quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Coisas de verão - e depois do adeus

  

Vi em casa o eclipse. Abri a janela, pus os óculos e vi o sol em forma de lua. O tempo escureceu, mas não tanto como eu pensava.

Senti uma brisa a entrar pela janela. Suave e boa. Os ramos da camélia agitaram-se. Mas pouco. Os carros na rua passaram a ser raros. Senti a calma força da natureza.

Perto de casa, já tinha visto muita gente, uns de pé, outros sentados, óculos na mão, à espera do eclipse.

Na televisão, falava quem fez muitos e muitos quilómetros para chegar ao sítio em que o sol mais se esconderia. Como em Bragança. Havia pessoas comovidas, outras repetiam lugares comuns que era o que saía no momento…

Um brasileiro, emocionado, também me comoveu. Para ele, o eclipse era um fenómeno democrático que unia toda a gente, sem distinção.

Realmente há maravilhas da natureza que revelam maravilhas dos seres humanos.

E que perduram, mesmo depois do adeus!

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Coisas deste verão - os óculos do eclipse e os desmancha-prazeres!


Hoje precisei de ir à farmácia aonde vou habitualmente. É uma farmácia pequena e fica numa rua fora do centro da vila, hoje cidade. 

Estive lá uns 15 minutos para comprar os medicamentos de que precisava. Durante esse tempo, vieram umas quatro pessoas à procura de óculos para ver o eclipse.

Quando a porta se abria e se a farmacêutica não conhecia as pessoas, logo dizia: desculpe, mas, se é para os óculos do eclipse, já não tenho!

E ia comentando: Estou farta de dizer a mesma coisa! Que passe depressa o eclipse e venha o dia de amanhã!

E acrescentou outra coisa que, com alguma razão, também poderia ser para mim, embora, neste caso, já tenha os meus óculos na carteira: as pessoas procuram as coisas mesmo na última!

Cá em casa já toda a gente tem óculos e está entusiasmada para assistir logo ao eclipse.

Porém, com ou sem ironia, já ouvi: Todos os dias, o dia dá lugar à noite e não é preciso tanta festa!

Quem o disse ouviu que era desmancha-prazeres.

Mas, cá pra mim, as nuvens ou o nevoeiro é que vão ser os maiores desmancha-prazeres.

Mesmo assim, que a Festa não se eclipse!


terça-feira, 11 de agosto de 2026

Coisas de verão - a senhora do vestido lilás!

 

Logo que nos sentámos no café Velasquez, reparei numa senhora, que, sozinha, ocupava uma das mesas rente ao vidro que separava o interior da esplanada.

As mangas curtas do vestido lilás realçavam-lhe a magreza dos braços. O cabelo, cortado a direito, pressentia-se liso pela laca. Alguém da mesa também reparou nela e perguntou:

- Em que rua morará aquela senhora?

Logo veio a resposta: 

- Numa das avenidas próximas, por certo.

Concordámos. Pela postura. Pela sobriedade. 

Porém, durante o tempo que estivemos no café, a senhora do vestido lilás não tirou os olhos do telemóvel. Nem as mãos.

Não sei se estava a receber mensagens! Não parecia porque a expressão era sempre igual.

Saímos. Sem saber quanto tempo iria ficar no café a senhora do vestido lilás. A senhora que parecia viver numa das casas bonitas das bonitas avenidas. Talvez numa casa com flores e largas janelas. 

Mas sem ouvir ninguém a tocar à campainha. Nem a ser chamada, amorosamente, pelo nome.


domingo, 9 de agosto de 2026

Coisas de verão - o bar da praia não anuncia só gelados


Já me tinham avisado do evento, porque sabem que gosto de livros.

Mas também gosto de gelados!

Num pequeno cartaz, na parede de um bar da praia, anunciava-se a apresentação de um livro de Inês Meneses e Tó Zé Brito, escrito por eles a quatro mãos.

Prometia. Sou fã do podcast Fala com ela, que IMM dinamiza há uns anos. Também gosto de muitas canções de TZB. 

Era ao fim da tarde. 

Fui com a minha neta. De vez em quando, eu traduzia-lhe algumas coisas que achava importantes.

A autora viveu em Mindelo dos 3 aos 21 anos, aonde vem com frequência com o companheiro, Tó Zé Brito.

O local da apresentação do livro era aprazível e dedicado a atividades culturais. Julgo que já foi escola primária. Quero conhecer melhor o espaço e o que nele se realiza.

A conversa entre os autores - o casal - foi serena e amorosa. Falaram do respeito mútuo, do prazer partilhado na escrita diária do livro, dos gostos comuns como a leitura e o cinema.

