se é ilegítimo o fumo significar intimidade.

Uma outra vez, neste caso em língua materna, fiz uma composição sobre um sonho. Quando acabei o trabalho, foi prazer o que senti quando o li e reli. Gostei. Tinha-me saído bem. Para aprimorar a composição, passei-a a limpo várias vezes. No final (naquela altura, ainda não tinha o gosto por finais inesperados), quem estava a sonhar podia, finalmente, ser ave. Terminava com reticências para que o voo fosse mais prolongado. E mais alto, se possível. Para mim, era a composição mais conseguida do ano. Sentia-me quase a voar. Como Fernão Capelo Gaivota.

Com um brilhozinho nos olhos, entreguei a composição ao professor, que era um padre de faces muito rosadinhas. Na aula seguinte, quando ma devolveu, disse-me apenas, sem ter nada escrito nem sublinhado: já fizeste bem melhor!