domingo, 8 de março de 2026

Diferenças

 

No tempo em que muitas crianças deixavam a escola depois da quarta classe, muitos afazeres logo os esperavam, mesmo que bem gostassem de continuar a estudar. O abandono escolar acontecia por falta de dinheiro na família, por preconceito, para ajudar no trabalho dos pais...

Às meninas cabia sobretudo o trabalho doméstico: cuidar da casa, dos irmãos, dos avós… Muitas dessas meninas iam buscar água ao poço da aldeia, segurando vasilhas grandes nas suas mãos ainda pequeninas. Iam e vinham em grupo feminino de diferentes idades e seguiam conversas das mulheres que, tanto falavam alto, como baixavam a voz para segredarem o que sabiam ou o que lhes ia na alma, como discutiam, como davam gargalhadas, como insultavam, como ameaçavam…

Nas histórias que contavam, entrava com frequência a figura do marido: «O meu homem…», nomeado muitas vezes sem o eme final.

As meninas mais curiosas escutavam as conversas, mas sem compreender muita coisa. Porém, quando as mulheres se apercebiam que estavam a ser escutadas, desciam o olhar até elas – segurando com mãos firmes o caneco da água que transportavam à cabeça – e murmuravam, como se lançassem cartas para o futuro:

-  Vós pra lá ides!

Algumas das meninas entreolhavam-se, continuavam sem compreender, mudavam a vasilha da água para a outra mão e a calçada parecia mais comprida, misteriosa e íngreme. De repente, o pensamento recuava-lhes até ao seu tempo de escola, em que ocupavam as filas de trás, aonde chegavam palavras pequeninas, enquanto frases mais longas e com futuro se destinavam sobretudo às meninas das filas da frente.

Havia, contudo, professoras com o dom de descobrir nas crianças vontade e capacidade para continuar a estudar. Não queriam que as suas vidas fossem pela água abaixo. Porém, tais palavras eram muitas vezes levadas pelo vento.


Oh! Não me venham dizer que no tempo da outra senhora é que era bom!

In proximidades, Seda Edições, 2025 

 

2 comentários:

  1. Foi o que se passou comigo .tal e qual. Foi um grande desgosto ,não ter continuado os estuudos .

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  2. Bom dia! Imagino que sim. Conheço pessoas que sofreram toda a vida, porque não puderam estudar e ir mais além.
    Eu também vivi, em parte, essa situação, muito comum nas raparigas da minha geração: não iam estudar porque o lugar delas era ser 'fada do lar'.
    Felizmente pude ir estudar mais tarde, mas foi muito mais duro do que se o tivesse feito na idade considerada normal.
    Um grande abraço e abrace tudo o que a vida vai dando de bom,

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