Gostei muito do que disseram, da calma com que o disseram e espero gostar do livro também:

Ao fim do dia/Memórias e confissões de um casal, Contraponto.

E gostei que a minha neta também tivesse apreciado, apesar da barreira da língua. Mesmo assim, espero ter-lhe proporcionado uma boa memória do momento.

A par dos gelados e bolas de Berlim que adora e come na praia!


sábado, 8 de agosto de 2026

Coisas de verão - o amolador de facas


criançada andava toda na brincadeira.

De repente, faz-se ouvir um apito que vinha do fundo da rua. 

- Olha, é o assobio do amolador das facas - disseram os mais velhos.

- Ainda me lembro de um que passava na rua da minha infância - disse outro ainda jovem, mas já não tão jovem assim.

É a primeira vez que oiço este som - disse um dos mais novos.

- E o amolador vinha também de carrinha e com altifalante? -  perguntou uma das crianças.

- Nem pensar! -  logo alguém respondeu. Vinha numa espécie de bicicleta adaptada onde cabia a ferramenta necessária ao afiar das facas. Tocava um apito para chamar os clientes.

A carrinha já próxima, a criançada quis experimentar o serviço. Os adultos foram buscar duas facas para afiar. 

O homem abriu a porta de trás da carrinha e ligou um rodízio moderno.

Quando devolveu as facas afiadas, recebeu cinco euros de cada uma. 

O mais velho dos mais novos logo disse:

- Com este dinheiro, mais valia comprar facas novas.

Valeu pela memória antiga do assobio - pensei eu, enquanto a carrinha se afastava com o apito eletrónico e a peripécia terminava por ali. 

Como uma onda diferente que se mistura, lentamente, no oceano da memória.


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Coisas de verão - passando no passadiço


0 passadiço aproxima-me os olhos da vegetação e flores das dunas, do mar a vibrar de espuma, de corpos sossegados ao sol, de crianças reconstruindo castelos de areia…

Bem perto, passam peregrinos rumo ao norte. 

Um casal cruza-se comigo.

Sorrimo-nos. 

Olho as conchas de Santiago das mochilas. Lembram o apagar da sede em pequenas fontes que dão força, seja qual for a viagem.

Sorrisos partilhados também.


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Coisas de verão - maré vaza


São incontáveis as cores das pequenas pedras que vejo na areia molhada enquanto caminho durante a maré vaza.

Também inúmeras são as suas formas. Difícil dizer quais as mais bonitas ou mais perfeitas.

Se não fossem tão diferentes, não seriam tão belas nem cativariam o olhar.

Há uns anos, apanhava algumas e levava-as para casa; agora, prefiro vê-las na praia, onde moram.

Amanhã, já não estarão no mesmo lugar. Imensos são os sítios para onde podem ir, levadas pelo mar.



terça-feira, 4 de agosto de 2026

Coisas de verão - uma pergunta e um beijo

 

A pergunta

- Avó, que tempo é?

- Que tempo, meu amor? Se vai chover? Queres saber se vem mais calor?

- Não, avó, que tempo é agora?

- Não entendo.  Diz então em inglês.

- What time is it?

- Ah! São 12,20, meu amor.

- Obrigada, avó! Ainda temos tempo.


O beijo

Caminho na praia. Na areia firme e molhada. Ondas pequenas vêm até mim. Frias, sabem-me bem e refrescam-me os pés. Continuo. 

Em sentido contrário, e também pela água, vem um casal. Ladeado por um cão. Aproximam-se os três.

Param, de repente. O casal enlaça as mãos, sorrindo. O cão começa a saltitar. Dão um beijo. No cão!


domingo, 2 de agosto de 2026

Coisas de verão - um café


Chego ao aeroporto e aproximo-me do setor das chegadas. Muita gente. Não admira: é verão e início de agosto. Umas pessoas olham com atenção o placard informativo das partidas e chegadas; outros parecem procurar alguém;  taxistas fora de regras arriscam a  cativar clientes: Táxi. Precisa de táxi?

 Um vai-vém de pessoas para cá e para lá com a sua mala de férias a correr sob rodinhas; crianças a esticar os braços para quem as espera com um sorriso de saudades interrompidas.

Em breve, também abraçarei a minha neta. Nem tomei café depois de almoço para não perder tempo. Quero estar na porta do desembarque para a ver sair e vê-la a correr para mim.

Olho de novo o placard. O avião que eu espero, e que vem de Londres, tem um atraso de 10 m. Será mais, com certeza, contando com a recolha das malas do porão que o ronceiro tapete rolante vai devolver, mais o tempo de controle de fronteira!

