Li há pouco uma notícia que me impressionou: muitos filhos já limitam o uso do telemóvel pelos pais idosos.
À primeira vista, causou-me impressão porque lembrei-me de pessoas que vivem sós, de mobilidade reduzida e que precisam de alguma coisa para lhes alegrar os dias, para além de programas de televisão da manhã ou da tarde e que tantas vezes contam coisas tão tristes que mais tristes tornam os dias. Só espero é que os filhos que retiram o telemóvel aos pais ou que lhes limitam o seu uso o façam 'com carinho' - expressão de que gosto e que a minha professora de yoga tantas vezes repete também com carinho. E que lhes ofereçam alternativas. E que os visitem. E que falem com eles. E que não os desvalorizem por serem velhos.
Mas também é muito mau ver pessoas de todas as idades a usar constantemente o telemóvel, mostrando que lhe prestam mais atenção do que ao que se está a passar à sua volta. Triste é ver famílias à mesa, cada um com o seu telefone ou ipad - como se não houvesse assunto para conversar. Ou em encontros familiares ou de amigos em que o que se está a passar passa para segundo plano porque o écran do telemóvel, sempre embalado pela mão e percorrido pelos dedos, ocupa o primeiro.
Nos dias que correm, o telemóvel é essencial às diferentes dimensões da nossa vida. Habituámo-nos a ele e faz-nos falta. E é um alvoroço de alma quando o perdemos ou não sabemos onde o deixámos! Mas, se quisermos, há tempo para tudo, mas que o telefone nos comande a vida e façamos dele o companheiro principal de todas as horas, isso não. Para saúde mental - de que tanto se fala - do próprio e de quem está à sua volta.
Há aqui uma verdade difícil de engolir: o telemóvel tanto pode ser companhia como pode ser abandono. Para muitos idosos, é a última ponte para o mundo — uma voz que chega, uma fotografia que anima, uma mensagem que quebra o silêncio. Retirar-lhes isso sem cuidado é quase retirar-lhes o pouco que ainda os liga ao dia que passa.
ResponderEliminarMas também é verdade que, para todas as idades, o telemóvel se tornou um reflexo automático, uma espécie de bengala emocional que usamos mesmo quando não precisamos. E é aí que começamos a perder o essencial: a conversa à mesa, o olhar atento, o gesto que só existe quando estamos realmente presentes.
Talvez o desafio esteja em reencontrar o equilíbrio. Não transformar o telemóvel no inimigo, mas também não deixá-lo ocupar o lugar que pertence às pessoas. A tecnologia pode ser útil, pode ser companhia — mas não pode ser o substituto da presença, do cuidado e do tempo partilhado. Isso continua a ser insubstituível.
Obrigada, Daniel. Muito importante o que diz. Reconheço que fazer a gestão do telemóvel não é fácil (para mim também não é), mas o seu uso constante em família ou entre amigos é muito irritante. E não é sinal de boa comunicação, o que talvez muitos idosos procurem, quando o usam, para vencer a solidão.
ResponderEliminarUm abraço e bom domingo!