Ainda vai demorar um bocadinho o abraço que quero dar e receber logo que a minha neta transponha a porta de desembarque, desatando a correr até desaguar nos meus braços!

Olho de novo para o placard! Faço as contas entre o Landed e os minutos que todas as formalidades demoram!

Ainda tenho tempo de tomar o café, de que sinto falta, antes de chegar à porta de desembarque. 

Vou ao café em frente. 

Uma fila grande. Chega à minha vez na caixa:  Um café, por favor. Pago.

Pode pedir à minha colega aqui ao lado. Olho o relógio. E também as pilhas de copos de papel - uns pequenos, outros grandes. Não resisto e pergunto: costumam reciclar os copos?

A funcionária, com doce sotaque brasileiro, diz que não sabe, mas que todos os copos são ‘jogados’ nos contentores do papel e cartão.

Bebo o café em poucos goles. Com prazer mas com pressa. Pouso o copo no balcão. Volto-me para quase correr até à porta do desembarque para ver a minha neta sair. 

Já não é preciso. A sua voz sorridente está mesmo rente a mim: Avó!

E abraçamo-nos, enquanto vou dizendo: minha estrela, meu sol!

Gostava de lho ter dito à saída da porta do desembarque! 

Mas era tão bom vê-la chegar para passar as férias em Portugal que não valia a pena lamentar o café já tomado!


quarta-feira, 22 de julho de 2026

A morte também é feiticeira!

 



terça-feira, 14 de julho de 2026

Pedi uma informação e tive-a com toda a clareza

 Ontem, em Gaia, eu andava à procura de uma rua que sabia estar próxima de mim, mas que não sabia encontrar.

Mais uma vez disse para mim própria que tenho de aprender a usar o gps. Como não estou habituada a usá-lo, teria de ser â moda antiga: perguntar até encontrar.

Pois bem, um casal aproximava-se e, como vinham com saca com compras de supermercado, logo pensei que deviam residir por ali ou, pelo menos, conhecer a zona.

Fiz a pergunta sobre a localizaçåo da rua aonde eu tinha de ir. Pararam, ela olhou-me com ar sério, ele, mais simpaticamente, tirou o telemóvel do bolso e logo me mostrou a localização, confirmando, com os dedos, o percurso que teria de seguir: ir em frente e virar à esquerda depois de passar a linha do metro. Eram estrangeiros, vi pela expressão. Agradeci com um sorriso que foi retribuído por ambos, desta vez.

Mesmo com as indicações do simpático homem, acabei por seguir pela rua errada: paralela à que eu pretendia. Apesar de procurar alguma placa, nada encontrei sobre o nome da rua. Vendo um homem de meia idade a aproximar-se, perguntei-lhe sobre a rua que eu procurava. E vi, de novo, que não era português. Logo me explicou claramente onde era a rua que, por acaso, ficava perto. Daí a pouco, lá estava eu, feliz e contente, a tocar à campainha do prédio que eu procurava.

Moral da história: tenho de aprender a usar o gps. Para além disso, confirmo: os imigrantes também nos ajudam a encontrar caminhos que precisamos de seguir.


domingo, 12 de julho de 2026

Desculpem, mas a palavra solidão não me sai da cabeça!

 

Cada vez há mais pessoas sós. Pela experiência que tenho, são mais as mulheres. Quando se vive só por opção, é uma coisa; se foi a vida que impõs tal condição, é outra coisa bem diferente.

Entremos nalgumas casas - salvo seja, que é uma forma de dizer. Durante muito tempo, a vida corre e nem se dá conta de que passa a toda a velocidade: há a família, o trabalho e a casa apenas está só durante umas horas.

Porém, se há filhos, estes crescem e, num ápice, seguem a sua vida e a casa esvazia-se, passando a ficar só durante muito mais tempo, tal como fica só quem lá continua a viver e já em tempo de reforma. Às vezes, os filhos voltam, mesmo em idade de terem o seu próprio poiso e de os pais estarem em idade de mais repouso. Voltam pelos mais diversos motivos: por separação do casal, por falta de dinheiro, por falta de trabalho...

E há casas que passam a ficar longamente silenciosas, por morte de alguém que lá viveu: um  elemento do casal, irmãos, pais… 

Quando assim é, na passagem dos dias e no repouso da noite, a solidão faz acordar o grande peso que traz consigo. Conversas pequeninas que apetecia descarregar ao final do dia ficam guardadas; vontade de sentir um abraço não se concretiza… Porém, se há filhos, netos ou outros familiares mais atentos, mesmo que vivam mais longe, é uma janela que se pode abrir mais facilmente. Se não os há, nem uma pessoa amiga e próxima, então a solidão é mesmo uma pedra que custa a remover.

Sem pretender encontrar escapatórias desnessárias, acho que muitos governantes - do país e do mundo - não diminuem a solidão que se vai instalando em pessoas de todas as idades; pelo contrário, até a aumentam. Parecem fazer muito mais por si próprios do que trabalhar afincadamente para o bem das pessoas comuns que sustentam o mundo.

Talvez porque a solidão ainda não lhes entrou na cabeça.




sexta-feira, 10 de julho de 2026

E se não fossem os professores?

 

Para muitos, o que se está a passar com a correção dos exames do ensino secundário é um caos, para outros - onde o governo se inclui - é um percurso quase natural porque a entrada no digital está a acontecer pela primeira vez.

Na disciplina de Português, por exemplo, há professores que recebem composições incompletas, ou com páginas  de letra diferente, logo pertencendo a outro aluno.

E muitas questões são colocadas pelos professores mas a plataforma não responde.

Mesmo assim, os professores continuam a corrigir os itens que podem. Para além do seu brio profissional, muitos fazem-no a pensar nos seus alunos - que também fizeram exames - e não querem ver prejudicados com mais prolongamento de prazos.

Enquanto isto, o ministro da educação desdobra-se em entrevistas com respostas às vezes vagas e outras tantas culpabilizadoras de outrem, como é o caso de professores terem culpa no atraso, por agrafarem as provas no sítio indevido, o que se provou não ser verdade.

A vontade do senhor ministro era tanta de mostrar serviço moderno que acabou por prestar um mau serviço - pior do que o antigo.

E pergunto: se não houvesse o zelo e o trabalho dos professores? Já se diz que noutras profissões as pessoas sairiam à rua para se manifestarem contra um trabalho que chega às pinguinhas ao computador e tarde e a más horas.

O primeiro ministro, esse lá aparece de vez em quando em sítios públicos, com sobrolho carregado ou com cara de quem está acima de todas as perceçoes,  relativizando o que acontece e pedindo que os deixem trabalhar. Só que se esquece de dizer que quem o está a fazer são os professores. Queria ver se não fossem. 


terça-feira, 7 de julho de 2026

Adiós!

  

Ontem o resultado

Não foi como se queria

Correu bem aos espanhóis 

Que levaram a alegria


0 Ronaldo até chorou

Mas não o selecionador

Que diz sempre muito bem

E que tudo é o maior!


Lá estava o nosso Primeiro

Que de jogos não falha um

E gosta de chutar a bola

E que a apanhe qualquer um


Mas a vida é mesmo assim

Ele é ganhar e perder

Na próxima vai correr melhor

Dizemos nós animados

À espera que haja sorte

E nem sempre organizados!


E será que tudo vai ser

Como queremos de truz?

Quem vai gerir tantos talentos:

O Conceição ou Jesus?


segunda-feira, 6 de julho de 2026

Alegria procura-se!

 

Em jogos como o de logo à noite, entre Portugal e Espanha, fico um pouco ansiosa e, se o digo às minhas filhas, logo querem saber a razão. Quando veem que é por causa da bola, riem-se e desvalorizam.

Enquanto adolescentes, eram adeptas e sócias do FCP (eu também fui durante uns anos e ainda conservo o meu cartão azul).

Foram crescendo, seguindo as suas vidas e perderam essa vontade de ir a jogos de futebol. Desse tempo ficaram só os cachecóis que levavam ao pescoço ou atados à cintura. Moram cá em casa como objeto feliz de que não me quero desfazer.  Recordam momentos bem mais fervorosos e inocentes do que as negociatas que envolvem a banca, políticos, empresários e muito, muito dinheiro. E muitas muitas influências!

Porém, nos jogos da seleção, a minha filha que vive fora do país vê os jogos e, lá em casa, torcem todos por Portugal, apesar das nacionalidades diferentes. A minha neta quis até uma camisola da seleção portuguesa e veste-a para ver os jogos em casa. Por acaso não sei o número que tem nas costas, mas tenho curiosidade.

Será que é por estar fora que presta mais atenção à seleção portuguesa do que a irmã que vive cá? Não sei. Emigrada há muitos anos, vejo-a como uma cidadã do mundo (parece lugar comum, mas é o que sinto), apesar de ela manter vivas as raízes portuguesas. Não procura  porém, um restaurante português só porque tem saudades. O marido, que é americano,  é capaz de o procurar com mais facilidade e apetite. E como ele gosta de pratos de bacalhau! Quando lá vou, lá vão umas postinhas do fiel amigo na mala!

 Pois bem, não sei ainda se vou ver o jogo de logo à noite. A dúvida até me trouxe  uma quadra:

Será que logo à noite

Vamos perder ou ganhar?

Nem sei até se vou ver o jogo

Ou se prefiro jardinar!


E ‘afinal havia outra’:


Nestes jogos decisivos,

Há sentimento e  emoção!

E se é a Espanha que ganha?!

Oh! Não, isso é que não!


Bom jogo e que ganhe Portugal! 

E, já que estamos no Texas: Alegria procura-se!


sexta-feira, 3 de julho de 2026

Afinal há inferno?

 

Quando eu era pequena, assustavam-nos com o inferno. Dizes asneiras, vais para o inferno; não obedeces, vais para o inferno…

Nos últimos anos, a mentalidade mudou e chegou-se à conclusão de que não havia inferno. Que alívio!

Mas, afinal, há! Muita gente o sente por estes dias: quem vive ou trabalha na rua ou ao sol, quem vive em casas pequenas e quentes, quem vive só e quase não vê ninguém, quem está a ser atingido por incêndios…

Tudo isto é inferno!

E fomos nós, humanidade, que fomos deitando achas para esta fogueira que cada vez controlamos menos: lixos atirados à toa, construção de casas em lugares errados, agentes poluidores à solta e tanta coisa mais que ‘vemos, ouvimos e lemos’!

Não nos falte água - que também vai escasseando - para nos hidratarmos e apagarmos os fogos que fomos ateando - uns bem mais do que outros. E que agora nos incendeiam o corpo e a alma.

Desculpe, mãe, muitas vezes lhe disse que não havia inferno, mas afinal há. É muito diferente do de antigamente, mas não deixa de ser inferno.


quinta-feira, 2 de julho de 2026

Calor, solidão …


Os dias tórridos que estamos a viver não são novidade para ninguém e dizer que está calor ainda aquece mais o ambiente, às vezes sufocante.

E, na noite passada, para além do calor, houve vento, muito vento. Perto de minha casa, há estufas e eu estava sempre a ver quando voava, com estrondo, alguma cobertura de zinco, como já aconteceu. 

Quase desfeito ficou,  porém, um guarda-sol que voou da casa vizinha. Ainda bem que a minha cadela não andava, naquele momento, em passeio de busca noturna. 

Pela hora do almoço, dois funcionários do Serviço do Ambiente tocaram-me à porta, para recolha de verdes. Enquanto faziam o trabalho, pediram-me água. A garrafa que tinham na carrinha estava vazia e torta pela exposição ao calor.

E isto são apenas uns ínfimos pontinhos de uma geografia afogueada e quase toda pintada a vermelho.

Bem mais angustiante será viver em casas pequenas e quentíssimas. E sem ninguém para falar, a quem se queixar, a quem dirigir um gesto e receber um abraço. Para abrir ou fechar uma janela para que o sol não atordoe mais, para que o ar seja mais suportável e alivie a solidão. Curiosamente, o tema da solidão foi abordado hoje no programa Sociedade Civil do canal 2. 

Ao longo dos 60 minutos, ficámos a conhecer muito trabalho solidário no sentido de ajudar pessoas a interagirem mais, irem ao encontro de quem vive só, não pode sair e precisa de comunicar para que a vida faça sentido. Cinco pessoas de cinco instituições - todas elas mulheres e ainda jovens - expuseram projetos de amor aos outros e de ligação afetiva às comunidades.

Houve calor humano, bem diferente do calor que nos está a assolar. Este era dispensável, o outro  - o calor humano - anda muito faltoso mas é cada vez mais urgente e necessário. 


sábado, 27 de junho de 2026

Uma das 'minhas' músicas!

 


Futebol

 

Futebol se joga no estádio?

Futebol se joga na praia,

futebol se joga na rua,

futebol se joga na alma.

A bola é a mesma: forma sacra

para craques e pernas de pau.

Mesma a volúpia de chutar

na delirante copa-mundo

ou no árido espaço do morro.

São voos de estátuas súbitas,

desenhos feéricos, bailados

de pés e troncos entrançados.

Instantes lúdicos: flutua

o jogador, gravado no ar

— afinal, o corpo triunfante

da triste lei da gravidade.

 

Carlos Drummond de Andrade, In Poesia errante

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Hoje


Ainda estão quentes as brasas

Da noite de S. João

Não nos falte a alegria 

Para lançar o balão!